Leite Derramado, o novo romance de Chico Buarque que chega esta semana às livrarias, é a prova-dos-nove do Chico romancista, que não tem na literatura o lugar assegurado que sua obra como compositor lhe garantiu já com folgas na música. E Chico cumpre essa prova com galhardia. Seu novo romance, Leite derramado, cruza as obsessões estilísticas do autor com os ecos de algo que se poderia chamar uma tradição da nossa literatura. Machado de Assis e seu Dom Casmurro são uma presença flagrante, na história do homem centenário, rico, de família de ascendência portuguesa que chegou ao Brasil com Dom João VI e hoje é uma ruína em uma enfermaria degregada de um hospital público. Por meio da memória pouco confiável desse homem que confunde antepassados e descendentes, Chico reconstitui a história de amor malfadada entre ele e a apaixonante Matilde, filha bastarda de um deputado; a trajetória da família de fumos de nobreza Assumpção e sua peculiar denegeração; a própria trajetória de um Brasil que nasce com tudo e acaba monstruosamente errado. Leiam abaixo, conforme prometido no Segundo Caderno de hoje, um trecho do romance:
Quando eu morrer, meu chalé cairá comigo, para dar lugar a mais um edifício de apartamentos. Terá sido a última casa de Copacabana, que então se igualará à ilha de Manhattan, apinhada de arranha-céus. Mas antes disso, Copacabana se assemelhará a Chicago, comp oliciais e gangsters trocando tiros pelas ruas, a ainda assim dormirei de portas abertas. Pouco importa que entrem meliantes pela minha casa, e mendigos e aleijados e leprosos e drogados e malucos, contanto que me deixem dormir até mais tarde. Porque todo dia é isso, acordo com o sol na cara, a televisão aos berros, e já compreendi que não estou em Copacabana, foi-se o chalé há mais de meio século. Estou neste hospital infecto, e aí não vai intenção de ofender os presentes. Não sei quem são vocês, não conheço seus nomes, mal posso virar o pescoço para ver que cara têm. Ouço suas vozes, e posso deduzir que são pessoas do povo, sem grandes luzes, mas minha linhagem não me faz melhor que ninguém. Aqui não gozo privilégios, grito de dor e não me dão meus opiáceos, dormimos todos em camas rangedoras. Seria até cômico, eu aqui, todo cagado nas fraldaz, dizer a vocês que tive berço. Ninguém vai querer saber se porventura meu trisavô desembarcou no Brasil com a corte portuguesa. De nada adianta me gabar de ele ter sido confidente de dona Maria Louca, se aqui ninguém faz ideia de quem foi essa rainha. Hoje sou da escória igual a vocês, e antes que me internassem, morava com minha filha de favor numa casa de um só cômodo nos cafundós. Mal posso pagar meus cigarros, nem tenho trajes apropriados para sair de casa. Do meu último passeio, só me lembro por causa de uma desavença com um chofer de praça. Ele não queria me esperar meia horinha em frente ao cemitério São João Batista, e como se dirigisse a mim de forma rude, perdi a cabeça e alcei a voz, escute aqui, senhor, eu sou bisneto do barão dos Arcos. Aí ele me mandou tomar no cu mais o barão, desaforo que nem lhe posso censurar. Fazia muito calor no carro, ele era um mulato suarento, e eu a me dar ares de fidalgo. Agi como um esnobe, que como vocês devem saber, significa indivíduo sem nobreza. Muitos de vocês, se não todos aqui, têm ascendentes escravos, por isso afirmo com orgulho que meu avô foi um grande benfeitor da raça negra. Creiam que ele visitou a África em mil oitocentos e lá vai fumaça, sonhando fundar uma nova nação para os ancestrais de vocês. Viajou de cargueiro até Luanda, esteve na Nigéria e no Daomé, finalmente na Costa do Ouro encontrou antigos alforriados baianos na comunidade dos Tabom, assim chamados porque da nossa língua conservaram o cacoete de falar tá bom. E diante de meu avô repetiam seu bordão, como a corroborar que era uma terra auspiciosa, a Costa do Ouro, para tal empreendimento. E após um acerto de parceria com os colonizadores ingleses, meu avô lançou no Brasil uma campanha para a fundação da Nova Libéria. Vovô era mesmo um visionário, desenhou de próprio punho a bandeira do país, listras multicores com um triângulo dourado no centro, e dentro do triângulo um olho.
Encomendou o hino oficial ao grande Carlos Gomes, enquanto arquitetos britânicos projetavam a futura capital, Petróvia. Conquistou o apoio da Igreja, da maçonaria, da imprensa, de banqueiros, de fazendeiros e do próprio Imperador, a todos parecia justo que os filhos de África pudessem retornar às origens, em vez de perambularem Brasil afora na miséria e na ignorância. Mas a vocês nada disso interessa, e ainda aumentam o volume da televisão por cima da minha voz já trêmula. Eu queria dizer que meu avô foi comensal de dom Pedro II, trocou correspondência com a rainha Vitória, mas sou obrigado a ver essas dançarinas bizarras, tingidas de louro. E sem me pedir licença, os maqueiros me arrastam de novo para a tomografia, é sempre a mesma coisa. É um corre-corre com a minha maca, são essas curvas e rampas abruptas que mais parece o Trampolim do Diabo, qualquer dia me acontece um acidente fatal. Tudo isso para mais um exame de rotina, e o doutor, que é um homem de boa posição, talvez me consiga transferência para uma casa de saúde tradicional, de religiosas. Que fique entre nós dois, mas ultimamente ando muito agitado, com certeza estão trocando meus remédios. Não duvido que ponham arsênico na minha comida, e se o pior me acontece, não perca por esperar, os jornais cuidarão de dar notícia. E voltará à baila o assassinato do meu pai, político importante, além de homem culto e bem apessoado. Saiba o doutor que meu pai foi um republicano de primeira hora, íntimo de presidentes, sua morte brutal foi divulgada até em jornais da Europa, onde desfrutava imenso prestígio e intermediava comércio de café. Tinha negócios com armeiros da França, amigos graúdos em Paris, e na virada do século, ainda muito jovem, fez sociedade com empresários ingleses. Espírito prático, foi parceiro dos ingleses na Manaus Harbour, e não na aventura africana de seu pai, igualmente vítima de ciúmes e maledicências. Fique sabendo que meu avô já nasceu muito rico, não iria macular seu nome por se locupletar com dinheiro público. Mas com o fim do Império, teve de buscar asilo em Londres, onde morreu amargurado. E vocês andem devagar com essa maca, tomem tento ao me passar para a cama, e tragam travesseiros de paina para as minhas costas e bunda, porque me doem as escaras e as articulações. Se amanhã eu morrer envenenado, todos aqui hão de me ver nessa televisão que não desligam nunca. Esta pocilga será interditada pela vigilância sanitária, e voltarei para puxar seus pés, e vocês vão dormir na rua.



Agora ele queria que John fizesse uma das longas entrevistas que eram a marca da sua revista. Esta missão já o havia levado à Grã-Bretanha, mas, nos dias sombrios pouco antes de se encontrar com Arthur Janov, John não tinha nenhuma condição de considerar tal idéia. Quando Wenner bateu à porta de Tittenhurst Park, Yoko disse que John estava "paranóico demais" e nem sequer iria descer as escadas para conhecê-lo. 
E de onde vem a tal sincronicidade que abre este post? Do fato de que topei com o trecho do livro de Bernardo Carvalho na mesma semana em que está sendo repúblicado pela L&PM em sua coleção de bolso o volume Antologia Poética, que reúne material compilado de diferentes fases da carreira da autora, do lirismo sentimental e romântico dos primeiros versos, compostos com a poetisa ainda muito jovem, até os melancólicos cantos para a paisagem e o povo da cidade. O livro já havia saído nos anos 1990, e agora volta revisado e com a adição de material novo feita pelo responsável pela seleção, tradução e notas do conjunto, o jornalista Lauro Machado Coelho. Na apresentação que abre o volume, Coelho também autor da biografia Anna, a voz da Rússia, publicada pela Algol escreve:
Quem leu o Cultura de hoje pôde ver 
Se Jogos Sagrados se concentrasse na investigação de Sartaj intercalada pela história pregressa de Gaitonde, o livro teria tranquilas 200 páginas e olhe lá. Mas não era — ou não parece/pode ser — o objetivo do autor. A busca por uma possível bomba atômica que mandaria Mumbai para o reino de Kali não é novidade em qualquer sentido. Chega, na verdade, a ser esquemática, com a apresentação dos personagens, investigações de suspeitos e cruzamentos de informações até um estalo providencial que leva ao desfecho. Tudo certinho, previsível até.
23 de maio
Como costuma acontecer, eu o conheci antes de conhecê-lo. Em 1955, eu editava uma Revista Mexicana de Literatura com o escritor Emmanuel Carballo. Nela se publicou pela primeira vez no México uma ficção de Gabriel García Márquez: Monólogo de Isabel vendo chover em Macondo.



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