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Os homens do fim do mundo

02 de julho de 2009 5

Mia Couto em Parati. Foto de Bel Pedrosa

A guerra roubou-nos memórias e esperança. Mas, estranhamente, foi a guerra que me ensinou a ler as palavras. Explico: as primeiras letras eu as decifrei nos rótulos que vinham colados nas caixas de material bélico. O quarto de Zacaria Kalash, nas traseiras do acampamento, era um verdadeiro paiol. O “Ministério da Guerra”, como o pai lhe chamava. Quando chegámos a Jesusalém, já ali se guardavam armas e munições. Zacaria escolheu aquele compartimento para se instalar. Naquela mesma cubata, o militar me surpreendeu decifrando os rótulos dos contentores.
— Isso não se lê, miúdo — admoestou o ex-militar.
Não se lê? Mas parecem letras.
— Parecem, mas não são. Isso é russo, e a língua russa nem os russos sabem ler…
Num gesto brusco, Zacaria rasgou os rótulos. Depois, entregou-me outros, que retirou de uma gaveta e que, segundo ele, eram a tradução que o Ministério da Defesa fizeram dos originais em russo.
— Você lê apenas estes papéis que são em puro português.
— Me ensine a ler, Zaca.
— Se quiser aprender, aprenda sozinho.
Aprender sozinho? Impossível. Mais impossível, porém, seria esperar que Zacaria me ensinasse fosse o que fosse. Ele sabia das ordens de meu pai. Em Jesusalém não entrava livro, nem caderno, nem nada que fosse parente da escrita.
— Pois eu o ensino a ler.
Foi o que, mais tarde, disse Ntunzi. Recusei. Era demasiado arriscado. O meu irmão já me estreara a ver, no rio, o outro lado do mundo. Não podia imaginar como reagiria o velho Silvestre caso soubesse das transgressões do seu primogênito.
— Eu o ensino a ler — repetiu ostensivamente.
E foi assim que começaram as primeiras lições. Uns aprendem por cartilhas em salas de aula. Eu me iniciei soletrando letras de guerra. A minha primeira escola era um paiol. As aulas ocorriam na penumbra do armazém, nos longos períodos em que Zacaria estava ausente, aos tiros pelo mato.

Em um lugar esquecido pelo tempo, cinco homens, pai, dois filhos, tio e um empregado, vivem em uma solidão bíblica, supostos últimos sobreviventes de um mundo que acabou. Um isolamento que será quebrado por uma perturbadora figura de mulher, Eva às avessas, que trará o mundo de volta ao autoritário paraíso da imobilidade. Esse é, em poucas linhas, o mote do novo romance de Mia Couto, Antes de Nascer o Mundo (Companhia das Letras, 280 páginas, R$ 42). Um resumo que, como costuma acontecer sempre, não dá conta da riqueza temática e de linguagem do premiado autor moçambicano, apontado com um dos expoentes da prosa em português produzida na África.

Expressão das contradições de um continente que busca conciliar sinais esparsos da modernidade ocidental com suas tradições ancestrais, a obra de Mia Couto é feita de convergências. Seus livros casam fragmentos da literatura de gênero com o imaginário mágico do continente expresso em situações inusitadas e metáforas poéticas como em “A felina ainda deu uns passos bêbados, como se a morte fosse uma tontura que dá no próprio chão”.

Em um acampamento militar abandonado, em um ermo a que chamam de Jesusalém — a Jerusalém “onde Jesus haveria de se descrucificar” —, o menino Mwanito vive na companhia do pai, Silvestre, do rebelde irmão Ntunzi, que sonha em fugir do lugar, e do ex-militar Zacaria Kalash, que guiou o grupo até seu refúgio desolado, uma fuga decidida pelo pai autoritário, que foge da vida urbana e da saudade que sente da mulher, Dordalma, morta no parto. De tempos em tempos, os quatro recebem a visita do misterioso Tio Aproximado, que mora em uma cabana na “lonjura de horas e feras”. Uma pretensa vida em harmonia prestes a ser esfacelada pela aparição da portuguesa Marta, que perturba o lugar com a memória de um mundo exterior.

Assim como já fizera com o policial em A Varanda do Frangipani e com o relato histórico em O Outro Pé da Sereia, Mia Couto subverte à sua maneira o relato pós-apocalíptico também para pensar as feridas de um Moçambique cindido por anos de guerra civil.

Comentários (5)

  • Pattricia Pitombo diz: 3 de julho de 2009

    Carlos André…ainda não li Mia Couto, mas irei corrigir isso brevemente…miro seus livros, folhei-os sempre que pecorro as livrarias…Seu ensaio sobre romance “Antes de o mundo nascer” dele aguçou a vontade de me render a leitura…Me chamou a atenção a história, a sua refência as belas metáforas e também a escolha dos nomes do personagens como “Dordalma” e “Tio Aproximado”…muito bom… Pattricia

    Recomendo mesmo, Pattrícia. A linguagem de Mia Couto deve muito a Guimarães Rosa, com invenções que aproximam a prosa da poesia e quebram a expectativa. Algumas metáforas são lindas.
    Abraço e volte sempre ao nosso blog, Pattricia (eu conhecia Priscilla com dois LL, mas Pattricia com dois TT é a primeira)
    Carlos André

  • Anna diz: 5 de julho de 2009

    Mia nos conta suas histórias d`África com tal magia e encantamento que é impossível não o acompanharmos por esses recantos tão característicos e tão universais de suas obras e encontrarmos talvez Muidinga em sua busca incessante por memórias e respostas. Valeu a sugestão Andre.

  • xerxenesky diz: 4 de julho de 2009

    O Mia Couto tem uma semelhança física brutal com o Tezza!

    Também reparei nisso, Antônio. Um dia justaponho aqui as fotos de ambos.
    Abraço.
    Carlos André

  • Pedro Girardi diz: 3 de julho de 2009

    Falando em livros e lançamentos Eu vou recomendar aos afcionados dos livros de fcção,,,em bréve em todo o Brasil um lançamento espetacular (os Senhores de Castelo) é uma trilogia fantástica de aventura , fantasia, e magia,……marquem esse nome.

  • Mundo Livro » Blog Archive » Os semifinalistas do Portugal Telecom diz: 17 de maio de 2010

    [...] das Letras) * Aleijão, de Eduardo Sterzi (7Letras) * Algum lugar, de Paloma Vidal (7Letras) * Antes de nascer o mundo, de Mia Couto (Companhia das Letras) * Avó dezanove e o segredo do soviético, de Ondjaki [...]

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