Quem leu o Segundo Caderno de hoje pôde acompanhar um material bem bacana produzido pelo editor Ticiano Osório sobre o novo romance do mestre americano Philip Roth, Indignação, que está saindo agora no Brasil. A edição, pela mesma Companhia das Letras que já vem publicando Roth no Brasil com regularidade, apresenta uma novidade: troca-se o poeta Paulo Henriques Britto por outro nome bastante conhecido e respeitado, o do diplomata Jorio Dauster, entre outras coisas um dos tradutores do clássico de J.D. Salinger O Apanhador no Campo de Centeio. Como já fizemos em outras oportunidades, aproveitamos o espaço mais generoso do blog para publicar a íntegra da entrevista, que precisou ser cortada pelo espaço mais limitado do jornal impresso. Deixo com vocês o texto do Ticiano:
Jorio Dauster só traduz gigantes
Ticiano Osório
Depois de sete livros em sequência, a Companhia das Letras trocou o tradutor de Philip Roth. Sai o professor, poeta e contista carioca Paulo Henriques Britto, 57 anos, e entra o diplomata e consultor de empresas Jorio Dauster, 71, seu conterrâneo. Por meio de sua assessoria de imprensa, a editora informa que não houve "uma razão especial" para a mudança. Trata-se apenas de um caso de agenda — Britto é um dos mais requisitados profissionais do mercado, e seu currículo inclui Thomas Pynchon, Don DeLillo, John Updike e V.S. Naipaul. De qualquer forma, o leitor não precisa se preocupar: Roth está em boas mãos. Dauster verteu para o português três obras de J.D. Salinger e 10 de Vladimir Nabokov, incluindo os clássicos O Apanhador no Campo de Centeio — versão nascida, em 1965, da paixão que ele e dois colegas diplomatas nutriam pelo livro — e Lolita (na versão mais recente, de 1994). Depois de Indignação, pegou dois títulos de Ian McEwan, O Jardim de Cimento (no prelo) e Amor Infindo (em processo de tradução). Ou seja, só trabalha com autores consagrados.
— Encaro as traduções como um hobby, e não como uma ocupação — diz Dauster em entrevista por e-mail. — Só aceito trabalhar com autores de que gosto e sem prazos rígidos de entrega, o que permite que cada obra se transforme num prazer e jamais numa obrigação.
Abaixo, a entrevista:
Zero Hora — Dado que a única tradução de O Apanhador no Campo de Centeio no Brasil é a que o senhor fez com dois colegas, pode-se dizer que vocês três têm mérito na paixão que o clássico de Salinger despertou nos leitores do país. Qual o tamanho do papel de um tradutor no êxito de um livro? Ele pode chegar ao ponto de se considerar co-autor?
Jorio Dauster — Uma boa tradução não salva um mau livro, mas uma má tradução pode afundar um bom livro. No entanto, vejo o autor como um artista e o tradutor como um artesão. Dito isso, é interessante observar que Philip Roth exige de suas editoras que remunerem o tradutor por cada livro vendido, o que constitui uma inusitada manifestação de respeito a uma classe de colaboradores que não costuma ser prestigiada no Brasil.
ZH — Eric Nepomuceno já disse em uma entrevista a ZH que, quando traduz García-Márquez, vai vertendo o texto já na primeira leitura, para ter a possibilidade de se encantar com a história enquanto traduz _ ao passo que a maioria dos tradutores prefere fazer uma ou até duas leituras no original antes de se entregar à tarefa da tradução propriamente dita. Qual é seu método?
Dauster — Com raríssimas exceções, leio antes o livro para sentir seu clima e o tratamento dado a cada personagem, uma vez que tudo isso termina por se refletir na tradução. Mas o Nepomuceno é craque e, conhecendo profundamente o García-Márquez, pode tocar de ouvido sem atravessar o samba.
ZH — É mais fácil para um tradutor trabalhar com um autor do calibre de Philip Roth — embora a responsabilidade também seja maior _ do que com um autor de menos recursos literários? Melhor trabalhar com um autor vivo, que pode ser consultado, ou não faz diferença?
Dauster — Obviamente, traduzir um livro é uma experiência muito mais densa do que ler o mesmo livro. Significa conviver com o autor por semanas a fio, desvendar seus macetes, até se irritar com algumas manias ou tiques estilísticos. E é por isso que só traduzo aqueles autores que admiro e cujos textos merecem ser tratados com absoluto respeito. No entanto, como nunca enfrentei o equivalente em outra idioma a Guimarães Rosa, não senti a necessidade de consultar o autor, sendo assim indiferente que ele esteja vivo ou morto.
ZH — Seguindo a mesma linha, melhor traduzir uma obra contemporânea, como este Indignação, ou retrabalhar um clássico, como senhor fez em Lolita? Qual o grau de liberdade que um tradutor tem em relação ao vocabulário de um clássico?
Dauster — Não faço este tipo de distinção, e acho mesmo que a obra de Nabokov é tão "contemporânea" quanto a de Roth. Lolita já havia sido traduzida muitos anos antes no Brasil quando aceitei a incumbência de produzir uma nova versão. Mas não "retrabalhei" o texto anterior e nem tive a preocupação de "atualizar" a linguagem do livro, pois simplesmente abordei a obra como se ela tivesse saído na véspera da pena do autor. Seja como for, para os curiosos em matéria de literatura, é possível cotejar duas visões da mesma obra, verificando como podem variar as percepções de quem a interpreta e como é rica a língua portuguesa para sustentar versões tão diferentes do texto original. E, depois disso, decidir qual a tradução que mais lhe agrada.
ZH — O senhor é contemporâneo de Philip Roth. Nasceu em 1937, e ele, em 1933. De que maneira os livros de Roth, tanto aqueles em que o escritor americano aborda o peso da velhice (Homem Comum, Fantasma Sai de Cena, por exemplo), quanto aqueles em que as inquietações da juventude estão no centro do debate (Complexo de Portnoy, Indignação), dialogam com sua própria vida?
Dauster — As angústias existenciais de Roth pertencem a todos nós, independentemente do local de nascimento e da idade. Mas há nele uma carga cultural muito forte como judeu de Newark que não encontra nenhum paralelo no carioca de uma família sem condicionamentos religiosos.
ZH — Se a pergunta não for indelicada, o que o leitor pode esperar com a mudança de tradutor na obra de Philip Roth?
Dauster — Como só li Roth no original, não conheço as traduções do Britto, embora saiba que elas são consideradas primorosas. Caberá aos leitores ou aos críticos literários dizer se há alguma mudança significativa de diapasão e, em caso positivo, se isso afeta a apreciação.
ZH — O que foi mais prazeroso e mais árduo em traduzir Indignação? Do ponto de vista do tradutor, há alguma particularidade no texto de Philip Roth que mereça ser destacada?
Dauster — O prazer, repito, é da essência, e não encontrei nenhuma dificuldade particular. Roth tem um estilo direto e em geral usa frases curtas, baseando-se mais na força da narrativa do que em recursos linguísticos.
ZH — O que o senhor acha do processo que J.D. Salinger está movendo contra a editora que publicou uma sequência não-autorizada de O Apanhador no Campo de centeio, que mais ou menos imagina como seria Holden Caulfield 60 anos depois?
Dauster — Ao longo das últimas décadas, Salinger negou-se a publicar dezenas de contos que julgou não estarem à altura do resto de sua obra e, insatisfeito com a versão cinematográfica de uma de suas peças, recusou somas fabulosas que Hollywood lhe ofereceu para filmar o Apanhador... A meu juízo, tem todo o direito de impedir que um aventureiro saia à caça do tesouro sequestrando seu personagem.
ZH — Denúncias de editoras que publicaram como suas traduções antigas com pequenas alterações cosméticas parecem ter se intensificado nos últimos anos. Para o senhor, episódios como esse mostram que a tradução ainda é pouco valorizada por uma fatia do mercado editorial?
Dauster — Considero uma vergonha o assalto sistemático que várias editoras fizeram e ainda fazem ao trabalho honesto de dezenas de tradutores, inclusive agindo como verdadeiros ladrões de sepulturas ao se apropriarem do trabalho de intelectuais já mortos. Esses prostíbulos editoriais não só transvestem versões antigas, em muitos casos copiam de cabo a rabo os textos de outrem, atribuindo-os a pessoas cujos nomes inventam com total descaramento. Tenho participado ativamente do movimento de protesto. Recomendo que os amantes da literatura consultem o site http://naogostodeplagio.blogspot.com para conhecer melhor a extensão desses assaltos e assim poder expulsar de suas estantes as traduções bastardas.
ZH — O senhor já se lançou à ficção? Tem escritos guardados?
Dauster — É bem possível que o fato de traduzir autores tão bons por tanto tempo possa ter contribuído para impedir-me de produzir algo inferior. Em nome da preservação das florestas, eu sugeriria assim que mais gente se dedicasse ao nobre ofício de servir como porta-voz de seus melhores no resto do mundo em vez de lançar livros que nada trazem de novo.
Postado por Carlos André Moreira




Obrigado, Sr Carlos, entrar em contato se for possível com o Sr Jorio Dauster, mesmo através do ZH, para falar destas questões de tradução que me interessam... Agradeceria desde já. Grande abraço. PYMVou ver com o Ticiano, que fez a matéria, Pierre. Quando ela saiu, eu estava de férias.Carlos André
Obrigado Sr André, enquanto a minha pergunta de contato, será que vc pode me indicar a quem me dirijo de ZH ?Acho que houve um equívoco. Não vi pedido de contato nenhum na mensagem anterior, Pierre. Contato com quem?Grande abraço.
Bom dia, Suíço com residência em POA, sou desde já leitor aficionado do Philip Roth, e agora estou lendo ele em português... Todo o artigo de Ticiano Osório me interessou muito, achei ótima idéia e muito interessantes os comentários dos autores sobre o PR que eles/as gostam. Quanto à entrevista do Sr Dauster, achei muito profissional e culta a abordagem dele, gostei da apreciação que ele faz da obra de PR e também me interessou particularmente as observaçãoes sobre o seu \"hobby\" de tradutor. PYMPô, Pyerre, muito obrigado. Moras há um bom tempo no Brasil pelo jeito, teu português é perfeito. Grande abraço.Carlos André
muito obrigado desde já Sr carlos e ainda parabéns pelo blog e pelo material de qualidade sobre Philip Roth e a sua tradução no ZH... PYM
[...] no lugar de Paulo Henriques Britto, tradutor dos sete livros anteriores do autor americano (a íntegra da entrevista está aqui). Quem lê este blog sabe que já há anos acompanhamos com interesse questões relativas a [...]