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Posts de julho 2009

Amar já foi assim

31 de julho de 2009 0

A desejada das gentes

A história por trás da história não é necessariamente uma experiência de primeira mão. Às vezes o escritor não se inspira no que aconteceu, mas no que alguém diz que aconteceu. Ou seja, para alguns autores a fonte da escrita não é o que eles vêem, mas o que eles lêem. Nas histórias de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), o leitor tem a sensação de partilhar da biblioteca do autor – que a relação entre ele e o escritor não é vertical, mas horizontal. No caso de “A desejada das gentes”, por exemplo, percebe a presença de Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe. A narrativa romântica funciona como uma base sobre a qual Machado constrói o conto — a história em cima da história -, num movimento que o leitor tem a impressão de que pode continuar infinitamente.

“Ah! conselheiro, aí começa a falar em verso.”
“Todos os homens devem ter uma lira no coração – ou não sejam ho-
mens. Que a lira ressoe a toda a hora, nem por qualquer motivo, não o digo eu; mas de longe em longe, e por algumas reminiscências particulares… Sabe por que é que lhe pareço poeta, apesar das Ordenações do Reino e dos cabelos grisalhos? é porque vamos por esta Glória adiante, costeando aqui a Secretaria de Estrangeiros… Lá está o outeiro célebre… Adiante há uma casa…”
“Vamos andando.”
“Vamos… Divina Quintília! Todas essas caras que aí passam são outras, mas falam-me daquele tempo, como se fossem as mesmas de outrora; é a lira que ressoa, e a imaginação faz o resto. Divina Quintília!”
“Chamava-se Quintília? Conheci de vista, quando andava na Escola de Medicina, uma linda moça com esse nome. Diziam que era a mais bela da cidade.”
“Há de ser a mesma, porque tinha essa fama. Magra e alta?”
“Isso. Que fim levou?”
“Morreu em 1859. Vinte de abril. Nunca me há de esquecer esse dia. Vou contar-lhe um caso interessante para mim, e creio que também para o senhor. Olhe, a casa era aquela… Morava com um tio, chefe de esquadra reformado; tinha outra casa no Cosme Velho. Quando conheci Quintília… Que idade pensa que teria, quando a conheci?”
“Se foi em 1855…”
“Em 1855.”
“Devia ter vinte anos.”
“Tinha trinta.”
“Trinta?”
“Trinta anos. Não os parecia, nem era nenhuma inimiga que lhe dava essa idade. Ela própria a confessava e até com afetação. Ao contrário, uma de suas amigas afirmava que Quintília não passava dos vinte e sete; mas como ambas tinham nascido no mesmo dia, dizia isso para diminuir-se a si própria.”
“Mau, nada de ironias; olhe que a ironia não faz boa cama com a saudade.”
“Que é a saudade senão uma ironia do tempo e da fortuna? Veja lá; começo a ficar sentencioso. Trinta anos; mas em verdade não os parecia. Lembra-se bem que era magra e alta; tinha os olhos, como eu então dizia, que pareciam cortados da capa da última noite, mas apesar de noturnos, sem mistérios nem abismos. A voz era brandíssima, um tanto apaulistada, a boca larga, e os dentes, quando ela simplesmente falava, davam-lhe à boca um ar de riso. Ria também, e foram os risos dela, de parceria com os olhos, que me doeram muito durante certo tempo.”
“Mas se os olhos não tinham mistérios…”
“Tanto não os tinham que cheguei ao ponto de supor que eram as portas abertas do castelo, e o riso o clarim que chamava os cavaleiros. Já a conhecíamos, eu e o meu companheiro de escritório, o João Nóbrega, ambos principiantes na advocacia, e íntimos como ninguém mais; mas nunca nos lembrou namorá-la. Ela andava então no galarim; era bela, rica, elegante, e da primeira roda. Mas um dia, no antigo Teatro Provisório, entre dois atos dos Puritanos, estando eu num corredor, ouvi um grupo de moços que falavam dela, como de uma fortaleza inexpugnável. Dois confessaram haver tentado alguma coisa, mas sem fruto; e todos pasmavam do celibato da moça, que lhes parecia sem explicação. E chalaceavam: um dizia que era promessa até ver se engordava primeiro; outro que estava esperando a segunda mocidade do tio para casar com ele; outro que provavelmente encomendara algum anjo ao porteiro do céu; trivialidades que me aborreceram muito, e da parte dos que confessavam tê-la cortejado ou amado, achei que era uma grosseria sem nome. No que eles estavam todos de acordo é que ela era extraordinariamente bela; aí foram entusiastas e sinceros.”
“Oh! ainda me lembro!… era muito bonita.”
“No dia seguinte, ao chegar ao escritório, entre duas causas que não vinham, contei ao Nóbrega a conversação da véspera. Nóbrega riu-se do caso, refletiu, e depois de dar alguns passos, parou diante de mim, olhando, calado. – Aposto que a namoras?, perguntei-lhe. – Não, disse ele, nem tu? Pois lembrou-me uma coisa: vamos tentar o assalto à fortaleza? Que perdemos com isso? Nada; ou ela nos põe na rua, e já podemos esperá-lo, ou aceita um de nós, e tanto melhor para o outro que verá o seu amigo feliz. – Estás falando sério? – Muito sério. – Nóbrega acrescentou que não era só a beleza dela que a fazia atraente. Note que ele tinha a presunção de ser espírito prático, mas era principalmente um sonhador que vivia lendo e construindo aparelhos sociais e políticos. Segundo ele, os tais rapazes do teatro evitavam falar dos bens da moça, que eram um dos feitiços dela, e uma das causas prováveis da desconsolação de uns e dos sarcasmos de todos. E dizia-me: – Escuta, nem divinizar o dinheiro, nem também bani-lo; não vamos crer que ele dá tudo, mas reconheçamos que dá alguma coisa e até muita coisa – este relógio, por exemplo. Combatamos pela nossa Quintília, minha ou tua, mas provavelmente minha, porque sou mais bonito que tu.”
“Conselheiro, a confissão é grave; foi assim brincando…?”
“Foi assim brincando, cheirando ainda aos bancos da academia, que nos metemos em negócio de tanta ponderação, que podia acabar em nada, mas deu muito de si. Era um começo estouvado, quase um passatempo de crianças, sem a nota da sinceridade; mas o homem põe e a espécie dispõe. Conhecíamo-la, posto não tivéssemos encontros freqüentes; uma vez que nos dispusemos a uma ação comum, entrou um elemento novo na nossa vida, e dentro de um mês estávamos brigados.”

O problema de se usar hoje a expressão “história de amor” para qualificar um texto é que o conceito foi contaminado por décadas de telenovelas e comédias infames de Hollywood com gente que tem encontros charmosos em restaurantes maneiros e se engasgam com a comida. Para se ter uma idéia de como o que já se considerou artístico ao tratar o amor mudou — a idéia literária de amor, não o amor propriamente dito —, vale a pena conferir a coletânea Contos de Amor do Século XIX (Companhia das Letras, 568 páginas, R$ 47).

Organizada pelo argentino Alberto Manguel, que preparou para a mesma editora a coletânea Contos de Horror do Século XIX, o livro é um passeio por uma mentalidade amorosa mais grave, de um romantismo mais denso e pesado, uma época que, não por acaso, formou Sigmund Freud e forneceu o clima para sua teoria da relação entre Eros e Thanatos.

São 26 os contos reunidos no volume. Dentre os autores, prosadores de acionalidade alemã, argentina, canadense, escocesa, espanhola, francesa, inglesa, italiana, norte-americana e russa. Portugal comparece com o conto O Defunto, de Eça de Queiroz, e o Brasil, com A Indesejada das Gentes, de Machado de Assis (esse do qual vocês leram um trechinho aí em cima). 

Nomes conhecidos — Honoré de Balzac, Robert Louis Stevenson, Tolstói e Oscar Wilde — justapõem-se aos de autores de pouca ou nenhuma divulgação no Brasil — como o espanhol Leopoldo Alas, o inglês Ronald Firbank, o francês Barbey D`Aurevilly e a índia nativa americana Emily Pauline Johnson, ou Tekahionwake. O que torna ainda mais úteis as apresentações que Manguel faz dos autores e das obras, como você puderam ver lá no início da citação

Nessa profusão de autores e idiomas nota-se um fio condutor que liga os contos: a idéia de amor não como um instrumento de redenção, mas de transtorno, doença, privação de sentidos. Além da sempre retomada relação entre o amor e a morte, entre o sentimento e o martírio. O ciúme como uma força corrosiva está presente no fantástico Uma Paixão no Deserto, uma das menos conhecidas histórias curtas do prolífico Balzac, no qual um soldado francês se apaixona por uma pantera, ou no conto de Goethe no qual um negociante genovês se perde em uma paixão pela Cantora Antonelli, que dá título à narrativa.

Uma seleção magistral para lembrar que histórias de amor não precisam terminar com correrias em aeroportos ou estações de trem.

Não precisam nem terminar.

Postado por Carlos André Moreira

Circo Vazio

30 de julho de 2009 3

Funcionária varre o espaço em que se realiza a Jornada de Passo Fundo, no campus da UPF. Foto de Tadeu Vilani (2007)

A 13ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, no norte do Estado, será adiada em razão da gripe A. O evento ocorreria de 24 a 28 de agosto no campus 1 da Universidade de Passo Fundo (UPF). A medida é preventiva.

Vinha-se falando nisso há pelo menos um mês, desde que chegaram as notícias sobre o quanto o vírus da nova gripe, a H1N1, também chamada de Gripe A, havia se disseminado em Passo Fundo. Pois depois de suspender as formaturas, a Universidade de Passo Fundo divulgou hoje um comunicado adiando para o dia 17 de agosto o início do semestre letivo na instituição (UFRGS e PUCRS também anunciaram a mesma medida ontem).

O comunicado da universidade, assinado pelo presidente do Conselho Universitário da UPF, Ruy Getúlio Soares, também informa que a instituição decidiu adiar, ainda sem nova data, a realização da Jornada. A decisão, tomada pelo Comitê de Prevenção à Gripe A da UPF, foi tomada para evitar grandes aglomerações e levando em conta o quanto o vírus se espalhou rápido em sua chegada ao Estado. Diz o texto do comunicado:

“A 13ª Jornada Nacional de Literatura teve sua data de realização postergada em consonância com a recomendação de evitar grandes aglomerações, assim como em razão do impacto psicossocial que esta pandemia vem causando na nossa população, o que poderá repercutir negativamente em um evento já consagrado nacionalmente.

A nova data será discutida em reunião entre a coordenação da Jornada, Reitoria da Universidade de Passo Fundo, presidência da Fundação Universidade de Passo Fundo e prefeitura municipal de Passo Fundo.”

>>>UPDATE: A UPF JÁ MARCOU A NOVA DATA PARA O EVENTO: de 26 a 30 de outubro.

Como isso vai se refletir na agenda da Jornada – que teria a participação de convidados estrangeiros como a argentina Beatriz Sarlo e o francês Luc Ferry Pierre Levy e que agora podem ter conflitos de agenda para a vinda à cidade –, ainda não se sabe.

Postado por Carlos André Moreira

Um artista popular, sua cidade e seu tempo

28 de julho de 2009 8

Renato em Brasília. Fotos de Ivaldo Cavalcante incluídas
no livro Renato Russo: o Filho da Revolução

O turbulento show da Legião Urbana em Brasília, em 1988, é o ponto de partida — e de chegada — do livro Renato Russo: o Filho da Revolução. Em mais de 400 páginas, o jornalista Carlos Marcelo conta a história de Russo e da cidade em que ele viveu a adolescência e escreveu canções como Que País É Este e Geração Coca-Cola. O autor, hoje com 38 anos, foi um dos milhares de fãs presentes ao estádio Mané Garrincha, na noite de 18 de junho de 1988. Ali, a Legião Urbana, com Renato Russo (1960 — 1996) à frente, fez um show irregular, cheio de atritos entre vocalista, plateia e polícia, resultando em centenas de feridos. Depois do episódio, o grupo — em pleno estrelato, com três LPs lançados e o épico
Faroeste Caboclo onipresente nas rádios — foi praticamente banido de sua cidade de origem, e Carlos Marcelo começou a nutrir a ideia de escrever sobre tudo aquilo.

No texto, Brasília e Renato Russo — nascido no Rio e criado na Capital Federal — são as figuras centrais, mas não as únicas. Marcelo exercita um olhar abrangente, resgatando as origens da cidade e recontando lances da história recente do país: o golpe militar, o AI-5, o exílio de artistas como Chico, Gil e Caetano, a reabertura. E também fecha o foco em detalhes menos conhecidos da vida de Renato.

Narra, por exemplo, experiências pré-fama como as investidas do cantor pelo teatro, nos papéis de dramaturgo e ator, e a passagem pelo curso de Jornalismo, durante o qual trabalhou como repórter de rádio. Acrescenta fotos raras, documentos — manuscritos de canções inéditas ou não, diários escritos em inglês e letras premiadas com o carimbo “Vetado” pela Censura Federal — e também cenas esparsas da intensa relação de Renato com a homossexualidade, o álcool e as drogas. A narrativa termina justamente nos desdobramentos do desastrado show brasiliense de 1988.
É injusto comparar O Filho da Revolução com O Trovador Solitário – biografia de Renato assinada pelo também jornalista Arthur Dapieve: um mira na história, outro se concentra na cronologia da vida do cantor. O próprio Dapieve assina a orelha do livro de Marcelo, exaltando a “colossal apuração” (um justo elogio) e o “finíssimo texto” (nem tanto) do colega — que, em seu livro, ajuda a explicar um ídolo complexo, forjado em tempos mais complexos ainda.

Postado por Luis Bissigo

Histórias Curtas e Contos de Oficina

25 de julho de 2009 0

O MOLAR ESQUERDO

As quatro bacias espalhadas pelo chão do vestiário continham as goteiras provindas do teto. O local úmido já apresentava mofos nas duas paredes laterais. Tinha as mãos deitadas no meio das pernas, sentado em uma cadeira de metal, fria, enquanto os enfermeiros espalhavam curativos por seu corpo. Primeiro, no supercílio esquero, destroçado por um golpe que o deixara no chão por uase dez segundos. No canto interior direito do lábio, um pequeno band-aid quadrangular. Era incômodo quando tentava falar. E precisava falar.
O calção azul, com o qual iniciara a carreira, possuía um mancha vermelha no lado esquerdo e alguns pingos do lado oposto. Cuspiu sangue. Os tornozelos doíam. Torcera os dois. Um dos enfermeiros, o mais alto e com dentes amarelos, despejou um pouco de água na cabeça do boxeador. Ele agradeceu.
Talvez seu feilho o esperasse do lado de fora, no estacionamento. Precisava falar com ele. Explicar para ele.
O possível para amenizar os machucados fora feito. Deitou-se na cama encostada na parede esquerda. Cobriu-se com os esfarrapados lencóis cinzas. Deixaram-no sozinho. Cuspiu sangue e o molar esquerdo.
Era o décimo segundo aniversário do garoto. Podia imaginá-lo dando socos no ar, enfrentando um inimigo inexistente. Desejava ser como o pai.
Observou o molar esquerdo no chão. Resultado do golpe que o deixara quarenta segundos desacordado.

No caderno TV+Show deste domingo (que, por essas coisas que acontecem em Porto Alegre, deve estar circulando daqui a pouco, sábado), o repórter Gustavo Brigatti entrevistou o diretor Leonardo Wittmann, nascido em 1986 e que está trabalhando na produção de um episódio das Histórias Curtas, série da RBS TV cuja nova temporada está prevista para estrear em outubro. A história, a primeira a ser exibida, chama-se O Boxeador, e gira em torno de um lutador que decepciona no ringue o filho que o assiste e foi adaptado por Wittmann de um conto de sua autoria – esse que vocês leram acima, que está incluído na coletânea Desamordaçados, antologia de contos da Oficina Literária do professor Luiz Antônio de Assis Brasil, com lançamento marcado para 1º de agosto,  sábado, no Instituto Cultural (Rua Riachuelo, 1257).

Para quem está lendo e não é de Porto Alegre ou do Rio Grande do Sul, um esclarecimento: a “oficina do Assis”, como é chamada, é uma das duas mais tradicionais oficinas de criação literária em atividade por aqui – a segunda é a do também escritor Charles Kiefer. Pela oficina do Assis, que vem sendo realizada de modo ininterrupto desde 1985. passaram escritores que hoje são nomes consolidados no panorama nacional, como Cintia Moscovich, Daniel Galera, Daniel Pellizzari, Amilcar Bettega, Carol Bensimon, Bernardo Moraes.

O conto de Wittmann, pelo que este também ex-oficineiro pode reconhecer, parece ter nascido em uma das experiências a que éramos desafiados na oficina: a de sustentar toda uma história na descrição do ambiente que circundava o personagem.

O livro traz trez contos de cada um dos 13 participantes da turma de oficina de Wittmann, a de número 39. Além dele, estão presentes no volume, editado pela Libretos, Gabriela Silva, Viviane Grespan. Marinella Peruzzo, Luciane Godinho da Silva, Ana Santos, Ana Kessler, Mauro Paz, Elisa Beylouni, Mariza Baur, Cícero Krupp da Luz, Juliana Eichenberg e Stela Rates. A sessão de autógrafos do livro integra uma nova programação do Instituto Cultural, o BateBocaBom Cultural, um bate-papo informal em torno da temática de uma obra. Na primeira edição, dia 1º de agosto, Luiz Antonio de Assis Brasil, Léa Masina e Marcelo Spalding debatem sobre Criação Ficcional no Auditório Erico Verissimo do Cultural. E a partir das 13h, no Map Café Cultural, os novos autores da antologia autografam ao som do piano de Geraldo Flach. Libretos, 160 páginas, R$ 25,00.

Postado por Carlos André Moreira

Nossa jovem leitora dá satisfações

22 de julho de 2009 4

Pois nosso exemplar de juventude corrompida Tássia Kastner, de férias, me envia um e-mail. A Tássia, talvez vocês lembrem, é a moça a quem tenho passado leituras consideradas clássicas ou indispensáveis e que depois nos escreve um texto impressionista sobre o que leu, na série Corrompendo a Juventude, e que já nos brindou com um belo texto sobre O velho e mar, de Hemingway.

Quando o e-mail da Tássia bateu na caixa de correio, achei que fosse o texto que ela está nos devendo sobre sua leitura de O Coração das Trevas, mas não era. Era uma breve colaboração para o Mundo Livro misturado a uma certa tentativa de desdobre. Vamos, pois, à mensagem de nossa jovem leitora, sobre uma rede de relacionamentos que pretende pôr em contato leitores (a exemplo da mais recente iniciativa do O leitor):

Pois acabo de descobrir mais um site de relacionamentos. Dessa vez, com uma proposta bem mais nobre: a pergunta que te faz o convite é “O que você anda lendo?”

O portal é o www.skoob.com.br, e eles se definem como `a primeira rede de leitores do Brasil` – o que não é de se duvidar, já que em nossas terras, nenhuma rede de relacionamentos fez tanto sucesso quando o Orkut.

Confesso, caros leitores, ainda não tive coragem de entrar, e por um motivo bem óbvio. Como leitora da série Corrompendo a Juventude, criada pelo mentor deste blog, devo a vocês Coração das Trevas, de Joseph Conrad.

Passado tanto tempo, anuncio que já passei da página 100, isso depois de um final de semestre que me afastou de qualquer leitura não acadêmica. Enfim, em breve entrego meu segundo texto. Se isso realmente interessar a alguém…

Tássia

Postado por Carlos André Moreira

Flores Sombrias

22 de julho de 2009 1

E agora um capítulo do livro Flores, de Mario Bellatin, também abordado na central de livros de hoje. Flores é uma novela na qual o autor aborda, ainda que sem nominar abertamente, o episódio dramático das crianças — como ele — nascidas com deformidades devido a efeitos colaterais do medicamento Talidomida, nos anos 1960, que era prescrito para o enjoo das gestantes.

Nas palavras da colega Marianne Scholze: “Bellatin mistura ficção e realidade para narrar de forma crua e sucinta fragmentos de vidas. Todas fortemente marcadas pelo corpo e suas (im)possibilidades: um escritor muçulmano às voltas com o submundo da sexualidade, uma poeta transtornada que se encanta por gêmeos nascidos sem braços ou pernas, um médico e sua secretária responsáveis por avaliar deformidades de nascença causadas por um medicamento. Contrastando com a frieza dos recortes, cada capítulo tem o nome de uma flor _ rosas, orquídeas e copos-de-leite abrem caminho para corpos mutilados e mentes perturbadas”:

As flores, portanto, ocupam a mesma função irônica da “rosa de Hiroshima” de Vinicius de Moraes – o “motivo da rosa” aplicado ao horror do corpo humano deformado pelo uso insensato da ciência.

Vamos, pois, ao trecho:

AÇUCENAS Justamente nos dias que antecederam o julgamento internacional que decidiu em favor dos afetados pelo medicamento, apareceu nos jornais a notícia de que haviam encontrado algumas crianças abandonadas numa gruta situada em recifes próximos. Estavam dentro de uma cesta, cobertas com uma manta azul-celeste. Um pescador ouviu o choro e, ao descobri-las, notou que não tinham braços nem pernas. Os recém-nascidos passaram alguns dias no posto policial. Como ninguém apareceu para ficar com eles, foram mandados para o orfanato estatal. Ninguém sabe os motivos, mas desde o primeiro momento a imprensa batizou aqueles irmãos como os gêmeos Kuhn. O orfanato ficava perto do mar. Por isso, talve, suas grades exibissem sinais de ferrugem. Estava protegido por muros altos, e imagens de santos de pedra haviam sido colocadas em alguns cantos. Em outros, podia-se apreciar arranjos florais, elaborados e gigantescos, esculpidos em granito. Magnólias, hortênsias e açucenas de tons cinzentos. Além da equipe médica e das babás, o orfanato contava com um grupo de voluntárias que colaboravam adotando simbolicamente algumas das crianças reclusas. Era proibido levá-las à rua. A maioria das colaboradoras eram mulheres que não tinham conseguido conceber. Não importava que fossem solteiras ou casadas. Algumas desempenhavam a função de mães com correção, no entanto havia outras para as quais nenhuma crianças parecia suprir as expectativas. essas mães mudavam de filhos constantemente. No início, todas eram vigiadas de perto pelo pessoal do orfanato. Só quando se completava um ano da adoção simbólica era permitiro que tratassem seus filhos como quisessem. Podiam educá-los com surras ou com reprimendas. Tinham o direito de fazer com que comessem, mesmo à força, os alimentos que levavam em embalagens térmicas e vasilhas de plástico. Quase nenhuma falava, fora dali, de seu trabalho no orfanato. Nas casadas isso poderia ser considerado uma crítica a sua vida conjugal, e nas solteiras, a aceitação da solidão como uma espécie de castigo.

Postado por Carlos André Moreira

Agruras de um nerd

22 de julho de 2009 1

O segundo caderno de hoje trouxe textos sobre dois bons exemplares da atual narrativa em castelhano: um comentário da colega Marianne Scholze sobre Flores, de Mario Bellatin (aqui você lê mais sobre outro livro do cara, Salão de Beleza) e uma resenha escrita pelo Joca Reiners Terron sobre o livro A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao, do dominicano Junot Diaz, sobre o qual já havíamos falado brevemente aqui (gostei bastante do livro, e só não escrevi eu mesmo porque estava trabalhando em outra coisa: um caderno de Cultura que sai no próximo sábado sobre as atrações argentinas do Festival de Inverno de Porto Alegre).

São, a seu modo, exemplares de dois autores que têm se preocupado em construir não apenas romances ou narrativas, “contar histórias”, e sim acompanhá-las de um trabalho consistente com a linguagem. Diaz escreve numa variação selvagem do Spanglish dos imigrantes latinos dos Estados Unidos, algo que na tradução de Flávia Carneiro vira um portunhol esporádico que não chega a provocar grande impacto. A respeito disso: li muitos elogios à tradução, e ela é ok, mas confesso que esbarrei num problema logo de início que me deixou de pé atrás o resto do livro inteiro, quando ela traduz que a irmã de Oscar, Lola, forjou para si uma personalidade resistente como adamantino. Bom, o livro é narrado do ponto de vista de um amigo de Oscar que com ele compartilha referências nerds que se espalham por todo o livro, como Senhor dos Anéis e gibis da Marvel, com fartas referências aos X-Men. Ora, X-men remete a Adamantium, substância fictícia dos ossos de Wolverine, e adamantino não existe com esse sentido de rígido e inquebrável em português, o que significa que houve tropeço na tradução. Sim, eu sei, eu sou nerd e sou chato (mas não estava cem por cento certo. A própria Flávia respondeu em comentário neste post esclarecendo que o termo no original é mesmo “adamatine”)

Mas como havíamos prometido, vai abaixo um trechos do livro A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao. O do Bellatin vem no próximo post.

“Você já viu aquele quadro do Sargent, Madame X? Claro que sim. Oscar tinha um pôster dele na parede _ junto com um do Macross e um original de Akira, aquele com Tetsuo e a frase NEO-TÓQUIO ESTÁ PRESTES A EXPLODIR.

A nova paixonite do Oscar era tão gostosa quanto a madame. Só que totalmente pirada.

Se você tivesse morado em Demarest naquele ano, na certa teria reconhecido a peça: Jenni Muñóz. Uma gata boricua que tinha vindo do leste da “cidade de tijolos”, Newark, e vivia na área latina. Primeira gótica radical que eu conheci _ nos anos 1990, caras como nós tínhamos a maior dificuldade de entender esse estilo de vida, e fim de papo _ porém, a ideia de uma porto-riquenha nessa tribo parecia rão inusitada para a gente quanto um nazista negro. Jenni era seu nome verdadeiro, mas seus amiguinhos góticos a chamavam de La Jablesse e, para os sujeitos comuns como eu, a diabla tinha alguns parafusos a menos. A morena erluzia. Linda tez de jíbara, traços marcantes, cabelos supernegros com corte egípcio, olhos carregados de lápis preto, lábios com batom bem escuro, peitos volumosos, os maiores e mais redondos do mundo. Todo dia era Halloween para essa gata que, no verdadeiro Dia das Bruxas, resolveu se fantasiar de _ adivinhou _ dominadora, levando um dos caras gays do departamento de Música numa coleira.”

Postado por Carlos André Moreira

Traições de amor e família

21 de julho de 2009 1

Milene parou. Os dois carros pararam. Ele saiu, pondo o relógio à vista, batendo o polegar uma e outra vez no mostrador, a perguntar se ela sabia o que era um labirinto. Porque a vida dele era um labirinto. A dizer-lhe que só lhe faltava agora ela ter aparecido, naquela manhã, para o labirinto se fechar, com ele lá dentro. Tinham parado em frente dum paredão que guardava a ribanceira do mar. Dali não se via a praia, só se via a água poderosa a fechar o horizonte, uma superfície lisa onde o sol da manhã criava poalhas de oiro e prata. Ele não deveria ver nada. Tinha desabotoado a camisa até a cintura e tinha dito – “Está a ver o tempo passar, não está? É assim, agora vamos sair daqui e vamos direto no meu local de trabalho para eu mostrar você, para o meu encarregado ver você, eu poder explicar-lhe aquilo que ando a fazer, e ele a riscar meu dia, mas compreender que é verdade o que eu digo. Está a entender?”
Quando dizia
você, a voz dele produzia um arco agressivo de puro metal. Você.

Assim que terminei de ler O Vento Assobiando nas Gruas (Record, 496 páginas, R$ 59), da escritora portuguesa Lídia Jorge, ofereci um texto sobre o livro para o amigo Carlos André. Isso foi no verão passado… Prometi e não entreguei. Agora, sabendo que concorre ao Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura, resolvi escrever algumas considerações sobre o romance que tanto me impressionou.

Certamente não foi pelo título, que não me atraiu nem um pouquinho. Tampouco foi a capa ou o resumo na orelha. O que me deu coragem para encarar as quase 500 páginas foi o fato de já conhecer a autora. E só.

Lídia Jorge (1946) faz parte da geração pós-74, romancistas portugueses que estrearam na literatura após o fim da ditadura militar, no final dos 70 e início dos 80 (fazem parte também deste grupo autores consagrados como Saramago e Lobo Antunes). Em 1970, último período da Guerra Colonial, lecionou em Angola e Moçambique. Estreou na literatura com O dia dos prodígios (1980), romance que apresenta inovações linguísticas e narrativas e aborda uma questão importante para os portugueses: o que, de fato, significou a Revolução dos Cravos e o fim do salazarismo para o povo. Os reflexos diretos dos anos que morou na África aparecem explicitamente no seu romance mais aclamado, A costa dos murmúrios (1988) — já lançado no Brasil pela Record.

O vento assobiando nas gruas, seu oitavo romance, lançado no Brasil ano passado (em Portugal, publicado em 2002), traz uma narrativa aparentemente linear. Comparado com obras anteriores, podemos dizer que é um romance convencional, que explora pouco a questão metaficcional. O que não significa que o livro seja fácil, daqueles que a gente lê no ônibus. É preciso parar para desfrutar melhor esta leitura densa e truncada. E se deixar envolver pelos personagens, estes sim, intrigantes e apaixonantes.

A história se passa na fictícia cidade de Valmares (cenário de outros livros da escritora, que remete à terra natal da autora, no Algarve). Tudo começa com a morte da avó de Milene Leandro, personagem central do livro. Este acontecimento promove o encontro da moça, descendente de uma aristocracia local decadente, com uma miserável família de imigrantes cabo-verdianos. E não é que a menina-rica se apaixona pelo pobre viúvo operador de gruas? Mas não espere uma simples história de amor, ou os conflitos comuns em história de “plebeu e princesa”. É claro que as famílias não aceitam o romance do casal, mas o livro vai além disso. Questões como o preconceito, a hipocrisia, a ganância norteiam alguns personagens. E contrastam com a inocência e a pureza de outros.

É preciso não desanimar com a lentidão da narrativa, arrastada em grande parte pela repetição. É preciso resistir à vontade de desistir de uma personagem tão estranha inicialmente, tão em desajuste com o mundo ao seu redor, mulher que age e pensa como uma criança, tão imatura para os seus 34 anos. É preciso seguir adiante para descobrir os segredos que nos esperam. Vale a pena chegar ao final do livro. As traições e as atrocidades cometidas em nome do amor, da família, da tradição, ficaram ecoando em mim dias e dias após o fim da leitura. Recomendo.

Texto de Priscilla Ferreira

O sonho da luxúria e seu monstro triste

19 de julho de 2009 0

Vinte e quatro escravos bronzeados remavam a magnífica galera que traria o príncipe Amgiad para o palácio do califa. O príncipe, porém, envolto em seu manto purpúreo, jazia sozinho no convés, sob o azul-escuro do céu salpicado de estrelas, e seu olhar…”

Até ali, a pequena lera em voz alta; agora, quase de repente, seus olhos se fechavam. Sorrindo, os pais se entreolharam, Fridolin agachou-se, beijou-lhe os cabelos loiros e fechou o livro sobre a mesa ainda posta. Como se a tivessem flagrado, a menina ergueu os olhos.

“Nove horas”, disse o pai, “está na hora de ir dormir.” E, como também Albertine houvesse se agachado junto à criança, as mãos de seus pais cruzaram-se sobre a fronte amada, seus olhares encontrando-se num terno sorriso, agora não mais endereçado apenas à menina. A governanta entrou, lembrou a criança de dar boa-noite aos pais; obediente, a menina se levantou, beijou pai e mãe e, em silêncio, deixou-se conduzir pela moça para fora da sala. A sós, porém, sob a luz avermelhada da luminária pendendo do teto, Fridolin e Albertine tinham súbita pressa em retomar a conversa iniciada antes do jantar, sobre os acontecimentos no baile de máscaras do dia anterior.

Tinha sido seu primeiro baile naquele ano, e, com o Carnaval já se encerrando, haviam decidido ir. No que se refere a Fridolin, logo ao entrar no salão ele fora saudado como um amigo aguardado com impaciência por dois dominós vermelhos, os quais não lograva identificar, embora soubessem com notável exatidão toda sorte de histórias de seu tempo de estudante e de hospital. Do camarote para o qual o tinham convidado com promissora amabilidade, haviam se afastado com a promessa de regressar muito em breve e, aliás, despidos de suas máscaras, mas se ausentaram por tanto tempo que ele, já impaciente, preferiu dirigir-se ao salão, onde esperava reencontrar ambas aquelas incertas aparições. Contudo, por mais que as espreitasse, não as avistava em parte alguma; em vez delas, uma outra figura, feminina, enganchou de súbito o braço no seu: sua esposa, que apenas se desvencilhara bruscamente de um desconhecido, alguém cujo ar melancólico e blasé, aliado a um sotaque estrangeiro, ao que parecia polonês, a havia encantado de início mas que, de repente, a ofendera e mesmo assustara com um comentário inesperado, de rude impertinência.

E contentes, no fundo, por terem escapado a um baile de máscaras de uma banalidade decepcionante, logo se viram os dois, homem e mulher, sentados como dois apaixonados entre outros apaixonados junto ao bufê, em meio a ostras e champanhe, conversando satisfeitos como se tivessem acabado de se conhecer, a conversa rumando para uma comédia de galanteios, resistência, sedução e consentimento; e, em casa, após rápida viagem pela noite branca de inverno, mergulharam nos braços um do outro, numa felicidade amorosa já não vivenciada com intensidade fazia muito tempo. Depressa, uma manhã cinzenta despertou-os. O ofício convocava o marido logo cedo para junto do leito de seus enfermos; tampouco os deveres de mãe e dona de casa permitiam a Albertine repousar por muito mais tempo. E dessa maneira as horas do dia haviam se passado sóbrias e predeterminadas, em meio ao trabalho e aos deveres do dia-a-dia; a noite anterior, começo e fim, desvanecera-se; somente agora, terminado o dia de trabalho, tendo a menina ido dormir e sem a expectativa de qualquer perturbação, assomavam de volta à realidade as figuras anuviadas do baile de máscaras: o melancólico desconhecido e os dominós vermelhos; e aqueles acontecimentos insignificantes viam-se de súbito, mágica e dolorosamente, banhados pela enganosa aparência das possibilidades perdidas. Perguntas inocentes, mas perscrutadoras, respostas astuciosas e ambíguas eram trocadas; a nenhum dos dois escapava que o outro não fazia uso de toda a honestidade, de modo que ambos se sentiam dispostos a pequenas vinganças.

O vienense Arthur Schnitzler foi, mais do que um escritor de uma geração de ouro da literatura de língua alemã, um duplo literário de Freud, que, em uma carta ao próprio Schnitzler, disse se sentir tão identificado com as ideias que o autor que, por uma espécie de “medo do duplo”, tinha medo de encontrá-lo pessoalmente e ser influenciado em suas próprias teorias. Isso porque Schnitzler trabalhou com pulsões inconscientes, com o impulso erótico associado ao impulso da morte, com as fantasias sexuais como motor das ações de seus personagens. E, claro, com o sonho como uma porta para o inconsciente (ainda que ele não tenha dado exatamente esse nome, que é de Freud, ao que estava descrevendo).

Em Breve Romance de Sonho (Tradução de Sergio Tellaroli. Companhia das Letras, 103 páginas, R$ 14,50), de onde saiu o trecho acima, Schnitzler cruza o horror da falta de sentido da vida moderno com o sexo. Numa noite de perfeita intimidade, Albertine conta ao marido, o doutor Fridolin, uma perturbadora fantasia erótica: em uma determinada ocasião, sentiu-se tão fortemente atraída por um homem que se viu tentada a negar o papel social e o aparentemente sagrado dever maternal para largar tudo e ir com aquele sujeito para os confins do mundo. Fantasia não realizada, é claro, mas que perturba as certezas de Fridolin e o faz sair pelas ruas buscando inutilmente a revanche de uma experiência semelhante — uma corrida infrutífera que, como as críticas feministas adoram ressaltar, nada mais é que o homem perdido diante da força assustadora do gozo feminino, blá, blá, blá.

Ah, sim, se alguém ainda não se ligou, o livro foi adaptado por Stanley Kubrick no filme De Olhos Bem Fechados, aquele com o Tom Cruise e a Nicole Kidman quando ainda eram um casal. O livro foi relançado agora em formato bolso pela editora.

Mundo Livro em outros mundos

16 de julho de 2009 1

Texto do seu titular do Mundo Livro dando pitaco no blog do Remix, do colega Paulo Germano. Umas linhas falando sobre o perfil de Billie Holiday escrito por Ruy Castro em Saudades do Século 20.

Quer ler? Clica aqui.

Postado por Carlos André Moreira