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Budapeste

21 de maio de 2009 5

Amanhã estreia nos cinemas de Porto Alegre o longa Budapeste, adaptação cinematográfica dirigida por Walter Carvalho com base no romance de Chico Buarque — publicado em 2003 e a melhor obra de Chico no terreno das letras, na opinião deste seu crítico. Acima, vocês podem conferir uma cena do filme, no qual o protagonista, o ghost-writer José Costa é interpretado por Leonardo Medeiros, e a moça na foto é a sensacional húngara Gabriella Hámori, que vive a amante estrangeira de Costa, a bela Krisztina, ou Kriska.

Aproveitando o ensejo (bonito isso, não?) republico aqui uma crítica que saiu no Cultura quando do lançamento do livro – com o qual Chico venceria o Prêmio Zaffari Bourbon de Literatura da Jornada Nacional de Passo Fundo dois anos mais tarde, em 2005. Como o texto saiu já faz um bom tempo, acho que vale a republicação aqui para quem não, não viu o jornal naquele dia ou até mesmo esqueceu.

Antes um aviso: é uma crítica, não uma resenha, por isso eu dou uma aprofundada em elementos do enredo e da trama. Portanto, quem padece da doença infantil da contemporaneidade que é o medo do “spoiler”, vá ver o filme, ler o livro ou lamber sabão antes de continuar acompanhando o texto abaixo. Se seguir adiante, é por sua conta e não aceitarei reclamações posteriores.

Chico, o Outro

Esqueça o Japão. China? Não, não é por aí. Para o escritor Chico Buarque — um sujeito mais conhecido por ter assinado centenas de canções de um certo compositor Chico Buarque —, o avesso do mundo é a Hungria, e os antípodas caminham pelas ruas frias de uma onírica Budapeste. Ou duas, já que a cidade é um espelho em si mesma, Buda e Pest, aglomerados urbanos cortados em ípsilon pela águas de um Danúbio por vezes amarelo, por vezes verde-escuro, nunca azul.

Budapeste (Companhia das Letras, 176 páginas, R$ 29,50) é o novo romance de Chico Buarque — o terceiro, embora alguns prefiram incluir na conta a novela alegórica Fazenda Modelo, de 1975, da qual nem Chico costuma falar muito. Dos anteriores Estorvo (1991) e Benjamim (1995), este livro recupera características suficientes para serem qualificadas de estilo: uma escrita límpida na forma e labiríntica no conteúdo, uma geografia mais imaginária que real e um punhado de situações absurdas pelas quais o personagem é capturado a intervalos cíclicos, como um graveto em um redemoinho.

Mas o que torna Budapeste o mais bem acabado livro de Chico não são seus acertos naquilo que ele já tentou, e sim o ineditismo de algumas propostas pelas quais se arrisca: uma história consistente, e não um pesadelo vago como Estorvo, ou uma estrutura menos fragmentada, embora com as idas e vindas que ecoam em Benjamim. E, o mais importante, um inusitado humor, longe da atmosfera opressiva dos outros trabalhos.

Além de armar brincadeiras com espelhos dentro do livro, Chico força as noções de realidade e de autoria, tornando o próprio romance personagem e seu  protagonista, o verdadeiro autor. Como na letra de um certo compositor chamado Chico Buarque, em que um admirador vê nos olhos da amada vitrines que por sua vez a vêem passar.

Budapeste conta a história de José Costa, escritor de aluguel, sócio de uma agência que promete sigilo na produção de artigos, monografias e dissertações que serão assinadas por terceiros. As palavras anônimas de outra pessoa. Costa tem na bela esposa Vanda seu duplo e seu oposto. Ela é apresentadora de um telejornal, rosto e voz de palavras escritas por outros — situação que ele define a determinada altura de uma discussão como a de uma “papagaia”, que lê notícias sem entendê-las.

A certo momento, Costa está voltando para casa depois de participar de um congresso internacional de escritores anônimos — uma das situações em que o humor de Chico fala mais alto que a densidade da trama. O avião faz uma parada imprevista em Budapeste devido a uma ameaça de bomba. Ao assistir televisão no hotel, Costa é fisgado pelo fluxo contínuo do desconhecido idioma húngaro, do qual “era impossível destacar uma palavra da outra, seria como pretender cortar um rio a faca“.

Fascinado por aprender a estranha língua, Costa retorna ao Brasil, mas volta em mau momento. Está perdendo espaço na agência — uma vez que seu sócio a cada dia diminui sua cota de trabalho, passando-a a jovens auxiliares treinados para substituí-lo — e o contato com sua mulher. Também não têm diálogo com o filho de três anos, uma criança obesa mergulhada em um silêncio quase autista. Pressionado pelo sócio a completar a encomenda de uma biografia romanceada de um cliente estrangeiro, Costa se desincumbe da tarefa como quem se exaure nas últimas forças. Deixa a agência e compra uma nova passagem para Budapeste. A mulher se recusa a ir com ele e Costa – ou Zsoze Kósta, como passa a ser chamado pela peculiar pronúncia dos locais – retorna sozinho à Hungria, onde, mais que ao aprendizado de um idioma, se dedica ao aprendizado de uma mulher, a professora de quem passa a tomar aulas: Krisztina ou Kriska.

A partir daí, Kósta oscila entre Budapeste e Rio de Janeiro, entre aprender o húngaro, desaprendê-lo, reaprender o português, tentar esquecê-lo outra vez para novamente enfrentar o húngaro. Por mais que treine, não consegue assimilar a totalidade do idioma húngaro, e a cada mergulho perde um pouco do que sabia de português. Também como metáfora das dificuldades lingüísticas, a retomada da vida a cada mudança de país se dá aos tropeços: conhecidos somem, as situações
se alteram e o livro de encomenda escrito às pressas para o cliente alemão vira um best-seller surpreendente quando Costa volta ao Rio — um livro de capa mostarda como a da edição de Budapeste, o livro “real”.

E há ainda Vanda e Kriska. Também elas são linguagens nas quais o personagem se perde sem adquirir total domínio. Por Vanda, Costa se apaixona com os olhos, ao vê-la em companhia de outro duplo, a irmã gêmea (“como eu naquela noite em que me apaixonei de estalo, embora por rigorosa escolha, porque não hesitei entre ela e outra que lhe era idêntica” — contará ele). Jogado na selva lingüística de uma Budapeste estranha, o agora Kósta se envolverá com Kriska em uma paixão que vai irromper por meio da palavra — mais especificamente de um advérbio mal empregado durante um telefonema. Kriska é o idioma magiar, aquele que, ao ouvir pela primeira vez, Costa define como “uma língua sem emendas, não constituída de palavras, mas que se desse a conhecer só por inteiro“. A nudez branca do corpo de Kriska, visto pela primeira vez, o desconcerta do mesmo modo (“Por um segundo imaginei que ela não fosse uma mulher para se tocar aqui ou ali, mas que me desafiasse a tocar de uma só vez a pele inteira“).

Nas voltas dessa dislalia perpétua, também Chico, o autor, se desdobra outra vez em duplo e oposto: o protagonista Costa aprende a língua mas não consegue perder o sotaque, domina o idioma mas não se comunica com as mulheres de sua vida, linguagens misteriosas cuja chave está sempre em outro lugar. E quem dá voz a este protagonista disléxico na gramática feminina é um dos homens que melhor expressou a voz feminina na música brasileira — na primeira pessoa. Ironia e duplicidade. E como um novelo que passa de um carretel a outro, ao fim do livro, a primeira frase da história se repete em um outro livro, citado na narrativa. E a história propriamente dita termina com uma frase do livro escrito por Costa para o cliente alemão.

Esqueça o Japão. O universo de Budapeste se curva sobre si mesmo — o avesso do mundo é o ponto de partida, e autor e leitor se tornam alternadamente  personagens da narrativa de Costa. Um livro cujo autor não é ele.

Comentários (5)

  • COPEC diz: 22 de maio de 2009

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  • Rafael diz: 21 de maio de 2009

    … cabe ver se na tela ficou tão bom quanto no papel. Não achei ainda nenhuma manifestação do Chico a respeito do filme; sabes algo? Abraço

    Oi, Rafael. Ainda não sei muita coisa da recepção ao Chico ao filme em si. Sei que o projeto teve o roteiro aprovado por ele. Vou verificar com os colegas do Primeira Fila.
    Abraço.
    Carlos André

  • Gabriel B. diz: 26 de maio de 2009

    Sensacional húngara.

    Momento pedreirice. You know what I mean…
    Carlos André

  • Gilberto Santos diz: 22 de maio de 2009

    Meu amigo,lendo esta sua critica sobre i livro budapeste me lembrei de outro escrito, e por sinal gaúcho, chamado João Gilberto Noll, não sei se tu conhece o mesmo mas ele tem uma livro muito parecido com este que acabo de ler a critica chamado Berkeley em Bellagio, e outro chamado Lorde, não sei quem foi no embalo do outro, so sei que os livros do Noll que cito acimo que li são ótimos espero que o caro Chico seja o mesmo. Até.

    É claro que eu conheço o Noll, Gilberto. Não acho que alguém tenha ido no embalo do outro, porque apesar das semelhanças são obras bem distintas, o Budapeste e as duas do Noll que citaste (ou o Harmada, por exemplo). Esse tema do viajante estrangeiro como herói do romance moderno é recorrente. Acho que o Chico já escreveu algo parecido com a atmosfera dos livros do Noll, mas no Estorvo. Em Budapeste, a voz do Chico como escritor está mais nítida. E ele nem de longe aborda a sexualidade com a mesma intensidade que o Noll
    Grande abraço.
    Carlos André Moreira

  • PC, O PC diz: 27 de maio de 2009

    Eu li, gostei, muito interessante o goste ráiter tiê. A Kriska é tão bonita quanto a da minha imaginação, o quem me deixa meio convencido de que, se não escrevo como LFV, ou Chico, minha imaginação não fica muito lá pra tráz dos montes. Só quero saber é se a Paola Oliveira aparece nua pelada no filme, confere com os escritos ou é propánda enganosa? Sera que a buda dela é peste ? Ah, antes que eu esqueça, não é meio falta de educação mandar os leitores do blogue lamber sabão?ha ha ha Tchus.

    Ela aparece sim, PC, e eu não vou comentar — ISSO seria falta de educação. Mas se me perguntarem, eu diria que vale a pena tentar ver o filme por isso.
    Carlos André

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