A Objetiva estreou seu selo Alfaguara, no Brasil, com a publicação do inédito Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa. Nos anos seguintes, enquanto aumentava seu catálogo de edições em português, a Alfaguara relançou outros livros de Vargas Llosa, clássicos de leitura constante, alguns deles esgotados mesmo apesar das sucessivas reedições: Pantaleão e as Visitadoras, Tia Júlia e o Escrevinhador, A Cidade e os Cachorros, A Guerra do FIm do Mundo. Pois dois desses últimos lançamentos são os romances interligados O Elogio da Madrasta e Cadernos de Don Rigoberto, duas poderosas incursões do autor peruano no universo da literatura erótica e que abordam um sutil e elegante triângulo amoroso no qual o jovem Fonchito seduz a bela mulher de seu pai, Don Rigoberto. No primeiro livro, Fonchito e seu arrebatamento erótico com a madrasta Lucrécia é o centro da trama. No segundo, a história centra-se no pai, Don Rigoberto. Vargas Llosa chegou a prometer que seu próximo romance voltaria à mesma história, desta vez com o foco em Lucrécia, mas depois disso não divulgou mais nada sobre em que pé anda a escritura da obra.
Para marcar o relançamento de Don Rigoberto, publicado aqui no Brasil pela primeira vez em 1997, recupero abaixo um texto do Ricardo Carle publicado na Zero Hora em 23/09/97 sobre o livro (e para apresentar um pouco mais do trabalho dele para quem não o acompanhou como repórter responsável pela área de livros e pelo caderno Cultura:
Uma filosofia do erotismo
O último romance de Vargas Llosa conquista pela sensualidade
RICARDO CARLE
É preciso dizer algo em favor de dona Lucrecia. Antes que os mais apressados a julguem mal, faça-se referência a sua antecessora. "Famosa por sua beleza e virtude", Lucrécia (por histórica, admite o acento) foi violada por Sexto Tarqüínio, filho do rei Tarqüínio, o Soberbo, e matou-se pedindo vingança. "O suicídio de Lucrécia desencadeou a expulsão dos Reis de Roma e a instauração da República, no ano 509 antes de Cristo. A figura de Lucrécia transformou-se em símbolo do pudor e da honestidade e, sobretudo, da esposa honesta."
A informação consta num dos famosos cadernos de don Rigoberto, esse pacato limenho que tem causado espécie em grande parte do mundo. Suas reflexões, devaneios e principalmente suas fantasias têm mantido o sonoro nome nas listas do livros mais vendidos em diversos países da Europa e da América Latina. Tornou-se um filósofo muito popular, embora não seja tão bem intencionado quanto o benfeitor da Sofia de Jostein Gaarder. Pelos deuses, ele merece.
Rigoberto no fundo é um safado e sua mulher, Lucrecia, nada mais do que uma esposa apaixonada, extremamente dedicada ao marido. Merece o bom nome que tem (uma herança prejudicada pela operosa Lucrécia da dissoluta Itália quatrocentista). Então, qual o problema com a reputação de dona Lucrecia? Está tudo lá, nos cadernos guardados a sete chaves de don Rigoberto. Esta jovem e apetitosa senhora é capaz de lançar-se às aventuras sensuais mais revolucionárias e impudicas.
Erudito e cheio de gostos refinados, Rigoberto sonha com situações eróticas de variadas espécies. Nada muito radical, a ponto de ser considerado tara, mas suficientemente inusual para ser tachado de imoral pelos cidadãos de bem. E mais, sendo um monógamo militante, este senhor, conceituado corretor de seguros, morador de elegante casa em Barranco, bairro da capital peruana, não sonha jamais em trair a mulher. Sua lubricidade é saciada com os relatos das escapadas da bondosa Lucrecia.
Isso tudo não resume nem metade do que Mario Vargas Llosa enfiou nas pouco mais de 300 páginas de Os Cadernos de Don Rigoberto, um deliciosa brincadeira, bem-humorada e bem-sucedida. Desde o lançamento mundial em abril deste ano, o romance tem vendido mais do que camisinha. Há passagens para lá de excitantes, há situações loucamente engraçadas, há gravidade, erudição, leveza e perplexidade.
O truque manjado de contar uma história fingindo que ela está escrita por outra pessoa foi manipulado com a conhecida maestria por Llosa. Os Cadernos de Don Rigoberto não contêm uma narrativa linear, nem são tudo o que se lê no livro. O escritor peruano não dispensa o requinte. O casal de heróis vive um amor à distância - o elo que os une é o mesmo que os separou. De um artifício, porém, o autor não deixa de lançar mão. Rigoberto às vezes confunde-se com seu criador.
O fornecedor de apólices para os "mesocráticos" peruanos não se furta de, sob o pretexto de defesa de suas preferências sexuais, manifestar opiniões sobre o mundinho que o cerca. Faz a defesa do individualismo e da idiossincrasia que o acompanha, despejando vitupérios contra o coletivismo e a massificação. Não suporta esportes, Andy Wharol, Frida Kahlo, revistas masculinas, Mahler, Mercedes Sosa, Oliver Stone, patriotas e rotarianos. Gosta de muitas outras coisas mais.
Pelas preferências de don Rigoberto, seu cadernos podem ser lidos como fontes de consulta. Pode-se dar uma folheada e descobrir uma pérola. Daqueles livros que os citadores adoram, mas desperdiçam por despedaçá-los.
Postado por Carlos André Moreira




A propósito de Caderno de Cultura, já surrupiei o referido do jornal de um amigo que não se interessa por "essas frescuras". Vou ler no caminho para POA hoje, mas parece que andam indignados com quem "embaralha o debate virtual". E eu que pensei que embaralhar fosse só mistrurar as cartas do baralho, hahah ... Pitz, vou tentar reativar o meu blogue e deixar de embaralhar o debate virtual dos outros, ha ha ahha...
Houve alguma identificação, PC?
Carlos André
Que bom reler um texto do Ricardo Cale. É um cara que merecia uma homenagem com um livro reunindo suas críticas.
Grande Ricardo Carle
Tirando o chapéu de vaca, normalmente todos os outros costumam me servir. Não sou muito de ofender com palavras, eu acho, mas as vezes perco as estribeiras. Se o cara for maior eu ofendo e saio correndo, se for menor eu ofendo mas me cuido, asbe como é. Nada pessoal, jamais, ou que não possa ser resolvido com um duelo de espadas ou de bacamarte embora prefira uma boa cerveja gelada ou um vinho tinto, barato, claro. Só não me pede pra não embaralhar quando o Wyaney defende o volantismo, hahaha