No Segundo Caderno desta quarta-feira,, temos uma entrevista bem bacana que o editor Ticiano Osório fez com o escritor Amilcar Bettega sobre a tradução feita por este último para 125 contos do autor francês Guy de Maupassant (1860 — 1893), que saiu faz pouco pela companhia com o título simples e autoexplicativo de 125 Contos de Guy de Maupassant, naquela coleção muito bacana de volumões trazendo compilações extensas de contos por autor (Truman Capote, Scott Fitzgerald, Rubem Fonseca, entre outros) ou tema (Contos de Horror do Século XIX, Contos de Fadas, Contos de Amor do século XIX, por exemplo).
O autor da vez é o típico caso do escritor que parece menor em comparação com seus contemporâneos. Maupassant (na foto) é um representante algo enviesado do realismo literário francês que gerou, entre outros, Balzac, Flaubert e Zola, nomes que já vinham depois do gigante romântico Victor Hugo. Em comparação com um time desses, Maupassant é colocado quase sempre em segundo plano (já era naquela época, os Goncourt, por exemplo, o consideravam um escritor bom mas não um grande escritor). De fato, perto da precisão iluminada de Flaubert, seu mestre literário, Maupassant parece até tímido, mas não se pode afastá-lo do cenário nem negar a ele a posição de um dos nomes centrais para estabelecer as bases do conto como gênero da forma como é praticado ainda hoje.
No ensaio Maupassant and the American Short Story, o crítico americano Richard Fusco aponta como admiradores de primeira hora do autor francês (cuja primeira tradução em inglês, diz Fusco, saiu ainda em 1890) escritores basilares para a "short story" que ainda hoje se pratica nos Estados Unidos, como Henry James, Stephen Crane e Ambrose Bierce. Maupassant foi um dos primeiros a perceber que os melhores contos eram os mais concisos, e que nem sempre um enredo linear é o mais eficiente em termos de impacto no leitor, às vezes uma estrutura narrativa um pouco mais elaborada, como em espiral, ou com uma surpresa que reverte a narrativa no final eram ainda mais eficientes e deixavam uma memória mais vívida no leitor.
Outro ponto a ser ressaltado é o quanto Maupassant foi prolífico. Morreu demente aos 43 anos, destruído pela sífilis. A maior parte da vida antes dos 30 anos foi vivida como seminarista, militar ou burocrata, ele passou a se considerar de fato um escritor por profissão depois da publicação do primeiro livro, em 1880. E morreu em 1893 — sendo que praticamente já não escrevia mais desde 1891, quando, afetado demais pela loucura, tinha crises freqeuentes que o impossibilitavam de trabalhar. Ou seja: em um período de pouco mais de uma década, mesmo revisando seus escritos cuidadosamente, como havia aprendido com seu mestre Flaubert, Maupassant produziu seis romances, três centenas de contos e um número quase igual de crônicas na imprensa.
Pois vamos aproveitar a oportunidade para ressuscitar nossa já meio esquecida brincadeira literária de comparar versões diferentes de textos de um mesmo autor. Maupassant é um dos escritores com grande número de traduções no Brasil (escrevia em francês, língua que nunca teve problema de formar tradutores por aqui), e, portanto, vamos comparar três delas, em vez das habituais duas. Todas do primeiro parágrafo do conto Bola de Sebo, uma de suas primeiras obras e considerada uma de suas obras-primas
Primeiro vejamos a tradução de Mario Quintana para a Editora Globo, saída do volume Bola de Sebo e Outros Contos, reunião de 14 histórias em uma edição barata em papel-jornal publicada na coleção Clássicos Globo, de 1987 (quando a Globo já não era mais a Editora Livraria do Globo, de Porto Alegre, e seu catálogo havia sido adquirido pela empresa jornalística Globo do Rio). Por isso, essa tradução deve ser ainda mais antiga, da época em que a Globo ainda era a "Globo da Rua da Praia" e Quintana era colega de Erico Verissimo no departamento editorial da mesma. Não consegui averiguar, contudo:
Durante dias e dias, haviam atravessado a cidade os destroços do exército batido. Não eram tropas, mas hordas em debandada. Os homens tinham a barba longa e suja, os uniformes em farrapos, e avançavam cansadamente, sem bandeira, sem ordem. Pareciam todos acabrunhados, curvados, incapazes de um pensamento ou de uma resolução, a marchar unicamente por hábito e a tombar de fadiga logo que paravam. Viam-se principalmente os mobilizados, gente pacífica, rendeiros tranqüilos, curvados sob o peso do fuzil; rapazolas espertos, fáceis de assustar e de entusiasmar, tão prontos para o ataque como para a fuga; depois, no meio deles, alguns culotes vermelhos, sobreviventes de uma divisão esfacelada numa grande batalha; artilheiros sombrios a ombrear com aquela milícia colorida; e, por vezes, o brilhante capacete de um dragão de passo arrastado que seguia penosamente a marcha mais rápida dos soldados de infantaria.
Agora, vamos dar uma olhada na tradução de Léo Schlafman para a coletânea As Grandes Paixões: contos de Guy de Maupassant, da Editora Record, publicada em 2005. As Grandes Paixões difere da coletânea anterior porque traz 23 histórias (incluindo duas versões diferentes do clássico O Horla) divididas em quatro seções temáticas: As pequenas manobras, Por trás da máscara, A loucura e a alienação e, por último, As libertinas ingênuas. A editora não se preocupa em apresentar, no volume, uma mínima biografia do tradutor (também responsável pela seleção e por um ensaio que abre o volume), por isso informo eu aqui: Schlafman é jornalista, tradutor e ensaísta, autor de A Verdade e a mentira, livro de ensaios publicado pela Civilização Brasileira. Sua tradução para o mesmo trecho não traz alterações de monta, apenas outras escolhas de palavras em pontos-chave:
Durante vários dias os destroços do exército derrotado atravessaram a cidade. Já não eram tropas, mas hordas em debandada. Os homens tinham a barba comprida e suja, uniformes em farrapos, e avançavam em marcha cansada, sem bandeira, sem regimento. Pareciam todos acabrunhados, derreados, incapazes de pensamento ou resolução, marchando apenas por hábito e caindo de fadiga logo que paravam. Eram sobretudo reservistas, pessoas pacíficas, rendeiros tranqüilos, curvados sob o peso do fuzil; rapazolas alertas, fáceis de assustar e de entusiasmar, prontos para o ataque e para a fuga; depois, entre eles, alguns culotes vermelhos, restos de uma divisão esfacelada numa grande batalha; artilheiros sombrios lado a lado com soldados de infantaria; e, às vezes, o capacete brilhante de um dragão com passo arrastado que seguia aflito a marcha mais leve dos infantes.
Como vocês puderam ver, Schlafman atualiza algumas escolhas, como usar "reservistas" no lugar de "mobilizados", mas sua escolha de "aflito" para o dragão que segue a marcha e que encerra o texto me parece uma intervenção narrativa que não casa com o distanciamento do primeiro trecho. Se digo que o homem "segue penosamente" a marcha dos mais rápidos, estou falando da cena que descrevo, como uma câmera que a focasse. Se digo que ele segue "aflito", mandei o narrador para os recônditos íntimos da consciência do personagem e discorri sobre seu estado de ânimo — o que não parece combinar também com o "dragon au pied pesant qui suivait avec peine la marche plus légère des lignards" do texto original.
Mas vamos, para finalizar, à tradução de Amilcar Bettega — também sem apresentação no volume que traduziu. A Companhia não diz que Bettega é contista ele próprio, autor de Deixe o quarto como está e Os lados do círculo, este último premiado com o prêmio Portugal Telecom de Literatura. Tudo bem, agora eu já disse:
Durante vários dias seguidos escombros de um exército em retirada haviam atravessado a cidade. Não era uma tropa, mas hordas em debandada. Os homens tinham a barba comprida e suja, uniformes em farrapos, e avançavam com um ar combalido, sem bandeira, sem regimento. Todos pareciam arrasados, esfalfados, incapazes de um pensamento ou de uma iniciativa, caminhando apenas por hábito, e caindo de cansaço tão logo se detinham. Viam-se principalmente reservistas, gente pacífica, rendeiros tranquilos, curvados sob o peso do fuzil; pequenos moblots* alertas, fáceis de assustar e prontos ao entusiasmo, tão dispostos ao ataque quanto à fuga; depois, no meio deles, alguns culotes vermelhos, destroços de uma divisão esfacelada numa grande batalha; artilheiros sombrios alinhados com infantes dos mais variados; e, por vezes, o capacete brilhante de um dragão de passo arrastado que a muito custo seguia a marcha mais lépida dos soldados de linha.
* Apelido dado aos soldados da Garde National Mobile, formação militar francesa organizada de 1868 a 1871, em razão da Guerra Franco-prussiana, constituída principalmente por jovens que não tinham feito o serviço militar (N. E. F.)
Não sei o que significa o "N.E.F." da nota de rodapé, que reproduzi como está no livro. Ela se torna necessária pela opção de Amilcar de manter o vocábulo moblot que Maupassant usou no original, sem adaptá-la como fizeram os outros. Só que isso exige uma nota para dar conta da dimensão histórica do termo. É uma opção ideológica do tradutor: sacrificar um pouco a fluência (o Verissimo já escreveu que nota de rodapé é como sair da cama quentinha no inverno para ver se a porta está trancada) em nome da precisão: a nota, bem ou mal, recupera a "guerra" da qual se fala, a Franco-prussiana — Maupassant não pretendeu uma guerra alegórica, mas a guerra na qual havia servido (como oficial de abastecimento do exército francês). E no trecho que eu comentei antes, o tom volta a ser o da observação distanciada, o "penosamente" do primeiro trecho e "aflito" do segundo virou "a muito custo".
Adendo: Tinha terminado assim esse post depois de redigi-lo ontem, mas por sugestão do escritor Daniel Pellizzari ao ler o chamamento no twitter, estou incluindo abaixo o mesmo trecho da obra original para que aqueles que dominam o idioma francês tenham como comparar as escolhas feitas pelos três tradutores:
Pendant plusieurs jours de suite des lambeaux d`armée en déroute avaient traversé la ville. Ce n`était point de la troupe, mais des hordes débandées. Les hommes avaient la barbe longue et sale, des uniformes en guenilles, et ils avançaient d`une allure molle, sans drapeau, sans régiment. Tous semblaient accablés, éreintés, incapables d`une pensée ou d`une résolution, marchant seulement par habitude, et tombant de fatigue sitôt qu`ils s`arrêtaient. On voyait surtout des mobilisés, gens pacifiques, rentiers tranquilles, pliant sous le poids du fusil; des petits moblots alertes, faciles à l`épouvante et prompts à l`enthousiasme, prêts à l`attaque comme à la fuite; puis, au milieu d`eux, quelques culottes rouges, débris d`une division moulue dans une grande bataille; des artilleurs sombres alignés avec ces fantassins divers; et, parfois, le casque brillant d`un dragon au pied pesant qui suivait avec peine la marche plus légère des lignards.
E vocês? qual delas curtiram mais?
>>> Acompanhe aqui os demais posts da série Tradução e Reação, com comparações entre traduções diferentes de uma mesma obra
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