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Proibição ou Pro-inibição?

28 de maio de 2009 9

Começou com o caso de um livro coletivo de quadrinhos, Dez na Área, um Na Banheira e Ninguém no Gol, que foi denunciado como impróprio para a faixa etária a que se dirigia na escola em que havia sido indicado como leitura complementar. A história do Alan, principalmente (que, pelo que me lembro, era muito engraçada) foi a que mais provocou celeuma, pelo alto número de palavrões e expressões de baixo calão (que não surpreende ninguém que conheça a obra do Alan, diga-se).

Hoje as baterias da indignação foram voltadas contra o escritor Joca Reiners Terron, autor de uns poemas considerados um tanto pesados incluídos na coletânea Poesia do Dia, da Ática, organizada por Leandro Sarmatz. Enquanto isso, em Santa Catarina, a Secretaria de Educação mandou recolher 130 mil exemplares de Aventuras Provisórias, romance publicado nos anos 1980 pelo Cristóvão Tezza, hoje um dos autores mais premiados do Brasil depois da recepção bombástica que teve o seu romance de 2007 O Filho Eterno. A justificativa é que a narrativa seria imprópria para adolescentes por conta de “linguagem chula” e porque o “sexo era descrito de maneira vulgar”.

A questão abre tantas possibilidades de debate que a gente poderia ficar aqui até amanhã, então vou pincelar só alguns deles em tópicos, abrindo a discussão para a caixa de comentários.

* O primeiro é que a escola faliu no Brasil inteiro, e todo mundo se sente constrangido de dizer isso com todas as letras, mas isso não muda o fato. Os três casos evidenciam um problema brutal de descaso com o ensino de literatura no Brasil. Descaso mesmo, porque não estou ainda comentando o mérito de se os livros eram ou não adequados para o público a que se destinavam, mas sim em algo que tangencia nosso post anterior sobre o ensino da literatura no Brasil. As pessoas reclamam que os alunos não leem, mas parece claro em tantos episódios continuados que as escolas estão comprando livros para seus alunos sem que os próprios professores, diretores e membros de conselhos pedagógicos os leiam — aí fica difícil.

* O segundo é que, no meu ponto de vista completamente leigo em pedagogia, os três casos parecem ter sido recebidos com certo alarme — o quarto episódio, sobre um livro de Geografia com dois Paraguais, é cômico, mas esse eu considero mesmo grave, já que não dá para ensinar nada quando o material já vem errado. O livro do Joca, por outro lado, e o próprio autor o admite, não é para crianças de nove anos, é para adolescentes. Seus poemas são perturbadores, no sentido estético da coisa (sem aqui entrar no mérito), e, se ensinados para seu público correto, adolescentes, deveriam vir acompanhados de uma preparação em aula sobre as características da poesia e da prosa contemporâneas, seu uso intenso da ironia, do choque, da provocação. Uma linha poderia ser traçada até outras obras a seu modo provocadoras como a dos decadentistas, as Litanias de Satã de Baudelaire, os Cantos de Maldoror, de Lautreamont, e vindo até a extrapolação da estética do mal em coisas mais afins às referências da gurizada, como o cinema gore. Mas aí, é claro que dá trabalho. Se achar que não é para adolescentes, também, que não ache, isso também é parte da faculdade do juízo, mas que leia o diabo do livro antes, por favor.

* O caso do Tezza me parece ainda mais estranho… Achei que a gente vivia em uma sociedade um tanto mais aberta desde a época em que eu saí do colégio, e mesmo naquele tempo, sem internet, TV a Cabo e com o videocassete como um bem que não era acessível a todo mundo, a leitura mais interessada que toda a minha turma de 2º Grau teve durante aquele ano foi a de O Cortiço, e justamente porque havia cenas de sexo (lesbianismo, inclusive). Falando assim parece um tanto cru ou brutal porque qualquer obra resumida a seus componentes sensacionalistas assim parece. Na Bíblia há incesto irmão-irmã, incesto pai e filhas, velhos profetas pedindo a Deus para que um urso devore crianças, irmão passando a perna em irmão, irmão passando a perna em pai e por aí vai. Vamos falar de clássicos? A maior parte da grande ficção é feita dos sentimentos menos nobres do indivíduo, e ainda assim esses são os livros que todo mundo aponta de orelhada, sem ler, como aqueles que deveriam ser lidos. A primeira vez que li alguém se referir a uma mulher como “comível” foi no Capitães de Areia, do Jorge Amado, por exemplo. Vidas Secas, que também está nas leituras de Santa Catarina, tem a célebre cena da Cadela Baleia, com a qual algum defensor dos direitos dos animais ainda vai implicar. O Erico, que é um autor magistral, tem passagens eróticas fantásticas no Tempo e o Vento, incluindo um cara usando o buraco de um tronco de árvore como… parceira sexual, digamos. Ah, não lembra? Pois é, mas está lá, o que mostra que os trechos isolados de seu contexto podem parecer mais brutais do que no conjunto do livro. É a velha história de se alarmar tanto com um detalhe que ele vira o centro da discussão.

* Parece que há uma certa orientação para o medo das palavras. Um trecho com cena de sexo em um livro, dependendo do livro e da idade do leitor, me parece uma boa oportunidade para tentar dialogar com a gurizada acerca de um monte de temas prementes, como gravidez na adolescência, doenças transmissíveis e por aí vai. O palavrão nunca é tão falado ou reverenciado quanto na adolescência, e enquanto eu considero plenamente válido tentar civilizar os pequenos selvagens, em literatura determinadas enunciações podem servir para ensinar ao aluno algumas sutilezas sobre narrativa, discurso, prosódia, construção literária. O palavrão está no livro? Quem o diz? Qual personagem? É o narrador em primeira pessoa? Esse palavrão contribui para criar algo sobre o modo de ser desse personagem ou é mesmo de uma gratuidade absurda? O bom educador deveria ser aquele que encontra uma forma de ensinar alguma coisa em tudo. Mas quem discorda poderia sim, sem problema nenhum, protestar contra a adoção do livro, é disso que se faz a democracia. O problema é que no Brasil o negócio de vendas de livros para escolas gira com grana altíssima, e poucas vezes se dá com a transparência devida. Minha pergunta: se ninguém parece ter lido esses livros todos tão impróprios, quem sugeriu que fossem comprados? A inspiração divina?

Tem mais a ser dito, é claro, mas agora é hora de vocês se manifestarem, tá ficando tarde e eu tenho umas coisas para pôr em ordem no meu armário.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (9)

  • Tatiana Tavares diz: 31 de maio de 2009

    Concordo, Carlos André, grande parte dos professores de Ensino Fundamental e Médio (nossos antigos 1º e 2º grau) não leem os livros que indicam. E os diretores, que levantam a bandeira da proibição de algumas obras na sala de aula, leem menos ainda. A conclusão é que, assim como um pai que não consegue fazer o filho ler se ele mesmo não lê nada além das palavras cruzadas do jornal, um professor também não convence ninguém a se aventurar pelo mundo da leitura se não tiver esse hábito. (continua)

  • Tatiana Tavares diz: 31 de maio de 2009

    (continuação)
    Quando indicam uma leitura para depois proibi-la mostram ao aluno que não a leram e assinam seus atestados de maus leitores e maus exemplos. E seguem indicando clássicos com os quais nunca tiveram contato. Só posso sentir vergonha alheia.

  • Renato diz: 3 de junho de 2009

    Talvez a proibição faça com que eles tenham mais vontade de ler… sabem como é.

    É verdade, Renato. Numa dessas, é a estratégia que estava faltando.
    Abraço
    Carlos André

  • PC, O PC diz: 30 de maio de 2009

    Teve um tempo em que eu não pude ver o Exorcista por que era proibido para menores de 18 anos. Pitz, não consegui entrar no cine aqui em Ugna city. Aí fui a Poa e assisti O Império dos Sentidos, que era mais proibido ainda. ha ah a O problema é que sempre tem alguém querendo dizer o que é bom para os outros, o que é certo, o que não é… como se os adolescentes fossem crianças, haha… crianças que fazem outras, heheh . Quem sabe se indicarem gibis do Tio Patinhas. Eu to lendo um Chico Bento.

    Dependendo, PC, um gibi do Tio Patinhas da fase do Carl Barks eu não hesitaria em indicar, não importa o que diriam os malas do Ariel Dorfman e do Armand Mattelart
    Carlos André

  • Gabriel diz: 29 de maio de 2009

    Concordo plenamente. Isso confirma minha tese no post sobre o currículo de literatura. Os professores em geral não gostam de ler, os pais idem. Quando descobrem que tem algo mais atrativo do que “a moreninha”, resolvem proibir por ser indecente. Não li esses livros, mas creio que estejam longe de mostrar qualquer palavrão ou comportamento sexual que os alunos já não conhecem.

  • Marcelo Frizon diz: 29 de maio de 2009

    Ah, Gabriel, não dá pra generalizar. Realmente, existem professores de Literatura que não gostam de ler, mas não dá pra dizer que é “em geral”. Normalmente, são professores que preferem trabalhar com Língua Portuguesa, mas acabam pegando turmas de Literatura por imposição da escola ou porque precisam de mais grana. Dar aula, diferente do que alguns pensam, é uma profissão… Mas mesmo A Moreninha pode ser lido com atrativo por um professor que sabe comandar uma discussão.

  • Marcelo Frizon diz: 29 de maio de 2009

    Nesse post chegaste ao centro, Moreira. E a quem interessar possa, eu tenho uma proposta sobre a recente discussão acerca da leitura lá no http://www.surdina.com/unhas

  • paula diz: 28 de maio de 2009

    Existe algum “Não ame. Estupre” em Verissimo, Jorge Amado, Tezza, Drummond, Guimarães Rosa, Machado de Assis..ou até Hilda Hilst? Nem Carlos Zéfiro foi tão além…

    A poesia “Estupra mas não mata” de Paulo Maluf, devia ter ganho um Jabuti por tanta criatividade, respeito e lirismo.

  • joca terron diz: 28 de maio de 2009

    Certeiro como no post anterior sobre ensino de literatura (ou pedagogia da leitura), Carlos. Parabéns.

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