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Outra vida em outro livro

10 de julho de 2009 1

Mesmo sentado num daqueles bancos altos de lanchonete, com a barriga colada no balcão, o marido, de quase dois metros, tem as pernas semidobradas e os pés bem plantados no chão. Além do tamanho acima da média, após seis anos de casado, está mais corpulento do que sempre foi. Tem braços mais pesados, um pescoço mais grosso e seu olhar ganhou mais lentidão.
Enquanto mastiga, suas têmporas afundam, estufam e nós saltam nos encaixes do maxilar. Está na segunda lata de refrigerante, com o fôlego natural em dois canudos. Antes de cada mordida no x-tudo que pediu, ele enfia a bisnaga vermelha por entre as camadas de pão-alface-tomate-maionese-ovo-bacon-bife-tomate-alface-pão, e aperta-a com vontade, sem tocar na outra bisnaga, amarela, a sua frente, no balcão. Ao cravar os dentes no pão, faz o molho brotar do recheio, devolvido, amolecendo o guardanapo de papel e caindo no prato em gotas consistentes.
A esposa, embora ainda jovem, possui a beleza diferente da mulher que amadurece muito cedo. Com a bolsa junto ao corpo, o tórax espigado, firme sob o tecido da blusa, ela espera a família terminar o café da manhã. Jamais comeria ali. Pediu apenas um café bem preto, que adoçou artificialmente, numa dose arbitrária e preestabelecida. Só que nem o café está bebendo. Viu xícaras, pires e colherinhas sendo escaldados na água, brotando do vapor diante de seus olhos, mas para ela nada torna as condições sanitárias do lugar menos suspeitas. Faz então a pequena xícara branca evoluir em seus dedos compridos, só para ocupar as mãos.
A filha, uma garotinha de cinco anos, belisca sem vontade o pão de queijo que lhe comprara, e já recusou um chocolate quente — amargo ela não gosta, e amaro é qualquer chocolate diferente do que ela tem todo dia, sem o “gosto de festa” ou o “sabor que alimenta” aos quais a propaganda convenceu-a de que está acostumada. A menina sente sono; as pálpebras pesam, olheiras tingem a pele mais brancas nas primeiras horas do dia, o cabelo fino e amarelo cai no seu rosto, grudando na boca.
São uma jovem família de três; agasalhados diante do balcão da lanchonete. Para quem os vê, todos de costas, um ao lado do outro e postos à prova pela altura dos bancos, compõem uma escadinha íngreme, que termina com a criança.
As malas fazem hora no chão. A luz da manhã ainda é vaga, e quase tudo está imóvel nos espaços gerais da rodoviária. Nas plataformas de embarque, do outro lado das grades, poucos passageiros vão e vêm num transito de sonho; os funcionários das empresas de ônibus e os carregadores de bagagem trabalham em silêncio.
O caminhão com tudo o que a família tem saiu na véspera. Só os armários da cozinha ficaram — pertenciam ao dono do apartamento —, mas sem nenhum prato, garfo, copo ou faca nas gavetas. O carro foi vendido. Agora eles partem atrás da mudança, que já havia chegado à cidade para onde vão, a mesma de onde tinham vindo anos antes. Dormiram a última noite bebendo água mineral na garrafa de plástico, em colchonetes descartáveis e quartos vazios. O despertador tocou ainda no escuro. A mulher, enérgica, expulsou-os do apartamento muito antes do necessário, dizendo que não aguentaria nem mais um minuto daquele “cativeiro de sequestro”. Ao baterem a porta pela última vez, as marcas da rotina doméstica nas paredes, no carpete da sala, normalmente escondidas pelos quadros e pelos móveis, apareceram numa incômoda perplexidade.

O carioca Rodrigo Lacerda, de 40 anos, consolidou-se como um novo talento da literatura brasileira nos anos 1990, com livros como a novela O Mistério do Leão Rampante, vencedora do prêmio Jabuti e o livro que ajudou a firmar o nome de sua editora, Geração Editorial. No romance cujo trecho vocês leram acima, Outra Vida (Alfaguara, 184 páginas, R$ 32,90), Lacerda, um dos convidados da Flip que passou, narra a volta de uma família à pequena localidade de suas origens, depois de uma tentativa frustrada de ganhar a vida na cidade grande. Em uma narrativa lenta e minuciosa, Lacerda dá a conhecer esse retorno que tem gosto de fracasso e ao mesmo tempo seus antecedentes — repletos de crises diversas, algumas da relação entre os personagens, outras ligadas ao caos social bem conhecido do país.

Comentários (1)

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