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Chico e o Brasil falido

31 de março de 2009 7

Leite Derramado, o novo romance de Chico Buarque que chega esta semana às livrarias, é a prova-dos-nove do Chico romancista, que não tem na literatura o lugar assegurado que sua obra como compositor lhe garantiu já com folgas na música. E Chico cumpre essa prova com galhardia. Seu novo romance, Leite derramado, cruza as obsessões estilísticas do autor com os ecos de algo que se poderia chamar uma tradição da nossa literatura. Machado de Assis e seu Dom Casmurro são uma presença flagrante, na história do homem centenário, rico, de família de ascendência portuguesa que chegou ao Brasil com Dom João VI e hoje é uma ruína em uma enfermaria degregada de um hospital público. Por meio da memória pouco confiável desse homem que confunde antepassados e descendentes, Chico reconstitui a história de amor malfadada entre ele e a apaixonante Matilde, filha bastarda de um deputado; a trajetória da família de fumos de nobreza Assumpção e sua peculiar denegeração; a própria trajetória de um Brasil que nasce com tudo e acaba monstruosamente errado. Leiam abaixo, conforme prometido no Segundo Caderno de hoje, um trecho do romance:

Quando eu morrer, meu chalé cairá comigo, para dar lugar a mais um edifício de apartamentos. Terá sido a última casa de Copacabana, que então se igualará à ilha de Manhattan, apinhada de arranha-céus. Mas antes disso, Copacabana se assemelhará a Chicago, comp oliciais e gangsters trocando tiros pelas ruas, a ainda assim dormirei de portas abertas. Pouco importa que entrem meliantes pela minha casa, e mendigos e aleijados e leprosos e drogados e malucos, contanto que me deixem dormir até mais tarde. Porque todo dia é isso, acordo com o sol na cara, a televisão aos berros, e já compreendi que não estou em Copacabana, foi-se o chalé há mais de meio século. Estou neste hospital infecto, e aí não vai intenção de ofender os presentes. Não sei quem são vocês, não conheço seus nomes, mal posso virar o pescoço para ver que cara têm. Ouço suas vozes, e posso deduzir que são pessoas do povo, sem grandes luzes, mas minha linhagem não me faz melhor que ninguém. Aqui não gozo privilégios, grito de dor e não me dão meus opiáceos, dormimos todos em camas rangedoras. Seria até cômico, eu aqui, todo cagado nas fraldaz, dizer a vocês que tive berço. Ninguém vai querer saber se porventura meu trisavô desembarcou no Brasil com a corte portuguesa. De nada adianta me gabar de ele ter sido confidente de dona Maria Louca, se aqui ninguém faz ideia de quem foi essa rainha. Hoje sou da escória igual a vocês, e antes que me internassem, morava com minha filha de favor numa casa de um só cômodo nos cafundós. Mal posso pagar meus cigarros, nem tenho trajes apropriados para sair de casa. Do meu último passeio, só me lembro por causa de uma desavença com um chofer de praça. Ele não queria me esperar meia horinha em frente ao cemitério São João Batista, e como se dirigisse a mim de forma rude, perdi a cabeça e alcei a voz, escute aqui, senhor, eu sou bisneto do barão dos Arcos. Aí ele me mandou tomar no cu mais o barão, desaforo que nem lhe posso censurar. Fazia muito calor no carro, ele era um mulato suarento, e eu a me dar ares de fidalgo. Agi como um esnobe, que como vocês devem saber, significa indivíduo sem nobreza. Muitos de vocês, se não todos aqui, têm ascendentes escravos, por isso afirmo com orgulho que meu avô foi um grande benfeitor da raça negra. Creiam que ele visitou a África em mil oitocentos e lá vai fumaça, sonhando fundar uma nova nação para os ancestrais de vocês. Viajou de cargueiro até Luanda, esteve na Nigéria e no Daomé, finalmente na Costa do Ouro encontrou antigos alforriados baianos na comunidade dos Tabom, assim chamados porque da nossa língua conservaram o cacoete de falar tá bom. E diante de meu avô repetiam seu bordão, como a corroborar que era uma terra auspiciosa, a Costa do Ouro, para tal empreendimento. E após um acerto de parceria com os colonizadores ingleses, meu avô lançou no Brasil uma campanha para a fundação da Nova Libéria. Vovô era mesmo um visionário, desenhou de próprio punho a bandeira do país, listras multicores com um triângulo dourado no centro, e dentro do triângulo um olho. Encomendou o hino oficial ao grande Carlos Gomes, enquanto arquitetos britânicos projetavam a futura capital, Petróvia. Conquistou o apoio da Igreja, da maçonaria, da imprensa, de banqueiros, de fazendeiros e do próprio Imperador, a todos parecia justo que os filhos de África pudessem retornar às origens, em vez de perambularem Brasil afora na miséria e na ignorância. Mas a vocês nada disso interessa, e ainda aumentam o volume da televisão por cima da minha voz já trêmula. Eu queria dizer que meu avô foi comensal de dom Pedro II, trocou correspondência com a rainha Vitória, mas sou obrigado a ver essas dançarinas bizarras, tingidas de louro. E sem me pedir licença, os maqueiros me arrastam de novo para a tomografia, é sempre a mesma coisa. É um corre-corre com a minha maca, são essas curvas e rampas abruptas que mais parece o Trampolim do Diabo, qualquer dia me acontece um acidente fatal. Tudo isso para mais um exame de rotina, e o doutor, que é um homem de boa posição, talvez me consiga transferência para uma casa de saúde tradicional, de religiosas. Que fique entre nós dois, mas ultimamente ando muito agitado, com certeza estão trocando meus remédios. Não duvido que ponham arsênico na minha comida, e se o pior me acontece, não perca por esperar, os jornais cuidarão de dar notícia. E voltará à baila o assassinato do meu pai, político importante, além de homem culto e bem apessoado. Saiba o doutor que meu pai foi um republicano de primeira hora, íntimo de presidentes, sua morte brutal foi divulgada até em jornais da Europa, onde desfrutava imenso prestígio e intermediava comércio de café. Tinha negócios com armeiros da França, amigos graúdos em Paris, e na virada do século, ainda muito jovem, fez sociedade com empresários ingleses. Espírito prático, foi parceiro dos ingleses na Manaus Harbour, e não na aventura africana de seu pai, igualmente vítima de ciúmes e maledicências. Fique sabendo que meu avô já nasceu muito rico, não iria macular seu nome por se locupletar com dinheiro público. Mas com o fim do Império, teve de buscar asilo em Londres, onde morreu amargurado. E vocês andem devagar com essa maca, tomem tento ao me passar para a cama, e tragam travesseiros de paina para as minhas costas e bunda, porque me doem as escaras e as articulações. Se amanhã eu morrer envenenado, todos aqui hão de me ver nessa televisão que não desligam nunca. Esta pocilga será interditada pela vigilância sanitária, e voltarei para puxar seus pés, e vocês vão dormir na rua.

Comentários (7)

  • Rafael diz: 31 de março de 2009

    O Benjamin torna-se um pouco cansativo, na minha opinião, um pouco confuso até perceber-se como cada história pode entrecruzar-se com as demais, mas é interessante por esse quebra-cabeça em si. Já o Estorvo lembro que gostei pela forma como a história vai sendo contada, sempre através de suposições; o personagem central sempre supondo o que os outros farão, pensarão, etc., o que não nos diz nada sobre os outros mas spbre a cabeça e a visão dele. E essa forma de contar um história praticamente…

  • Camila diz: 31 de março de 2009

    PRECISO COMPRAR JÁ!!!!!!!!!

  • Rafael diz: 31 de março de 2009

    … com base em suposições, achei muito interessante (realmente, mais do que a história em si!!). E o Budapeste, esse sim, é quase unanimidade (ora me dá vontade de ir à Buda, ora penso em ir à Pest!!!
    Abraço!

  • Rafael diz: 31 de março de 2009

    Não conheço muita gente que goste do Chico escritor, mas eu, decididamente, gostei dos três que li. Este será minha próxima compra!

    Eu até gosto, Rafael. Mas não por completo. Vi qualidades mas não grandes realizações em Estorvo e Benjamim, e achei Budapeste muito, mas muito bom.
    Abraço
    Carlos André

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