Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

O mausoléu e o menino

03 de julho de 2009 3

Ondjaki na Feira do Livro em Porto Alegre, em 2007. Foto: Daniel Marenco/ZH

Em frente à casa da AvóAgnette fazíamos desenhos no chão para depois fugirmos dos camiões de água que vinham ao fim da tarde para acalmar a poeira.
Era um largo grande, com uma bomba de gasolina no meio, que virava rotunda para camiões e carros darema a volta a fingir que a cidade era grande.
O camarada VendedorDeGasolina podia dormir muito durante o serviço porque a bomba nunca tinha gasolina. Só acordava com as falas do maluco EspumaDoMar:
— Essas estrelas que caem de repente têm nome: são estrelas calientes, e isto não é discurso de biamba, sei o que tou a falar com a minha boca de tantos dentes…
Do outro lado da bomba, estavam as gigantescas obras do Mausoléu, um lugar que ancavam a construir para guardar o corpo do camarada preseidente AgostinhoNetto, que andava estes anos todos bem embalsamado por uns soviéticos craques nessa arte de manter uma pessoa ainda com bom aspecto de se olhar.
Atrás das obras, do lado de lá do nosso largo, ali onde a poeira não conseguia nunca aterrar, ficava essa coisa que todos os dias me ensinava a cor azul: o mais grande, mais conhecido por oceano.
— Vocês falam estrelas cadentes, mas eu conheço os dicionários todos da língua angolana e da cubana. Estrelas calientes são fenómenos dos céus do universo escuro, a poeira cósmica e etcetera… Seus patetas que nunca andaram nas escolas universitárias!
Nós, as crianças, ríamos gargalhadas redondas que quase se viam desenhadas no ar. Ficávamos calados em espanto e magia a ouvir as frases do camarada maluco.
— Aprendam, meninos, há dois céus: o céu azul que pertence aos nossos olhos e ás asas dos aviões e dos passarinhos. E existe um céu negro que é tão grande como um deserto.
Quase não tínhamos medo do EspumaDoMar, nunca que tinha feito mal a ninguém só
— As estrelas calientes derreteram com os calores do sol e por isso caem em direção ao planeta mundo. Nuestro planeta es el unico que tiene agua para elas arrefecerem outra vez. São estrelas calientes, e um dia, depois de arrefecidas, juro, esas estrellas van a querer volver a casa…
Ele arrastava os panos e ia embora a rir um riso nervoso que também podia ser choro, cada vez mais rápido quase a correr, a levantar poeiras com os pés dele descalços, a ir sempre em frente como se fosse entrar no mar.
— Ainda vamos ver essas estrlas subirem, da terra para lá em cima, nos céus que dormem longe vestidos de brilhos brilhantes…

A prosa do angolano Ondjaki se faz na invenção da memória. Assim como em seus livros anteriores, Bom Dia Camaradas (leia mais aqui e aqui) e Os da Minha Rua, o novo romance do autor, AvóDezanove e o Segredo do Soviético (Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 32), é a evocação pessoal de uma Luanda particular como um cruzamento entre mundos. O romance narra, pelo ponto de vista de uma criança (um tipo de narrador recorrente na escrita de Ondjaki) a vida na comunidade de Praia do Bispo, em Luanda, ou melhor, PraiaDoBispo no livro — marcando já na ortografia a diferença entre a Praia do Bispo “real” e a do romance.

O garoto mora com a avó, Agnette, também chamada de VóDezanove — numa referência ao fato de que a mulher precisou amputar um dos dedos do pé, ficando com 19 deles. Em uma Angola de governo socialista na qual os soviéticos são responsáveis por boa parte da infraestrutura no país ainda em guerra, as crianças brincam, afetadas pelas condições do país mas alheias às nuanças políticas: as ruas não têm calçamento, a eletricidade é racionada e logo começa a correr a notícia de que a vizinhança inteira será desapropriada para a construção de um mausoléu para abrigar o corpo do ex-presidente Agostinho Netto. Algo que as crianças tentam evitar com um plano improvável.

Luanda é a cidade por excelência da literatura de Angola, cenário de uma das obras fundamentais produzidas no país: os contos de Luuanda, de José Luandino Vieira, de 1963, que abordam a busca da identidade em um país colônial e as tensões que mais tarde explodiriam em guerra civil. Pertencente a uma geração posterior, sem a necessidade da militância política que pautou Luandino ou seu contemporâneo Pepetela, Ondjaki enxerga a miscelânea política e cultural da Luanda dos anos 1980 como um território ao mesmo tempo mágico e afetivo. Não mais as grandes contradições dos movimentos de independência do país, mas um retrato minimalista das vidas angolanas afetadas pela sua história.

Comentários (3)

  • Mundo Livro » Blog Archive » Os semifinalistas do Portugal Telecom diz: 17 de maio de 2010

    [...] lugar, de Paloma Vidal (7Letras) * Antes de nascer o mundo, de Mia Couto (Companhia das Letras) * Avó dezanove e o segredo do soviético, de Ondjaki (Companhia das Letras) * Barroco tropical, de Jose Eduardo Agualusa (Companhia das [...]

  • Mundo Livro » Arquivo » Os 10 do Portugal Telecom diz: 31 de agosto de 2010

    [...] A Passagem Tensa dos Corpos, de Carlos de Brito Mello (Companhia), * Avó Dezanove e o Segredo do Soviético, de Ondjaki (Companhia) * Caim, de José Saramago (Companhia) * Lar, de Armando Freitas Filho [...]

  • Mundo Livro » Arquivo » As esperanças de Pepetela diz: 26 de fevereiro de 2013

    [...] têm sido publicados por aqui. De Angola há também Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa, Ondjaki. Tem havido progressos na interação entre os universos literários de língua portuguesa? [...]

Envie seu Comentário