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Triângulo de quatro faces

14 de julho de 2009 4

Michel Laub na casa dos pais em Porto Alegre – Foto Tadeu Vilani/ZH

Minha relação com Márcia não é exatamente comum, qualquer um pode perceber. Sou escritor, gosto de ler e ficar sozinho, e isso é sempre interpretado como indiferença ou desprezo. Imagine para alguém como Márcia. Eu sempre tomo cuidado com gente assim, os que atraem você com uma fachada pacífica, inicialmente amigável, simpática, disposta, mas que em seguida passam a exigir que você tome conta deles, e acusam você por tudo de ruim que acontece com eles, como se você dependesse disso e esperasse por isso fingindo estar quieto, esquecido, na tocaia para ganhar um presente que inicia todo o ciclo de novo. Apenas um gatinho, claro. Nada que você possa largar na portaria, que se esgote num telefonema de agradecimento.

No fim, a história de um amor conturbado nunca se compõe de uma narrativa linear e compreensível, mas de um quebra-cabeça que exige atenção para refazer  seu desenho – mesmo que algumas peças já tenham se perdido. É a história de um amor assim que o escritor porto-alegrense Michel Laub narra em seu mais novo romance, O Gato Diz Adeus, que tem sessão de autógrafos hoje na Capital.

Narrado por uma polifonia de vozes em primeira pessoa, O Gato Diz Adeus enfoca um triângulo amoroso entre Sérgio, escritor e professor universitário quarentão; sua mulher, Márcia, uma atriz de 30 anos; e o também professor Roberto,  discípulo e amigo de Sérgio com quem Márcia acaba se envolvendo. Aos poucos, outros elementos exteriores ao triângulo vão sendo agregados ao conjunto, como trechos de notícias de jornais, um artigo de Roberto, e a voz de uma quarta personagem, Andréia, leitora de um romance escrito por Sérgio. Uma estrutura que rompe com aquilo que o próprio Laub vinha fazendo em sua ficção — as duas narrativas imediatamente anteriores (Longe da Água e O Segundo Tempo) eram evocações de uma experiência de juventude feitas por um personagem anos distante do acontecido.

— Cada livro escolhe a melhor forma. Acho que nesse eu quis realizar uma ruptura com aquilo que eu próprio vinha fazendo, buscar um terreno no qual ainda não tinha muita segurança — comenta Laub.

Há romances em que gatos são efetivamente o centro da narrativa — basta lembrar o recentemente publicado Eu Sou um Gato, de Natsume Soseki. No romance de Michel Laub, contudo, o bichano é só um pretexto, seja no livro, seja  na narrativa. Uma noite, já separada de Sérgio e profundamente deprimida, Márcia o procura para presenteá-lo com um gato que motiva a suposta retomada da relação. E aqui se enfatiza o suposta porque aos poucos se percebe que a credibilidade de cada um dos personagens, e a de Sérgio mais ainda, não é garantida — ele claramente é um vampiro emocional que transforma a vida problemática que tem com a mulher em tema de literatura.

Também os motivos de cada um para ter o papel que tiveram na narrativa não são os mais puros, e a determinado momento o próprio estatuto do que se está lendo muda abruptamente.

— Queria falar sobre essa questão ética do escritor e de como ele se relaciona com o mundo à sua volta, aquele mundo que ele pode transformar em matéria-prima, e até que ponto ele está sendo ético em fazer isso – explica o autor.

Na origem, O Gato diz Adeus fazia parte do mesmo projeto do aclamado romance anterior, O Segundo Tempo. O projeto original, inscrito e contemplado por uma bolsa Vitae, previa três histórias curtas passadas em fases diferentes da vida: um conto sobre a adolescência, uma história na vida adulta e outra abordando a velhice.  O texto sobre a adolescência acabou se estendendo tanto que virou um romance autônomo. A segunda história, que Michel havia começado a escrever, foi retrabalhada para virar o livro que está saindo agora. O autor ainda não se considera disposto a escrever a terceira:

— Provavelmente será um livro que vai precisar de mais pesquisa, até mesmo que eu atinja outro ponto de maturidade. Talvez daqui a uns anos.

Publicado em abril deste ano no jornal impresso, e republicado aqui aproveitando a indicação do livro para o Prêmio Passo Fundo Zaffari Bourbon.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (4)

  • Marcelo Xavier diz: 20 de julho de 2009

    Moinhos de Vento.

    Marcelo, se não me levares a mal, tirei a referência à rua – pode me chamar de paranoico, mas achei melhor. Abraço.
    Carlos André

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    [...] Michel Laub, autor de O Gato Diz Adeus, O Segundo Tempo e Longe da Água (um texto sobre o primeiro pode ser lido aqui, e um sobre os dois últimos pode ser conferido aqui) também mantém um dos melhores blogs [...]

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