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Literatura Safra 80 - Telma Scherer

27 de maio de 2009 3

Telma Scherer é autora de Rumor da Casa, livro que foi ensaiado a exemplo de um disco de rock. Por anos, Telma, que além de escrever poesia faz performances poéticas, ensaiou os poemas que mais tarde comporiam o livro e burilou-os de acordo com a reação do público. Telma se prepara agora para seu primeiro voo na ficção narrativa em prosa.

Mundo Livro – A atual geração de escritores parece mais disposta a correr atrás de espaços, reunir-se, trocar ideias e fazer sua obra chegar ao público. É uma turma mais disposta a fazer as coisas acontecerem?
Telma —
Acho que isso envolve uma noção de profissionalismo. Antes havia escritores que tinham outras profissões e escreviam quando dava, quando tempo dedicado a outro ofício permitia. O que dá para ver é que tem um grande número de autores hoje com o desejo de viver da literatura, se não dos livros que publica, ao menos ter uma formação que permita trabalhar em áreas afins. Se eu fosse ouvir o que os meus colegas mais velhos me disseram quando estava começando, teria chegado à conclusão de que algo assim era impossível. Mas há uma noção hoje de que se pode ser profissional da palavra. Pode-se ministrar Oficinas, cursos, fazer performances, qualificar-se para uma atividade na universidade, buscar o financiamento de projetos, editais, cada vez mais. Pro Rumor da Casa tive apoio do edital do Fumproarte pro Rumor…. O último edital do mesmo fundo, que também bolsas de criação, pesquisa e formação na área artística, eu também me inscrevi e fui contemplada. Será assim que farei meu novo livro, um romance, uma, releitura do Clarissa do Erico Verissimo, pela ótica da Clara, uma personagem que lê esse romance e que se relaciona com a Porto Alegre de hoje com a mediação dele. É uma oportunidade de tratar as diferenças entre essas duas adolescências, a da Clarissa e da Clara.

Mundo Livro — Um reflexo que tenho notado talvez dessa maior ligação dos autores com a academia é que a discussão sober a validade das oficinas literárias parece superada para quem escreve hoje.
Telma —
Sim, isso foi superado, com certeza. A oficina não ensina ninguém a escrever, é claro, mas existe um instrumental, uma técnica, referências, que isso uma boa oficina pode passar, e cada um usa como quiser. Fui ministrar uma oficina de poesia há algum tempo e me surpreendi com o fato de que as pessoas que estavam ali, querendo aprender sobre o fazer poético, não conheciam Ezra Pound, não leram o ABC da Literatura, nunca leram T.S. Eliot, não conhecem Octavio Paz, ou seja, coisas fundamentais para pensar a poesia contemporânea.

Mundo Livro — isso também foi algo que me chamou a atenção na apuração desta reportagem: o quanto a atual geração é ligada à reflexão crítica na academia — vários cursam ou já concluíram mestrado e doutorado em áreas da literatura. É uma geração com perfil intelectual próprio?
Telma —
Acho que isso é realmente uma m
arca. Ao menos nos colegas com quem convivo. Há a noção de que é importante ter uma bagagem acadêmica. Se eu não tivesse esse background, minha obra seria outra. Eu estava fazendo doutorado na UFSC mas larguei por ora porque estava cansada de estudar crítica do teatro simbolista português para poder chegar à heteronomia no Pessoa, que era o que realmente me interessava. Não queria também fazer o mestrado em escrita criativa na PUC, então fui para a Literatura Comparada na UFRGS. Eu vinha da  Filosofia na UFRGS, onde havia estudado estética, tragédia grega e Aristóteles. E então cheguei à literatura comparada para poder abordar essa minha experiência anterior trabalhando a questão das formulações estéticas do tempo.

Mundo Livro — Como se deu tua aproximação do universo literário? Foi de casa, na escola, mais tarde?
Telma —
Sou de Lajeado, meu pai é músico e minha mãe foi professora de literatura. Então eu cresci ouvindo muito meu pai ensaiando, os sons do trompete, que é um instrumento muito forte, e minha mãe ao mesmo tempo sempre me estimulou não só para a leitura como para escrita. Vem daí minha dupla obsessão com a palavra e a performance da palavra. Gosto de encontrar o público, de jogar o poema e recebê-lo de volta. A Performance da poesia é importantíssima para o meu trabalho. Trabalhando o poema junto ao público eu também aprendo um pouco mais sobre ele, então quando ele volta para o papel está renovado. É uma questão também de linguagens das quais a gente se apropria. O poema também é uma partitura, então na leitura a pessoa tem de dominar a técnica de apresentar aquilo, ler e tirar o ritmo. Porque mesmo na leitura silenciosa o ritmo tem de estar presente para a pessoa se emocionar. O ritmo da fala de hoje não é mais tão regular quanto antigamente, é muito entrecortada, então eu uso isso no meu trabalho, uso o corpo, a voz, esse ritmo mais irregular. 

Mundo Livro — E já houve casos de poemas que estavam impressos, já com uma “forma fixada” como se diria mudarem com a contínua reapresentação?
Telma —
Isso me ocorre muito. O meu primeiro livro, de 2002, o Desconjunto, eu reescrevi todo ele desde o lançamento, e ainda reescrevo, ee é continuamente reescrito. O Rumor… também – tem poemas que não estão no livro mas estão na performance, outros eu trabalho mais, outros parecem estar funcionando muito bem e eu trabalho menos. Tem uns que eu não trabalho tanto. Mas em geral tem esse processo bem vivo.

Mundo Livro — A poesia padece de um estigma de ser pouco vendável. Isso exige ainda mais dos poetas soluções alternativas para divulgarem seu trabalho?
Telma —
Essa coisa do mercado da poesia é difícil de controlar e quantificar. Tem muito material alternativo. Conheço tantos poetas independentes, que tão usando outros suportes, outras publicações — o Jorge Bucksdriecker publica muito na Internet, o Diego Petrarca publicou pouco em livro, mas tem muito material espalhado por aí. Tem gente que passa a vida vendendo poesia de mão em mão. A poesia tem sim um mercado, são mercados diferentes, mas ela é bem forte dessa maneira. Ela está de ligada a essa divulgação de um jeito bem independente, marginal. Editoras, mesmo não tem muitas interessadas, principalmente de fazer um projeto, como foi o Rumor…, com performance, com uma reflexão cênica. O Rumor ao menos já tinha esse respaldo do prêmio. Para solucionar essa questão eu mesma faço todo o trabalho junto de produção e tudo o mais.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (3)

  • xerxenesky diz: 28 de maio de 2009

    A Telma é muito massa.

  • Rodrigo Maia diz: 27 de maio de 2009

    Bom Carlos, então vocês devem deixar as informações mais claras para os leitores no site! Você a de convir que a chamada não está condizente com a entrevista para qual está linkada: chama com a foto e nome de uma escritora e apresenta a entrevista com outra! Associem melhor as informações e não exijam que nós tenhamos “bola de cristal” para ir advinhando o que vocês querem dizer!

    Tá ok, Rodrigo, que seja, aprendi a testar alternativas antes de sair reclamando, mas esqueço que vivemos em outro tempo. De qualquer forma, o pessoal da produção já consertou o problema.
    Carlos André

  • Rodrigo Maia diz: 27 de maio de 2009

    Êta ZH, vocês hoje tão que tão!!! Na chamada desta matéria consta a “Carol Bensimon” e quando abrimos o link, consta uma entrevista com a “Telma Scherer”!!! Tem alguém dormindo por aí!

    Rodrigo, se tu clicar “Veja o blog completo”, vais ter acesso a entrevista com SEIS escritores mais três anos de textos sobre um blog de literatura. Bacana, né? É só não poupar falangetas que as coisas se resolvem…
    Carlos André Moreira

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