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Horror, cinema e o seu jornal de sábado

28 de maio de 2009 3

O horror é uma representação artística de longa tradição. Seu cerne está arraigado na mais básica emoção humana: o medo. Diferentemente da ficção-científica e da fantasia, o horror é o menos respeitado da tríade do cinema fantástico. Alguns críticos rotularam o horror como pornográfico, depravado ou simplesmente cruel. Eles não entendem o apelo de zumbis devoradores, aberrações chupadoras de sangue ou monstros tentaculares de outra dimensão. Enquanto alguns possuem um genuíno desgosto pelo gênero, eu me arriscaria a dizer que a maioria inconscientemente se limita a aceitar a noção de que “terror é lixo”. Essa visão é claramente ignorante do horror como parte integral e influenciante da nossa cultura.

O parágrafo acima é de um texto do cineasta Frank H. Woodward que será publicado no caderno Cultura do próximo sábado, em ZH, e que versa sobre… H.P. Lovecraft (foto), um dos mestres americanos do horror moderno, um autor com fãs de tal forma devotos que um punhado deles, os mais pirados, obviamente, já quis transformá-lo no profeta de uma antiga religião.

A obra de Lovecraft é uma fonte na qual o cinema e os quadrinhos contemporâneos bebem em goles fartos, logo, seria bastante apropriado que sua vida por si só estranha fosse parar uma hora ou outra no cinema — como de fato foi, no filme Lovecraft: Medo do Desconhecido, dirigido pelo próprio Woodward e incluído na Mostra de de documentários da quinta edição do festival de cinema fantástico Fantaspoa, que exibirá de três a 19 de julho, em Porto Alegre, um total de 200 filmes (quem quiser saber mais detalhes sobre a programação, pode consultar o site www.fantaspoa.com).

Não deixe, portanto, de ler o texto no próximo sábado, um ótima peça abordando a relação de Lovecraft com a literatura pulp, suas ligações com o cinema de horror e sua imaginação delirante. Enquanto isso, aproveitando o pretexto (ou “o gancho”, como dizem), podemos falar um pouco mais sobre o escritor por aqui mesmo.

Lovecraft (1890 – 1937) foi um maluco que saiu muito pouco da cidade de Providence, em Rhode Island, onde nasceu. Era filho único de um caixeiro-viajante e de uma descendente dos primeiros povoadores dos Estados Unidos. Durante a infância, era vestido de menina pela mãe. Pelo que consta das fontes biográficas disponíveis, a principal delas sendo o algo fantasioso L. Sprague de Camp, Lovecraft aprendeu a ler e a escrever antes dos quatro anos e já escrevia poemas aos seis. Seus pais morreram insanos, ambos internados em asilos — o pai, quando ele tinha oito; a mãe, quando ele tinha 31 e ainda não havia publicado a maior parte de suas obras-primas. Ainda de acordo com Sprague de Camp, ele também tinha tinha saúde frágil, foi vítima de uma série de moléstias infantis e sofria de poiquilotermia, uma doença rara que tornava sua pele gélida ao toque, como a de um cadáver.

Em vida, Lovecraft escreveu contos de horror que eram publicados em revistas de grande circulação e popularidade, mas que eram vistos como material barato sem respeito crítico. Uma prova disso está nos textos do recentemente relançado O LIvro dos Insultos de H.L. Mencken, no qual há um artigo em que ele defende Mark Twain em compaaração com qualquer outro dos autores de seu tempo, como Washington Irving, dizendo que perto de Twain todos os demais pareciam “a moçada que escreve em revistas pulp” — uma referência que poderia servir muito bem para a turma do próprio Lovecraft: Robert Bloch, escritor do conto que deu origem ao filme Psicose, de Alfred Hitchcock; Clark Ashton Smith e o criador de Conan, o Bárbaro, Robert E. Howard. Todos eram esporadicamente publicados pela revista The Weird Tales, que era dirigida pelo escritor Walter B. Gibson, o criador do Sombra, que mais tarde daria origem à série radiofônica e finalmente aos gibis. .

Ironicamente, embora tenha conseguido se sustentar razoavelmente vendendo histórias para essas revistas bastante populares, Lovecraft não foi considerado um escritor de talento literário propriamente dito em vida — morreu relativamente jovem, aos 47 anos, vítima de câncer.

Ao longo do século 20, Lovecraft foi apropriado como poucos pela cultura pop. Nos quadrinhos do Batman, por exemplo, a palavra Arkham batiza o nome do asilo na cidade de Gotham City no qual estão encarcerados vilões insanos como Espantalho, Chapeleiro Louco e Coringa. A instituição, criada em histórias de 1974 por Denny O`Neil, era uma citação à fictícia cidade de Arkham, em Massachussets, onde Lovecraft ambientou muitas de suas histórias, um lugar de arquitetura sombria e vielas escuras. Talvez se Lovecraft fosse um autor mais respeitado na época em que o Batman foi criado, a cidade inventada por Bob Kane para o Morcego poderia ter se chamado Arkham em vez de Gotham City.

Outro elemento do autor apropriado à exaustão foi o Necronomicon (que, literalmente, quer dizer O Livro dos Nomes Mortos). O conceito é o de um livro diabólico e amaldiçoado, que se porta como se estivesse vivo e funciona como portal para uma dimensão onde vivem seres maléficos. A idéia foi muito usada em livros de outros autores e na série de filmes Uma Noite Alucinante, de Sam Raimi. O Necronomicon é um livro amaldiçoado que Lovecraft atribuía a um árabe louco de nome Abdul Al Hazred e que narrava  a história dos Antigos, criaturas monstruosas que habitavam a terra antes dos homens.

O sucesso da criação ficcional foi tão grande que muita gente chegou a acreditar que o livro, ou ao menos a lenda sobre ele, existiu de fato. Lovecraft chegou a intercambiar personagens e histórias com alguns dos seus correspondentes da Weird Tales, numa grande e sofisticada brincadeira literária que, após a morte de Lovecraft, deu origem à chamada Mitologia de Cthulhu — referência a um dos personagens mais conhecidos dentre os “antigos”. O termo “mitologia”, obviamente, não é do próprio Lovecraft. É de um admirador chamado August Derleth, outro membro da turma que continuou a escrever histórias sobre os seres de Lovecraft mesmo após sua morte.

Para falar um pouco mais sobre isso, é preciso lembrar que nas histórias de Lovecraft a humanidade não é o topo da cadeia biológica ou o ápice da civilização. Há algo maior: seres mais antigos que a própria vida na terra, dotados de presas afiadas, tentáculos gosmentos e indiferença quando não desprezo pela vida humana. Como Lovecraft escrevia muitas vezes inspirado pelos próprios pesadelos, suas criaturas são a encarnação de terrores primordiais. Suas descrições não são exatamente as mais precisas quando fala de seus monstros. Elíptico, preferia evocar medos inconscientes e citar alguns detalhes de que provavelmente qualquer um preferiria manter distância, como tentáculos verdes, olhos gigantes escamosos e coisas assim. Um desses seres é o perturbador Cthulhu, já mencionado, e cuja aparência seria a de um monstro com corpo humano, asas gigantescas de gárgula e uma cabeça cheia de tentáculos (sim, sim, senhores, corretíssimo, Piratas do Caribe também pega carona em Lovecraft). Cthulhu era o emissário e sacerdote dos Antigos (cujas figuras centrais são Azathoth, que ocupa o centro do universo, e Yog-Sothoth, que está em toda parte), e sua primeira aparição se dá no conto O Chamado de Cthulhu - sim, metaleiros, tem uma música do Metallica com esse mesmo nome justamente por causa disso.

Os “deuses”de Lovecraft não são divinos. Nas suas histórias, sempre temos a dimensão de que se trata de extraterrestres que a ignorância humana elevou a divindades. Esses terrores aguardam – em uma dimensão paralela à nossa – a oportunidade para espalhar outra vez destruição e caos, e por isso a posse do livro é crucial. Mas alguns malucos não pescaram a jogada e criaram uma mitologia paralela segundo a qual o Necronomicon não só existia como Lovecraft havia tido de fato contato com ele, e havia recebido a missão de espalhar a palavra das criaturas de poder (quando o assunto é fanatismo, tem louco pra tudo), deuses realmente antigos.

Como sua obra ainda desperta paixões, e tem um bom número de admiradores, Lovecraft já inspirou música (além do Metálica, foi tema de King Diamond e Black Sabbath), cinema, jogos, e, claro, quadrinhos. Além do documentário de Woodward que será exibido no Fantaspoa, sua vida já foi tema de uma biografia-fantasia chamada Lovecraft, escrita por Hans Rodionoff e Keith Giffen e desenhada pelo mestre argentino Enrique Breccia e da minissérie The Strange Adventures of H.P. Lovecraft, com roteiros de Mac Carter e arte de Tony Salmons (as capas de ambos ilustram este post). Em ambas as histórias, os autores transformam Lovecraft em um homem assombrado pela própria obra: seus pesadelos se tornam reais, o mundo sobre o qual ele escreve por vezes o arrebata, oú ele se vê na condição de um homem solitário que vê horrores ancestrais espreitando a humanidade.

Ah, sim, uma última dica: tem muita obra do Lovecraft traduzida e publicada por aí (pela L&PM e, principalmente, pela editora Iluminuras), mas como o cara morreu há mais de 70 anos, sua obra já está em domínio público e caiu na internet. Um dos melhores sites em português é este aqui:

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (3)

  • Cesar Almeida diz: 30 de maio de 2009

    Finalmente Lovecraft está começando a conquistar espaço na mídia brasileira. Nada mais merecido. Se até Jorge Luis Borges o admirava, por que não respeitar Lovecraft? Belo post!

  • João Pedro Fleck diz: 31 de maio de 2009

    O documentário é uma obra-prima.
    Recomendo a todos para aproveitarem essa oportunidade única de ver na telona um filme que por aqui não será lançado, infelizmente, nem em DVD.
    Abraços!

  • Thiago diz: 29 de maio de 2009

    Bem legal o Post. Como disse Neil Gaiman, Lovecraft é uma onda ressonante, ele é Rock`n`Roll. A música “The Thing That Should Not Be” do Metallica tb é inspirada em HPL, assim como na contra-capa do Live After Death do Iron Maiden tem uma trecho famoso dele escrito em uma lápide. O interessante é que apesar de todo o preconceito que existe contra o gênero do Horror, ele segue firme e forte em livros, filmes, HQs, games, música, Internet, com fãs fiéis por todo o mundo.

    Sim, Thiago – e o engraçado é que mesmo no nicho pouco considerado da literatura de horror parece haver gradações desse preconceito: Frankenstein (1818) e Drácula (1897) já são velhos o bastante para ter uma aura de unanimidade. Já a literatura pulp subsequente está conquistando aos poucos esse status — talvez até pela passagem do tempo e pelo surgimento desses trabalhos mais sérios de quem ama o gênero. Abraço.
    Carlos André

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