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O santo e a arte

13 de agosto de 2009 0

Otto Lara Resende, que foi seu amigo, não abusa da retórica ao falar de Jayme Ovalle como “um largo estuário mágico”. Pois nele, de fato, muitos, as figuras mais díspares, de mais de uma geração, foram se encontrar. Foi Ovalle, diz Otto, uma “silenciosa presença” que, “sem querer marcar, marcou todo mundo que passou por ele”, deixando “por toda parte, ao léu, suas impressões dígito-espirituais, espirituosas”.

Vinicius de Moraes, por exemplo, diz o escritor mineiro, “com todos os seus ovallianos diminutivos”, deve ser visto como “um viril expoente” do “carinho antimachista” de que Jayme Ovalle seria o “patriarca”. A uni-los, acrescenta, uma ausência de vergonha “do que é ser bom, frágil e humano, também feminino”.

Muito antes, porém, do “poetinha” – que um dia, para justificar atraso num compromisso, explicou a Paulo Mendes Campos que em sua casa tinha entrado “um ladrãozinho” -, houve Manuel Bandeira, o mais próximo e querido dos amigos de Ovalle. Também ele sucumbiu ao mel dos diminutivos de seu “irmãozinho” – e invocou, no poema em prosa “Conto cruel”, que incluiria em Estrela da manhã, de 1936: “Meu Jesus-Cristinho!”. Adorava os inhos e inhas em que Ovalle se derretia. Não deixaria passar sem registro, entre outras pérolas, a resposta que o companheiro deu a alguém que o criticara por estar usando luto:

— Deixa eu usar o meu lutinho!

Difícil precisar quando foi que os dois se conheceram, mas seguramente o engate já se dera em 1922, pois Bandeira data desse ano “sua amizade, de contato quase diário”, com amigos que foi fazendo, “em cadeia”, a partir de Ribeiro Couto (que em sua porta fora bater, recém-chegado de São Paulo, em dezembro de 1918): Jayme Ovalle, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Dante Milano, Sérgio Buarque de Holanda, Prudente de Morais, neto, Osvaldo Costa. Menos conhecido que os demais, este último, nascido no Pará, era jornalista e no final da década participou da fase mais radical – a chamada “segunda dentição” – da Revista de Antropofagia, de Oswald de Andrade, onde escreveu, como “Tamandaré”, corrosivas críticas a antigos companheiros de movimento modernista, e para a qual criou um slogan: “Quatro séculos de carne de vaca! Que horror!”.

A esse time masculino se juntou, também por essa época, a cantora Germana Bittencourt, que seria a primeira intérprete de canções de Jayme Ovalle em espetáculos públicos – em 22 de outubro de 1926, quando cantou “Zé Reymundo”, “Papai Curumiassu”, “Macumbebê” e “Caboclinho” no Cassino do Passeio Público, no Rio de Janeiro. Escrevendo sobre o recital, Manuel Bandeira fez elogios à cantora (“Mlle. Germana Bittencourt possui uma voz de timbre agradável, um temperamento muito vibrátil”), arriscou uma aposta no seu futuro (“Se ela tiver a força de se consagrar inteiramente ao estudo, há muito que esperar dos seus dotes naturais, tão ricos de promessas”) e considerou oportuno encaixar uma observação mais própria de pai do que de crítico musical:

“Mas em primeiro lugar convém que se fortifique fisicamente. A sua figurinha graciosa, a que assentava bem o romantismo daquela toalete de estilo, está pedindo urgentemente dois meses de fazenda mineira com muita papa de milho verde e muito leite de vaca sã.”

Boas razões tinha o poeta, ex-tísico com passagem por sanatório europeu, para fazer tal recomendação: Germana Bittencourt morrerá cedo, em 1931, de tuberculose, deixando um filho de seu casamento com o poeta argentino Pedro Juan Vignale, e sem realizar o sonho de estudar em Paris com Ninon Vallin, o amor francês de Jayme Ovalle. Mas provavelmente ainda agradecida ao compositor, pelas atenções, conselhos e carinho que lhe dera, e a quem se referira mais de uma vez nas nove cartas que enviou a Mário de Andrade. “Até hoje”, disse numa delas, “são vocês dois os homens e os amigos mais nobres e mais puros de sentimento que conheci.”

***

Você provavelmente não sabe quem é Jayme Ovalle, nunca ouviu falar de Jayme Ovalle e, mesmo se o nome lhe soar familiar, talvez você não tenha muita certeza de quem foi — ao menos não sem consultar o Google. Pois Jayme Ovalle (1896-1955) é o tema de uma biografias das mais interessantes publicadas do ano passado para cá, recuperando um dos personagens obscuros mais célebres da cultura brasileira, por paradoxal que pareça.

O Santo Sujo: A Vida de Jayme Ovalle (Cosac Naify, 400 páginas, R$ 55), de onde foi tirado o trecho acima, é fruto do trabalho de uma década do jornalista Humberto Werneck, e reconta a história desse que pode ser considerado o Forrest Gump da intelectualidade nacional, um sujeito que era parceiro de copo de Vinícius de Moraes e Fernando Sabino, que fez parcerias musicais com Manuel Bandeira — entre elas Azulão, um sucesso internacional — e que, no entanto, era mais brilhante na mesa do botequim do que nas letras.

Dotado de uma ingenuidade infantil desconcertante, também era capaz de ir às lágrimas — copiosas — por causa de uma discussão em que não conseguisse convencer o interlocutor. Ovalle é uma nota de rodapé na história da cultura nacional, mas uma nota das mais curiosas. É citado, com admiração, em crônicas de Otto Lara Resende, Vinícius de Moraes e, principalmente, Fernando Sabino, que o considerava um mestre da verve e da poesia. Foi retratado pelos pintores Di Cavalcanti e Cândido Portinari e Bandeira dedicou a ele alguns de seus mais belos poemas, entre eles o que transcrevo abaixo:

POEMA SÓ PARA JAYME OVALLE

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…
— Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

Mas Ovalle, antes de ser um guru, é um mistério. De intuição poética aguçada, Ovalle foi, na intensa boemia carioca da época, fonte de diálogo e inspiração para os artista já citados e mais alguns como Murilo Mendes e Augusto Frederico Schmidt. Mas ele próprio, Ovalle, não deixou uma obra artística relevante em seus quase 60 anos de vida. Foram apenas 33 composições musicais e alguns poemas escritos em inglês.

Em uma conversa que tive com Werneck ainda durante a Flip do ano passado, ele me contou, sentado à mesa do café na entrada do palco das palestras (passando a ponte para quem já esteve em Parati), que por anos após a morte de Ovalle corria a lenda de que havia um baú em algum lugar com composições, poemas e contos (“um tesouro artístico inestimável”, estimou Werneck). Ao terminar a biografia após uma década correndo atrás do tal baú, Werneck conclui — e afirma no livro — que, a exemplo de um Joe Gould brasileiro, Ovalle não tinha uma obra monumental escondida em lugar algum.

— Tudo o que Ovalle produziu foi aquilo mesmo que se conhecia — comentou Werneck

Nascido no Pará, filho de um chileno com uma brasileira, órfão desde os 10 anos de idade, residente a maior parte da vida no Rio e por anos funcionário público da Alfândega, Ovalle foi, já em seu tempo, um personagem folclórico. Na juventude, era tido como um galã com traços exóticos. Na meia-idade, no Rio dos anos 1930 e 1940, andava pelos bares do Rio de Janeiro com um casacão e um monóculo (coisa que ninguém mais usava naquela época). Entre Nova York e Londres, Ovalle viveu ao todo oito anos, e conseguiu o prodígio de voltar de ambas as cidades sem saber inglês — os poemas que escreveu na língua de Shakespeare foram praticamente traduzidos por sua namorada americana e mais tarde mulher Virginia Peckham.

Apesar da profusão de detalhes folclóricos, que poderiam caricaturar Ovalle, Werneck também recupera a dimensão melancólica do biografado, um homem triste, dotado de um misticismo peculiar e de uma inocência inacreditável e que, apesar de ser considerado um exemplo por vários dos grandes criadores brasileiros, não conseguiu ele próprio desenvolver as aptidões técnicas para transformar em obras literária ou musical o caldeirão de idéias que fervilhava nele.

Ah, sim, um último comentário: Werneck está lançando agora um novo livro, O Pai dos Burros, uma compilação de milhares de lugares-comuns e frases feitas, que está saindo pela editora gaúcha ArquipélagoMas sobre esse livro em particular vocês poderão ler no caderno Cultura do próximo sábado, em resenha escrita pelo jornalista e professor Victor Necchi.

Postado por Carlos André Moreira

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