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Todos os Nomes - Vermelhos

14 de maio de 2009 2

Adoro o cheiro da pimenta vermelha fritada no azeite, a chuva que cai ao raiar do dia no mar calmo, a aparição furtiva de uma mulher à janela, o silêncio, a reflexão, a paciência.
Acredito em mim e a maior parte do tempo não dou bola para o que possam falar de mim. Mas esta noite vim sentar-me neste café, com a intenção de me dirigir a nossos irmãos miniaturistas e calígrafos e desmentir certos mexericos, mentiras e inverdades.
Claro, como sou eu que falo, vocês já esta propensos a crer no contrário do que eu disser. Mas vocês são astutos o bastante para adivinhar que o contrário do que digo nem sempre é verdade e para pressentir todo o interesse do que posso dizer de sensato, mesmo desconfiando de mim. Afinal de contas, meu nome, que aparece nada menos de cinquenta e duas vezes no Venerável Corão, é um dos mais citados.
Comecemos justamente pelo livro de Alá, o Venerável Corão. Tudo o que aí está dito a meu respeito é verdade. Faço questão de que saibam que estou falando com toda humildade ao afirmar isso. O problema está é na forma. A maneira como o Corão me rebaixa sempre me magoou muito. Mas essa mágoa é meu modo de viver. É assim e pronto.
É verdade, Alá criou o homem diante dos nossos olhos de anjos. Depois pediu que nos inclinássemos diante dele. E é verdade que, como ensina a surata
A vaca, enquanto todos os outros anjos se inclinavam, eu me recusei a fazê-lo, porque objetei que Adão foi feito de barro, enquanto eu fui criado a partir do fogo, um elemento muito mais nobre, como todos vocês sabem. Não me humilhei, e Alá achou-me orgulhoso.
"Desça do Céu", disse ele. "Aqui não há lugar para quem tem sonhos de grandeza como você."
"Deixe-me em troca viver até o Dia do Juízo", repliquei, "até o dia em que os mortos se levantarão".
Ele concedeu. Jurei então que tentaria para sempre os descendentes de Adão, por causa do qual fui castigado, e Ele disse que mandaria para o Inferno todos os que eu conseguisse corromper.
Inútil dizer que mantive a palavra. Acho que não tenho muito a acrescentar sob esse aspecto.

Quando Meu Nome é Vermelho, de Orhan Pamuk, foi lançado no Brasil, em 2004, o autor, embora já tivesse sido editado por aqui pela Record, que publicou O Castelo Branco, era pouco ou quase nada conhecido no Brasil. Dois anos depois, o sujeito abocanhou o Prêmio Nobel de Literatura quando sua editora, a Companhia das Letras estava pondo em circulação seu romance Neve – e o livro, turbinado pelo prêmio, foi best-seller aqui no Brasil (a exemplo de Europa e Estados Unidos, onde suas traduções foram recebidas com entusiasmo). A Companhia gostou tanto do pé-quente que não pude deixar de notar que no ano passado, saiu pela editora O Senhor Vai Entender, uma curta novela do italiano Cláudio Magris, e a edição de bolso de Danúbio, do mesmo autor — Magris era um dos mais cotados no disse-me-disse literário que precede o prêmio, mas não levou, o prêmio ficou com o francês J.M.G. Le Clèzio. Mas não era disso que eu queria falar, era de Orhan Pamuk.

Os livros do autor turco são narrativas que, assim como seu tema central, o das marcas produzidas pelo contato entre o Oriente e o Ocidente, unem com equilíbrio o melhor das tradições literárias européias e árabes. De uns, Pamuk extrai a visão (pós-)moderna do artista que reflete sobre seu próprio ofício, o olhar crítico sobre o conhecimento e suas múltiplas facetas, representadas na multiplicidade de narradores que povoa alguns de seus melhores livros. Dos outros, o autor apresenta uma habilidade de tecer histórias como quem alinha fio a fio numa tapeçaria que, ao final, torna-se um desenho rico, belo e detalhista.

Depois do Nobel, Pamuk foi quase integralmente publicado por aqui: saíram suas memórias, Istambul, e dois romances, O Livro Negro e o já citado O Castelo Branco. Mas confesso que, embora tenha conseguido me enlevar com todos eles (os jogos labirínticos misturando poesia e prosa casam especialmente bem com meu gosto literário), aquele que mais me arrebatou foi mesmo o já mencionado Meu Nome É Vermelho.

Nas 536 páginas do romance, somos apresentados a um livro maravilhoso, em mais de um sentido: é belo e magistralmente orquestrado e é uma história contada com um pé no realismo literário e outro na fábula fantástica que os árabes praticam como ninguém desde As Mil e Uma Noites. A própria trama do romance é uma edificação maravilhosa, cuja estrutura multifacetada resiste bravamente a resumos redutores — mas vamos tentar assim mesmo. No século 16, às vésperas do milésimo ano da Hégira, episódio fundador do Islamismo, o sultão de Istambul resolve encomendar à sua escola de artistas uma edição singular do Alcorão: um livro belíssimo caligrafado pelos melhores mestres da escrita e ilustrado com um retrato fiel do sultão, realizado com "o novo estilo" realista ocidental cuja prática o monarca testemunhou durante uma visita ao Doge de Veneza. Uma empreitada megalomaníaca que pode acabar muito mal se for descoberta pelos guardiões da fé islâmica, que consideram uma afronta a representação da figura humana.

O trabalho, portanto, precisa ser executado secretamente, e um dos mestres ilustradores convoca, para ajudá-lo, seu sobrinho, chamado "O Negro". Para atender ao pedido do parente, "O Negro" retorna a Istambul após 12 anos de ausência para descobrir que sua prima, Shekure, por quem foi apaixonado na juventude e cuja mão lhe foi recusada pelo mesmo tio que hoje lhe pede favores, tornou-se uma bela mulher, mãe de dois filhos, esposa de um militar desaparecido em uma guerra quatro anos antes.

Numa narrativa que flui sem costuras visíveis entre vários gêneros, ocidentais e orientais, a história já começa com o assassinato de um dos mestres miniaturistas encarregados de ilustrar o livro do Sultão — uma morte que "O Negro" terá de desvendar ao mesmo tempo em que, às escondidas do tio, corteja sua antiga paixão. As tramas se interpenetram enquanto a narrativa, em camadas, vai se desenrolando pela voz de duas dezenas narradores: "O Negro", Shekure, alguns dos mestres ilustradores cooptados para o livro secreto, o assassino do artista, o próprio cadáver do morto e até mesmo cores, desenhos e ideias e conceitos (o trecho que vocês leram acima, se não ficou claro, é narrado em primeira pessoa pelo Diabo).

Nesse mosaico polifônico de grande beleza, com influência da lírica árabe, Pamuk entrelaça temas como a relação entre o Ocidente e o Oriente, a autoria e o anonimato na arte e mesmo as disputas internas de um Islã flagrado em um momento de crise. Numa Istambul que sofre com a miséria e a carestia provocada pelas guerras constantes, ainda que governada por um sultão patrono das artes, começam a surgir pregadores que apontam a miséria do povo como um castigo de Alá aos vícios dispendiosos da corte do sultão e aos desvios da palavra divina expressa no Alcorão - num eco do processo de fanatização que desembocou nas constantes tensões fundamentalistas de hoje.

Em Meu Nome É Vermelho, Pamuk consegue o prodígio de aliar o detalhe preciso e lírico dos miniaturistas — como seus próprios personagens — ao vigor épico dos muralistas de ampla mirada.

Comentários (2)

  • Gabriel diz: 14 de maio de 2009

    Uma pena que a tradução seja feita com base na edição em inglês. Mas, de qualquer modo, esse livro é ótimo. É verdade, Gabriel. Acho que temos ainda uma grande dificuldade em encontrar tradutores de idiomas de menor poder político ou econômico. Mas acho que já avançamos muito. Hoje há tradutores de russo, japonês, polonês, árabe no original.Carlos André

  • Pamuk e os moldes do romance | Mundo Livro diz: 12 de janeiro de 2012

    [...] livro compila seis conferências proferidas por Pamuk – autor de Meu Nome É Vermelho e Neve – no ciclo de palestras Norton, da universidade de Harvard. A cada ano, a instituição [...]

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