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As mães e a guerra

01 de abril de 2009 5

Ruslam é checheno, filho de mãe russa, Anna, que acompanhou o marido até a terra natal deste e, tão logo teve a criança, fugiu de volta para São Petersburgo, largando por lá o filho e o marido (que por sua vez havia largado a universidade na Rússia para voltar para casa por ela e não tinha mais como voltar). Depois de perder o pai e os demais parentes nas duas guerras da Chechênia, a avó de Ruslam faz um último sacrifício no campo de refugiados para garantir ao neto condições de subornar um oficial e embarcar para São Petersburgo. Vai em busca da mãe, a quem nunca viu, e que hoje, casada com um oficial de inteligência, tem nova família.

Andrei é russo, filho de um biólogo brasileiro ex-comunista exilado em Moscou. A mãe e o pai separaram-se quando ele nasceu, o pai voltou para o Brasil. Andrei está alistado no exército do país, aquartelado em São Petersburgo. Tentou escapar do serviço militar por todos os meios possíveis para um rapaz de classe média-baixa, o que incluem o estudo, a corrupção, o suborno e um falso atestado médico. Quando estava prestes a conseguir, foi contrariado pelo padrasto, oficial da marinha, para quem a experiência do exército era necessária para “formar o caráter” de um russo de verdade. A mãe de Andrei, embora toda lamentosa com seu destino, é fraca, covarde, e seu amor filial é insuficiente para contrariar seu macho — e Andrei é deixado à própria sorte e tem de se alistar.  Em um exército sem investimentos oficiais e desmantelado, o jovem recruta tem seu “caráter” lapidado (impressionante como esse papo nunca se preocupa com a espécie de caráter que está sendo formado) servindo como pivô em um comércio torpe que garante um dinheiro extra e clandestino para as despesas do quartel.

Esses dois personagens, suas dolorosas sagas paralelas de violência e abandono e seu encontro desesperado pelas ruas de uma Sâo Petersburgo em que a corrupção e o crime são a tônica são os eixos do magistral O Filho da Mãe (Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 39), romance de Bernardo Carvalho, o segundo resultante do polêmico projeto Amores Expressos (o primeiro foi Cordilheira, de Daniel Galera). Carvalho passou um mês em São Petersburgo e desenvolveu uma paranoia com o lugar depois de duas ocasiões em que foi vítima de uma tentativa de roubo, uma paranoia que perpassa todo o livro, um romance ao mesmo tempo de amor e de abandono, de guerra e de mães — colocadas ambas, as guerras e as mães, lado a lado, por obedecerem a um impulso primal de clã e família.

Leia abaixo a íntegra da conversa que tive por telefone com o autor, na qual ele fala de sua carreira, do projeto e do livro dele resultante:

Zero Hora — A determinada altura de seu romance o senhor cita Pais e Filhos, de Turguêniev. O Filho da Mãe seria o seu Mães e Filhos?
Bernardo Carvalho —
Não, na verdade não. O livro do Turguêniev trata de pais e filhos na Rússia do Século 19 como uma questão geracional, uma questão política de relação com aquela sociedade, como uma geração reagia e como a outra vai reagir. É mais um conflito de gerações, e isso não tem nada a ver com meu livro. O Turguêniev é citado um pouco na brincadeira, talvez. Originalmente eu havia pensado em chamar esse livro de Mães e Filhos, mas já existe um outro livro com esse mesmo nome, de um autor irlandês se não me engano [Colm Tóibín], que foi publicado recentemente pela Companhia, então eu deixei isso de lado. Mas ficou a citação sem nenhuma relação especial. A questão principal do meu livro, da qual eu fui tomando consciência ao longo da escrita, é a ambiguidade do amor materno, que é ao mesmo tempo absoluto, incondicional, que não tem a ver com convenções, é instintivo, e como esse amor pode estar na origem de todos os males. As mães defendem os filhos das guerras, e as guerras na verdade podem ser causadas pela defesa da corporação, do clã, da família, contra tudo o que é exterior. É uma espécie de círculo vicioso desse amor que ao mesmo tempo é paradoxal, ao mesmo tempo em que é absoluto, engendra monstruosidades também.

ZH — O senhor escreveu o romance depois de uma visita a São Petersburgo como parte do projeto Amores Expressos. Quanto dessa visita influiu no livro?
Carvalho —
Uma experiência foi fundamental pro livro: no terceiro dia em São Petersburgo eu sofri uma tentativa de assalto. Eu não falo russo, estava totalmente sozinho na cidade. E foi uma tentativa de assalto estranha, não tinha arma nem nada, mas foi violenta para mim. Eu estava totalmente sozinho e três caras tentaram me roubar na rua, pegaram meu computador, eu peguei o computador de volta, acabaram não me levando nada. Mas essa situação me pôs numa espécie de estado de pânico que se manteve ao longo de minha estada inteira lá, porque eu estava absolutamente sem nenhum contato com ninguém. E eu acho que esse pânico determinou muito a minha visão da cidade. Não só da cidade mas o estado dos personagens, que são marginais, outsiders, não fazem parte daquela cidade, não funcionam, não têm lugar para eles ali e eles estão tentando escapar, arranjar um passaporte. Acho que tanto a minha visão dessa cidade, em príncípio romântica, bonita, e que para mim acabou virando um pesadelo, como a criação dos personagens, do que eles podem sentir absolutamente sozinhos em um lugar inóspito, tudo isso veio de minha experiência em São Petersburgo, que foi um negócio não planejado. A viagem foi planejada, mas parece que quando eu fui para lá as coisas começaram a conspirar a meu favor. Acho que se eu não tivesse essa experiência traumática na cidade provavelmente não teria conseguido escrever esse livro, teria escrito outro livro, acho que teria sido pior — para o livro, não para mim. Para mim a experiência foi terrível, mas para o livro foi ótimo.

ZH — Uma forte atmosfera de medo perpassa o livro inteiro. Ela é também resultado dessa experiência traumática com a cidade?
Carvalho —
Acho que sim. Na verdade eu sempre gostei do medo. É engraçado, eu sou um cara muito covarde, mas apesar disso eu me aventuro em situações que vão produzir medo, e eu faço isso de propósito, de modo deliberado. E é estranho, porque eu faço isso quando eu quero escrever um livro, estou em processo de romance, por exemplo, quando estava escrevendo o Nove Noites, eu fui para a tribo da etnia lá onde o personagem antropólogo se matou, e eu acabei vivendo uma experiência de pânico que era totalmente alucinada. Não havia nenhum dado real que me levasse a sentir o pânico que eu senti na aldeia. Mas eu achei que eles estavam me procurando para fazer uma cerimônia, e eu entrei em uma espécie de pânico imaginário, alucinado, mas que era importante para mim, quando escrevi o livro, para experimentar um pouco a vulnerabilidade desse personagem. Então acho que o medo me põe numa situação de vulnerabilidade mas ao mesmo tempo me torna mais permeável. É contraditório isso, em princípio você acha que com o medo vai se afastar das coisas, mas acho que o medo me deixa perceber melhor no entorno coisas que eu não perceberia se não fosse essa relação alucinada de pavor. Agora pensando nisso, não sei se não engendrei inconscientemente esse medo. Porque ele é desproporcional ao que aconteceu. Eu venho do Brasil, que é um país violento pra caramba, já estive em lugares muito violentos no Brasil, vou para São Petersburgo, que é uma cidade em princípio calma, sofro uma tentativa de assalto e isso desencadeia um estado de pânico. Não sei o quanto não tinha de projeto inconsciente, porque eu já tinha ideia dos personagens que eu queria ter, um desertor do exército, tinha a coisa da guerra da Chechênia, um negócio meio inesperado, um pesadelo, havia talvez uma vontade de me pôr nesse lugar e  a realidade conspirou a meu favor.

ZH — Além do medo, é fácil identificar em seu romance também uma abordagem crua da violência, tanto física quanto psicológica. A violência é um dos seus eixos temáticos?
Carvalho —
Acho que eu tenho a tendência natural a ver a violência no mundo. Até em uma situação de calma, de tranquilidade, de aparente paz, a minha impressão é que a violência está se armando por trás, nos bastidores, que a coisa está se preparando, que o ataque está em andamento. Parece que não existe paz, que na verdade a guerra, a violência, são estados permanentes, e que há uma espécie de capa civilizatória que faz a gente não ver essa violência em andamento. Acho que inevitavelmente isso teria que estar presente em todos os meus livros, porque é assim que eu vejo o mundo. No caso de O Filho da Mãe a Rússia me despertou para uma realidade sobre a qual eu não tinha a menor consciência. O Brasil é um país violentíssimo, desigual para caramba, mas a gente vive como se fôssemos criacinhas, numa espécie de jardim de infância, com um dado de inconsciência, de esperança, que faz a vida da gente ser muito melhor. Não chega a ser agradável, porque a gente vê coisas terríveis acontecendo, intui que a coisa não tá boa, mas quer acreditar que o bem vai vencer, a gente tem esperança. E isso em todas as áreas. Isso ajuda a viver. E o que eu tive a impressão, talvez eu tenha visto a Rússia por um olhar distorcido, talvez por estar sozinho, parece que pelo acúmulo de sofrimento, de séculos de regimes sanguinolentos, não há inocência. É uma consciência absoluta que cria um pragmatismo e um individualismo muito terríveis, é um círculo vicioso. Eu vi na Rússia um lugar que, embora não seja mais violento que aqui, talvez seja igual, ninguém tem esperança de nada, a prioridade é ganhar o dia seguinte. Se você for um milionário, um daqueles oligarcas, você vai torrar sua grana comprando diamante, casaco de pele para a mulher, porque você não sabe se no dia seguinte você não vai ser assassinado. Isso torna a sociedade mais difícil de ser vivida. Isso torna a violência muito visível, pelo menos do meu ponto de vista de estrangeiro solitário. Então talvez essa ideia de violência por trás das coisas que eu tinha nos outros livros tenha se tornado mais evidente neste.

ZH — O Filho da Mãe toca em outro ponto presente em seus outros livros, uma sensação muito forte de desenraizamento. Mas ao mesmo tempo há a grande contradição de esse deslocamento se dar em um país de cultura milenar. Um eixo de oposição corta o seu livro?
Carvalho —
Acho que sim, e não só nesse mas nos precedentes. Nessa questão do desenraizamento tem um âmago muito contraditório: o desenraizamento cria uma noção de mal estar, de desconforto, sofrimento, mas ao mesmo tempo me parece que uma literatura de verdade, e um próprio olhar mais verdadeiro sobre o mundo, só existe pelo deslocamento. É como se ao se desenraizar você saísse dos consensos, das congregações, das corporações, e conseguisse ter uma distância que permitisse um olhar mais verdadeiro. É ambíguo porque tem essas duas coisas. Porque cria um mal-estar, mas parece que só de dentro  desse mal-estar alguma coisa nova, importante ou verdadeira pode surgir. E isso se aplica a todas as coisas, nas tradições, por exemplo. Ao mesmo tempo em que não ter tradição, laços, família, cria-se um desconforto, me parece que só na ruptura e nesse deslocamento que você poderia ter uma vida, uma ação verdadeira, seja na arte seja na vida cotidiana. Não saberia te dizer mais do que isso, mas acho que tem esse movimento ambíguo, contraditório e paradoxal entre querer pertencer e saber que a verdade só pode estar no não-pertencimento. Então acho que isso tem a ver com as viagens, a inquietude permanente com o lugar em que você está, a desconfiança com qualquer nação.

ZH — Como em seus outros livros, O Filho da Mãe mostra tentativas não muito bem sucedidas de refazer a trajetória de um outro personagem, quando não se tem como ter conhecimento total dessas trajetórias. Seus romances são antipoliciais?
Carvalho —
Acho que tem a ver. Tem a consciência do que se deveria fazer e a impossibilidade disso. São sempre tentativas, e acho que para mim meus livros são um pouco a imagem que eu tenho da literatura. Você não consegue chegar a lugar nenhum. Como você falou, é o romance antipolicial, não tem uma solução, é um processo uma tentativa paradoxal que não te leva a lugar nenhum. Só te dá uma vontade de sair. Um personagem de O Filho da Mãe deixa uma carta na qual fala que São Petersburgo tem 300 pontes que não levam a lugar nenhum. E ao mesmo tempo o romance inteiro é a tentativa de sair do lugar. Acho que nesse romance fica bem clara essa loucura do movimento que é impossível, embora se saiba que só no movimento se vá conseguir alguma coisa.

ZH — O senhor diz que já partiu daqui com a ideia de um romance de guerra. Por que?
Carvalho —
Quando me chamaram para os Amores Expressos, eles que escolheram qual seria a cidade. Eu não tinha relação nenhuma com São Petersburgo. Eles me ofereceram, eu aceitei e comecei imediatamente a ler muito sobre a Rússia contemporânea. E foi inevitável ler os livros daquela jornalista que foi assassinada, Anna Politkovskaya, foi morta um pouco antes da minha viagem. E ela foi uma das poucas jornalistas que cobriu com muita ênfase a guerra da Chechênia durante os anos Putin. A primeira coisa que me encantou nos livros dela foi o Comitê das Mães dos Soldados, que eu não sabia que existia. Aquilo potencialmente me pareceu muito dramático. Achei que eu tinha de usar aquilo de alguma forma, e pensei em usar uma mãe daquelas como narradora do livro, algo que eu depois abandonei mas mantive uma mãe como personagem. Mas acho que fiquei impregnado da ideia da guerra, e aí me dei conta de que São Petersburgo, a cidade que foi criada em nome da razão, para tirar a Rússia do atraso, como uma abertura para a Europa iluminista, os 300 anos dessa cidade seriam comemorados no auge da segunda Guerra da Chechênia, e achei que dramaticamente essa simultaneidade das datas era muito rica. Então eu saí daqui querendo falar da guerra, pensar na guerra e fazer dessa cidade uma espécie de aparência. Porque os russos não têm contato com a guerra, a Chechênia é um inferno distante, é um recalque, é como se não fizesse parte da vida das pessoas em São Petersburgo. E eu quis trabalhar com esse contraponto. A única coisa é que eu queria ter um personagem estrangeiro, até para ter uma imagem, um reflexo meu naquela sociedade, de alguém que não faz parte da vida russa, que não tem lugar ali, e eu em um primeiro momento não me dei conta de que deveria ser um checheno. Fiquei pensando todos os tipos de estrangeiros que teriam algum contato com o mundo soviético, um vietnamita, um cubano, um mongol, para me dar esse olhar do estrangeiro que me deixaria mais à vontade, e só lá me dei conta que o estrangeiro tinha de ser um checheno, que é próximo, não é de verdade um estrangeiro, o checheno é uma espécie de nordestino da Rússia.

Comentários (5)

  • Paulo Bentancur diz: 26 de julho de 2009

    Grande entrevista! Bernardo Carvalho é, a meu ver, o mais radical (palavra irônica numa literatura propositalmente desenraizada) inovador na narrativa brasileira contemporânea. Seus livros acabam com todas as confortáveis, previsíveis, chatas identidades (uma identidade pode ser um elemento forte de vínculo com o leitor, mas isso só se dá em exceções, não na regra, que busca o conforto e as facilidades da ficção). O entrevistador teve a agilidade necessária para acompanhar esse deslocamento raro

  • Amar diz: 12 de outubro de 2009

    Excelente entrevista,. Prabens, Zero Hora!

    Valeu, Amar. Obrigado e continue nos visitando.
    Carlos André

  • Segundo Caderno » Arquivo » Os finalistas do Prêmio São Paulo diz: 28 de maio de 2010

    [...] indicados: Melhor Livro do Ano (2009) Bernardo Carvalho, O Filho da Mãe (Companhia das Letras) Chico Buarque, Leite Derramado (Companhia das Letras) João Ubaldo Ribeiro, [...]

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