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Literatura Safra 80 - Samir Machado de Machado

27 de maio de 2009 1

Publicitário de formação Samir Machado de Machado é também o design da maioria das capas da Não Editora, da qual é sócio com outros autores já publicados como Rodrigo Rosp e Antônio Xerxenesky. É autor da bela novela O Professor de Botânica, na qual um amargo e idoso professor vê em uma excursão a uma reserva florestal a oportunidade de descobrir uma espécie nova de orquídea e assim alçar-se ao equivalente científico da imortalidade. Samir também editou as três coletâneas de FC e fantasia Ficção de Polpa, da mesma editora.

Mundo Livro — Como se deu tua aproximação do universo literário? Cresceste em um ambiente que te facilitou esse acesso?
Samir Machado de Machado
— Sim, sempre tive acesso a livros. Na real meu pendor para a escrita começou de uma forma inusitada. Eu gostava muito de quadrinhos, e comecei a ler e a desenhar histórias. Depois de algum tempo percebi que gostava mais de contar as histórias do que de desenhar, que era um saco. O que me fez escrever com mais frequência, levar aquilo mais a sério foi fazer a oficina do Assis Brasil. 

Mundo Livro — Esse é um ponto que me parece superado pela tua geração. Antigamente havia a grande discussão sobre a validade de um escritor passar por oficina literária, hoje a maioria simplesmente a faz.
Samir —
Para mim foi uma etapa para ter noção do ofício. Pareceu uma coisa bastante natural que, no momento em que eu estava a fim de investir nisso, de me tornar um escritor, eu deveria passar por uma oficina. A discussão mais atual na minha geração não é se faz ou não oficina, é a pasteurização dos textos, o que acontece muito, seja isso culpa da oficina ou não.

Mundo Livro — Tens notado essa pasteurização? Engraçado, és o primeiro com quem converso a falar disso, a maioria ressalta justamente que os textos mantém a identidade de cada autor.
Samir —
Eu sinto uma padronização, não no sentido de serem todos iguais em estilo, mas no fato de apresentarem muito investimento do autor na técnica e pouco no conteúdo. Acho que é sim reflexo das oficinas, em que se aprende o valor da concisão, e todo mundo hoje tem a tendência de tornar os textos enxutos, vão cortando o que vêm pela frente e detonam aquilo que criaria um clima. Há um afã de ir cortando, cortando, para chegar na essência, e fica tudo muito descarnado. Tenho noção disso porque organizei três coletâneas Ficção de Polpa para a Não Editora, com contos no ficção científica e fantasia. Já recebi mais de 200 textos, o que me tornou apto a notar certos vícios: histórias diretas demais. Acho que tenho uma implicância pessoal com contos muito curtos, ou minicontos, poucos são os que vão além do trocadilho. Tu precisa envolver o leitor dando a ele um tempo de leitura para mergulhar no universo de ficção que se está criando.

Mundo Livro — É também uma geração que não rejeita temas ou fontes de inspiração e referência: quadrinhos, música, arquitetura, cinema de arte, cinema de gênero, música pop. É uma geração onívora?
Samir —
Com certeza. Eu, ao menos, busco isso nos meus textos. Meus temas não vêm só da literatura, às vezes busco o ritmo dos quadrinhos, uma estética visual. Dependendo do que estou escrevendo, cerco meu espaço de trabalho de imagens que remetam àquilo. É impossível para um escritor hoje escrever ignorando o universo de cultura pop e entretenimento que o cerca.

Mundo Livro — Também me parece — e tenho comentado isso com os demais autores — que é uma geração também mais disposta em buscar seu próprio espaço, fundar a própria editora, como tu e outros fizeram no caso da Não. Há uma certa propensão a querer fazer as coisas acontecerem?
Samir —
Os próprios autores sempre tiveram alto receio de autopublicação, aqueles livros custeados pelo próprio autor, com acabamento menos cuidado… Hoje não, acho que é até parte do espirito da época: bandas que lançam sua música no myspace, curta-metragens em exibição no Youtube… E na literatura também, os artistas tem de ter um pouco mais de proatividade de se lançar primeiro para depois buscar outras editoras.

Mundo Livro — Ao mesmo tempo, vocês como editores de uma casa regional e menor, não sofrem também com o atual ciclo no qual uma editora pequena lança um talento que logo depois é arrebatado por uma grande editora?
Samir —
A nossa ideia com a Não sempre foi fazer isso. Sempre pensamos na editora como veículo para abrir espaços. As editoras pequenas hoje cada vez mais precisam ocupar essa função, em um momento em que a maioria das editoras grandes já nem avalia mais originais. O trabalho de separar o joio do trigo acaba sendo hoje da pequena editora. Era parte da Não editora assumir essa tarefa e estávamos conscientes disso.

Mundo Livro — Em que projeto estás trabalhando agora?
Samir —
Um livro no qual eu estou lidando há cinco anos. Na prática é uma aventura histórica e ao mesmo tempo uma crise de autodescobrimento pessoal. Não vejo isso sendo muito feito, ao menos no cenário nacional.

Mundo Livro — E com que autores em atividade achas que tua obra dialoga?
Samir —
Dos autores novos eu li bastante o Daniel Galera. De certa forma tem sentimentos nos livros dele com os quais eu me identifico, principalmente o de um deslocamento em relação ao mundo em que se vive. Minhas referências bem ou mal têm muita coisa de fora. O Ian McEwan, que eu descobri há pouco tempo, me abriu um novo modo de possibilidades de construir o suspense de uma narrativa. O Michael Chabon é um autor que eu li muito, ele me diz muito em relação a dialogar com a cultura pop. No Brasil não são tantos autores assim porque os temas que me atraem que não vejo muito sendo trabalhados. Na adolescência li muito o Erico Verissimo com O Tempo e o Vento. Sempre digo que ele é um gênio, porque escreveu a única trilogia de sete livros que eu conheço. Quando estava me formando como leitor também li uma boa dose de literatura de entretenimento: Harry Potter, Bernard Cornwell, que estou usando como referência no tratamento ficcional da matéria histórica. Li muito também literatura fantástica, e ela me levou ao Baudolino, do Eco, e dali para toda a obra dele. A partir do Eco eu descobri Borges, dele fui indo para outras referências. Por mais leitor que eu seja é impossível escrever sem ser influenciado por inúmeras outras coisas.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (1)

  • Marcelo diz: 27 de maio de 2009

    Poderiam ter alguns links para facilitar a nossa vida e não termos que procurar o título dos livros no Google, por exemplo.

    Ok, Marcelo, vou providenciar.
    Carlos André Moreira

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