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Posts de maio 2009

O Historiador e o crime

30 de maio de 2009 1

Como vocês puderam ler no Caderno Cultura deste sábado (ah, não leu? Então não seja por isso, clique aqui), a editora Ângela Ravazzolo realizou uma bela entrevista com o historiador paulista Boris Fausto sobre seu livro mais recente, O Crime do Restaurante Chinês – Carnaval, Futebol e Justiça na São Paulo dos Anos 30 (Companhia das Letras, 246 páginas, R$ 45) que Ângela define assim em seu texto: “um livro de história escrito com rigor e prazer, compondo uma trama que carrega o leitor por investigações policiais, depoimentos e julgamentos em busca de um culpado.”

Fausto reconstitui uma chacina em um restaurante chinês do centro de São Paulo, em pleno carnaval, na qual pereceram o casal proprietário do estabelecimento, Ho-Fung e Maria Akiau, e dois empregados, o lituano José Kulikevicius e o brasileiro Severino Lindolfo Rocha. As vítimas foram executadas a pauladas ou estranguladas. Fausto também analisa a pressa com que a polícia conduziu a investigação em direção a outro ex-empregado da casa, Arias de Oliveira. No caminho, destrincha as relações racias e sociais da São Paulo já ensaiando seus primeiros passos para se tornar a locomotiva industrial que é hoje. Como prometido no jornal, vai abaixo um saboroso trecho do livro, para que vocês tenham ideia de como Fausto transforma um livro de história em uma narrativa empolgante, aparentada com o melhor da literatura policial:

INTRODUÇÃO
Como fazia invariavelmente todos os dias, o lituano Pedro Adukas, cozinheiro de um restaurante chinês no centro de São Paulo, chegou bem cedo ao trabalho, por volta das seis e quarenta e cinco da manhã. Era o dia 2 de março de 1938. O restaurante ficava na rua Wenceslau Braz, próximo à praça da Sé, que desce em acentuado declive até alcançar a ladeira do Carmo. Em 1938, daquele ponto do Carmo ainda era possível ver, ao longe, a silhueta das fábricas dos bairros mistos, industriais e residenciais, do Brás e da Mooca, que deitavam fumaça no horizonte.
Naquele dia, a cidade ainda dormia ou ia se levantando lentamente. Apesar de São Paulo se vangloriar de ser o maior centro industrial da América Latina, como anunciavam seus vermelhos bondes “camarão”, o silêncio e a modorra se explicavam: não se tratava de uma quarta-feira qualquer, e sim de uma Quarta-Feira de Cinzas, após três dias de carnaval.

Mas nem tudo estava parado. Os lixeiros percorriam as ruas, recolhendo os restos da folia no centro da cidade. Cacos de vidro de lança-perfumes, serpentinas emaranhadas, garrafas de cerveja, iam sendo lançados nos caminhões de lixo, embora fosse difícil apagar todos os vestígios de uma festa que introduzira uma cunha brejeira na marcha cotidiana da cidade sisuda. Dentre os vestígios, os confetes coloridos teimavam em ficar grudados ao asfalto, resistindo às vassouras dos lixeiros até que fossem arrastados pelas chuvas fortes de verão. E havia outra gente, como Pedro Adukas, que tratava de cumprir suas rotinas, mesmo numa manhã excepcional como aquela.

Seguindo seu costume, Adukas bateu palmas para que o patrão abrisse a pesada porta gradeada de enrolar, usualmente trancada à chave, com um cadeado preso na parte inferior, que vedava o ingresso no restaurante. Ninguém respondeu e, nessa altura, ele verificou que o cadeado não tinha sido posto, ou fora removido.
Com esforço, levantou a grade, entrou no imóvel, passando os olhos incertos pela semiobscuridade do salão de refeições do restaurante, que se abria diretamente para a rua. Seus olhos se arregalaram diante de uma cena de horror. No chão, entre mesas e cadeiras, deu com o corpo de um homem estirado de bruços, com a cabeça esfacelada, que a princípio não reconheceu. Perto dele, em posição semelhante, outro morto, com a cabeça no mesmo estado e muitas equimoses no rosto. O sangue espirrara nas paredes e fluía dos corpos das vítimas, traçando um riacho vermelho no chão de azulejos retangulares, alternados em preto e branco.
Adukas avançou pelo interior do salão. Abriu a porta lateral que dava para uma estreita área coberta, atravancada em parte por garrafas e baldes, tendo nos fundos uma construção independente, onde moravam os donos do restaurante – Ho-Fung e sua mulher, Maria Akiau. Na área coberta, junto a uma pia, encontrou o corpo de seu patrão, também estirado de bruços, com ferimentos semelhantes aos das duas primeiras vítimas. Deu alguns passos, subiu as escadas da construção dos fundos e chegou a um corredor, que se abria para uma sala. Não chegou a ir até lá. Abriu uma porta à esquerda e entrou no quarto do casal. Uma quarta vítima aí o aguardava. Era Maria Akiau, estendida no chão, junto ao leito, com os pés em direção ao travesseiro e a cabeça, ao pé da cama.

Adukas recuou, saiu à rua, vendo passar diante de seus olhos as imagens dos corpos desfigurados, da parede e do chão manchados de sangue, com uma nitidez a que a luz do dia parecia dar novos contornos, em contraste com a semiobscuridade do restaurante. Andou alguns metros, virou à direita na praça da Sé, mal reparou na catedral ainda em construção e que, aos nossos olhos, pareceria decapitada, e foi desembocar na Central de Polícia, no Pátio do Colégio.
Em poucos minutos, os policiais chegaram ao número 13 da rua Wenceslau Braz. Apesar da hora, uma aglomeração ia se formando, mas os boatos não davam conta do que de fato ocorrera. Ao longo das semanas seguintes, a aglomeração não seria desfeita. Um guarda civil de uniforme azul permaneceria postado diante do restaurante, cujas grades ficavam baixadas para evitar que curiosos mais ousados fossem contemplar a cena do crime, mesmo sabendo que lá só restavam uns poucos móveis e nenhuma figura humana.

Enquanto alguns peritos chamados ao local colhiam impressões digitais, dados da posição dos corpos, da extensão dos ferimentos, fotografavam o salão principal, outros atravessaram a área coberta dos fundos que se abria para a habitação do casal. A partir do ângulo de entrada do corredor fotografaram a parede à direita, percorrida por uma corda de varal, em que estavam estendidos alguns panos e pendurava-se um guarda-chuva fechado. Do mesmo ângulo também fotografaram parte da sala dos fundos, onde havia um armário encostado a uma porta. O recinto servia ao mesmo tempo de sala de jantar, de visitas e quarto de costura. Junto ao armário, uma cadeira de balanço movia-se lentamente, como se fosse o único elemento vivo naquela cena de corpos e objetos inanimados. Tal como havia feito Pedro Adukas, mas com gestos bem mais calmos e calculados, os peritos abriram a porta à esquerda do corredor e encontraram no pequeno quarto do casal, estendido no assoalho, o corpo de Maria Akiau.

Os dois mortos no salão do restaurante, como veio a se apurar, eram o lituano José Kulikevicius e o brasileiro Severino Lindolfo Rocha. Ambos trabalhavam no local havia poucos dias, e Pedro Adukas, empregado mais antigo, nem sequer os reconhecera. O assassino matara os dois desferindo vários golpes com um grosso cilindro de madeira, de aproximadamente setenta centímetros de comprimento. Utilizado como pilão no serviço da cozinha, o cilindro foi encontrado no salão, coberto com manchas de sangue.

Os homens haviam sido surpreendidos enquanto dormiam sobre as mesas do restaurante, junto a uma parede, como costumavam fazer com o consentimento do patrão, que assim os tinha sempre à mão para começar o serviço nas primeiras horas do dia. Um saco de estopa, mal preenchido com um chumaço de palha, servia de travesseiro, e uma estopa maior, estendida sobre a mesa, fazia as vezes de coberta.

Ho-Fung tinha uma toalha branca sobre a cabeça, provavelmente posta pelo autor (ou autores) do crime. Ao retirar a toalha os peritos constataram que, além das pancadas, responsáveis pelas várias fraturas na cabeça, o dono do restaurante fora asfixiado por um laço de algodão, apertado em torno do pescoço, como se o agressor quisesse certificar-se de sua morte. O proprietário vestia uma calça de casimira listada, cueca e camisa de meia branca. No dedo anular da mão esquerda, uma aliança de ouro e, em um dos bolsos da calça, uma cédula de vinte mil-réis. Junto ao corpo, um par de tamancos. O fato de estar vestido e a presença dos tamancos eram sinais de que Ho-Fung não se assustara e chegara a pensar que teria alguns minutos para vestir-se antes de descer as escadas de sua habitação e ver o que ocorria no salão do restaurante.

Maria Akiau morrera por último. Não fora inteiramente surpreendida pelo criminoso. Lutara com ele em condições desiguais, como demonstravam as profundas marcas de unhas em seu pescoço. Embora tivesse sofrido ferimentos no rosto, Maria não fora espancada, e sim morta por esganadura, com um laço de tecido fortemente apertado no pescoço. Ao contrário dos demais, seu corpo se estendia no assoalho em decúbito dorsal. Tinha poucas manchas de sangue no rosto semioculto pelos cabelos abundantes que se espraiavam pelo chão e à volta da cabeça, como se ainda pertencessem a um corpo vivo.

O tempo da ação, segundo concluíram os peritos, fora muito rápido: Severino e Kulikevicius haviam sido abatidos no sono, como se vivessem um pesadelo; Ho-Fung, logo depois, ao tentar chegar ao salão do restaurante de onde partiam o ruído das pauladas e gemidos abafados; Maria Akiau em seguida, nos poucos metros entre o salão do restaurante e sua habitação que o criminoso percorrera em curto intervalo de tempo. Era preciso ser bastante forte e rápido para produzir aquela sequência macabra de cadáveres. Ou seriam vários os assassinos, que, numa tétrica divisão de trabalho, teriam repartido a tarefa de liquidar as vítimas? Um cofre de marca Bernardini, encostado numa parede do salão do restaurante, trancado à chave, chamou a atenção dos policiais. Depois de procurar sem resultado a chave, eles resolveram chamar um mecânico considerado especialista pela empresa que fizera o cofre. Ao chegar ao local, o homem não se revelou competente. Tocou no cofre, murmurou algumas palavras, girou a seguir uma chave, mas a peça não se moveu. Diante da impaciência das autoridades, desistiu de abrir o cofre por métodos suaves e tratou de arrombá-lo. Sob a pressão das ferramentas, a porta não resistiu por muito tempo. No interior do cofre, em meio a cadernetas do Departamento Nacional do Trabalho, passes dos bondes da Light – a empresa canadense concessionária dos serviços -, livros de escrituração comercial, um dicionário de língua portuguesa, foram encontradas cédulas e muitos níqueis cuidadosamente empilhados, no total de vinte e um contos, setecentos e oitenta mil e duzentos réis, ou seja, 21:780$200, mantendo-se a fórmula numérica da época.

Postado por Carlos André Moreira

A Saga do Clone

29 de maio de 2009 3

Sou fascinado por livros, não apenas por literatura, gosto do requinte ou da boa sacada de uma edição, gosto do peso do volume no papel, do projeto gráfico, da encadernação, da própria cor da folha impressa, gosto de reparar nesse tipo de detalhe. Talvez seja por esse meu gosto pelo livro enquanto objeto de fetiche eu viva reparando em pequenas coincidências (in)fortuitas entre edições diferentes de livros diversos, escritos por autores nada a ver um com o outro e publicados por editoras diferentes. Gosto de comparar traduções diversas de um livro e mesmo de perceber semelhanças insuspeitas entre as capas de diferentes edições. Foi desse tipo de inquietação que nasceram coisas como a Capa Brega (que um dia voltará, eu prometo), a também por ora aposentada (mas um dia ela volta, também) seção Tradução e Reação. E é por isso que semelhanças entre capas me chamam bastante a atenção — tanto que já escrevi sobre isso aqui e aqui.

Pois ontem, pondo estantes abaixo para reordenar meus livros, topei com a coletânea cuja imagem de capa vocês podem ver aqui ao lado. Intimidades, lançado em 2005 pela Editora Record (176 páginas, R$ 19,90), é uma coletânea de contos eróticos de 10 escritoras — cinco portuguesas e cinco brasileiras, algumas delas sinônimos unânimes de literatura nos dois países. Do lado de cá, por exemplo, nomes como Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Ana Miranda. Do lado de lá, Lídia Jorge, Inês Pedrosa e Teolinda Gersão. O livro já traz em seu nome o conceito que o norteia: o erotismo visto pelas peculiaridades do olhar feminino. Todos os contos, a seu modo, tratam do erotismo daquela forma que é comumente associada às manifestações femininas do gênero: com ênfase nos sentidos como filtro do universo erótico das sensações. Uma proposta que também está expressa na imagem de capa, como vocês podem ver, um corpo feminino de contornos imprecisos em uma atmosfera enevoada e com as mãos apoiadas em uma superfície transparente, remetendo a uma mulher no recesso do box do chuveiro, um lugar de intimidade absoluta (ao menos para a maioria).

Eu li esse livro lá naquela época para fazer a matéria e guardei na estante, me esquecendo dele em seguida Reencontrá-lo nessa arrumação desordenada finalmente elucidou uma vaga ainda que imprecisa impressão que eu tive ao ver a capa do mais recente livro de crônicas do Fabrício Carpinejar, Canalha!(Bertrand Brasil, 320 páginas, R$ 39), publicado em 2008. A impressão de que aquilo ali na capa me parecia familiar (familiar numa capa, não o ato em si, sem piadas sobre minha vida sexual, por favor). O tema que em tese une as crônicas do livro bem a ser, ironicamente, complementar ao livro anterior. Canalha! reúne crônicas nas quais Carpinejar promete apresentar o lado masculino da reflexão sobre o desejo. Nos textos, a prosa está sempre próxima da poesia — e talvez a capa e o título prometam bem mais pimenta e bem menos lirismo do que o poeta entrega nos textos, mas o fato é que em seu livro Carpinejar exercita a liberdade e o descompromisso da crônica para tratar de qualquer assunto: sexo,a defesa da palavra “canalha” como elogio, homens fazendo as unhas, canalhas à procura de um amor que os redima, infiéis monogâmicos — note-se que o autor usa parodoxos para refutar ou matizar os estereótipos do masculino. O que me intrigou na época foi a capa — parecia ter visto algo semelhante antes, e sim, havia visto, a capa do outro livro, a diferença fica por conta da companhia que o vulto feminino (ainda em destaque) ganhou na atmosfera enevoada cercada por uma superfície transparente.

Os cabelos da garota da segunda capa são mais compridos, mas ainda assim minha inocente pergunta é válida: será a mesma moça em dois momentos diferentes?

Postado por Carlos André Moreira

Versão cinematográfica

28 de maio de 2009 0

Um dos livros mais legais que li em 2008 foi, sem medo de errar, A Versão de Barney. A autobiografia ficcionada do escritor e bon vivant Mordecai Richler (1931 – 2001 – na foto ao lado o autor aparece em Montreal, por volta de 1970) é, também, como o próprio título deixa claro, a sua versão _ não apenas de sua vida, mas principalmente da morte de um dos seus melhores amigos pela qual foi acusado em seus últimos anos.

O romance, permeado de um humor deliciosamente ácido e politicamente incorreto, inteligente e cativante, está previsto para ganhar as telas em 2010. O papel de Barney/Mordecai ficou com Paul Giamatti, que se repetir a excelente interpretação de Sideways será garantia de um personagem tão bom na tela quanto no papel. Para interpretar o pai do protagonista, Dustin Hoffman.

Mas esta não é a primeira obra de Mordecai a ser filmada. Dois de seus principais romances já ganharam as telonas. O primeiro foi The Apprenticeship of Duddy Kravitz (1974), no Brasil O Grande Vigarista, estrelado por um jovem Richard Dreyfuss pré-Tubarão (1975), e dirigido por Ted Kotcheff.

Kotcheff — amigo de longa data do escritor — seria responsável pela direção da segunda adaptação de um livro de Mordecai, o também autobiográfico
Joshua Then and Now (1985), encabeçado por James Woods.

Entre um e outro, o cineasta fez nada menos que Rambo – Programado para Matar, e antes, em 1977, Fun with Dick and Jane — no Brasil lançado como Adivinha Quem Veio Para Roubar — protagonizado por George Segal e Jane Fonda com roteiro de… Mordecai. O filme, vocês sabem, ganhou remake em 2005 com Jim Carrey e Tea Leoni e o título em português As Loucuras de Dick e Jane.

Postado por Gustavo Brigatti

Proibição ou Pro-inibição?

28 de maio de 2009 9

Começou com o caso de um livro coletivo de quadrinhos, Dez na Área, um Na Banheira e Ninguém no Gol, que foi denunciado como impróprio para a faixa etária a que se dirigia na escola em que havia sido indicado como leitura complementar. A história do Alan, principalmente (que, pelo que me lembro, era muito engraçada) foi a que mais provocou celeuma, pelo alto número de palavrões e expressões de baixo calão (que não surpreende ninguém que conheça a obra do Alan, diga-se).

Hoje as baterias da indignação foram voltadas contra o escritor Joca Reiners Terron, autor de uns poemas considerados um tanto pesados incluídos na coletânea Poesia do Dia, da Ática, organizada por Leandro Sarmatz. Enquanto isso, em Santa Catarina, a Secretaria de Educação mandou recolher 130 mil exemplares de Aventuras Provisórias, romance publicado nos anos 1980 pelo Cristóvão Tezza, hoje um dos autores mais premiados do Brasil depois da recepção bombástica que teve o seu romance de 2007 O Filho Eterno. A justificativa é que a narrativa seria imprópria para adolescentes por conta de “linguagem chula” e porque o “sexo era descrito de maneira vulgar”.

A questão abre tantas possibilidades de debate que a gente poderia ficar aqui até amanhã, então vou pincelar só alguns deles em tópicos, abrindo a discussão para a caixa de comentários.

* O primeiro é que a escola faliu no Brasil inteiro, e todo mundo se sente constrangido de dizer isso com todas as letras, mas isso não muda o fato. Os três casos evidenciam um problema brutal de descaso com o ensino de literatura no Brasil. Descaso mesmo, porque não estou ainda comentando o mérito de se os livros eram ou não adequados para o público a que se destinavam, mas sim em algo que tangencia nosso post anterior sobre o ensino da literatura no Brasil. As pessoas reclamam que os alunos não leem, mas parece claro em tantos episódios continuados que as escolas estão comprando livros para seus alunos sem que os próprios professores, diretores e membros de conselhos pedagógicos os leiam — aí fica difícil.

* O segundo é que, no meu ponto de vista completamente leigo em pedagogia, os três casos parecem ter sido recebidos com certo alarme — o quarto episódio, sobre um livro de Geografia com dois Paraguais, é cômico, mas esse eu considero mesmo grave, já que não dá para ensinar nada quando o material já vem errado. O livro do Joca, por outro lado, e o próprio autor o admite, não é para crianças de nove anos, é para adolescentes. Seus poemas são perturbadores, no sentido estético da coisa (sem aqui entrar no mérito), e, se ensinados para seu público correto, adolescentes, deveriam vir acompanhados de uma preparação em aula sobre as características da poesia e da prosa contemporâneas, seu uso intenso da ironia, do choque, da provocação. Uma linha poderia ser traçada até outras obras a seu modo provocadoras como a dos decadentistas, as Litanias de Satã de Baudelaire, os Cantos de Maldoror, de Lautreamont, e vindo até a extrapolação da estética do mal em coisas mais afins às referências da gurizada, como o cinema gore. Mas aí, é claro que dá trabalho. Se achar que não é para adolescentes, também, que não ache, isso também é parte da faculdade do juízo, mas que leia o diabo do livro antes, por favor.

* O caso do Tezza me parece ainda mais estranho… Achei que a gente vivia em uma sociedade um tanto mais aberta desde a época em que eu saí do colégio, e mesmo naquele tempo, sem internet, TV a Cabo e com o videocassete como um bem que não era acessível a todo mundo, a leitura mais interessada que toda a minha turma de 2º Grau teve durante aquele ano foi a de O Cortiço, e justamente porque havia cenas de sexo (lesbianismo, inclusive). Falando assim parece um tanto cru ou brutal porque qualquer obra resumida a seus componentes sensacionalistas assim parece. Na Bíblia há incesto irmão-irmã, incesto pai e filhas, velhos profetas pedindo a Deus para que um urso devore crianças, irmão passando a perna em irmão, irmão passando a perna em pai e por aí vai. Vamos falar de clássicos? A maior parte da grande ficção é feita dos sentimentos menos nobres do indivíduo, e ainda assim esses são os livros que todo mundo aponta de orelhada, sem ler, como aqueles que deveriam ser lidos. A primeira vez que li alguém se referir a uma mulher como “comível” foi no Capitães de Areia, do Jorge Amado, por exemplo. Vidas Secas, que também está nas leituras de Santa Catarina, tem a célebre cena da Cadela Baleia, com a qual algum defensor dos direitos dos animais ainda vai implicar. O Erico, que é um autor magistral, tem passagens eróticas fantásticas no Tempo e o Vento, incluindo um cara usando o buraco de um tronco de árvore como… parceira sexual, digamos. Ah, não lembra? Pois é, mas está lá, o que mostra que os trechos isolados de seu contexto podem parecer mais brutais do que no conjunto do livro. É a velha história de se alarmar tanto com um detalhe que ele vira o centro da discussão.

* Parece que há uma certa orientação para o medo das palavras. Um trecho com cena de sexo em um livro, dependendo do livro e da idade do leitor, me parece uma boa oportunidade para tentar dialogar com a gurizada acerca de um monte de temas prementes, como gravidez na adolescência, doenças transmissíveis e por aí vai. O palavrão nunca é tão falado ou reverenciado quanto na adolescência, e enquanto eu considero plenamente válido tentar civilizar os pequenos selvagens, em literatura determinadas enunciações podem servir para ensinar ao aluno algumas sutilezas sobre narrativa, discurso, prosódia, construção literária. O palavrão está no livro? Quem o diz? Qual personagem? É o narrador em primeira pessoa? Esse palavrão contribui para criar algo sobre o modo de ser desse personagem ou é mesmo de uma gratuidade absurda? O bom educador deveria ser aquele que encontra uma forma de ensinar alguma coisa em tudo. Mas quem discorda poderia sim, sem problema nenhum, protestar contra a adoção do livro, é disso que se faz a democracia. O problema é que no Brasil o negócio de vendas de livros para escolas gira com grana altíssima, e poucas vezes se dá com a transparência devida. Minha pergunta: se ninguém parece ter lido esses livros todos tão impróprios, quem sugeriu que fossem comprados? A inspiração divina?

Tem mais a ser dito, é claro, mas agora é hora de vocês se manifestarem, tá ficando tarde e eu tenho umas coisas para pôr em ordem no meu armário.

Postado por Carlos André Moreira

Corrompendo a Juventude

28 de maio de 2009 10

A figura que vocês observam acima é a nossa colega Tássia Kastner (ela jura que não é parente do poeta alemão Erich Kästner, sobre quem o Benjamin escreveu). A Tássia é uma daquelas insuportáveis criaturas que parecem ter nascido nos anos 80 com o único intuito de te lembrar que estás ficando velho, e já ajuda aqui no Segundo Caderno há um ano (ao fundo, vocês podem ver parte da Redação, da nossa editoria até o Esporte, incluindo a nuca do nosso ex-repórter ora vivendo na Itália Gabriel Brust, o de camiseta branca - embora eu não consiga pensar em um motivo para alguém querer ver isso).

Falando sério agora: a Tássia é uma garota voluntariosa e bastante inteligente, com uma sadia curiosidade sobre as coisas, e esses dias tivemos, eu e ela, uma ideia. A Tássia andava querendo se aprofundar no universo das boas leituras. Eu vivo precisando de colaboração aqui no blog. Juntando as duas coisas, elaboramos a seguinte brincadeira: eu vou apresentar para ela um livro considerado “clássico” pela maioria dos critérios disponíveis para isso (publicação há algum tempo, autor consagrado, repercussão crítica, essas coisas). Ela tem a missão de terminar o livro e, ao fim dele, escrever um texto bastante pessoal, confessional até, se quiser, sobre seu contato com o livro, o que ela sabia dele antes de lê-lo e o que ela achou do livro, com toda a honestidade. Achou que não valia toda a falação? Achou uma maravilha? Qualquer que fosse a apreciação, ela poderia escrever e eu publicaria aqui.

De pronto pintou o problema: como elaborar a lista? Pensei em várias alternativas mais bem abalizadas: a lista dos livros apresentados pelo Italo Calvino em Por que Ler os Clássicos… A lista de autores do Gênio, do Harold Bloom, ou de obras do Cânone Ocidental, do mesmo autor? A lista dos 100 Autores que você precisa ler, organizada pela professora Lea Masina e publicada pela L&PM há uns dois anos? Os 1001 livros que você precisa ler antes de morrer daquela outra lista do Peter Boxhall? Bom, no fim decidi usar, quando preciso, um pouco de cada uma dessas listas e ditar a coisa pelo pragmatismo: os livros que eu tiver em casa para emprestar para a moça e era isso. Não se trata, obviamente, de um curso de formação literária ou coisa que o valha, simplesmente a exposição/encenação aqui no blog de um processo que ocorre todos os dias com uma pá de gente: alguém indica um livro para outra pessoa, um livro que já vem com uma carga de referências, muitas vezes, e aí a leitura é que vai conectar ou não o universo do leitor que pegou o livro emprestado com o do que emprestou. E na devolução, a inevitável conversa: e aí, gostou? Sim, muito, ou Esperava mais, essas coisas. E ao mesmo tempo também é sempre bom conferir as leituras sem muitas tecnicidades que um crítico precisa prestar atenção por questão de ofício. Não é um texto crítico, é um texto de descoberta.

A periodicidade também será, se possível, de um livro por mês — vai depender da velocidade de leitura da própria Tássia.

Dito isso, fica para nossa jovem colega o desafio com o primeiro livro, que eu já emprestei há algum tempo: O Velho e o Mar, de Hemingway, e mais não digo sobre ele porque muita gente já conhece ou ouviu falar da história. Quem vai dizer algo agora é a nossa leitora, em um texto que sei lá quando ela vai me mandar, mas espero que seja breve.

Postado por Carlos André Moreira

Horror, cinema e o seu jornal de sábado

28 de maio de 2009 3

O horror é uma representação artística de longa tradição. Seu cerne está arraigado na mais básica emoção humana: o medo. Diferentemente da ficção-científica e da fantasia, o horror é o menos respeitado da tríade do cinema fantástico. Alguns críticos rotularam o horror como pornográfico, depravado ou simplesmente cruel. Eles não entendem o apelo de zumbis devoradores, aberrações chupadoras de sangue ou monstros tentaculares de outra dimensão. Enquanto alguns possuem um genuíno desgosto pelo gênero, eu me arriscaria a dizer que a maioria inconscientemente se limita a aceitar a noção de que “terror é lixo”. Essa visão é claramente ignorante do horror como parte integral e influenciante da nossa cultura.

O parágrafo acima é de um texto do cineasta Frank H. Woodward que será publicado no caderno Cultura do próximo sábado, em ZH, e que versa sobre… H.P. Lovecraft (foto), um dos mestres americanos do horror moderno, um autor com fãs de tal forma devotos que um punhado deles, os mais pirados, obviamente, já quis transformá-lo no profeta de uma antiga religião.

A obra de Lovecraft é uma fonte na qual o cinema e os quadrinhos contemporâneos bebem em goles fartos, logo, seria bastante apropriado que sua vida por si só estranha fosse parar uma hora ou outra no cinema — como de fato foi, no filme Lovecraft: Medo do Desconhecido, dirigido pelo próprio Woodward e incluído na Mostra de de documentários da quinta edição do festival de cinema fantástico Fantaspoa, que exibirá de três a 19 de julho, em Porto Alegre, um total de 200 filmes (quem quiser saber mais detalhes sobre a programação, pode consultar o site www.fantaspoa.com).

Não deixe, portanto, de ler o texto no próximo sábado, um ótima peça abordando a relação de Lovecraft com a literatura pulp, suas ligações com o cinema de horror e sua imaginação delirante. Enquanto isso, aproveitando o pretexto (ou “o gancho”, como dizem), podemos falar um pouco mais sobre o escritor por aqui mesmo.

Lovecraft (1890 – 1937) foi um maluco que saiu muito pouco da cidade de Providence, em Rhode Island, onde nasceu. Era filho único de um caixeiro-viajante e de uma descendente dos primeiros povoadores dos Estados Unidos. Durante a infância, era vestido de menina pela mãe. Pelo que consta das fontes biográficas disponíveis, a principal delas sendo o algo fantasioso L. Sprague de Camp, Lovecraft aprendeu a ler e a escrever antes dos quatro anos e já escrevia poemas aos seis. Seus pais morreram insanos, ambos internados em asilos — o pai, quando ele tinha oito; a mãe, quando ele tinha 31 e ainda não havia publicado a maior parte de suas obras-primas. Ainda de acordo com Sprague de Camp, ele também tinha tinha saúde frágil, foi vítima de uma série de moléstias infantis e sofria de poiquilotermia, uma doença rara que tornava sua pele gélida ao toque, como a de um cadáver.

Em vida, Lovecraft escreveu contos de horror que eram publicados em revistas de grande circulação e popularidade, mas que eram vistos como material barato sem respeito crítico. Uma prova disso está nos textos do recentemente relançado O LIvro dos Insultos de H.L. Mencken, no qual há um artigo em que ele defende Mark Twain em compaaração com qualquer outro dos autores de seu tempo, como Washington Irving, dizendo que perto de Twain todos os demais pareciam “a moçada que escreve em revistas pulp” — uma referência que poderia servir muito bem para a turma do próprio Lovecraft: Robert Bloch, escritor do conto que deu origem ao filme Psicose, de Alfred Hitchcock; Clark Ashton Smith e o criador de Conan, o Bárbaro, Robert E. Howard. Todos eram esporadicamente publicados pela revista The Weird Tales, que era dirigida pelo escritor Walter B. Gibson, o criador do Sombra, que mais tarde daria origem à série radiofônica e finalmente aos gibis. .

Ironicamente, embora tenha conseguido se sustentar razoavelmente vendendo histórias para essas revistas bastante populares, Lovecraft não foi considerado um escritor de talento literário propriamente dito em vida — morreu relativamente jovem, aos 47 anos, vítima de câncer.

Ao longo do século 20, Lovecraft foi apropriado como poucos pela cultura pop. Nos quadrinhos do Batman, por exemplo, a palavra Arkham batiza o nome do asilo na cidade de Gotham City no qual estão encarcerados vilões insanos como Espantalho, Chapeleiro Louco e Coringa. A instituição, criada em histórias de 1974 por Denny O`Neil, era uma citação à fictícia cidade de Arkham, em Massachussets, onde Lovecraft ambientou muitas de suas histórias, um lugar de arquitetura sombria e vielas escuras. Talvez se Lovecraft fosse um autor mais respeitado na época em que o Batman foi criado, a cidade inventada por Bob Kane para o Morcego poderia ter se chamado Arkham em vez de Gotham City.

Outro elemento do autor apropriado à exaustão foi o Necronomicon (que, literalmente, quer dizer O Livro dos Nomes Mortos). O conceito é o de um livro diabólico e amaldiçoado, que se porta como se estivesse vivo e funciona como portal para uma dimensão onde vivem seres maléficos. A idéia foi muito usada em livros de outros autores e na série de filmes Uma Noite Alucinante, de Sam Raimi. O Necronomicon é um livro amaldiçoado que Lovecraft atribuía a um árabe louco de nome Abdul Al Hazred e que narrava  a história dos Antigos, criaturas monstruosas que habitavam a terra antes dos homens.

O sucesso da criação ficcional foi tão grande que muita gente chegou a acreditar que o livro, ou ao menos a lenda sobre ele, existiu de fato. Lovecraft chegou a intercambiar personagens e histórias com alguns dos seus correspondentes da Weird Tales, numa grande e sofisticada brincadeira literária que, após a morte de Lovecraft, deu origem à chamada Mitologia de Cthulhu — referência a um dos personagens mais conhecidos dentre os “antigos”. O termo “mitologia”, obviamente, não é do próprio Lovecraft. É de um admirador chamado August Derleth, outro membro da turma que continuou a escrever histórias sobre os seres de Lovecraft mesmo após sua morte.

Para falar um pouco mais sobre isso, é preciso lembrar que nas histórias de Lovecraft a humanidade não é o topo da cadeia biológica ou o ápice da civilização. Há algo maior: seres mais antigos que a própria vida na terra, dotados de presas afiadas, tentáculos gosmentos e indiferença quando não desprezo pela vida humana. Como Lovecraft escrevia muitas vezes inspirado pelos próprios pesadelos, suas criaturas são a encarnação de terrores primordiais. Suas descrições não são exatamente as mais precisas quando fala de seus monstros. Elíptico, preferia evocar medos inconscientes e citar alguns detalhes de que provavelmente qualquer um preferiria manter distância, como tentáculos verdes, olhos gigantes escamosos e coisas assim. Um desses seres é o perturbador Cthulhu, já mencionado, e cuja aparência seria a de um monstro com corpo humano, asas gigantescas de gárgula e uma cabeça cheia de tentáculos (sim, sim, senhores, corretíssimo, Piratas do Caribe também pega carona em Lovecraft). Cthulhu era o emissário e sacerdote dos Antigos (cujas figuras centrais são Azathoth, que ocupa o centro do universo, e Yog-Sothoth, que está em toda parte), e sua primeira aparição se dá no conto O Chamado de Cthulhu - sim, metaleiros, tem uma música do Metallica com esse mesmo nome justamente por causa disso.

Os “deuses”de Lovecraft não são divinos. Nas suas histórias, sempre temos a dimensão de que se trata de extraterrestres que a ignorância humana elevou a divindades. Esses terrores aguardam – em uma dimensão paralela à nossa – a oportunidade para espalhar outra vez destruição e caos, e por isso a posse do livro é crucial. Mas alguns malucos não pescaram a jogada e criaram uma mitologia paralela segundo a qual o Necronomicon não só existia como Lovecraft havia tido de fato contato com ele, e havia recebido a missão de espalhar a palavra das criaturas de poder (quando o assunto é fanatismo, tem louco pra tudo), deuses realmente antigos.

Como sua obra ainda desperta paixões, e tem um bom número de admiradores, Lovecraft já inspirou música (além do Metálica, foi tema de King Diamond e Black Sabbath), cinema, jogos, e, claro, quadrinhos. Além do documentário de Woodward que será exibido no Fantaspoa, sua vida já foi tema de uma biografia-fantasia chamada Lovecraft, escrita por Hans Rodionoff e Keith Giffen e desenhada pelo mestre argentino Enrique Breccia e da minissérie The Strange Adventures of H.P. Lovecraft, com roteiros de Mac Carter e arte de Tony Salmons (as capas de ambos ilustram este post). Em ambas as histórias, os autores transformam Lovecraft em um homem assombrado pela própria obra: seus pesadelos se tornam reais, o mundo sobre o qual ele escreve por vezes o arrebata, oú ele se vê na condição de um homem solitário que vê horrores ancestrais espreitando a humanidade.

Ah, sim, uma última dica: tem muita obra do Lovecraft traduzida e publicada por aí (pela L&PM e, principalmente, pela editora Iluminuras), mas como o cara morreu há mais de 70 anos, sua obra já está em domínio público e caiu na internet. Um dos melhores sites em português é este aqui:

Postado por Carlos André Moreira

Literatura Safra 80 - Samir Machado de Machado

27 de maio de 2009 1

Publicitário de formação Samir Machado de Machado é também o design da maioria das capas da Não Editora, da qual é sócio com outros autores já publicados como Rodrigo Rosp e Antônio Xerxenesky. É autor da bela novela O Professor de Botânica, na qual um amargo e idoso professor vê em uma excursão a uma reserva florestal a oportunidade de descobrir uma espécie nova de orquídea e assim alçar-se ao equivalente científico da imortalidade. Samir também editou as três coletâneas de FC e fantasia Ficção de Polpa, da mesma editora.

Mundo Livro — Como se deu tua aproximação do universo literário? Cresceste em um ambiente que te facilitou esse acesso?
Samir Machado de Machado
— Sim, sempre tive acesso a livros. Na real meu pendor para a escrita começou de uma forma inusitada. Eu gostava muito de quadrinhos, e comecei a ler e a desenhar histórias. Depois de algum tempo percebi que gostava mais de contar as histórias do que de desenhar, que era um saco. O que me fez escrever com mais frequência, levar aquilo mais a sério foi fazer a oficina do Assis Brasil. 

Mundo Livro — Esse é um ponto que me parece superado pela tua geração. Antigamente havia a grande discussão sobre a validade de um escritor passar por oficina literária, hoje a maioria simplesmente a faz.
Samir —
Para mim foi uma etapa para ter noção do ofício. Pareceu uma coisa bastante natural que, no momento em que eu estava a fim de investir nisso, de me tornar um escritor, eu deveria passar por uma oficina. A discussão mais atual na minha geração não é se faz ou não oficina, é a pasteurização dos textos, o que acontece muito, seja isso culpa da oficina ou não.

Mundo Livro — Tens notado essa pasteurização? Engraçado, és o primeiro com quem converso a falar disso, a maioria ressalta justamente que os textos mantém a identidade de cada autor.
Samir —
Eu sinto uma padronização, não no sentido de serem todos iguais em estilo, mas no fato de apresentarem muito investimento do autor na técnica e pouco no conteúdo. Acho que é sim reflexo das oficinas, em que se aprende o valor da concisão, e todo mundo hoje tem a tendência de tornar os textos enxutos, vão cortando o que vêm pela frente e detonam aquilo que criaria um clima. Há um afã de ir cortando, cortando, para chegar na essência, e fica tudo muito descarnado. Tenho noção disso porque organizei três coletâneas Ficção de Polpa para a Não Editora, com contos no ficção científica e fantasia. Já recebi mais de 200 textos, o que me tornou apto a notar certos vícios: histórias diretas demais. Acho que tenho uma implicância pessoal com contos muito curtos, ou minicontos, poucos são os que vão além do trocadilho. Tu precisa envolver o leitor dando a ele um tempo de leitura para mergulhar no universo de ficção que se está criando.

Mundo Livro — É também uma geração que não rejeita temas ou fontes de inspiração e referência: quadrinhos, música, arquitetura, cinema de arte, cinema de gênero, música pop. É uma geração onívora?
Samir —
Com certeza. Eu, ao menos, busco isso nos meus textos. Meus temas não vêm só da literatura, às vezes busco o ritmo dos quadrinhos, uma estética visual. Dependendo do que estou escrevendo, cerco meu espaço de trabalho de imagens que remetam àquilo. É impossível para um escritor hoje escrever ignorando o universo de cultura pop e entretenimento que o cerca.

Mundo Livro — Também me parece — e tenho comentado isso com os demais autores — que é uma geração também mais disposta em buscar seu próprio espaço, fundar a própria editora, como tu e outros fizeram no caso da Não. Há uma certa propensão a querer fazer as coisas acontecerem?
Samir —
Os próprios autores sempre tiveram alto receio de autopublicação, aqueles livros custeados pelo próprio autor, com acabamento menos cuidado… Hoje não, acho que é até parte do espirito da época: bandas que lançam sua música no myspace, curta-metragens em exibição no Youtube… E na literatura também, os artistas tem de ter um pouco mais de proatividade de se lançar primeiro para depois buscar outras editoras.

Mundo Livro — Ao mesmo tempo, vocês como editores de uma casa regional e menor, não sofrem também com o atual ciclo no qual uma editora pequena lança um talento que logo depois é arrebatado por uma grande editora?
Samir —
A nossa ideia com a Não sempre foi fazer isso. Sempre pensamos na editora como veículo para abrir espaços. As editoras pequenas hoje cada vez mais precisam ocupar essa função, em um momento em que a maioria das editoras grandes já nem avalia mais originais. O trabalho de separar o joio do trigo acaba sendo hoje da pequena editora. Era parte da Não editora assumir essa tarefa e estávamos conscientes disso.

Mundo Livro — Em que projeto estás trabalhando agora?
Samir —
Um livro no qual eu estou lidando há cinco anos. Na prática é uma aventura histórica e ao mesmo tempo uma crise de autodescobrimento pessoal. Não vejo isso sendo muito feito, ao menos no cenário nacional.

Mundo Livro — E com que autores em atividade achas que tua obra dialoga?
Samir —
Dos autores novos eu li bastante o Daniel Galera. De certa forma tem sentimentos nos livros dele com os quais eu me identifico, principalmente o de um deslocamento em relação ao mundo em que se vive. Minhas referências bem ou mal têm muita coisa de fora. O Ian McEwan, que eu descobri há pouco tempo, me abriu um novo modo de possibilidades de construir o suspense de uma narrativa. O Michael Chabon é um autor que eu li muito, ele me diz muito em relação a dialogar com a cultura pop. No Brasil não são tantos autores assim porque os temas que me atraem que não vejo muito sendo trabalhados. Na adolescência li muito o Erico Verissimo com O Tempo e o Vento. Sempre digo que ele é um gênio, porque escreveu a única trilogia de sete livros que eu conheço. Quando estava me formando como leitor também li uma boa dose de literatura de entretenimento: Harry Potter, Bernard Cornwell, que estou usando como referência no tratamento ficcional da matéria histórica. Li muito também literatura fantástica, e ela me levou ao Baudolino, do Eco, e dali para toda a obra dele. A partir do Eco eu descobri Borges, dele fui indo para outras referências. Por mais leitor que eu seja é impossível escrever sem ser influenciado por inúmeras outras coisas.

Postado por Carlos André Moreira

Literatura Safra 80 - Antônio Xerxenesky

27 de maio de 2009 0

Franzino, de fala mansa e óculos de lentes grossas, Antônio Xerxenesky parece mais um daqueles estudantes de física ou de computação — uma impressão não de todo errada, já que o autor realmente cursou Física na UFRGS antes de escapar do árido mundo das exatas para o das Letras. Ele é autor de Entre, livro de contos que hoje ele mesmo critica, e de Areia nos Dentes, romance que brinca com a forma e a temática ao cruzar duas histórias em um faroeste que também trata de uma invasão de zumbis. Na primeira, um homem em um hotel decadente do Novo México escreve uma saga de vingança e sangue entre duas famílias numa localidade do oeste selvagem — logo abalada por uma maldição que faz os mortos voltarem para atacar os vivos.

Mundo Livro — Posso estar errado, mas me parece que és de uma geração que não tem um rótulo ou bandeira sob o qual ser enquadrado. É mais confortável poder lidar apenas com tua ficção sem precisar seguir qualquer programa ou movimento?
Antônio Xerxenesky —
Há um tempo saiu uma reportagem na revista Aplauso sobre isso que acho que matou muito bem a charada, eles disseram que éramos uma “não-geração”. E é bem isso, cada um tá indo para um lado diferente. Não tem unidade estética, ideológica entre os escritores de hoje. Claro que há casos como os do Samir (Machado de Machado), com quem tenho muitas referências comuns, como o Pynchon, por exemplo.

Mundo Livro — Os novos autores parecem ter uma autonomia maior em termos de buscar espaços sem precisar ficar batendo na porta das grandes editoras. Seria uma turma mais disposta a fazer as coisas acontecerem?
Antônio —
Não é bem assim. A gente ainda quer ser publicado por uma grande editora, só ninguém tem mais a ilusão de que se bater na porta será aceito assim sem mais nem menos. Hoje em dia não basta escrever um puta livro e achar que vai ser chamado para uma grande editora para ter seu talento reconhecido. Essa coisa do gênio descoberto realmente morreu. Eu ouvi alguém falando recentemente, embora não me lembre quem, que hoje em dia tem mais porcaria sendo publicada do que gênios não recohecidos. Quem é realmente bom vai acabar aparecendo se correr atrás. Algo que a gente aprendeu com a experiência da Não Editora é que tem público para todo mundo. Para o meu livro ou para o do Rafael Bán Jacobsen.

Mundo Livro — A tecnologia auxilia nesse processo?
Antônio —
Sim, hoje há grandes facilitadores. No Orkut, conheci muita gente em fóruns de discussão literária e muita gente se interessou pelo meu livro. A compra online também é um diferencial. O Areia nos Dentes está no site da Livraria Cultura, por exemplo — se alguém no Acre quiser comprar o livro, é só encomendar e pagar que vai receber. Quando se fala de tecnologia não são só blogs, como se fala muito de um pessoal que veio antes da gente, até porque muitos hoje não têm blog, é a venda online mesmo que faz a diferença.

Mundo Livro — – E com quem dentre os escritores em atividade acreditas que tua obra estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma?
Antonio —
O Joca Terron. A gente tem muitas influências em comum. Eu gosto muito também do Mãos de Cavalo, do Daniel Galera. Aquele livro para mim foi uma aula. Eu tinha recém escrito o primeiro livro, de contos, Entre, que eu particularmente hoje considero muito fraco, e o Mãos de Cavalo mostrou o caminho que um escritor poderia fazer para tirar o ranço adolescente de sua obra. O Galera odeia que se diga que aquele é o romance de maturidade dele, mas o fato é que é. Foi um livro muito importante para mim, embora não dialogue tematicamente. A própria obra do Galera foi importante na minha formação como escritor. O Dentes Guardados eu li com 16 anos, e embora hoje ele não provoque em mim o mesmo efeito, vê-se claramente ali um trabalho estético, de brincar com as palavras, jogar as vírgulas fora do lugar. É um livro muito válido como primeiro livro e foi inspirador, porque eu lia só o que o colégio me obrigava.

Mundo Livro — Foi uma descoberta também para a literatura?
Antônio —
 Definitivamente. Eu cursava Física na UFRGS e estava detestando o curso porque minha mente não é muita científica — e eu fugia daquele universo de exatas lendo furiosamente: Cortázar, Borges, Joyce, e lendo tanto, aquele desvario me despertou o desejo de escrever.

Mundo Livro — Como é teu método de trabalho?
Antônio —
Estou trabalhando no meu segundo livro, tentando, me arrastando. Penso muito antes de escrever cada linha, sou obsessivo por querer saber o que vai acontecer em um capítulo. É engraçado, porque eu fugi das exatas mas na minha obra sou extremamente racional, ainda mais em termos de romance. Até se pode dizer que escrever um bom conto é muito difícil, mas en termos de construção um romance exige uma estrutura mais forte do que um conto. Eu montava esqueletos e mais esqueletos. Mantenho comigo um caderno de ideias — e parece coisa do colégio, é setinha para lá e para cá. Só setas, diagramas, tabelas, o que acontece em cada seção. Eu tenho um processo acadêmico de montagem do romance. Acho que eu só relaxo na questão do final. No Areia nos Dentes eu planejei todo o esqueleto mas não planejei o final. Era uma ideia de que se fechasse a estrutura do livro, ele não me surpreenderia.

Postado por Carlos André Moreira

Literatura Safra 80 - Telma Scherer

27 de maio de 2009 3

Telma Scherer é autora de Rumor da Casa, livro que foi ensaiado a exemplo de um disco de rock. Por anos, Telma, que além de escrever poesia faz performances poéticas, ensaiou os poemas que mais tarde comporiam o livro e burilou-os de acordo com a reação do público. Telma se prepara agora para seu primeiro voo na ficção narrativa em prosa.

Mundo Livro – A atual geração de escritores parece mais disposta a correr atrás de espaços, reunir-se, trocar ideias e fazer sua obra chegar ao público. É uma turma mais disposta a fazer as coisas acontecerem?
Telma —
Acho que isso envolve uma noção de profissionalismo. Antes havia escritores que tinham outras profissões e escreviam quando dava, quando tempo dedicado a outro ofício permitia. O que dá para ver é que tem um grande número de autores hoje com o desejo de viver da literatura, se não dos livros que publica, ao menos ter uma formação que permita trabalhar em áreas afins. Se eu fosse ouvir o que os meus colegas mais velhos me disseram quando estava começando, teria chegado à conclusão de que algo assim era impossível. Mas há uma noção hoje de que se pode ser profissional da palavra. Pode-se ministrar Oficinas, cursos, fazer performances, qualificar-se para uma atividade na universidade, buscar o financiamento de projetos, editais, cada vez mais. Pro Rumor da Casa tive apoio do edital do Fumproarte pro Rumor…. O último edital do mesmo fundo, que também bolsas de criação, pesquisa e formação na área artística, eu também me inscrevi e fui contemplada. Será assim que farei meu novo livro, um romance, uma, releitura do Clarissa do Erico Verissimo, pela ótica da Clara, uma personagem que lê esse romance e que se relaciona com a Porto Alegre de hoje com a mediação dele. É uma oportunidade de tratar as diferenças entre essas duas adolescências, a da Clarissa e da Clara.

Mundo Livro — Um reflexo que tenho notado talvez dessa maior ligação dos autores com a academia é que a discussão sober a validade das oficinas literárias parece superada para quem escreve hoje.
Telma —
Sim, isso foi superado, com certeza. A oficina não ensina ninguém a escrever, é claro, mas existe um instrumental, uma técnica, referências, que isso uma boa oficina pode passar, e cada um usa como quiser. Fui ministrar uma oficina de poesia há algum tempo e me surpreendi com o fato de que as pessoas que estavam ali, querendo aprender sobre o fazer poético, não conheciam Ezra Pound, não leram o ABC da Literatura, nunca leram T.S. Eliot, não conhecem Octavio Paz, ou seja, coisas fundamentais para pensar a poesia contemporânea.

Mundo Livro — isso também foi algo que me chamou a atenção na apuração desta reportagem: o quanto a atual geração é ligada à reflexão crítica na academia — vários cursam ou já concluíram mestrado e doutorado em áreas da literatura. É uma geração com perfil intelectual próprio?
Telma —
Acho que isso é realmente uma m
arca. Ao menos nos colegas com quem convivo. Há a noção de que é importante ter uma bagagem acadêmica. Se eu não tivesse esse background, minha obra seria outra. Eu estava fazendo doutorado na UFSC mas larguei por ora porque estava cansada de estudar crítica do teatro simbolista português para poder chegar à heteronomia no Pessoa, que era o que realmente me interessava. Não queria também fazer o mestrado em escrita criativa na PUC, então fui para a Literatura Comparada na UFRGS. Eu vinha da  Filosofia na UFRGS, onde havia estudado estética, tragédia grega e Aristóteles. E então cheguei à literatura comparada para poder abordar essa minha experiência anterior trabalhando a questão das formulações estéticas do tempo.

Mundo Livro — Como se deu tua aproximação do universo literário? Foi de casa, na escola, mais tarde?
Telma —
Sou de Lajeado, meu pai é músico e minha mãe foi professora de literatura. Então eu cresci ouvindo muito meu pai ensaiando, os sons do trompete, que é um instrumento muito forte, e minha mãe ao mesmo tempo sempre me estimulou não só para a leitura como para escrita. Vem daí minha dupla obsessão com a palavra e a performance da palavra. Gosto de encontrar o público, de jogar o poema e recebê-lo de volta. A Performance da poesia é importantíssima para o meu trabalho. Trabalhando o poema junto ao público eu também aprendo um pouco mais sobre ele, então quando ele volta para o papel está renovado. É uma questão também de linguagens das quais a gente se apropria. O poema também é uma partitura, então na leitura a pessoa tem de dominar a técnica de apresentar aquilo, ler e tirar o ritmo. Porque mesmo na leitura silenciosa o ritmo tem de estar presente para a pessoa se emocionar. O ritmo da fala de hoje não é mais tão regular quanto antigamente, é muito entrecortada, então eu uso isso no meu trabalho, uso o corpo, a voz, esse ritmo mais irregular. 

Mundo Livro — E já houve casos de poemas que estavam impressos, já com uma “forma fixada” como se diria mudarem com a contínua reapresentação?
Telma —
Isso me ocorre muito. O meu primeiro livro, de 2002, o Desconjunto, eu reescrevi todo ele desde o lançamento, e ainda reescrevo, ee é continuamente reescrito. O Rumor… também – tem poemas que não estão no livro mas estão na performance, outros eu trabalho mais, outros parecem estar funcionando muito bem e eu trabalho menos. Tem uns que eu não trabalho tanto. Mas em geral tem esse processo bem vivo.

Mundo Livro — A poesia padece de um estigma de ser pouco vendável. Isso exige ainda mais dos poetas soluções alternativas para divulgarem seu trabalho?
Telma —
Essa coisa do mercado da poesia é difícil de controlar e quantificar. Tem muito material alternativo. Conheço tantos poetas independentes, que tão usando outros suportes, outras publicações — o Jorge Bucksdriecker publica muito na Internet, o Diego Petrarca publicou pouco em livro, mas tem muito material espalhado por aí. Tem gente que passa a vida vendendo poesia de mão em mão. A poesia tem sim um mercado, são mercados diferentes, mas ela é bem forte dessa maneira. Ela está de ligada a essa divulgação de um jeito bem independente, marginal. Editoras, mesmo não tem muitas interessadas, principalmente de fazer um projeto, como foi o Rumor…, com performance, com uma reflexão cênica. O Rumor ao menos já tinha esse respaldo do prêmio. Para solucionar essa questão eu mesma faço todo o trabalho junto de produção e tudo o mais.

Postado por Carlos André Moreira

Literatura safra 80: Marcelo Spalding

27 de maio de 2009 0

Marcelo Spalding publicou seu primeiro livros aos 16 anos uma obra que, nas palavras dele, “naturalmente se tornou um livro infanto-juvenil porque era a idade que eu tinha na época”. Hoje, 12 anos depois, Spalding é professor da Oficina de Criação Literária da Uniritter, ex-integrante da direção da Associação Gaúcha de Escritores e um autor com livros que transitam do infanto-juvenil ao adulto, caso de sua obra Crianças do Asfalto. livro que transforma em contos os resultados de pesquisas sobre crianças de rua. É também sócio da Editora Casa Verde, pela qual publicou recentemente Minicontos e muito menos, escrito em parceria com Lais Chaffe no sistema livro-dois-em-um: de um lado o livro é de um, do outro, pelo avesso, é o livro do outro.

Mundo Livro — Algo que me chamou a atenção ao selecionar os nomes para esta matéria foi o grande número de autores da tua faixa etária que estão de alguma forma ligados à universidade. Carol Bensimon é mestre em Literatura Brasileira, cursa o doutorado na Sorbonne. Diego Grando é mestre em escrita criativa pela PUCRS e também cursa doutorado na França. Telma Scherer é mestre em Literatura Comparada, e tu mesmo é mestre em Literatura Brasileira. A nova geração literária está mais ligada à academia? 
Marcelo Spalding
— Acho que uma das explicações para isso
a questão da oportunidade. O acesso à universidade hoje é mais fácil e as universidades de modo geral estão muito mais abertas a propostas que envolvam criação literária. A universidade hoje aceita mais facilmente propostas que antes eram rejeitas pelo apego a uma certa rigidez de normas. E creio que, do ponto de vista do escritor, há uma necessidade de especialização, de uma independência maior para fazer sua própria reflexão, que vem desse aperfeiçoamento.

Mundo Livro – Como se deu tua aproximação do universo literário? Consegues apontar um momento em que tiveste o estalo de que escritor era um ofício que querias seguir?
Marcelo — A própria Zero Hora tem parte nisso. Eu tinha 11 anos e participei de um concurso,o Jornalista por um Dia, e tive um texto publicado. Mais tarde participei de novo e outra vez fui selecionado, e depois de ganhar duas vezes eu vi que talvez ser jornalista fosse um caminho para mim, e fui fazer e me formei em jornalismo. Mas é aquilo, jornalista até escreve, mas não necessariamente é um profissional que reflete sobre a palavra. Por isso fui fazer um mestrado em literatura – e eu queria dar aulas, também, e percebi que, se quisesse das aulas, talvez fosse melhor fazer letras na graduação também.

Mundo Livro — A mim me parece que és de uma geração que não tem um rótulo ou bandeira sob o qual se unir ou ser enquadrado, mas na qual o diálogo ainda assim se estabelece. É mais confortável poder lidar apenas com a literatura sem pensar em termos de um “movimento literário”?
Marcelo —
A rotulação ainda existe.
Acho que se associa muito os integrantes de uma geração que não é homogênea. Fico muito brabo quando juntam tudo e dizem que a “nova geração” faz uma literatura que une niilismo com sexo e drogas. Até há escritores que fazem isso, mas infelizmente se tenta reduzir isso de forma homogênea. Talvez haja uma onda de autores mais novos que esteja mais liberta disso, disposta a fazer um texto realmente novo. Acima de qualquer rótulo temático está a questão estética. As preocupações temáticas também não podem ser reduzidas, há provocações em outros temas. Esta geração não pode esconder a diversidade que existe – diversidade social inclusive.

Mundo Livro — Os novos autores também parecem ter uma autonomia maior em termos de buscar espaços – juntam-se em cooperativas, fundam seus próprios projetos, em último caso publicam na internet. Seria uma turma mais disposta a fazer as coisas acontecerem?
Marcelo —
Vi o Airton Ortiz (escritor e jornalista especializado em livros de viagens e aventuras ao redor do mundo) dizer certa vez que o escritor hoje tem de saber escrever e se divulgar. Eu acho isso horrível, para mim escritor escreve e pronto, mas não sou ingênuo de saber que se um escritor não tiver um mínimo de envolvimento com a divulgação de seu livro a coisa simplesmente não acontece. Há muita gente escrevendo, poucos espaços de divulgação e é claro que o leitor vai ler a obra de quem for divulgado primeiro ou melhor. O fator internet é também importante nisso também. Hoje a gente escreve e consegue um público de leitores, e isso incentiva que se continue escrevendo. Claro, há um momento em que a publicação impressa continua a ser almejadas, mas normalmente ela chega em um momento curioso. Eu, por exemplo, posso dizer que tenho mais leitores na Internet do que fora dela (Marcelo mantém, entre outros, oblog O Spalding)

Mundo Livro — E com quem dentre os escritores em atividade acreditas que tua obra estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma?
Marcelo —
Não tenho muito contato com o trabalho da
Geração mais nova. Eu diria que autores que foram importantes para mim e com quem acho que divido alguns interesses seriam o Assis Brasil, a Cintia Moscovich.

Mundo Livro — Há uns vinte anos, eram levantadas muitas críticas sobre a validade de uma oficina. Isso hoje parece uma discussão que ficou para trás, dado que a maioria dos atuais autores passou por uma.
Marcelo —
Eu mesmo ministro oficinas literárias na Uniritter faz uns dois anos. Acho que se chegou à conclusão de que é bobagem dizer que oficina vai dar fórmulas para os autores, ou que vai padronizar os textos. Por isso não nos tornamos homogêneos. Fiz cinco anos de oficina com o mesmo autor, o Charles. A própria Cíntia que estudou muitos com o Assis Brasil, não tem nada a ver com o estilo dele.

Postado por Carlos André Moreira