Hoje o mercado editorial brasileiro é dominado por uns seis grandes conglomerados editoriais que estão sempre disputando entre si o passe de alguns dos nomes mais representativos da ficção brasileira. Não que publicar seja mais fácil para o estreante, para esses o sistema parece continuar o mesmo: lançamento de algumas obras por editoras pequenas ou regionais, o que pode servir para chamar a atenção do gigante e render aí sim um contrato de publicação. Mas com aqueles autores brasileiros considerados "canônicos" e cuja obra ainda não caiu em domínio público (logo, Machado não vale), a briga é cerrada entre as casas editoriais para trazer para seus catálogos nomes respeitáveis, obras que marcaram época e escritores ainda em atividade e que garantem vendas boas e constantes (embora não monstruosas) porque sua obra é estudada com profundidade ou recomendada nas escolas. Ah, sim, e até o Paulo Coelho, a rigor nosso maior best-seller, foi alvo dessa disputa.
De uma década para cá, vimos a Objetiva comprar o passe de Luis Fernando Verissimo (que era da L&PM), a Agir comprar os direitos de publicação da obra de Nelson Rodrigues, que vinha saindo pela Companhia, reunir a obra de Mário de Andrade (que saía pela Itatiaia) e tomar da Planeta o novo romance de Paulo Coelho (que já havia deixado a Rocco uns seis anos antes). A Planeta arrebatou da Nova Fronteira o clássico 1968: O Ano que Não Terminou, de Zuenir Ventura, e ainda o publicou com uma continuação escrita para marcar os 20 anos do tal ano ininterrupto. Nessa ciranda, a Companhia das Letras foi uma das mais ativas: trouxe para seu time Erico Verissimo e Jorge Luís Borges (cuja obra saía pela Globo), Jorge Amado (que era da Record), Lygia Fagundes Telles (que era da Rocco) e Vinicius de Moraes (que eu não me lembro onde estava. Ediouro? Alguém lembra?).
Pois depois de tantas contratações vitoriosas a Companhia sofreu uma perda importante. Depois que a notícia foi publicada no jornal O Globo, a editora divulgou um comunicado hoje à tarde informando que Rubem Fonseca não faz mais parte de seu catálogo, interrompendo assim uma relação de duas décadas e mais de 20 títulos — incluindo aí edições de bolso de títulos como Agosto e A Grande Arte e uma coletânea de 64 contos naquela coleção de coletâneas que tem reunido mestres nacionais e estrangeiros da narrativa curta.
Por ora, pelo teor do comunicado, Fonseca não está acertado com ninguém — qualquer acerto seria visando, obviamente, ao próximo livro do autor, já em produção, já que toda sua obra ainda está disponível pela companhia e será repassada para a nova editora à medida que os títulos forem esgotando. A Companhia disse que não comentaria as razões. E se a companhia não abre o jogo, merece um prêmio quem conseguir fazer falar o próprio Fonseca, conhecido por não dar entrevistas no Brasil há anos. Provavelmente, no momento mesmo em que redijo este post, já deve estar em curso uma disputa nos bastidores pelas demais editoras nacionais para trazer para seu convívio um dos gigantes nacionais ainda em atividade.


No já distante ano de 2004, uma das novidades que mais me entusiasmaram no mercado editorial foi a chegada às livrarias da coleção risco:ruído, da editora de São Paulo DBA, especializada em livros de gastronomia, arte, obras institucionais, etc. e que estava interessada em ingressar no mercado da literatura. Eu obviamente nunca havia lido nada sobre arte, gastronomia e coisas congêneres, mas já havia conhecido o trabalho da DBA por meio da promissora (e também decepcionante) coleção Camisa 13, lançada lá em 2001 e que trazia a história de cada um dos 13 grandes clubes brasileiros pelo ponto de vista de um torcedor famoso.
O livro — único romance da autora, que se matou aos 40 anos anos pouco antes da obra ser publicada — parte de uma premissa tão simples quanto perturbadora: há coisas sórdidas demais para que os olhos de um adulto consigam suportá-las. Em breves 198 páginas Veteranyi cria uma história com toques autobiográficos e escrita de modo a construir uma atmosfera de sonho. É um livro que mistura crônica memorialística, novela, poesia e drama, na agridoce narrativa de uma menina romena que vive com a família em um circo, viajando pela Europa depois de fugirem do regime brutal do ditador da Romênia Nicolau Ceausescu.
Pode parecer difícil acreditar nisso, mas quase já não individualizo os hóspedes. Cheguei a um estado em que todos são iguais para mim. No início, eu os reconhecia. Inclusive, uma vez ou outra, cheguei a sentir carinho por algum deles. Mas agora não são mais que corpos em transe rumo ao desaparecimento. Vem à minha memória um em especial, a quem eu já conhecia de antes que ficasse doente. Tinha uma beleza tranqüila, como a dos cantores estrangeiros que aparecem na televisão. Lembro-me de que, quando organizávamos algum concurso de beleza, a rainha sempre pedia para tirar fotos ao lado dele. Creio que aquilo dava um toque internacional às cerimônias. Esse rapaz viajava para o exterior com regularidade. Sabia-se que tinha um amante com muito dinheiro, por quem foi abandonado assim que adoeceu. O rapaz não quis recorrer à família. Inventou uma viagem e veio se alojar no Morredeiro. Vendeu o apartamento que possuía e me entregou todo o dinheiro. Antes que sua doença avançasse a ponto de deixá-lo num delírio constante, contou-me que suas freqüentes viagens não eram somente viagens de prazer, mas que tinha como missão transportar drogas escondidas no corpo. Explicou-me, em detalhes, os métodos que utilizava para carregá-las. Alguns deles chegaram a me causar repulsa. Comoveu-me a forma como alguém tão bonito tinha sido utilizado daquele jeito por um amante. Acho que até cheguei a sentir uma coisa especial por sua pessoa, pois deixei de dar a atenção devida aos outros hóspedes e, durante o tempo que durou sua agonia, só estive dedicado a atender suas necessidades. Como uma deferência especial, coloquei um aquário cheio de peixes na sua mesa de cabeceira. Emocionou-me constatar que aquele rapaz não foi alheio às minhas preocupações. De alguma forma, também me demonstrou seu carinho. Inclusive algumas vezes estive em situação íntima com aquele corpo decomposto. Não me importaram as costelas protuberantes, a pele seca, nem sequer aqueles olhos conturbados nos quais, curiosamente, ainda havia lugar para o prazer.
Faz parte inevitável do jogo hoje em dia. Um filme de sucesso pode fazer mais pela carreira e pelo reconhecimento de um autor do que a própria qualidade literária do escritor. Richard Yates era uma influência consistente na literatura americana no Século XX, mas andava meio sumido e foi recuperado pelo filme de Sam Mendes, nem tanto pela já mencionada influência e mais porque Foi Apenas Um Sonho 




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