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A Saga do Clone

29 de maio de 2009 3

Sou fascinado por livros, não apenas por literatura, gosto do requinte ou da boa sacada de uma edição, gosto do peso do volume no papel, do projeto gráfico, da encadernação, da própria cor da folha impressa, gosto de reparar nesse tipo de detalhe. Talvez seja por esse meu gosto pelo livro enquanto objeto de fetiche eu viva reparando em pequenas coincidências (in)fortuitas entre edições diferentes de livros diversos, escritos por autores nada a ver um com o outro e publicados por editoras diferentes. Gosto de comparar traduções diversas de um livro e mesmo de perceber semelhanças insuspeitas entre as capas de diferentes edições. Foi desse tipo de inquietação que nasceram coisas como a Capa Brega (que um dia voltará, eu prometo), a também por ora aposentada (mas um dia ela volta, também) seção Tradução e Reação. E é por isso que semelhanças entre capas me chamam bastante a atenção — tanto que já escrevi sobre isso aqui e aqui.

Pois ontem, pondo estantes abaixo para reordenar meus livros, topei com a coletânea cuja imagem de capa vocês podem ver aqui ao lado. Intimidades, lançado em 2005 pela Editora Record (176 páginas, R$ 19,90), é uma coletânea de contos eróticos de 10 escritoras — cinco portuguesas e cinco brasileiras, algumas delas sinônimos unânimes de literatura nos dois países. Do lado de cá, por exemplo, nomes como Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Ana Miranda. Do lado de lá, Lídia Jorge, Inês Pedrosa e Teolinda Gersão. O livro já traz em seu nome o conceito que o norteia: o erotismo visto pelas peculiaridades do olhar feminino. Todos os contos, a seu modo, tratam do erotismo daquela forma que é comumente associada às manifestações femininas do gênero: com ênfase nos sentidos como filtro do universo erótico das sensações. Uma proposta que também está expressa na imagem de capa, como vocês podem ver, um corpo feminino de contornos imprecisos em uma atmosfera enevoada e com as mãos apoiadas em uma superfície transparente, remetendo a uma mulher no recesso do box do chuveiro, um lugar de intimidade absoluta (ao menos para a maioria).

Eu li esse livro lá naquela época para fazer a matéria e guardei na estante, me esquecendo dele em seguida Reencontrá-lo nessa arrumação desordenada finalmente elucidou uma vaga ainda que imprecisa impressão que eu tive ao ver a capa do mais recente livro de crônicas do Fabrício Carpinejar, Canalha!(Bertrand Brasil, 320 páginas, R$ 39), publicado em 2008. A impressão de que aquilo ali na capa me parecia familiar (familiar numa capa, não o ato em si, sem piadas sobre minha vida sexual, por favor). O tema que em tese une as crônicas do livro bem a ser, ironicamente, complementar ao livro anterior. Canalha! reúne crônicas nas quais Carpinejar promete apresentar o lado masculino da reflexão sobre o desejo. Nos textos, a prosa está sempre próxima da poesia — e talvez a capa e o título prometam bem mais pimenta e bem menos lirismo do que o poeta entrega nos textos, mas o fato é que em seu livro Carpinejar exercita a liberdade e o descompromisso da crônica para tratar de qualquer assunto: sexo,a defesa da palavra “canalha” como elogio, homens fazendo as unhas, canalhas à procura de um amor que os redima, infiéis monogâmicos — note-se que o autor usa parodoxos para refutar ou matizar os estereótipos do masculino. O que me intrigou na época foi a capa — parecia ter visto algo semelhante antes, e sim, havia visto, a capa do outro livro, a diferença fica por conta da companhia que o vulto feminino (ainda em destaque) ganhou na atmosfera enevoada cercada por uma superfície transparente.

Os cabelos da garota da segunda capa são mais compridos, mas ainda assim minha inocente pergunta é válida: será a mesma moça em dois momentos diferentes?

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (3)

  • Gabriel diz: 31 de maio de 2009

    acho que não são as mesmas, o formato da mão parece ser diferente… Se tu gosta do livro como objeto, tem dois livros da CosacNaify que são fantásticos: “Zazie no metrô” do Queneau e “o livro amarelo do terminal” da Vanessa Barbara.

    Oi, Gabriel. Do Livro Amarelo no Terminal eu falei no ano passado, ali na lista de 50 melhores livros do ano. O da Zazie me foi especialmente recomendado, mas não tive tempo de dar uma olhada ainda. Vou compensar agora nas minhas férias. Abraço.
    Carlos André

  • Rafael Pimentel Müller diz: 29 de maio de 2009

    Carlos, acredito mais na hipótese de duas garotas em uma situação, se não igual, semelhante. A imaginação humana transita, por vezes, em uma zona de comum acesso (risos).

    Abraçosss

  • Mundo Livro » Arquivo » Cinquenta Clones Cinzas diz: 10 de dezembro de 2012

    [...] bregas sobre os quais é possível escrever série inteiras até coincidências curiosas entre duas capas diferentes que se parecem bastante.  A quem questiona a validade de se deter de vez em quando em uma capa de [...]

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