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Posts de abril 2009

Passe Livre

30 de abril de 2009 5

Hoje o mercado editorial brasileiro é dominado por uns seis grandes conglomerados editoriais que estão sempre disputando entre si o passe de alguns dos nomes mais representativos da ficção brasileira. Não que publicar seja mais fácil para o estreante, para esses o sistema parece continuar o mesmo: lançamento de algumas obras por editoras pequenas ou regionais, o que pode servir para chamar a atenção do gigante e render aí sim um contrato de publicação. Mas com aqueles autores brasileiros considerados “canônicos” e cuja obra ainda não caiu em domínio público (logo, Machado não vale), a briga é cerrada entre as casas editoriais para trazer para seus catálogos nomes respeitáveis, obras que marcaram época e escritores ainda em atividade e que garantem vendas boas e constantes (embora não monstruosas) porque sua obra é estudada com profundidade ou recomendada nas escolas. Ah, sim, e até o Paulo Coelho, a rigor nosso maior best-seller, foi alvo dessa disputa.

De uma década para cá, vimos a Objetiva comprar o passe de Luis Fernando Verissimo (que era da L&PM), a Agir comprar os direitos de publicação da obra de Nelson Rodrigues, que vinha saindo pela Companhia, reunir a obra de Mário de Andrade (que saía pela Itatiaia) e tomar da Planeta o novo romance de Paulo Coelho (que já havia deixado a Rocco uns seis anos antes). A Planeta arrebatou da Nova Fronteira o clássico 1968: O Ano que Não Terminou, de Zuenir Ventura, e ainda o publicou com uma continuação escrita para marcar os 20 anos do tal ano ininterrupto. Nessa ciranda, a Companhia das Letras foi uma das mais ativas: trouxe para seu time Erico Verissimo e Jorge Luís Borges (cuja obra saía pela Globo), Jorge Amado (que era da Record), Lygia Fagundes Telles (que era da Rocco) e Vinicius de Moraes (que eu não me lembro onde estava. Ediouro? Alguém lembra?).

Pois depois de tantas contratações vitoriosas a Companhia sofreu uma perda importante. Depois que a notícia foi publicada no jornal O Globo, a editora divulgou um comunicado hoje à tarde informando que Rubem Fonseca não faz mais parte de seu catálogo, interrompendo assim uma relação de duas décadas e mais de 20 títulos — incluindo aí edições de bolso de títulos como Agosto e A Grande Arte e uma coletânea de 64 contos naquela coleção de coletâneas que tem reunido mestres nacionais e estrangeiros da narrativa curta.

Por ora, pelo teor do comunicado, Fonseca não está acertado com ninguém — qualquer acerto seria visando, obviamente, ao próximo livro do autor, já em produção, já que toda sua obra ainda está disponível pela companhia e será repassada para a nova editora à medida que os títulos forem esgotando. A Companhia disse que não comentaria as razões. E se a companhia não abre o jogo, merece um prêmio quem conseguir fazer falar o próprio Fonseca, conhecido por não dar entrevistas no Brasil há anos. Provavelmente, no momento mesmo em que redijo este post, já deve estar em curso uma disputa nos bastidores pelas demais editoras nacionais para trazer para seu convívio um dos gigantes nacionais ainda em atividade.

STIEGmas do sucesso

30 de abril de 2009 0

O que esperar de uma trilogia policial que já vendeu dezenas de milhões de cópias, foi traduzida para outra dezena de idiomas e que está com o segundo e terceiro filmes em fase de pós-produção? Escrever um quarto livro, claro. O primeiro problema é que estamos falando da série Millennium, e o cérebro por trás dessa máquina de ganhar dinheiro, o sueco Stieg Larsson, não emite mais sinapses. Falecido em 2004, ele não chegou perto de sentir o gostinho do sucesso de sua criação. No entanto, sua viúva, Eva Gabrielsson, alega possuir as primeiras duzentas páginas do que seria o quarto volume das aventuras do jornalista Mikael Blomkvist e da hacker Lisbeth Salander.

E este é o segundo problema. Eva atualmente trava uma épica batalha pelo espólio do falecido marido, que não chegou a assegurar em testamento os direitos da companheira _ medida necessária, já que não eram oficialmente casados apesar de três décadas de união estável e um filho. Logo, toda a montanha de dinheiro que a trilogia arrecadou, e continua a arrecadar, passa bem longe das mãos da viúva. O que a faz, naturalmente, segurar como pode o material inédito _ embora a editora responsável pela publicação de Larsson, a Nordstedt, já tenha avaliado a possibilidade de concluir, com outros autores, o livro inacabado.

Se não houver nenhum imprevisto, sai no Segundo Caderno da próxima quarta-feira, a resenha do segundo título da coleção Millennium, A Menina que Brincava com Fogo. Você pode ler sobre o primeiro volume, Homens que Odiavam as Mulheres, clicando aqui.

Postado por Gustavo Brigatti

Revista bacana na rede

30 de abril de 2009 3

Bueno, quem disse que esse twitter não serve para alguma coisa? Foi por ali que eu descobri a existência de uma revista eletrônica bem bacana produzida aqui no Rio Grande do Sul, a Things, que tem periodicidade bimestral e já está no sétimo número (logo, tem mais de um ano e só o juca aqui ainda não conhecia).

A Things se enquadra numa tendência recente de aproveitar a atual tecnologia (internet, digitalização e criação de documentos pelo Adobe) para criar, na rede, uma revista com cuidado editorial e requinte que não teria como sobreviver se precisasse ser impressa em papel. Já falei bastante sobre isso em um post lá de janeiro no qual falava do primeiro número da revista eletrônica da editora Não, também daqui de Porto Alegre, e não vou repetir o lero-lero, quem não leu, é só clicar aqui.

Descobri a Things porque eles se tornaram “seguidores” (é só a mim que a conotação religiosa dessa palavra em português incomoda?) do twitter do blog, fui lá olhar e gostei bastante do material. A revista tem uma versão folheável em Adober Flash Player e os arquivos digitais do PDF comprimidos (ou zipados, como queiram) para serem baixados direto no seu computador. Diferentemente da revista da Não, a Things tem uma abordagem mais geral, e é possível encontrar ali ensaios fotográficos de shows recentes que rolaram na cidade (atenção para o sobre o Deep Purple, que abre a edição nº 7), textos sobre cinema (O Lutador e Eu, Você e Todos Nós, no caso deste número), música (a boa banda local Pública, por exemplo), artes plásticas, além, é claro, de livros e quadrinhos. Nesa área, destaque para o texto sobre os 20 motivos para ler Watchmen e uma bela resenha de Admirável Mundo Novo, o clássico de ficção científica de Aldous Huxley.

A revista aceita colaborações, pelo que entendi. Deem uma chegada lá no site e confiram os parâmetros da revista para o envio de fotos e textos. O prazo para a edição nº 8 encerra-se agora dia 10 de maio.

Postado por Carlos André Moreira

Diabinha de Butique

29 de abril de 2009 4

Antes de dar a vez ao Gustavo, uma palavrinha de seu editor. Sabiam vocês que o blog do Roger Lerina recentemente bateu recordes de acessos com a publicação antecipada de uma foto da Priscilla do BBB para o Paparazzo? Não, não sabiam mas eu conto. O que me fez perceber (sim, só agora, sou meio lento mesmo, desculpem) o que, afinal, o público de qualquer mídia, eletrônica ou física, quer: mulher pelada. Infelizmente, as chances de termos isso aqui neste blog sem fugir do assunto são escassas. Quando, portanto, o Gustavo apareceu com este texto sobre Diablo Cody e o livro no qual ela narra sua vida de stripper, imediatamente pensei: “feito, rede é gol!”. Finalmente uma chance de termos uma autora seminua em nossas telas, alavancando assim a audiência do blog. Imaginem, então, minha frustração ao descobrir, na minha pesquisa feita no Google, que há pouquíssimas imagens de Diablo Cody antes de estourar como a roteirista de Juno — depois do que, compreensivelmente, ela não precisou mais tirar a roupa profissionalmente. Logo, sorry, folks, mas vamos ter que nos contentar com a imagem que ilustra este post, que até não é tão má, pensando bem. Após esse breve comentário sobre os bastidores de seu blog preferido, passamos outra vez a palavra ao nosso colaborador Gustavo “Paradinha” Brigatti.

Brook Busey era uma típica nerd norte-americana, filha da classe média de Chicago, entediada e em  sem muita coisa para dizer. Viciada em internet, se apaixonou virtualmente e foi morar com o namorado em Minneapolis, no estado do Minnesota, em 2007. Lá, cansada de seu subemprego em uma agência de publicidade, decidiu entrar para a indústria do sexo. Com o apoio do parceiro, começou a dançar em clubes de striptease e chegou até a ser dançarina de peepshow. Entediou-se disso também, escreveu um livro de memórias sobre seus dias de stripper e, um tempo depois, ganhou o Oscar de melhor roteiro de uma produção independente em 2008.

Não sabe quem é Brook Busey, não é? E tampouco se interessaria em saber se não fosse pela última frase, confesse. Só que Brook Busey é Diablo Cody, e seu trabalho em Juno foi talvez o factóide mais comentado daquele ano. Até lá, ninguém sequer tinha ouvido falar de seu livro de estreia, o autoexplicativo Minha Vida de Stripper (Tradução de Ana Carolina Bento Ribeiro. Nova Fronteira, 224 páginas, R$ 34,90)

A brochura ganhou lançamento no Brasil no ano passado, na esteira do sucesso do filme, e serviu para esclarecer alguns pontos apenas pincelados nas reportagens a respeito de Diablo. Sim, ela foi uma stripper. Mas não por necessidade ou falta de opção, e sim porque precisava romper com os pais. Seu divã, no caso, foram os postes cromados dos inferninhos de Minneapolis, onde se abria — literalmente — para estranhos. E ainda ganhava uns bons trocados, é bom ressaltar.

Mas praticar pole dance, striptease, lap dance em cadeiras e camas, e até se esfregar em cabines para sujeitos esquisitos fazerem o mesmo, foi o máximo a que se permitiu. Diablo não chegou a se prostituir de fato. Chegou perto, mas recuou. Estava nessa, afinal, pela farra, pelo auto-conhecimento e até por curiosidade. Para tanto, procura dar ares de estudo antropológico não poupando detalhes na descrição da exótica fauna de desviados sexuais que frequenta os clubes e cabines onde trabalha, bem como da vida profissional de suas companheiras.

Cheio de tiradas espirituosas, links de cultura pop e chistes pretensamente intelectuais, Minha Vida de Stripper prenunciava, de certo modo, o que seria visto quase um ano depois em Juno. Não é ruim, mas também não traz nenhum tipo de frescor, seja em estilo, seja em conteúdo. E em muitos momentos, peca por ser blasé demais. Como, hã, Juno.

Mas o verdadeiro potencial da garota ainda está em xeque. Previsto para setembro, o longa Jennifer´s Body será a prova de fogo de Diablo Cody. É dela a história da adolescente que, possuída por um espírito maligno, começa a canibalizar quem cruza seu caminho. Se for bem, será sua consagração como novo nome de peso em Hollywood. A boa notícia é que Megan Fox é a estrela principal. A má, é que a diretora é Karyn Kusama, dos inclassificáveis Girlfight e Æon Flux.

Será, definitivamente, o caso de acender uma vela para deus e outra pro diabo. E dependendo do naufráugio que se anuncia, é melhor que ela não tenha perdido um rebolado.

Postado por Gustavo Brigatti

Momento Sebo

29 de abril de 2009 1

No já distante ano de 2004, uma das novidades que mais me entusiasmaram no mercado editorial foi a chegada às livrarias da coleção risco:ruído, da editora de São Paulo DBA, especializada em livros de gastronomia, arte, obras institucionais, etc. e que estava interessada em ingressar no mercado da literatura. Eu obviamente nunca havia lido nada sobre arte, gastronomia e coisas congêneres, mas já havia conhecido o trabalho da DBA por meio da promissora (e também decepcionante) coleção Camisa 13, lançada lá em 2001 e que trazia a história de cada um dos 13 grandes clubes brasileiros pelo ponto de vista de um torcedor famoso.

A série abriu com o Ruy Castro escrevendo um belíssimo e apaixonado livro sobre o Flamengo — e o José Roberto Torero criou um divertido Dicionário Santista logo na sequência, mas o que veio depois cortou o barato. Os livros de Mario Prata sobre o Palmeiras e o de Washington Olivetto sobre o Corinthians foram uma decepção – e sei lá por quê, alguns anos depois a DBA parou de publicar a coleção, que só teve prosseguimento e conclusão pela Ediouro.

Mas eu puxei esse assunto nada a ver porque ia falar mesmo de outra iniciativa com a qual a DBA ganhou meu acompanhamento entusiasmado no começo e minha curiosidade perplexa no desenrolar. Lá em 2004 saíram os primeiros exemplares de uma coleção dedicada a dar visibilidade à obra de alguns autores revelantes mas de perfil mais alternativo e oferecer ao mesmo tempo uma oportunidade de estreia a jovens revelações. A direção editorial do projeto ficou a cargo de quatro escritores contemporâneos: Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Joca Reiners Terron e Ronaldo Bressane, e logo na primeira leva trazia, além de contos da veterana jornalista Cecília Prada, um romance inédito de Paulo Leminsky, O Natimorto, de Lourenço Mutarelli, e uma seleção de contos do advogado Luiz Lopes Coelho, amigo da turma do Pasquim e um dos pioneiros da ficção policial no Brasil. Pelo que a editora informou na época, esses eram apenas os primeiros quatro livros de uma coleção já com 20 lançamentos planejados, um deles a volta às livrarias do intrigante e experimental Phutatorius, único livro de Jaime Rodrigues — diga-se de passagem, o único lugar em que eu cheguei a ver mais de um exemplar da edição antiga foi na biblioteca da Fabico quando estava na faculdade.

Altamente recomendável, não? Eu, ao menos achei. Considerei o projeto outra vez promissor, e parecia que a série viria realmente a cumprir seu papel, logo depois, com a publicação de um hilário livro de contos de André Czarnobai, o célebre Cardoso, e o primeiro romance de Daniel Pellizzari, o Mojo. Ó fato é que ainda se acha alguns livros dessa coleção por aí (tentem as livrarias pequenas), mas o projeto dos 20 livros gorou, pelo jeito, já que a editora nunca mais falou nisso e interrompeu sua série “literária” com esses oito títulos.

Mas todo este texto tem, na verdade, a intenção de dar o toque sobre um desses lançamentos em particular. Claro, qualquer um deles vale seu dinheiro se você topar com eles em um sebo, mas o título da coleção que mais me provocou impacto naquela época foi o belo Por que a Criança Cozinha na Polenta, da dramaturga romena Aglaja Veteranyi (1962 — 2002).

O livro — único romance da autora, que se matou aos 40 anos anos pouco antes da obra ser publicada — parte de uma premissa tão simples quanto perturbadora: há coisas sórdidas demais para que os olhos de um adulto consigam suportá-las. Em breves 198 páginas Veteranyi cria uma história com toques autobiográficos e escrita de modo a construir uma atmosfera de sonho. É um livro que mistura crônica memorialística, novela, poesia e drama, na agridoce narrativa de uma menina romena que vive com a família em um circo, viajando pela Europa depois de fugirem do regime brutal do ditador da Romênia Nicolau Ceausescu.

A mãe é equilibrista, todas as noites se pendura no alto da lona agarrada pelos longos cabelos. O pai, um dos palhaços do circo, é fascinado sexualmente pela filha mais velha, irmã da narradora. A mesma irmã que toda noite distrai o medo de que a mãe caia das alturas contando para a mais nova uma história folclórica  romena, a da “criança que cozinha na polenta”. Tecendo reflexões que buscam na
brevidade da poesia a inocência e o olhar exótico de uma criança, a escritora cria a impressão de um universo no qual alguma coisa indefinida parece fora do lugar.

A miséria e a brutalidade do cotidiano da pequena são vistos por meio de uma perspectiva mágica, minimalista e concisa, como uma redação escolar (como por exemplo no trecho “Na Romênia as crianças nascem velhas porque já são pobres dentro da barriga das mães e ficam ouvindo as preocupações dos pais”).

Nascida ela própria em uma família circense, em Bucareste, em 1962, Veteranyi (a garota de aparência andrógina que vocês podem ver na foto que ilustra este post) também viveu a infância em um circo, passou a maior parte da vida na Suíça, com a família exilada, e foi atriz e diretora teatral. Com sua morte, seu único livro se constitui em um poético e doloroso testamento.

Postado por Carlos André Moreira

A crua beleza de Mario Bellatin

29 de abril de 2009 1

Pode parecer difícil acreditar nisso, mas quase já não individualizo os hóspedes. Cheguei a um estado em que todos são iguais para mim. No início, eu os reconhecia. Inclusive, uma vez ou outra, cheguei a sentir carinho por algum deles. Mas agora não são mais que corpos em transe rumo ao desaparecimento. Vem à minha memória um em especial, a quem eu já conhecia de antes que ficasse doente. Tinha uma beleza tranqüila, como a dos cantores estrangeiros que aparecem na televisão. Lembro-me de que, quando organizávamos algum concurso de beleza, a rainha sempre pedia para tirar fotos ao lado dele. Creio que aquilo dava um toque internacional às cerimônias. Esse rapaz viajava para o exterior com regularidade. Sabia-se que tinha um amante com muito dinheiro, por quem foi abandonado assim que adoeceu. O rapaz não quis recorrer à família. Inventou uma viagem e veio se alojar no Morredeiro. Vendeu o apartamento que possuía e me entregou todo o dinheiro. Antes que sua doença avançasse a ponto de deixá-lo num delírio constante, contou-me que suas freqüentes viagens não eram somente viagens de prazer, mas que tinha como missão transportar drogas escondidas no corpo. Explicou-me, em detalhes, os métodos que utilizava para carregá-las. Alguns deles chegaram a me causar repulsa. Comoveu-me a forma como alguém tão bonito tinha sido utilizado daquele jeito por um amante. Acho que até cheguei a sentir uma coisa especial por sua pessoa, pois deixei de dar a atenção devida aos outros hóspedes e, durante o tempo que durou sua agonia, só estive dedicado a atender suas necessidades. Como uma deferência especial, coloquei um aquário cheio de peixes na sua mesa de cabeceira. Emocionou-me constatar que aquele rapaz não foi alheio às minhas preocupações. De alguma forma, também me demonstrou seu carinho. Inclusive algumas vezes estive em situação íntima com aquele corpo decomposto. Não me importaram as costelas protuberantes, a pele seca, nem sequer aqueles olhos conturbados nos quais, curiosamente, ainda havia lugar para o prazer.

A impactante cena acima faz parte de Salão de Beleza (Tradução de Maria Alzira Brum Lemos. Leitura XXI, 80 páginas, R$ 17,80), publicado em 2007 na série Novelas Exemplares da Leitura XXI, editora daqui de Porto Alegre, e até agora o único texto disponível em português do grande escritor mexicano Mario Bellatin. Situação que vai mudar este ano. Até julho, deve sair pela Cosac Naify outra novela dele, Flores. E para o fim do ano, está agendada a publicação de um conto de Bellatín em uma coletânea encomendada pela Companhia das Letras a 10 escritores. A ideia era que cada um dos participantes construísse uma história curta inspirada livremente em uma canção de Chico Buarque. Estão no projeto nomes como os argentinos Alan Pauls (Ela faz cinema) e Rodrigo Fresan (Outros sonhos), o moçambicano Mia Couto (Olhos nos olhos) e os brasileiros André Sant’Anna (Brejo da Cruz), João Gilberto Noll (As vitrines) e Luis Fernando Verissimo (Feijoada completa), entre outros. A música que coube a Bellatín foi Construção — que casa bem com o corte exato e sintético de sua prosa. 

Um dos nomes cruciais para se compreender a nova literatura latino-americana, Bellatin é um mestre da novela, o relato curto escrito com concisão desconcertante e que, por isso mesmo, carrega uma arca preciosa de subentendidos e não ditos. Ah, e já ia quase esquecendo. Bellatin é um dos nomes confirmados para a Festa Literária Internacional de Parati (Flip), na qual vai dividir o palco de debates com o multipremiado Cristóvão Tezza.

Falando especificamente de Salão de Beleza, trata-se de uma fábula sombria na qual um cabeleireiro de subúrbio de uma grande cidade transforma o salão de beleza em que trabalhava em um abrigo terminal para ex-michês e travestis, como ele, vitimados por uma misteriosa doença. Fascinado por peixes e aquários, que montava para embelezar o outrora ativo salão, o personagem se transforma no último enfermeiro para uma classe de desassistidos que agonizam dolorosamente sem lugar para ficar ou família e amigos a quem recorrer. Enquanto o protagonista em primeira pessoa disserta sobre sua mania por aquários e sua inconstância de temperamento — que o faz trocar Guppies Reais por Carpas Douradas e mais tarde por Godlfish ou peixes-Freirinhas —, vai-se tomando conhecimento, também, da disseminação da misteriosa epidemia e do passado do narrador, outrora um travesti que se dedicava a buscar diversão com amigos nas saunas e nas ruas do centro da cidade (não nomeada, bem como o país, o salão, o personagem).

Fiquei tão impressionado com Salão de Beleza que fui atrás de mais — e encontrei outra novela do autor, ainda inédita em português, Perros Héroes, na qual um homem imóvel e trinta cachorros são a base para uma fragmentária narrativa que se apresenta com um tratado alegórico sobre o futuro da América Latina. Uma mistura na dose exata de ironia, poesia e sarcasmo. O que só me deixa mais convencido que a vinda de Bellatin talvez seja a oportunidade perfeita para tornar esse autor ainda obscuro popr aqui mais conhecido — com justiça. Confiram abaixo uma palhinha de Perros Héroes no original mesmo (eu até podia traduzir, mas tá tarde e espanhol não é lá essa façanha toda):

Cerca del aeropuerto de la ciudad vive un hombre que, aparte de ser un hombre inmóvil — en otras palabras un hombre impedido de moverse —, es considerado uno de los mejores entrenadores de Pastor Belga Malinois del país. Comparte la casa con su madre, una hermana, su enfermero-entrenador y treinta Pastor Belga Malinois adiestrados para matar a cualquiera de un solo mordisco en la yugular. No se conocen las razones por las que cuando se ingresa en la habitación donde aquel hombre pasa los días recluido, algunos visitantes intuyen una atmósfera que guarda relación con lo que podría considerarse el futuro de América Latina. Este hombre suele decir, en su casi incomprensible forma de hablar, que una cosa es ser un hombre inmóvil y otra un retardado mental.

Postado por Carlos André Moreira

Não é aquele, é Outro

28 de abril de 2009 0

Faz parte inevitável do jogo hoje em dia. Um filme de sucesso pode fazer mais pela carreira e pelo reconhecimento de um autor do que a própria qualidade literária do escritor. Richard Yates era uma influência consistente na literatura americana no Século XX, mas andava meio sumido e foi recuperado pelo filme de Sam Mendes, nem tanto pela já mencionada influência e mais porque Foi Apenas Um Sonho (mais aqui mesmo no blog) é “o livro que originou o filme com Kate Winslet indicado ao Oscar”. Não vou ser um elitista filho da mãe e achar isso de todo ruim — se o escritor é realmente bom, não interesse muito se o reconhecimento veio de seu talento literário, de um filme, ou de uma arma apontada para as cabeças certas. O que interessa é que ele seja lido.

Guardadas as devidas proporções, é uma situação semelhante à do alemão Bernhard Schlink, que se tornou famoso como autor também “do livro que originou o filme com Kate Winslet indicado ao Oscar” — O Leitor, para ser mais específico, e você pode ler mais sobre ele neste link. Quem se comoveu com o filme e foi atrás do livro encontrou uma história quase igual à do filme, mas narrada com uma voz bastante peculiar — aquilo que faz um escritor, no fim das contas. Schlink é sóbrio, direto, no limite da secura, sua prosa assume um tom de neutralidade que causa um efeito poderoso ao narrar as transformações internas do personagem com o mesmo laconismo distanciado com que discorre sobre a rotina física de seus personagens — muitas vezes incolor como a do protagonista de O Outro (Tradução de Kristina Michaeles 96 páginas, R$ 15,90), livro novo do escritor, que ganha edição agora no Brasil pela Record (e que sim, também virou filme, mas não tem a Kate Winslet nem vai fazer o mesmo barulho que O Leitor, tanto que deve sair direto em DVD).

Nesta novela enxuta e de uma melancolia contida que não resvala para a pieguice (também em O Leitor Schlink já havia conseguido feito semelhante, o que joga a favor de seu talento), conta-se a história de Bergt, ex-funcionário ministerial alemão que perde a mulher, a violinista Lisa (“segunda estante da primeira fila”), vitimada pelo câncer. A idade de Bergt é indefinida, mas é indubitável que se trata de homem já entrado em anos: tem dois filhos já adultos, um deles, a filha, com 30 anos. Depois de organizar metodicamente todos os compromissos decorrentes da morte da mulher, como o funeral, o sepultamento, as questões financeiras, Bergt se entrega ao luto em sua casa, apático como um amputado emocional. Um dia, com a correspondência de todo dia, chega uma carta manuscrita para sua mulher, provavelmente alguma amiga ou amigo que não tinha contato o bastante para saber do falecimento (não seria a primeira carta do tipo que ele recebe). Ao abri-la, contudo, o homem encontra uma mensagem amorosa e bastante íntima para sua mulher, escrita por um tal Rolf, de quem ele nunca ouvira falar. Fica óbvio que o homem é algum amor do passado da esposa, do qual ele não tinha nenhum conhecimento. A princípio transtornado, Bergt apenas responde, lacônico, com uma mensagem assinada B., na qual comunica ao estranho que “a mulher que ele conheceu e amou morreu”.

Por um mal-entendido, o misterioso “outro” entende o B. da assinatura como a inicial do apelido íntimo pela qual chamava a amante, e responde com outra carta, com novas revelações. O caso se dera quando ele e a mulher ainda estavam casados, isso está claro. Atingido em seu orgulho, magoado pela traição, confuso pela descoberta de uma vida secreta que a mulher lhe ocultara, e até com ciúmes de que ela pudesse ter sido com o ouro algo que nunca fora com ele, Bergt dá prosseguimento à correspondência, para tentar extrair do outro essa imagem desconhecida da mulher que amou.

A trama em si da correspondência na qual uma das partes finge ser o que não é não é nova, e se tornou menos original ainda na era dos e-mails com nickname. A diferença está no desenvolvimento digno e sóbrio com que Schlink conduz a trama até seu fim. Sua prosa certeira e direta, aliada à breve extensão do livro, faz de O Outro um livro para ser lido em duas horas, provocando, com essa unidade de leitura, o duradouro “efeito de unidade” do qual Poe falava em sua Filosofia da Composição. Uma leitura que permanece pela firmeza e sensibilidade com que o autor a desdobra — e que tira seus melhores momentos das ocasiões em que Bergt confronta suas próprias emoções tentando entender o que o move nessa busca por uma verdade que será inevitavelmente dolorosa.

Postado por Carlos André Moreira

Espero vocês lá

24 de abril de 2009 0

Como parte da programação oficial da segunda edição da FestiPoa Literária, o editor deste blog vai dividir uma mesa amanhã, às 19h, na livraria e café Palavraria (Vasco da Gama, 165), para um debate com o escritor e editor Walmor Santos e com o também escritor Volnyr Santos (nenhum parentesco, que eu saiba). O objetivo é debater o romance Contestado: o poder da fé, escrito por Walmor e publicado há uns 15 dias pela editora Record (272 páginas. R$ 39). A entrada franca e espero vocês lá.

O romance aborda um trágico massacre popular ocorrido em Santa Catarina, estado natal do autor. Contestado: O poder da Fé, é o primeiro volume de um díptico intitulado A Guerra dos Equívocos, destinado a recuperar  ficcionalmente um episódio em que a nascente república preferiu, a exemplo de Canudos, a histeria da ordem à administração da justiça. O Contestado foi, assim
como Canudos, um episódio sangrento dos primeiros tempos da República. Embora menos célebre, reuniu, entre 1912 e 1916, em uma área em litígio entre Santa Catarina e Paraná, os mesmos elementos que levaram ao massacre no sertão baiano: messianismo, corrupção para garantir a posse de terras a latifundiários truculentos e um exército que só tinha a violência para oferecer como resposta aos miseráveis.

Santos retraça essa relação com a guerra santa do Sertão baiano. Embora seja um romance, Contestado: A Guerra dos Equívocos, se inicia com um prólogo não ficcional no qual o autor expõe antecedentes históricos e sociais do conflito, aproximando, na intenção, a obra do clássico Os Sertões de Euclides da Cunha. Também dois personagens do romance estiveram no cenário do Contestado depois já haver estado em Canudos: um frade franciscano e o próprio comandante responsável pela repressão aos revoltosos. Ambos, por sinal, personagens reais.

Esse é um recurso de que Santos lança mão para recontar o episódio em seu livro:o contraponto entre personagens reais e fictícios. Os dois eixos motores da narrativa são o frei Rogério Neuhaus, figura histórica, franciscano divido por viver em segurança no convento enquanto a guerra chacina os pobres, e seu discípulo e aprendiz Marcolino, noviço fictício que se estabelece junto aos caboclos, tentando minorar o sofrimento dos enfermos e famintos.

Em uma primeira leitura, o livro pode desconcertar pela rapidez com que o autor põe em cena personagens interessantes para depois ignorá-los ou desenvolver suas histórias aos saltos. A explicação é que essas figuras estarão no centro do segundo volume, voltado para a guerra propriamente dita, que opôs caboclos expulsos de suas terras a coronéis e forças de segurança estaduais e nacionais.

O segundo volume, A Fé no Poder, já está na fase de burilamento do texto, para que tenha o mesmo tom e a mesma estrutura (até o número de capítulos) ao primeiro. Quem se interessar, apareça amanhã no debate.

Postado por Carlos André Moreira

Duas opiniões divergentes...

24 de abril de 2009 2

…emitidas pelo mesmo personagem a respeito de Ernesto Che Guevara — e que colocamos aqui aproveitando que a primeira parte da cinebiografia do homem dirigida por Steven Soderbergh estreia em Porto Alegre esta semana:

O diário do Che
O
Diário de campanha do “Che” Guevara ficará como um dos livros mais fascinantes do nosso tempo. Se a revolução latino-americana se faz segundo o método concebido pelo “Che” e passando pelas etapas por ele previstas, o Diário será um documento extraordinário, a relação histórica do momento mais difícil e heróico da liberação continental. Se a revolução não se faz, ou demora, ou se concretiza sob vias distintas à imaginada pelo “Che”, o Diário perdurará como testemunho da mais generosa e ousada aventura individual intentada na América Latina.
Mas antes de tudo, o
Diário é a revelação de uma personalidade. Começa no dia em que o “Che” chega à selva boliviana para assumir o comando do grupo de homens que vai iniciar a insurreição (embora o número total não apareça, se deduz que a guerrilha não passava de cinqüenta integrantes) e se interrompe na noite anterior ao combate em que o “Che” será ferido e capturado. No fundo, se o “Che” não tivesse tido atuação política antes de chegar à Bolívia, o que ele viveu ali nos meses finais de sua existência bastria para colocá-lo, na história da América Latina, nas alturas de um Bolívar ou um Martí. Não só porque, como eles, foi um intelectual e um homem de ação, mas porque suas ambições e convicções políticas têm coincidências muito grandes com as do venezuelano ou o cubano. Há uma idéia-chave na vida e pensamento do “Che”: a unidade latino-americana. Essa idéia, que perseguiu Bolívar e que em Martí teve um lúcido teórico, aparece no Diário como o suposto primordial sobre o qual foi construído o projeto revolucionário do “Che”. Os combatentes constituem um leque de nacionalidades — cubanos, argentinos, peruanos, bolivianos — e essa heterogeneidade está premeditada para dar à guerrilha, desde o começo, um caráter continental. O “Che” está alerta todo o tempo contra qualquer foco de “chauvinismo”, e várias vezes precisou resolver as rivalidades que nascem dos sentimentos regionalistas.(…) O “Che aspirava a que os dirigentes revolucionários se convertessem, assim, no que ele foi toda a sua vida: um cidadão da América.
Mario Vargas Llosa, em um texto de 1968.

Aniversário da morte de “Che”
Nada ilustra melhor a extraordinária mudança da cultura política do nosso tempo que a maneira quase furtiva como transcorreu o aniversário da morte de Ernesto Guevara, o “Che”, assassinado há 39 anos — 9 de outubro de 1967 — por um sargento obediente e assustadiço. O lendário comandante de longos cabelos e boina azul, metralhadora no ombro, charuto fumegando entre os dedos, cuja imagem deu volta ao mundo e foi durante os anos sessenta símbolo da rebeldia estudantil, inspirador de um novo radicalismo e modelo para as aspirações revolucionárias dos jovens de cinco continentes, é agora uma figura semi-esquecida que não inspira nem interessa a ninguém, cujas idéias foram se petrificando em livros sem leitores e a quem a história contemporânea tanto manuseou até confundi-lo com essas múmias históricas de terceira ou quarta jogadas em algum canto obscuro do cemitério.
Acontece que nesses cinco lustros os acontecimentos sociais e políticos desmentiras de forma contundente o que o “Che” pregou e empurraram a humanidade por um caminho exatamente oposto ao que ele queria. Do socialismo só a versão aburguesada e democrática sobrevive; a outra, a que ele defendeu, foi borrada do planeta por iniciativa das massas que a padeciam, como na Rússia e na Europa central, ou degenerou e transformou-se num estranho híbrido, como na China Popular onde o Partido Comunista acaba de aprovar, triunfalmente, em seu último congresso, a marcha inestancável rumo ao mercado e o capitalismo sob a direção esclarecida  — e única! do marxismo-leninismo-maoísmo. (…) A figura do “guerrilheiro” perdeu sua auréola valorosa e romântica de antes. Agora, por trás das barbas e as melenas ao vento de aquele protótipo que há vinte anos parecia um generoso idealista, se vislumbra a fanática e covarde silhueta do terrorista que, emboscado nas sombras, explode carros e assassina inocentes.
Mario Vargas Llosa, em texto publicado primeiro em 1992 e com ajustes feitos para republicação em um livro editado em 2005 lá fora.

Ambos os textos fazem parte do verbete GUEVARA, Ernesto “Che“, do Dicionário Amoroso da América Latina (Ediouro, 2006, Tradução de Wladir Dupont e Hortencia Lancastre), provando como as pessoas podem mudar bastante de ideia ao longo de quatro décadas.

Postado por Carlos André Moreira

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23 de abril de 2009 1

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Postado por Carlos André Moreira