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Dando palpite

25 de maio de 2009 22

O jornalista e escritor Sérgio Rodrigues provocou recentemente em seu blog, o Todoprosa (mais especificamente aqui e aqui) uma discussão acirrada em sua caixa de comentários ao levantar a hipótese de que a escola no Brasil peca ao não procurar o mínimo de equilíbrio entre estimular o prazer da leitura e a árida disciplina necessária para o ensino da literatura. Muita gente se manifestou pondo a culpa na gurizada (que tem uma parcela de culpa mesmo) que não lê, não quer saber, prefere o Ipod, o celular que também é canivete suíço, a internet, a televisão. Sim, sim, todas justificativas muito válidas, mas até onde a escola também não está deitada em berço esplêndido exigindo autoritariamente a essa gurizada: virem-se. Não tenho paciência para deixar discussão em comentário no blog de terceiros, principalmente quando a discussão já passou de cinco dezenas de comentários. Logo, meu humilde pitaco sobre a questão eu despejo aqui no blog para compartilhar com vocês – e quem quiser discordar, comente, vamos seguir o debate.

A estruturação do currículo do ensino de literatura no Brasil é um caos. O programa é eminentemente cronológico – priorizando aquela ordem que todo mundo decorou na época do vestibular e depois esqueceu: lírica trovadoresca, barroquismo, arcadismo, simbolismo, parnasianismo, realismo, naturalismo, modernismo, geração de 30, geração de 45 – e isso quando essa ordem não está errada desde o ovo, como essa tal geração de 45 na qual querem encaixar o João Cabral a golpe de marretada.

Se minha memória não embotou depois de anos longe do antigo 2º Grau, acho que essa grade curricular no ensino de literatura, pelo que me lembro, faz muita gente se defrontar com Camilo Castelo Branco e José de Alencar no primeiro ano, Machado de Assis lá no fim do segundo e só pegar a parte mais acessível da coisa no fim do curso do ensino médio: João Ubaldo e Rubem Fonseca, Erico Verissimo, Jorge Amado e Rachel de Queiroz — quando esses não são vistos em resumos pífios na corrida de obstáculos que são os meses que antecedem ao vestibular.

Algumas coisas que somos obrigados a ler no início do segundo grau não deveriam ser lidas por pessoas abaixo de 18 anos. Outras, perdem dois terços de seu encanto se lidas aos 16. E outras ainda, convenhamos, não deveriam ser leitura obrigatória de ninguém. Vai ver por isso somos forçados a ler Lucíola aos 15, no colégio, porque senão nunca o faríamos por vontade própria quando ficássemos mais velhos.

O ensino de literatura deveria ser uma ferramenta para difusão do gosto da leitura — oquei, mais adiante eu descubro que Alencar veio antes de Machado, mas agora eu me dedico a ler livros que eu consiga terminar e, em terminando, entender alguma coisa. Dou só um exemplo. Nada justifica que adolescentes cuja maior preocupação imediata é “ficar na festa” — ou seja, não iniciados ou iniciados há pouco no jogo erótico adulto, mais preocupados com o fator animal da coisa do que com aquelas circunstâncias de que nós, humanos, revestimos nossos atos de amor – tenham de enfrentar algo tão sutil, um jogo de sedução tão lento e paciente quanto o descrito em Missa do Galo, de Machado de Assis.

Há coisas que perdem a graça se conhecidas antes do amor. Outras, são cheias de ressonâncias que nos escapam e que só poderemos perceber de verdade naquele dia em que, analisando em retrospectiva o tempo da faculdade, por exemplo, percebemos que uma colega linda que nos era muito próxima na verdade poderia ter para nós intenções outras que não a mera amizade quando nos falava com voz doce ou nos tocava o braço com carinho, mas que isso naquela época nos escapou por nosso desconhecimento do mundo. E hoje ela sumiu na poeira do tempo ou casou ou sei lá. É o que veremos acontecer com o protagonista de Missa do Galo.

Sei que o que mais tem por aí é pedante proselitista defendendo que Machado é universal e por isso não conta. Conta sim. Conta porque o universalismo de Machado não é ponto pacífico em termos de geração. Pode ser lido hoje sem problemas e dizer tanto quanto em seu século 19, mas não para adolescentes do século 21. Capitu e sua traição misteriosa, seu fascínio de olhar dissimulado passam reto por um adolescente, que também não vai captar a grandeza do humor de Brás Cubas ou o alcance da ironia de Dom Casmurro — uma prova disso é o sucesso entre jovens das passagens mais sentimentais da minissérie Capitu, muitas vezes passagens que a produção descarnou por completo da ironia ácida que é tão fundamental no livro. Esse tipo de leitura cheio de nuanças fica pra mais tarde. Muitas vezes a primeira leitura foi insuficiente — e, convenhamos, mal empregada, já que se poderia ter aproveitado o tempo que usamos lendo mal um livro desses para ler bem um outro livro.

Como saber do que fala a Canção do Exílio numa época em que pouca gente sentiu saudade? Como ler Macunaíma se o conceito de invenção formal e linguística do livro pode servir apenas como uma justificativa para a ignorância – uma forma de escravidão, não da liberdade postulada e defendida pelos modernistas. Fosse eu encarregado dos currículos de literatura acho que inverteria: começaria com os livros que, dentro do espectro das boas obras, dessem prazer, fossem divertidos e repletos de imaginação. Tá certo que o hábito pela leitura se pega em casa, e alguém que chegou no segundo grau sem ele já está a um passo de se tornar um caso perdido. Mas acho que não seria tarde para ao menos, sem abolir de algum critério, tornar a descoberta da leitura algo mais fácil e imaginativo. Às favas a literatura no Vestibular, deveríamos retirá-la dali e dedicar o programa escolar ao estímulo da leitura. E mais tarde as pessoas acabariam por naturalmente derivar para a percepção histórica — tema que poderia ser abordado em uma cadeira qualquer nas faculdades de todos os cursos, ok, talvez opcional nos de exatas.

Pronto. Findo o surto opinativo, volto à minha ignorância. Obrigado.

Comentários (22)

  • PC, O PC diz: 27 de maio de 2009

    Pois tiê… outro dia, acho que lá pelos meus onze anos, a professora me passou um tal de Ana Terra… quando olhei aquele troço me perguntei: Por que pra mim, isso?
    Os outros pegaram outros livros que nem sei quais eram…eu queria era ler Tex, Homem Aranha e o Tio Patinhas… mas enfim… Ana Terra… bei… Ana Terra o destino dá teu nome a tantas outras anas tão iguais, Ana que a dor não sei o que e consome.. .ana da terra mãe, e nada mais… Essa musica nem sei de quem é.. segue…

  • Daniel Pellizzari diz: 27 de maio de 2009

    TE AMO, ESPANHOL. Mesmo.

  • Vitor Tassinari diz: 26 de maio de 2009

    Concordo plenamente com a reportagem. Passei o ensino médio sem dar a mínima atenção para a literatura ensinada na escola. Depois de formado, é que comecei a buscar e perceber esses autores.

  • Gabriel diz: 26 de maio de 2009

    Tive sorte de sempre ter livros disponíveis em casa, em especial os da coleção vagalume. Quando caí nas garras dos professores de literatura, apenas ganhei aversão às leituras obrigatórias, mas continuei gostando de ler. Isso me ajudou até no vestibular, onde acertei as questões das leituras obrigatórias que não fiz e ainda acertei questões de literatura e de outras matérias por livros que li por conta.
    continua…

  • Gabriel diz: 26 de maio de 2009

    Generalizando pacas: a sociedade não gosta de ler/estudar e não valoriza isso, logo, os canditados a professores saem dessa sociedade. Ao fim, formam-se professores que não prezam tanto a leitura e o conhecimento como fim. Já ouvi estudante de pedagogia da UFRGS reclamando do absurdo que era precisar ler um livro com QUASE 100 (CEM) páginas!!!
    Por isso, não creio que adiantaria mudar o currículo se as pessoas que lidam com os alunos (incluo pais também) continuarem com a postura atual.

  • Interaubis diz: 27 de maio de 2009

    Ensinei a filha da minha mulher a gostar da leitura de duas maneiras:
    1. Dando o exemplo, leio sempre e tenho muitos livros em casa. Além disso tenho uma ótima relação com ela.
    2. Dei de presente o Crepúsculo, porque ela me pediu. A menina que não lia nada devorou as 400 páginas em menos de 4 dias e leu todos os outros livros na internet mesmo. Pronto, já criou um hábito de viver em um mundo formado pelas palavras. Agora é com ela.

  • alexandre rodrigues diz: 26 de maio de 2009

    comecei a ler quando já havia games (toscos, mas havia) e os desenhos passavam em qualquer hora na TV aberta. jogava futebol em dois turnos por dia. andava com duas turmas de amigos. bebia escondido. tinha todo tipo de distração e ainda assim, lia. lia muito.

    foram meus pais, típicos integrantes da classe C, uma manicure e um motorista que NÃO liam, que me fizeram ler. compraram livros que quase não podiam pagar. me colocaram de sócio em todas em três bibliotecas regio

  • jefferson lopes diz: 26 de maio de 2009

    Sou formado em Letras/UFSC. Na minha opinião, o problema não está só na qualidade e adequação do que é lido, mas na falta de um ensino voltado para a produção textual. O aluno, em geral, não sabe ler, escrever e falar. Só ler, sem uma reflexão sobre a leitura, dando vazão ao seu potencial interpretativo, é pura perda de tempo. Mas como fazer isso, se nem os professores sabem ler e interpretar um texto corretamente? O problema deve começar a ser resolvido lá na base, nas séries iniciais.

  • Juliane Welter diz: 26 de maio de 2009

    de total acordo. no primeiro ano do ensino médio começa-se com TROVADORISMO. não tem salvação…

  • PC, O PC diz: 27 de maio de 2009

    pois então, continuando… Ana Terra.. me decepcionei com aquele troço… aí comecei a ler… e veio a estância… o Pedro Missioneiro, A Ana… a sacanagem… ( ana tomando banho na sanga, queimando com os lambaris entre as coxas, ha ha ah ah ha ah ahha, demais), o ataque dos castelhanos , a viagem de carreta. Mas o que era mesmo ? Ah, o gosto pela literatura… bem, eu gostei da Ana Terra, então, tem que ler um livro legal, independente dele ser escrito pelo A ou pelo B…segue

  • PC, O PC diz: 27 de maio de 2009

    Entao. tem que dar o Luiz Fernando Verisssimo, o Tabajara Ruas, esses caras aí pra gurizada ler bem cedo.. seria muito legal.. mas tem um livrinho muito tri que dá bem pra ler cedo. O Cortiço do AluisioAzevedo, ou algo assim. Muito tri..Só não me perguntem como tirar a gurizada da Paparazo para entrar nos sáite de Cultura, ha ha ha ah h O melhor é colocar uma Playboy e um Rubem Fonseca, no banheiro, va que o guri se interesse, e uma Martha Medeiros e uma Capricho pra guria, haha hga
    Tchus

  • Marconi V. diz: 26 de maio de 2009

    Perfeito. Impecável. Assino embaixo. Literalmente, se for preciso.

  • Adriana Schnell diz: 25 de maio de 2009

    Estou levando amanhã mesmo esse post para a escola.

  • LUANA diz: 27 de maio de 2009

    e o pequeno principe?????

  • Flavio diz: 25 de maio de 2009

    A esse respeito também escreveu Juremir Machado da Silva: “No momento em que o jovem estudante abre `A moreninha` está tudo acabado. Até a novela das seis é mais instigante. Mesmo que seja uma adaptação de `A moreninha`. O sono se alastra como um vírus letal. Nada sobra. Em poucos minutos, perde-se um leitor para sempre.”

  • Gabriel B. diz: 27 de maio de 2009

    Concordo contigo, Moreira. Acho que o único risco que não se pode correr ao tentar tornar o currículo mais atraente é o de que professores aloprados recomendem péssima literatura. Uma vez ouvi de uma amiga que a irmã mais nova dela, estudando na oitava série de um conceituado colégio privado da Capital, estava lendo o livro sobre Brigdet Jones como parte das leituras obrigatórias da aula de literatura. Só pra citar um exemplo. Acho que valeria até checar se isso realmente ocorre.

  • Alexandre R. diz: 27 de maio de 2009

    Pais. Pais. A culpa é dos pais e a escola tem pouco a fazer. Até escrevi um post a respeito.

  • Cardoso diz: 31 de maio de 2009

    “Fosse eu encarregado dos currículos de literatura acho que inverteria: começaria com os livros que, dentro do espectro das boas obras, dessem prazer, fossem divertidos e repletos de imaginação.” Venho defendendo o MESMO há algumas DÉCADAS. Sério. Concordo integralmente com cada vírgula.

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