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Posts de março 2009

Chico e o Brasil falido

31 de março de 2009 7

Leite Derramado, o novo romance de Chico Buarque que chega esta semana às livrarias, é a prova-dos-nove do Chico romancista, que não tem na literatura o lugar assegurado que sua obra como compositor lhe garantiu já com folgas na música. E Chico cumpre essa prova com galhardia. Seu novo romance, Leite derramado, cruza as obsessões estilísticas do autor com os ecos de algo que se poderia chamar uma tradição da nossa literatura. Machado de Assis e seu Dom Casmurro são uma presença flagrante, na história do homem centenário, rico, de família de ascendência portuguesa que chegou ao Brasil com Dom João VI e hoje é uma ruína em uma enfermaria degregada de um hospital público. Por meio da memória pouco confiável desse homem que confunde antepassados e descendentes, Chico reconstitui a história de amor malfadada entre ele e a apaixonante Matilde, filha bastarda de um deputado; a trajetória da família de fumos de nobreza Assumpção e sua peculiar denegeração; a própria trajetória de um Brasil que nasce com tudo e acaba monstruosamente errado. Leiam abaixo, conforme prometido no Segundo Caderno de hoje, um trecho do romance:

Quando eu morrer, meu chalé cairá comigo, para dar lugar a mais um edifício de apartamentos. Terá sido a última casa de Copacabana, que então se igualará à ilha de Manhattan, apinhada de arranha-céus. Mas antes disso, Copacabana se assemelhará a Chicago, comp oliciais e gangsters trocando tiros pelas ruas, a ainda assim dormirei de portas abertas. Pouco importa que entrem meliantes pela minha casa, e mendigos e aleijados e leprosos e drogados e malucos, contanto que me deixem dormir até mais tarde. Porque todo dia é isso, acordo com o sol na cara, a televisão aos berros, e já compreendi que não estou em Copacabana, foi-se o chalé há mais de meio século. Estou neste hospital infecto, e aí não vai intenção de ofender os presentes. Não sei quem são vocês, não conheço seus nomes, mal posso virar o pescoço para ver que cara têm. Ouço suas vozes, e posso deduzir que são pessoas do povo, sem grandes luzes, mas minha linhagem não me faz melhor que ninguém. Aqui não gozo privilégios, grito de dor e não me dão meus opiáceos, dormimos todos em camas rangedoras. Seria até cômico, eu aqui, todo cagado nas fraldaz, dizer a vocês que tive berço. Ninguém vai querer saber se porventura meu trisavô desembarcou no Brasil com a corte portuguesa. De nada adianta me gabar de ele ter sido confidente de dona Maria Louca, se aqui ninguém faz ideia de quem foi essa rainha. Hoje sou da escória igual a vocês, e antes que me internassem, morava com minha filha de favor numa casa de um só cômodo nos cafundós. Mal posso pagar meus cigarros, nem tenho trajes apropriados para sair de casa. Do meu último passeio, só me lembro por causa de uma desavença com um chofer de praça. Ele não queria me esperar meia horinha em frente ao cemitério São João Batista, e como se dirigisse a mim de forma rude, perdi a cabeça e alcei a voz, escute aqui, senhor, eu sou bisneto do barão dos Arcos. Aí ele me mandou tomar no cu mais o barão, desaforo que nem lhe posso censurar. Fazia muito calor no carro, ele era um mulato suarento, e eu a me dar ares de fidalgo. Agi como um esnobe, que como vocês devem saber, significa indivíduo sem nobreza. Muitos de vocês, se não todos aqui, têm ascendentes escravos, por isso afirmo com orgulho que meu avô foi um grande benfeitor da raça negra. Creiam que ele visitou a África em mil oitocentos e lá vai fumaça, sonhando fundar uma nova nação para os ancestrais de vocês. Viajou de cargueiro até Luanda, esteve na Nigéria e no Daomé, finalmente na Costa do Ouro encontrou antigos alforriados baianos na comunidade dos Tabom, assim chamados porque da nossa língua conservaram o cacoete de falar tá bom. E diante de meu avô repetiam seu bordão, como a corroborar que era uma terra auspiciosa, a Costa do Ouro, para tal empreendimento. E após um acerto de parceria com os colonizadores ingleses, meu avô lançou no Brasil uma campanha para a fundação da Nova Libéria. Vovô era mesmo um visionário, desenhou de próprio punho a bandeira do país, listras multicores com um triângulo dourado no centro, e dentro do triângulo um olho. Encomendou o hino oficial ao grande Carlos Gomes, enquanto arquitetos britânicos projetavam a futura capital, Petróvia. Conquistou o apoio da Igreja, da maçonaria, da imprensa, de banqueiros, de fazendeiros e do próprio Imperador, a todos parecia justo que os filhos de África pudessem retornar às origens, em vez de perambularem Brasil afora na miséria e na ignorância. Mas a vocês nada disso interessa, e ainda aumentam o volume da televisão por cima da minha voz já trêmula. Eu queria dizer que meu avô foi comensal de dom Pedro II, trocou correspondência com a rainha Vitória, mas sou obrigado a ver essas dançarinas bizarras, tingidas de louro. E sem me pedir licença, os maqueiros me arrastam de novo para a tomografia, é sempre a mesma coisa. É um corre-corre com a minha maca, são essas curvas e rampas abruptas que mais parece o Trampolim do Diabo, qualquer dia me acontece um acidente fatal. Tudo isso para mais um exame de rotina, e o doutor, que é um homem de boa posição, talvez me consiga transferência para uma casa de saúde tradicional, de religiosas. Que fique entre nós dois, mas ultimamente ando muito agitado, com certeza estão trocando meus remédios. Não duvido que ponham arsênico na minha comida, e se o pior me acontece, não perca por esperar, os jornais cuidarão de dar notícia. E voltará à baila o assassinato do meu pai, político importante, além de homem culto e bem apessoado. Saiba o doutor que meu pai foi um republicano de primeira hora, íntimo de presidentes, sua morte brutal foi divulgada até em jornais da Europa, onde desfrutava imenso prestígio e intermediava comércio de café. Tinha negócios com armeiros da França, amigos graúdos em Paris, e na virada do século, ainda muito jovem, fez sociedade com empresários ingleses. Espírito prático, foi parceiro dos ingleses na Manaus Harbour, e não na aventura africana de seu pai, igualmente vítima de ciúmes e maledicências. Fique sabendo que meu avô já nasceu muito rico, não iria macular seu nome por se locupletar com dinheiro público. Mas com o fim do Império, teve de buscar asilo em Londres, onde morreu amargurado. E vocês andem devagar com essa maca, tomem tento ao me passar para a cama, e tragam travesseiros de paina para as minhas costas e bunda, porque me doem as escaras e as articulações. Se amanhã eu morrer envenenado, todos aqui hão de me ver nessa televisão que não desligam nunca. Esta pocilga será interditada pela vigilância sanitária, e voltarei para puxar seus pés, e vocês vão dormir na rua.

Estantes

30 de março de 2009 6

Arrumar estantes para pôr em ordem aqueles livros que estão caindo e juntar material para doação é sempre uma experiência tantalizante. Eu, pelo menos, fico com duas semanas de uma bagunça maior ainda antes de começar a imperar uma precária ordem.

E nessas ocasiões a gente sempre descobre que:

* tem menos livros de Philip Roth do que deveria.

* tem mais Jorge Amado do que gostaria.

* tem ao menos uns 10 livros ruins para cuja presença você não tem nenhuma justificativa além de uma mal direcionada curiosidade: de Fernanda Young a Paulo Coelho, de Frederick Forsythe a Charlie Higson.

* tem uns quatro livros emprestados de amigos que você jurava que tinha devolvido.

* não tem mais uns cinco livros que você emprestou para alguém e que pensava que já tinham lhe devolvido.

* tem mais dificuldade para se livrar de livros do que pensava.

* tem uns vinte livros desconhecidos de autores franceses, alemães, húngaros e até suecos que você jurava que ia ler e que largou depois das primeiras cinco páginas.

* tem ao menos três livros em duplicata, porque, distraído, você os comprou de novo porque queria ter e esqueceu que já tinha.

John e seus demônios

27 de março de 2009 2

John e Yoko em um programa de TV de 1972, já com os Beatles extintos e com Lennon de LP novo. Não, apesar do olhar o barbudo mal-encarado lá no fundo não é Mark David Chapman.

Quem ler o Segundo Caderno deste sábado vai deparar com o belo texto assinado por Luís Bissigo, nosso beatlemaníaco oficial, sobre o livro John Lennon: A vida, de Philip Norman, que vem sendo considerada a melhor biografia do artista inglês até aqui. Conforme prometemos nas páginas do jornal, vai abaixo um trecho do livro, mais especificamente do capítulo 25, no qual, já sem os Beatles como um conjunto no pedaço, Lennon lançou seu disco solo. O trecho abaixo mostra algumas das melhores qualidades do livro: texto fluente e saboroso, com muita informação e que transita da vida para a obra de John dando um panorama total do biografado.

Com vocês, John Lennon:

Em maio de 1970, John conseguiu afinal retornar aos Estados Unidos. Após longas negociações com a embaixada americana em Londres, o INS (Immigration and Naturalization Service, “Serviço de Imigração e Naturalização”) suspendeu a proibição ao visto que vigorava desde que, dezoito meses antes, um tribunal britânico o condenara por posse de drogas. Acompanhado apenas por George e Pattie Harrison (e usando o nome falso de Chambers), ele teve permissão para ir a Los Angeles e depois a Nova York a fim de manter reuniões de negócios com a Capitol Records e Allen Klein. Em julho, ele obteve nova permissão para voltar a Los Angeles com Yoko, então no sexto mês de gravidez, para o segundo turno da terapia do grito primal sob orientação de Arthur Janov.

Janov havia advertido que, para ser eficaz, a terapia devia prosseguir ininterruptamente por um período de quatro a seis meses — e, no caso de John, talvez ainda mais. Ele e Yoko estavam preparados para isso, liberando-se de todos os compromissos até setembro e alugando uma casa no bairro de Bel Air, preferido pelos astros de cinema. Eles compareciam ao Centro Primal quase que diariamente, continuando suas respectivas sessões individuais com Arthur e Vivian Janov e também participando de discussões de grupo e auto-exploração com outros pacientes.

Consciente de como os olhos se fixavam nele, John manteve um perfil discreto, sem dar entrevistas a jornalistas, evitando qualquer um que pudesse arrastá-lo para manchetes comprometedoras. Uma exceção foi Jan Wenner, de 24 anos, diretor e editor da revista Rolling Stone de São Francisco. Wenner estava se destacando como um dos mais valorosos defensores de John na imprensa: a Rolling Stone havia reproduzido a capa do álbum Two Virgins no auge da indignação conservadora norte-americana, publicara resenhas simpáticas de cada novo álbum de John e Yoko, e apoiara sua campanha pela paz até o fundo.

Agora ele queria que John fizesse uma das longas entrevistas que eram a marca da sua revista. Esta missão já o havia levado à Grã-Bretanha, mas, nos dias sombrios pouco antes de se encontrar com Arthur Janov, John não tinha nenhuma condição de considerar tal idéia. Quando Wenner bateu à porta de Tittenhurst Park, Yoko disse que John estava “paranóico demais” e nem sequer iria descer as escadas para conhecê-lo.

Ao saber que John e Yoko estava freqüentando o Centro Primal, Wenner os convidou para passar um fim de semana em São Francisco e proporcionou-lhes a primeira excursão de verdade pela cidade que fora a primeira a fazer de paz uma palavra do momento. Com Jane, a mulher de Jenner, eles também assistiram a uma sessão vespertina de Let It Be num cinema quase vazio. “Depois da sessão — comovidos de um jeito ou de outro, como participantes ou como fãs sinceros — acabamos todos por chorar”, lembraria Wenner.

Cinco ou seis semanas adicionais com Arthur Janov deixaram John convencido de que a terapia do grito primal era a resposta que nem Deus, nem o rock, nem o Maharishi haviam sido capazes de lhe dar. E, como sempre, logo sentiu a necessidade de compartilhar seu sentimento de redenção com o resto do mundo. “Ele me procurou e disse que queria publicar um anúncio de página inteira no San Francisco Chronicle dizendo “This Is It“ (`Eis a solução`)”, lembra Janov. “Eu tive de lhe dizer, com todo o tato possível, `John, isto aqui é algo sério. Não depende, para dar certo, da aprovação de um músico de rock`.”

Então, no início de julho, ele subitamente anunciou que o serviço de imigração o estava pressionando por ficar além do tempo permitido e que teria de deixar os Estados Unidos de imediato. Perguntou se Janov poderia lhe indicar um terapeuta pessoal de modo a que prosseguisse o tratamento no México. Naquela altura, havia cinco mil pessoas interessadas em meu tratamento. Não tinha como tirar alguém da minha equipe para sair com ele daquela maneira”, explica Janov. “Então a terapia teve de terminar no que era um ponto crucial para John. Nós o havíamos desmontado todo, mas não tivéramos tempo de remontá-lo. Ainda era preciso muito mais trabalho para chegar até a raiz da sua raiva. Na minha estimativa, ainda levaria pelo menos outro ano.”

A solução foi recorrer a um novo terapeuta: ele mesmo. Depois das primeiras sessões com Janov, ele havia começado a trabalhar numa nova série de canções.
Elas foram buriladas e outras foram acrescentadas durante a temporada no Centro Primal; com isso, o material mínimo para um álbum — onze faixas — foi concluído depois de seu retorno prematuro à Grã-Bretanha. Ele havia escrito muitas vezes letras sobre si mesmo, como Help! e A Day in the Life, mas sempre tinha mascarado sua mensagem em imagens poéticas e jogos de palavras.
Agora tudo aquilo parecia parte da repressão que tentava superar com a terapia do grito primal. “Eu tive de olhar no fundo de minha própria alma”, lembraria ele depois. “Não estava olhando para ela de uma perspectiva mística… ou de uma perspectiva psicodélica, ou da perspectiva de um Beatle famoso, ou da perspectiva de fazer um disco Beatle… Desta vez, era só eu diante de um espelho.”

O resultado foi seu primeiro álbum individual, John Lennon/Plastic Ono Band, gravado nos estúdios de Abbey Road durante os meses de setembro e outubro de 1970. Dessa vez a formação da Plastic Ono Band restringiu-se ao mínimo, como se apenas amigos e colegas de confiança pudessem ouvir as confissões em seu estado cru: Klaus Voormann no baixo e Alan White na bateria, Billy Preston encarregando-se ocasionalmente do teclado, e Ringo Starr como percussionista convidado. O crédito da produção coube conjuntamente a Phil Spector, John e Yoko, com esta recebendo menção adicional por “vento”. Ao mesmo tempo, Yoko gravou um disco próprio, com os mesmos músicos, para ser lançado juntamente com o de John.

Pela primeira vez, ele cantava sozinho, sem vocais ao fundo ou qualquer das distorções e dos adornos sônicos que costumava usar com os Beatles. “Era um pouco embaraçoso na frente de George e Paul”, lembraria mais tarde, “porque nos conhecemos tão bem: `Ora, ele está tentando ser Elvis, agora está fazendo isso ou aquilo`, sabe como… Então nós inibíamos muito um ao outro. E agora eu estava com Yoko e Phil Spector lá, alternadamente e juntos, que de certo modo me amam, então ótimo, eu podia tocar e cantar melhor. E ficava descontraído. A descontração ao cantar começou em Cold Turkey a partir do contato com o modo de cantar de Yoko — ela não inibe sua garganta.”

A canção de abertura ia direto ao cerne da sua mágoa mais profunda. Chamava-se simplesmente Mother. À guisa de introdução, um sino de igreja dobrava de modo lento e sonoro, uma convocação para o luto mais do que para uma festividade. Embora John o tivesse copiado de um velho filme de terror da Hammer, nenhum som era mais evocativo dos anos que acabara de revisitar sob a orientação de Janov. Aquele toque de sino vagaroso e agourento poderia ter sido o da igreja de St. Peter em Woolton, ecoando através das silenciosas noites de domingo nos invernos de sua infância.

A letra era uma acusação direta ao pai e à mãe que, na opinião dele, haviam falhado redondamente: sua mãe por trazê-lo ao mundo e, mais adiante, por abandoná- lo; seu pai por abandoná-lo também quando era criança. “Mother you had me/ But I never had you… Father you left me/ But I never left you” ["Mãe, você me teve/ Mas eu nunca tive você... Pai, você me deixou/ Mas eu nunca o deixei"]. O objetivo da canção era o que ainda ninguém chamava de encerramento ou fecho — um adeus final e liberador à bonita e volúvel ruiva que o havia amado, mas nunca o suficiente, e ao marinheiro que sempre parecia ter preferido o mar. O seu final era um grito repetido de pânico que poderia ter saído do ego de John aos seis anos naquele dia ensolarado em Blackpool, quando Julia e o pai, então conhecido como Alf, o haviam forçado a escolher entre os dois: “Mama, don`t go… Daddy come home!” (“Mamãe, não vá embora… Papai, volte para casa!”).

Postado por Carlos André Moreira

Deem uma ajuda aí, plis

25 de março de 2009 12

Senhores, venho humildemente pedir a ajuda do distinto público.

Estou compilando, para uma reportagem que estou fazendo, uma lista das oficinas literárias ministradas por escritores aqui no Estado. O critério é bem simples: precisa ser realizada com alguma periodicidade há mais de dois anos e ser ministrada por autor com livro publicado.

Algum de vocês cursou, cursa, ou simplesmente lembra de uma oficina assim? Palpites nos comentários, por favor.

Abraço.

Postado por Carlos André Moreira

Hora de ser vidraça

24 de março de 2009 2

Parafraseando o lema que orienta parte da trama do Watchmen, tanto a história em quadrinhos do Alan Moore quanto o filme do Zack Snyder, ainda em cartaz:

Quem critica os críticos?

Bom, esta semana pode ser você. Rere.

Como parte da programação da Semana de Porto Alegre, será aberto hoje, às 19h, na Sala P.F. Gastal da Usina do Gasômetro (no 3º andar), o seminário O Estado da Crítica. A parada vai de hoje até dia 28 e é promoção da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS) e da Secretaria Municipal de Cultura. A idéia é justamente fazer um debate sobre a crítica que se pratica na imprensa às principais formas de expressão artísticas produzidas no Estado: cinema, literatura, artes plásticas, artes cênícas e música.

Como seria de se esperar em um evento promovido pela associação de críticos de cinema a Mesa de Cinema abre as atividades, com a apresentação, hoje, às 19 horas, do documentário Crítico, de Kleber Mendonça Filho. Exibido no ano passado no Festival de Gramado, o filme reúne entrevistas com cineastas e críticos de cinema de várias nacionalidades, colhidas pelo diretor (que, além de cineasta, é crítico de cinema do Jornal do Comércio de Recife) ao longo de uma década. Depois da sessão (não sei a duração do filme, amigos, lamento), terá lugar o debate sobre a crítica de cinema.

Participam:
* Beto Souza diretor de cinema, assinou os longas Netto Perde Sua Alma, Cerro do Jarau e Dias e Noites. Tem dois outros filmes, Insônia e Enquanto a Noite Não Chega, com lançamento previsto para 2009.
*
Milton do Prado — Montador de cinema, professor da Unisinos e sócio da produtora Clube Silêncio. Leciona no Curso de Realização Audiovisual da Unisinos. Colaborador da revista Teorema.
* Daniel Feix — Jornalista, crítico de cinema aqui da Zero, editor do site da Asssociação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e um dos titulares do blog Primeira Fila.
* Ivonete Pinto — Professora de cinema na Unisinos e na Ulbra. Curadora da mostra itinerante RodaCineRGE, presidente da ACCIRS e uma das editoras da revista Teorema.
A mediação será de Marcus Mello.

Para quem quiser dar um conferes na atividade (e, na quarta-feira, encarar a fuça feiosa do editor deste blog), segue abaixo o resto da programação do Seminário:

Mesa de LITERATURA (Dia 25, amanhã, às 19h):
Participantes:
* Cláudia TajesPublicitária, roteirista e escritora, autora de, entre outros, Dez (Quase) Amores, e A Vida Sexual da Mulher Feia.
* Juremir Machado da Silva Jornalista, professor da PUCRS, cronista do Correio do Povo, comentarista da Rádio Guaíba e escritor. Autor, de entre outros livros, Cai a noite sobre Palomas, Getúlio e o recente romance Solo.
* Carlos André Moreira, que acho que sou eu — jornalista, crítico literário, editor e palpiteiro deste blogue e repórter do Segundo Caderno e do caderno Cultura de Zero Hora.  
* Eduardo Wolf — Professor de Literatura no Colégio Leonardo da Vinci e no curso Unificado. Colaborador de Zero Hora e das revistas Ponto & Vírgula, Arquipélago e Norte.
Mediação de Fatimarlei Lunardelli, jornalista e integrante da ACCIRS

Mesa de ARTES PLÁSTICAS (Dia 26, quinta-feira, às 19h)
Participantes:
* Paula Ramos — Jornalista, crítica de arte e professora de História da Arte e História do Design na Uniritter e na UFRGS.
Leandro Selister — fotógrafo, artista plástico, editor do site Artewebbrasil e um dos curadores da Micro Galeria de Arte Acessível do Studio Clio.
* Eduardo Veras, vulgo Edu — Jornalista, professor, editor de Zero Hora, onde atua como crítico de arte no Segundo Caderno.
* Elaine Tedesco — artista plástica e professora de fotografia, vídeo e instalação nos cursos de Artes no Centro Universitário Feevale.
Mediação: Roger Lerina, jornalista e vice-presidente da ACCIRS

Mesa de ARTES CÊNICAS (Dia 27, sexta-feira, às 19h)
Participantes:
* Antonio Hohlfeldt — jornalista, crítico de teatro do Jornal do Comércio, professor da FAMECOS/PUCRS e ex-patrono da Feira do Livro de Porto Alegre.
* Luiz Paulo Vasconcellos — Ator, diretor e dramaturgo. Ex-diretor do Instituto de Artes da UFRGS e ex-coordenador de Artes Cênicas da Secretaria da Cultura de Porto Alegre.  É também colunista da revista Aplauso.
* Julio Conte — Psicanalista, diretor de teatro, dramaturgo e professor.  É autor de um dos maiores sucessos do teatro gaúcho, Bailei na Curva.
* Renato Mendonça, o popular Guru — jornalista, músico e editor de Teatro de Zero Hora. É também titular do blog Caco, aqui no Zero Hora.com
Mediação: Mônica Kanitz, jornalista e integrante da ACCIRS

MÚSICA (28 de março, sábado, 17 horas – prestem atenção porque aqui o horário é diferente)
Participantes:
* Daniel Soares — Jornalista cultural do Correio do Povo e colunista no jornal Fala Brasil e na revista Carta Capilé, de São Leopoldo.
* Juarez Fonseca — Jornalista, foi crítico de música e editor de Cultura do jornal Zero Hora de 1973 a 1996. Pesquisador da área, é atualmente colunista de música no jornal ABC Domingo e na revista Aplauso.
* Arthur de Faria — Jornalista, músico, radialista e produtor. Líder da Arthur de Faria & Seu Conjunto. Tem várias publicações sobre a história da música do RS.
* Marcelo Ferla — Jornalista, foi editor de música do jornal Zero Hora e escreve para as revistas Criativa e Rolling Stone. É gerente geral da rádio Ipanema FM.
Mediador: meu primo goleiro Paulo Moreira (não, estou brincando, ele é goleiro mas não é meu primo), jornalista e membro da ACCIRS.

Quer conferir a programação completa que inclui uma mostra paralela de longas e curtas sobre o tema? Clica aqui.

 

 

Postado por Carlos André Moreira

Labirintos de Anna

22 de março de 2009 1

(…) — Não foi sua mãe que reconheceu Anna Akhmátova na porta da prisão?
— Minha avó — Iúlia a corrigiu. — Quando meu tio foi preso, em 51, minha avó encontrou Akhmátova entre as mulheres que esperavam notícias dos maridos e dos filhos, do lado de fora da prisão Kresty. Ao reconhecê-la, minha avó se aproximou de Anna Akhmátova, que ela havia lido e admirado quando era moça, e que tinha sido silenciada, e pediu que voltase a escrever poemas, que escrevesse sobre as mulheres e as mães à espera dos maridos e dos filhos do lado de fora dos muros de Kresty. Depois de saber da morte do meu tio nos campos, Anna Akhmátova procurou minha avó e lhe recitou um texto, disse que era uma homenagem, que não podia escrevê-lo mas podia recitá-lo. Não podia lhe entregar o texto escrito, não podia arrriscar mais uma vez a vida do filho, e por isso tinha decidido dizê-lo para a minha avó. Pediu que ela o decorasse. Foi logo depois de o filho de Anna Akhmátova ter sido libertado, ao contrário do meu tio, que morreu nos campos. Ela disse que não podia deixar de vir quando soube da morte do meu tio. Lembrava perfeitamente de quando minha avó a encorajara a voltar a escrever, na porta de prisão.
— Engraçado, é uma das poucas histórias que guardei da escola. Quando passo pela Arsenalnaia e vejo os braços dos presos saindo pelas frestas das grades, acenando com pedaços de pano para os parentes que também respondem embaixo, na rua, num código particular, é sempre na história da sua avó que eu penso.
— MInha avó era a mulher de lábios azuis da introdução ao poema, lembra? Ela recitava de memória: “Passei dezessete meses nas filas das prisões de Leningrado./ Uma vez, alguém me reconheceu. E então uma mulher de lábios azuis atrás de mim, que obviamente nunca ouvira ninguém me chamar pelo nome, saiu do estupor ao qual todos tinham sucumbido e sussurrou no meu ouvido (ali, todo mundo sussurrava):/ `Você pode descrever isto?`./ E eu responde: `Sim, eu posso`./ E, então, o que parecia um sorriso passou pelo que um dia havia sido um rosto”. Os lábios estavam azuis de frio.

Não sou um sujeito supersticioso, mas às vezes não tenho como não observar com curiosidade determinadas sincronicidades e coincidências. Como estou anunciando faz alguns posts que faria, finalmente comecei a ler O Filho da Mãe, o novo romance de Bernardo Carvalho, resultado de sua viagem a São Petesburgo pelo projeto Amores Expressos. Ainda não tenho muito como dizer sobre o que é o livro, estou só nas primeiras páginas, nas quais o autor relata o encontro, depois de muitos anos, de duas ex-colegas de escola, hoje senhoras em idade avançada. A maternidade é uma questão importante no livro, já enunciada nos primeiros diálogos e no título, mas não tenho muito como dizer mais nada além disso. O fato é que logo nas primeiras páginas me apareceu o trecho que eu transcrevi acima, que fala de uma personagem que de fato existiu, a poetisa russa (vão me linchar por isso, mas eu sempre achei “poetisa” mais bacana que “poeta”) Anna Akhmátova (1899 –1966). Nascida em um subúrbio de Odessa, Akhmátova se chamava na verdade Anna Andrêievna Gorienko, de família burguesa de situação financeira confortável (o pai era oficial da Marinha mercante). O sobrenome artístico, de origem tártara, vinha da avó, e foi adotado porque o pai reprovava a carreira da filha e a advertira que não queria vê-la comprometendo o nome da família.

Akhmátova foi mais uma daquelas artistas vitimadas pelo equívoco totalitário da revolução comunista. Com sua vida literária e pessoal muito ligada à Petesburgo que é cenário do romance de Bernardo Carvalho, ela passou quase três décadas proibida de se manifestar na imprensa, de publicar seus poemas, vivendo de traduções e volota e meia ameaçada de prisão. Seu primeiro marido, o também poeta Nikolai Gumilióv, que com ela participou da efervescente cena literária russa reunida ao redor da revista Apollón e de quem havia se separado em 1917, foi executado em 1921 em mais um dos infindáveis expurgos contra os “inimigos da revolução” – embora já estivessem separados, a morte do pai de seu filho a afetou profundamente. Bem como a da sua brilhante geração poética, que foram gradualmente sucumbindo. Maiakóvski, Sérguei Iessiênin e a grande amiga de Akhmátova, Marina Tsvietáieva suicidaram-se. Ossip Mandelstam (o cara que dá nome ao bar ali da Cidade Baixa) morreu num campo de centração. Isaac Bábel foi fuzilado e seus escritos queimados. Some-se a essa solidão brutal o fato de que Akhmátova foi proibida de publicar de 1925 a 1952 (exceto no período da guerra com a Alemanha, quando qualquer ajuda para ajudar o esforço de reanimar o espírito do povo castigado pelo conflito era aceita) e temos nessa poetisa pouco conhecida do grande público no Brasil o perfil de uma personagem trágica, solitária e fascinante.

E de onde vem a tal sincronicidade que abre este post? Do fato de que topei com o trecho do livro de Bernardo Carvalho na mesma semana em que está sendo repúblicado pela L&PM em sua coleção de bolso o volume Antologia Poética, que reúne material compilado de diferentes fases da carreira da autora, do lirismo sentimental e romântico dos primeiros versos, compostos com a poetisa ainda muito jovem, até os melancólicos cantos para a paisagem e o povo da cidade. O livro já havia saído nos anos 1990, e agora volta revisado e com a adição de material novo feita pelo responsável pela seleção, tradução e notas do conjunto, o jornalista Lauro Machado Coelho. Na apresentação que abre o volume, Coelho também autor da biografia Anna, a voz da Rússia, publicada pela Algol escreve:

…pela primeira vez, na história da literatura russa, é uma típica poesia de mulher. As duas mais famosas poetisas que haviam precedido Akhmátova — a romântica Karolina Pávlova (1807/1893) e a simbolista Zinaida Gíppius (1869/1945) — tentavam competir com os homens em seu próprio terreno, praticando uma arte notável, mas, do ponto de vista formal e temático, de cunho erudito e “masculino”. Akhmátova, ao contrário, assume a sua feminilidade e pratica uma poesia que privilegia a análise dos aspectos mais íntimos do comportamento da mulher, de um ângulo de visão inteiramente novo em termos de lírica russa — fazendo com que, no futuro, ela se tornasse uma influência marcante e um ponto de partida obrigatório para mulheres poetas…

Abaixo, divido com um vocês um dos poemas do livro, datado de 1924, mesmo ano no qual, pelo que se saiba, foi tirada a foto de Akhmátova que ilustra este post, lá em cima, e no qual se percebe muito bem sua beleza com um quê de etéreo e aristocrático:

A Mulher de Lot

A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás
e transformou-se numa estátua de sal.

Gênesis

E o homem justo seguiu o enviado de Deus,
alto e brilhante, pelas negras montanhas.
Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:
“Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar

as rubras torres de tua Sodoma natal,
a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,
as janelas vazias da casa elevada
onde deste filhos ao homem bem-amado”.

Ela olhou e — paralisada pela dor mortal —.
seus olhos nada mais puderam ver
E converteu-se o corpo em transparente sal
e os ágeis pés no chão se enraizaram.

Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?
E, no entanto, meu coração nunca esquecera
quem deu a própria vida por um único olhar.
24/2/1924

Postado por Carlos André Moreira

Terrorismo total e tosquice tecnológica

21 de março de 2009 0

Nota do seu editor: eu havia programado com antecedência a ida ao ar deste post, mas como o juca aqui vive fazendo… bobagem na programação desta ferramenta de blogs, terminou que o trecho abaixo, que deveria ter ido ao ar no sábado, como havíamos prometido no Cultura, foi parar lá no ano passado. Eu fui cuidar da vida e não olhei aqui de novo para ver se havia funcionado, então só agora estou pondo o post no lugar de direito, Desculpem a nossa falha:

Quem leu o Cultura de hoje pôde ver a resenha de Luiz Zini Pires para o recente A Terrorista Desconhecida, de Richard Flannagan, de quem a companhia já publicou por aqui o mais que aprazível O livro dos peixes de William Gould. Não, eu não sei sobre o que é esse livro novo, quem leu foi o Zini, que definiu o romance assim em sua resenha:

Em A Terrorista Desconhecida (Tradução Donaldson M. Garschagen, Cia das Letras, 328 páginas, R$ 51), o australiano Richard Flanagan apresenta o mapa de Sydney como o condutor da sua história de ficção, povoada de verdades. Três bombas são encontradas na capital da Austrália, lar de 4,2 milhões de pessoas. A mídia descobre e instala o vírus do medo no ar. Uma mochila extraviada, uma mala com alça e sem dono aparente, podem servir de passagem para um outro mundo desconhecido. O pavor avança na cidade com os ponteiros do relógio. Um atentado parece, “parece”, iminente.

Pois como havíamos prometido nas páginas do Cultura impresso, vai abaixo um trecho do livro do sujeito:

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Somente depois que o viu morto foi que a Boneca se deu conta de que nunca havia perguntado a Tariq para quem ou onde ele trabalhava. Ele tinha se mostrado, de alguma forma, profundamente entediado com o que disse que faria: falava sobre aquilo do jeito que os estudantes estudam uma matéria na véspera de uma prova. Sentada no apartamento dele naquela manhã, cedinho, não parecera correto à Boneca fazer as perguntas para as quais mais tarde todo mundo presumiria que ela sabia as respostas.
— O bom em um bitmap — Tariq estava dizendo — é que se pode manipular com precisão uma imagem, alterando um só ponto de cada vez… Igual a quando Elvis sofre uma transmutação e se transforma num avestruz, esse tipo de coisa. — Ele se calou, como se pensasse em algo inteiramente diferente, e depois disse: — É o que eles gostariam de fazer com gente de verdade, se pudessem.
— Eles? — pergunto a Boneca.
— Ah, sei lá — retrucou Tariq. — os governos, as empresas… Os que mandam, eu acho, gente poderosa.
Do apartamento de Tariq, Sydney parecia silenciosa e calma. Ele havia prometido fazer um café para ela, mas fazia calor demais; em vez disso, tinham tomado um pouco de Pellegrino gelado que ele achou. Sentaram-se em bacos de bar, diante de uma mesa alta colocada diante de uma janela, vendo as escamas de cobra de Sydney tremeluzir e cintilar lá embaixo, conversando, tomando o vinho.
O apartamento ficava em Potts Point, não muito longe do Baron`s, mas a um mundo de distância da Cross em todos os outros sentidos. Eles haviam caminhado por uma rua em que carros europeus de luxo se enfileiravam junto ao meio-fio e depois entrado na recepção de um espetacular edifício de apartamentos. Tinham subido vários andares num elevador acionado com um cartão codificado, e quando o elevador parou as portas se abriram diretamente para um apartamento recém-redecorado, de paredes branas e com mobiliário e acessórios europeus.
Tariq baixou as luzes, que haviam se acendido ao entrarem, e com isso as principais fontes de iluminação passaram a ser as luzes de Woolloomooloo, para onde dava o apartamento, e, depois do bairro, da própria Sydney. Lá embaixo, de vez em quando corriam trens silenciosos, como brinquedos, deixando rastros de luzes móveis, enquanto os faróis dos carros deixavam linhas grossas e interrompidas. Era tão diferente das ruas feias e malcheirosas que Boneca conhecia — uma cidade transformada; uma escuridão sedutora recoberta de reluzentes confetes amarelos e brancos, que aqui e ali ganhavam forma mais definida, mostrando-se como a simbologia vermelha ou azul de grandes empresas.
— É assim que os computadores armazenam uma imagem feita de pontos separados — continuou Tariq. A Boneca afastou os olhos da cidade e os fixou nele. ele estava movimentando as mãos, como um cego que procurasse alguma coisa. — Cada pixel está codificado na memória do computador como um dígito binário… O que chamamos de bits. Ainda que tentasse se interessar, a Boneca estava achando enfadonho o que ele dizia. Era como se ele estivesse falando daquelas coisas por obrigação, embora também não estivesse interessado nelas. Ela olhou de novo para aquela estranha e abrandada Sydney. Tudo parecia tão refinado! O cardume de nadadeiras dorsais da Opera House se aninhava sobre o seio da ciade como um broche de ouropel numa prostituta; o arco de ferro iluminado da ponte parecia uma gargantilha de filigrana, enquanto os edifícios de apartamentos, perfurados por uma infinidade de luzinhas, lembravam à Boneca uma renda preta de enorme complexidade. Ela poderia ter contemplado essa Sydney durante toda a noite, enquanto Tariq continuava a falar de seu trabalho com bitmaps, não mais cheio de charme; ao discorrer sobre seu trabalho era um homem meio sem graça e sério.
— Juntos, os bits formam um bitmap — ele continuou. — Eu trabalho com softwares para produzir bitmaps melhores, que possam gerar imagens melhores. É o que se chama também de gráfico raster.
— Gráficos Bob Marley — brincou a Boneca, e ele nada mais falou a respeito.
Sobre o que mais tinham conversado? Mais tarde, quando a Boneca tentou formar uma idéia melhor de quem realmente tinha sido Tariq, foi incapaz de lembrar quaquer coisas de interesse. Conversaram sobre altumas coisas sérias e sobre coisas banais, sobre algumas generalidades e sobre intimidades. A não ser quando ele falava da computação, era agradável ficar com ele, só isso.

Postado por Carlos André Moreira

ACABOU!!!

19 de março de 2009 2

Comentário do Editor: O que parecia impossível aconteceu. Nosso correspondente de guerra literária atômica Gustavo Brigatti encerrou a leitura do monumental tijolão com o qual estava forcejando desde o ano passado. Leiam abaixo a última coluna de nosso camarada paulista no mundo encantado da Índia que não passa pela novela das oito.

Tchau procê também, meu fio…

Deu a bandeira quadriculada, leitores. A Maratona Tijolão Literário chegou ao seu fim na tarde desta quarta-feira. E, olhem só se não é uma inacreditável coincidência, mas foram exatos três meses. Noventa dias — ou noites ou madrugadas — cravadas. Muitas e muitas horas acompanhando as investigações de Sartaj Sigh e a ascensão e queda de Ganesh Gaitonde.

Mas Jogos Sagrados foi, principalmente, um intensivo sobre a superfície de uma Índia que eu não fazia idéia existir. E como ela é incrível e tristemente parecida com o Brasil. O que diz alguma coisa sobre a pequena polêmica que se armou a respeito da semelhança embaraçosa entre Cidade de Deus e Slumdog Millionaire.

Tá, não vou entrar numa análise sócio-cultural e política aqui. Vou é passar o rastelo para vocês a respeito da obra de Vikram Chandra, porque vocês, se quiserem, podem lê-la despreocupadamente. Não numa rede, ou de barriga pra baixo num parque público, tampouco no banheiro. Jogos Sagrados é o tipo de leitura que se faz sentado numa cadeira e com o livro aberto sobre a mesa.

Não por demandar concentração acima da média, mas pelo simples fato de ser grande e pesado, quer dizer, não dá para dobrar ao meio e segurar com uma mão enquanto segura a cabeça com a outra. Mas poderia? Não.

Se Jogos Sagrados se concentrasse na investigação de Sartaj intercalada pela história pregressa de Gaitonde, o livro teria tranquilas 200 páginas e olhe lá. Mas não era — ou não parece/pode ser — o objetivo do autor. A busca por uma possível bomba atômica que mandaria Mumbai para o reino de Kali não é novidade em qualquer sentido. Chega, na verdade, a ser esquemática, com a apresentação dos personagens, investigações de suspeitos e cruzamentos de informações até um estalo providencial que leva ao desfecho. Tudo certinho, previsível até.

A trama policial é apenas a coluna vertebral de um gigantesco deus hindu que Vikram constrói ao longo de mil páginas. Ela é importante no sentido de servir de link para os diversos quadros onde o autor tenta — corajosa, embora superficialmente — explicar o seu país. A Índia, assim como já disseram do Brasil, não é para principiantes.

Para isso Vikram utiliza os personagens, mesmo que indiretamente, para explanar como nascem e se perpetuam as relações entre o crime organizado e o poder oficial através de todas as esferas de autoridades constituídas; como o ódio entre muçulmanos e hindus é nutrido geração após geração e é responsável por a redesenhar o mapa de regiões inteiras a cada explosão de violência de um dos lados; a paradoxal função das tradições que, apesar de cruéis, acabam se tornando necessárias para postergar um catastrófico conflito social há muito anunciado.

O final feliz da última página não existe, porque a história não acaba por ali. Fica claro que o caso de Sartaj era, apesar da gravidade atômica, uma rotina em sua modorrenta vida de policial. O personagem, registre-se, é propositalmente cansativo e desinteressante a maior parte do tempo, ao contrário de sua contra-parte, Gaitonde. Ambos, no entanto, são importantes apenas quando servem de gancho para que Vikram se debruce sobre a verdadeira história que quer contar.

A trama de fato apresentada é aquela que continua a se desenvolver nas imensas favelas das grandes capitais, nos campos onde se morre de fome a cada estiagem ou monção, no coração dos que não encontram forças para desviar de um caminho que os levará inexoravelmente ao crime e à morte ou na luta pela igualdade entre os sexos, etnias, castas e religiões.

Como romance policial, Jogos Sagrados deixa muito a desejar. Mas serve um panorama impressionante de um país que merece e precisa ser conhecido. E vai por mim: tu vai precisar de bem menos que três meses para concluir isso.

>>> Chegou só agora? Leia AQUI a maratona completa.

Postado por Gustavo Brigatti

Castos registros de um libertino

19 de março de 2009 0

23 de maio
(…)
As mulheres adoram ver as pessoas comerem com prazer a comida que elas preparam ou fornecem, como era o caso. Demonstrei um grande apetite.
`Só conheci um homem na minha vida, e ir para a cama com ele era como ser trancada numa câmara de gás para morrer`
Isso foi dito depois que acabamos de comer e de Virna ter insistido em lavar a louça. Sou um homem sensível ao encanto feminino e acredito que o fato de estar amando uma mulher não me impede de amar outra.
Tenho amigos comprometidos com determinada mulher que gostariam de ter uma aventura apaixonante com uma segunda, por comodismo sublimam esse impulso comprando uma gravata nova, um carro ou viajando com a patroa no fim de semana. Esses caras envelhecem mal, e perdem a vida antes mesmo
de morrerem frustrados, refugiados nos seus mecanismos de compensação. Os
japoneses têm um provérbio: o sujeito começa a envelhecer quando não quer
mais aprender. Meu provérbio é que o sujeito começa a envelhecer quando não
quer mais amar, quando perde o entusiasmo pela comunhão sexual, não tem
mais coragem de enfrentar a incandescência, os refinamentos eróticos e também
as desilusões, aflições, e a logística exasperante da aventura amorosa.

Ok, este livro não é novo, mas qual é a vantagem de vocês terem aqui deste lado do balcão um editor de livros que já leu tanta coisa se ele não puder de vez em quando relembrar uma leitura antiga (sim, e vocês acertaram, meu tempo para leitura anda reduzido ao mínimo necessário para manter a página de livros do Segundo Caderno atualizada)?

Na cerimônia de entrega do prêmio Portugal Telecom de 2007, vi um dos indicados à final, Michel Laub, que concorria com O Segundo Tempo, comentar que um autor com o qual não tinha nada que ver em termos de temática e estilo, mas que ele não hesitaria em apontar como fundamental para sua decisão de se tornar escritor, era Rubem Fonseca. Por ser o primeiro autor a despertar nele o prazer de leitor, o primeiro a mostrar o tipo de efeito em seus leitores que um escritor sonha em produzir. A experiência de Michel, que tem mais ou menos a minha idade, é a de toda uma geração de leitores, incluindo aí muita gente mais nova que nós. Rubem Fonseca foi uma descoberta literária que moldou o universo de muitos leitores. Porque sua obra continha em fartas doses de sexo, violência e uma urgência que traduzia o mundo contemporâneo melhor que muita reflexão pomposa e empedernida.

O tempo passou, é claro, e Rubem Fonseca, embora continue um mestre da forma e da linguagem que adotou para si, não tem mais logrado esse tipo de efeitos, ao menos não em mim como leitor, e, pelo que tenho lido de outros, seja na imprensa seja em blogs, também em muita gente. Isso porque com o tempo Fonseca foi assumindo um estilo que congrega a secura de seus primeiros livros com uma dicção artificial, quase castiça, com o uso irônico de palavras estentóreas, hiperbólicas, referências de rara erudição, e nem sempre essa mistura alcança o ponto – opinião pessoal de leitor, é claro.

MAs ainda assim, salva-se de tudo isso justamente esse uso irônico e hiperdimensionado do humor. Pegue-se por exemplo o romance Diário de um Fescenino (do qual vocês leram o trecho acima), uma das obras mais engraçadas já escrita pelo autor. O romance foi lançado há uns cinco anos para inaugurar uma série erótica da Companhia das Letras (com uma tiragem monstruosa de 40 mil exemplares) e ainda está disponível no mercado. É um divertido pasticho que transita da ironia ao cinismo. A diferença é que, e isso é um exemplo do que Fonseca vem fazendo em seus últimos livros, no romance ele não parodia o gênero policial, como fez ao longo de toda a carreira. Ele parodia os romances de Rubem Fonseca.

A coleção essa da Companhia traz livros eróticos e provocativos de escritores consagrados — inéditos ou não. Saíram por ali Cidade Pequena, de Lawrence Block, mais conhecido por suas tramas policiais, a trilogia Sexus, Nexus e Plexus, de Henry Miller, Política, do estreante Adam Thirlwell, entre outros. E, é claro, o livro de Fonseca, um dos poucos exemplares nacionais — o recente Manual da Paixão Solitária, de Moacyr Scliar, era para sair nessa coleção com o nome de O Irmão de Onã, mas Scliar precisou reescrever o livro muitas vezes e no fim ele saiu só ano passado, fora da coleção.

Diário de um Fescenino conta a história de Rufus, escritor que teve sucesso com sua primeira obra e depois viu seu prestígio declinar. Ele inicia em um 1º de janeiro a redação de um diário no qual pretende treinar o registro de diálogos para escrever um Bildungsroman — a história da formação emocional e intelectual de
um jovem, ao estilo dos Anos de aprendizado de Willhelm Meister, de Goethe.
À medida que avança em seus registros, Rufus se perde em digressões sobre literatura recheadas de citações e no relato de seus envolvimentos amorosos. Ele começa a história com Henriette, inicia um caso simultâneo com uma atriz amiga dela, Lucia, troca-as por uma admiradora que lhe escreve um e-mail, Clorinda, e mais tarde dá início a um hesitante relacionamento sado-masoquista com a irmã desta, Virna. O romance que deveria escrever fica em segundo plano.

Apesar da proposta erótica da editora, o romance traz mais alusões que sexo. E apesar do título (fesceninos eram os versos licenciosos das sátiras da antiga Roma), da atitude provocativa do narrador e da proposta da série, Diário de um Fescenino é um livro casto, se comparado a outras obras do próprio Rubem Fonseca. O sexo é mencionado de passagem, e nos trechos mais fortes repete o que o próprio Fonseca já descreveu melhor anteriormente. As cenas entre Rufus e Virna não têm o impacto das situações semelhantes narradas em sua primeira
novela, O Caso Morel (1973), ou em A Grande Arte (1983).

A linguagem artificial do narrador — que pretensamente escreve um diário íntimo mas inclui expressões como “mulher ebuliente“, “seios rutilantes” e “linguajar soez” — também já foi vista em obras anteriores, como eu dizia lá em cima — de Bufo & Spallanzani (1986) a contos como os de O Homem de Fevereiro ou Março (1973). A narrativa picaresca muda para uma trama policial quando Virna descobre que Rufus mantinha também um caso com sua irmã. Para se vingar, ela o acusa de estupro, usando as marcas de suas relações violentas como prova — outro recurso já usado em O Caso Morel.

A repetição cínica da própria obra é o grande incômodo, mas às vezes se torna a maior vantagem — ao menos neste livro, pois no posterior Mandrake, a Bíblia e a Bengala era muito incômoda. Mas em Diário de um Fescenino Fonseca sente-se livre para brincar com o próprio estilo, e é aí que o romance ganha peso. Ele e seu personagem-narrador enumeram tiradas provocativas contra leitores, editores, escritores e críticos, numa bem engendrada reflexão metalingüística. Ele chega a tecer a teoria de uma síndrome que acomete o leitor nos dias de hoje, a síndrome de Zuckermann – referência ao personagem recorrente de Philip Roth que muitos consideram baseado na própria vida do autor. Assim como muitos já questionaram Roth sobre se Zuckermann era seu alter-ego em seus livros (é escritor, é ácido, é judeu), os leitores hoje não estariam mais interessados em simplesmente LER a obra, mas em ver no romance ou no conto ou no que for uma espécie de confissão pessoal ou biografia disfarçada de seu autor.

Fale a verdade, é bem comum isso, não?

Postado por Carlos André Moreira

Fuentes relembra Cortázar

19 de março de 2009 0

Como costuma acontecer, eu o conheci antes de conhecê-lo. Em 1955, eu editava uma Revista Mexicana de Literatura com o escritor Emmanuel Carballo. Nela se publicou pela primeira vez no México uma ficção de Gabriel García Márquez: Monólogo de Isabel vendo chover em Macondo.
Graças, também, a nossas amigas Emma Susana Separatti e Ana María Barrenechea, pudemos obter a colaboração de Julio Cortázar.
Os Bons Serviços e O Perseguidor apareceram pela primeira vez em nossa revista renovadora, alerta, insistente, um pouco insolente até. Mais tarde, quase como parte de uma conspiração, Emma Susana me deixou ler o manucrito de um romance de Cortázar cujo eixo narrativo era a ceomposição do cadáver de uma mulher enterrada com honras máximas debaixo do Obelisco da Avenida 9 de Júlio, em Buenos Aires. Em ondas concêntricas, a peste, a loucura, o mistério se estendiam dali ao resto da República Argentina.
Finalmente, Julio não quis publicar aquele romance; temeu que fosse julgada como um lugar-comum. O importante agora é recordar que ele foi um homem que sempre se reservou um mistério.
Quantas páginas magistrais queimou, desfigurou, mandou a um ccesto ou a um arquivo morto?
Depois, ainda sem nos conhecermos, me mandou a carta mais estimulante que recebi ao publicar, em 1958, meu primeiro romance,
A Região Mais Transparente. Minha carreira literária deve a Julio esse impulso inicial, no qual a inteligência e a exigência, o rigor e a simpatia eram inseparáveis e configuravam, já, o ser humano que me tratava por “você” e com quem eu ansiava por me encontrar pessoalmente. 
Sua correspondência era o homem inteiro mais esse mistério, essa charada, esse desejo de confirmar que, de fato, o homem era tão excelente como seus livros, e estes, tão excelentes quanto o homem que os escrevia.
Por fim, em 1960, cheguei a uma pracinha parisiense sombreada, cheia de artesãos e cafés, não muito longe do Metro Aéreo. Entrei por uma garagem em um pátio desgastado. Ao fundo, uma antiga estrebaria fora convertida em um estúdio alto e estreito, de três pisos e escadarias que nos obrigavam a baixar subindo, segundo uma fórmula secreta de Cortázar.
Vê-lo pela primeira vez era uma surpresa. Em minha memória, então, só havia uma foto velha, publicada em um número de aniversário da revista
Sur. Um senhor velho, com óculos de grossas lentes, rosto delgado, cabelo completamente domado pela gomalina, vestido de preto e com um aspecto proibitivo, semelhante ao personagem de desenho animado chamado Fúlmine.
O rapaz que veio me receber era seguramente o filho daquele sombrio colaborador da
Sur: um jovem descabelado, sardento, imberbe, desengonçado, com calças de brim e camisa de manga curta aberta no colarinho; um rosto, então, de não mais de vinte anos, animado por uma gargalhada funda, um olhar verde inocente, de olhos infinitamente largos, separados, e sobrancelhas sagazes, tecidas entre si, dispostas a lançar uma maldição cervantina a todo aquele que se atrevesse a violar a pureza de seu olhar.
— Garoto, quero ver seu pai.
— Sou eu.
Estava com ele uma mulher brilhante, miúda, solicita, encantada e encantadora, atenta a tudo o que acontecia na casa: Aurora Bernárdez.
Os dois formavam um casal de alquimistas verbais, magos, carpinteiros e escribas, desses que durante a noite constróem coisas invisíveis cujo trabalho só se percebe ao amanhecer.
Este era Cortázar naquela época, e Fernando Benítez, que me acompanhava na excursão à praça General Beuret, concordou com minha descrição, porém acrescentou que esse rosto de rapaz, quando se ria, quando se ensimesmava, quando se aproximava ou se afastava demais (pois Julio era uma maré, insensível como os movimentos de cheia e ressaca dos mares que tanto perseguiu), começava a encher-se de diminutas rugas, redes do tempo, avisos de uma existência anterior, paralela, ou continuação da sua.
Assim nasceu a lenda de um Julio Cortázar que era a versão risonha de Dorian Gray. Sabia tudo. Era o latino-americano na Europa que sabia algo mais que os europeus, esse algo mais — o novo mundo americano — era aquilo que os próprios europeus inventaram mas não souberam imaginar: o homem tem dois sonhos, e existe mais de um paraíso.

O texto acima é um trecho de Recordação de Cortázar, que o escritor mexicano nascido no Panamá Carlos Fuentes (foto) publicou certa vez no diário argentino La Nación, relembrando aquele que, com ele próprio, García-Márquez e Vargas Llosa formou os quatro pilares do chamado “boom” latino-americano dos anos 1960 e 1970. A publicação deste trecho no blog vem a propósito de que Fuentes, autor de A morte de Artémio Cruz (1962) e Gringo Velho (1985), foi confirmado como uma das atrações deste ano da Festa Literária Internacional de Parati, de 1º a 5 de julho. O evento, que terá Manuel Bandeira como homenageado nesta edição, também já anunciou a vinda do historiador britânico Simon Schama, o mesmo que já esteve aqui em Porto Alegre no ano passado para o Fronteiras do Pensamento.

Postado por Carlos André Moreira