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Literatura Safra 80 - Antônio Xerxenesky

27 de maio de 2009 0

Franzino, de fala mansa e óculos de lentes grossas, Antônio Xerxenesky parece mais um daqueles estudantes de física ou de computação — uma impressão não de todo errada, já que o autor realmente cursou Física na UFRGS antes de escapar do árido mundo das exatas para o das Letras. Ele é autor de Entre, livro de contos que hoje ele mesmo critica, e de Areia nos Dentes, romance que brinca com a forma e a temática ao cruzar duas histórias em um faroeste que também trata de uma invasão de zumbis. Na primeira, um homem em um hotel decadente do Novo México escreve uma saga de vingança e sangue entre duas famílias numa localidade do oeste selvagem — logo abalada por uma maldição que faz os mortos voltarem para atacar os vivos.

Mundo Livro — Posso estar errado, mas me parece que és de uma geração que não tem um rótulo ou bandeira sob o qual ser enquadrado. É mais confortável poder lidar apenas com tua ficção sem precisar seguir qualquer programa ou movimento?
Antônio Xerxenesky —
Há um tempo saiu uma reportagem na revista Aplauso sobre isso que acho que matou muito bem a charada, eles disseram que éramos uma “não-geração”. E é bem isso, cada um tá indo para um lado diferente. Não tem unidade estética, ideológica entre os escritores de hoje. Claro que há casos como os do Samir (Machado de Machado), com quem tenho muitas referências comuns, como o Pynchon, por exemplo.

Mundo Livro — Os novos autores parecem ter uma autonomia maior em termos de buscar espaços sem precisar ficar batendo na porta das grandes editoras. Seria uma turma mais disposta a fazer as coisas acontecerem?
Antônio —
Não é bem assim. A gente ainda quer ser publicado por uma grande editora, só ninguém tem mais a ilusão de que se bater na porta será aceito assim sem mais nem menos. Hoje em dia não basta escrever um puta livro e achar que vai ser chamado para uma grande editora para ter seu talento reconhecido. Essa coisa do gênio descoberto realmente morreu. Eu ouvi alguém falando recentemente, embora não me lembre quem, que hoje em dia tem mais porcaria sendo publicada do que gênios não recohecidos. Quem é realmente bom vai acabar aparecendo se correr atrás. Algo que a gente aprendeu com a experiência da Não Editora é que tem público para todo mundo. Para o meu livro ou para o do Rafael Bán Jacobsen.

Mundo Livro — A tecnologia auxilia nesse processo?
Antônio —
Sim, hoje há grandes facilitadores. No Orkut, conheci muita gente em fóruns de discussão literária e muita gente se interessou pelo meu livro. A compra online também é um diferencial. O Areia nos Dentes está no site da Livraria Cultura, por exemplo — se alguém no Acre quiser comprar o livro, é só encomendar e pagar que vai receber. Quando se fala de tecnologia não são só blogs, como se fala muito de um pessoal que veio antes da gente, até porque muitos hoje não têm blog, é a venda online mesmo que faz a diferença.

Mundo Livro — – E com quem dentre os escritores em atividade acreditas que tua obra estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma?
Antonio —
O Joca Terron. A gente tem muitas influências em comum. Eu gosto muito também do Mãos de Cavalo, do Daniel Galera. Aquele livro para mim foi uma aula. Eu tinha recém escrito o primeiro livro, de contos, Entre, que eu particularmente hoje considero muito fraco, e o Mãos de Cavalo mostrou o caminho que um escritor poderia fazer para tirar o ranço adolescente de sua obra. O Galera odeia que se diga que aquele é o romance de maturidade dele, mas o fato é que é. Foi um livro muito importante para mim, embora não dialogue tematicamente. A própria obra do Galera foi importante na minha formação como escritor. O Dentes Guardados eu li com 16 anos, e embora hoje ele não provoque em mim o mesmo efeito, vê-se claramente ali um trabalho estético, de brincar com as palavras, jogar as vírgulas fora do lugar. É um livro muito válido como primeiro livro e foi inspirador, porque eu lia só o que o colégio me obrigava.

Mundo Livro — Foi uma descoberta também para a literatura?
Antônio —
 Definitivamente. Eu cursava Física na UFRGS e estava detestando o curso porque minha mente não é muita científica — e eu fugia daquele universo de exatas lendo furiosamente: Cortázar, Borges, Joyce, e lendo tanto, aquele desvario me despertou o desejo de escrever.

Mundo Livro — Como é teu método de trabalho?
Antônio —
Estou trabalhando no meu segundo livro, tentando, me arrastando. Penso muito antes de escrever cada linha, sou obsessivo por querer saber o que vai acontecer em um capítulo. É engraçado, porque eu fugi das exatas mas na minha obra sou extremamente racional, ainda mais em termos de romance. Até se pode dizer que escrever um bom conto é muito difícil, mas en termos de construção um romance exige uma estrutura mais forte do que um conto. Eu montava esqueletos e mais esqueletos. Mantenho comigo um caderno de ideias — e parece coisa do colégio, é setinha para lá e para cá. Só setas, diagramas, tabelas, o que acontece em cada seção. Eu tenho um processo acadêmico de montagem do romance. Acho que eu só relaxo na questão do final. No Areia nos Dentes eu planejei todo o esqueleto mas não planejei o final. Era uma ideia de que se fechasse a estrutura do livro, ele não me surpreenderia.

Postado por Carlos André Moreira

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