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Posts de agosto 2009

O senhor dos desgraçados

27 de agosto de 2009 1

Irvine Welsh. Foto: Divulgação/Rocco

Irvine Welsh, 46 anos, fez fama e fortuna escrevendo Trainspotting (1993), que depois o cinema surrupiou pela mão ágil e competente do diretor Danny Boyle e multiplicou em milhões à força do nome do escritor. No livro, 14 impressões antes mesmo de rechear o projetor, 2 milhões de exemplares vendidos depois do sucesso de bilheteria, Welsh pedia eco ao seu baixo mundo. Primeiro escocês, depois britânico, aí, sim, europeu. Ganhou e mostrou uma Edimburgo possuída por jovens em busca do prazer acima da razão e da sensibilidade, onde a droga, a heroína, servia como ponto cardeal, os pubs como sala de estar e a música como passaporte a um largo corredor de insanidades. A juventude local sentiu os efeitos dos anos Margaret Thatcher como se habitasse o entorno de Londres. Welsh capturou as sensações. Liberou algumas, selecionou as específicas do seu mundo caótico e mandou imprimir.

Trainspotting carregou um ex-especulador imobiliário e cantor e guitarrista de bandas de esquina ao confortável andar dos novos e bons escritores dos anos
90. O ácido Welsh, voz de uma geração sem bússola, foi adiante na literatura, ganhou o rótulo de escritor quente e moderno e construiu outros livros de relativo sucesso — nada igual, parecido, a Trainspotting, transformada inclusive em peça teatral. Em Pornô, obra de 2002, por exemplo, ele volta aos torturantes limites de Transpotting. Foca os mesmos desordenados uma década depois, já respirando os últimos instantes de uma acelerada juventude, menos rebelde, porém ainda nublada pela droga e açoitada pela paranoia e, sem exagero, pela vingança.

A mais recente incursão de Welsh ao reino dos desesperados e dos desajustados de Edimburgo ganhou o título de As Revelações Picantes dos  Grandes Chefs (Rocco, 432 páginas, R$ 52). Mesmo morando em Dublin, passando os invernos em Miami Beach, o autor colou a retina na capital da Escócia, teto de quase 500 mil habitantes. A progressista metrópole, dos festivais de arte, de uma importante universidade, destino cultural do continente, é sua musa. É das suas longas madrugadas que Irvine Welsh recolhe matéria-prima para as páginas do romance.

Na cidade, dominada pela sisudez do Castelo de Edimburgo e pela alcoólica e feérica Prince Street, circula Danny Skinner, o protagonista do novo romance. No trabalho, ele é funcionário nem sempre ajustado do departamento de vigilância sanitária de Edimburgo, onde fiscaliza bares e restaurantes finos. Depois do expediente, no meio, às vezes, Skinner gosta de pular de bar em bar, entornar cerveja temperada com uísque, aspirar finas carreiras de coca para equilibrar, procurar uma citação de um poeta para impressionar a garota mais próxima.

Ele, que se dá bem com todas, tropeça justamente na relação com a sua namorada. Não consegue exibir seus sentimentos, não antes de uma maratona alcoólica, escoltado pelos amigos de bebedeiras, embrutecidos nas cenas de pugilato em volta dos copos ou nas ruas, muitas vezes em defesa do intocável time predileto. Skinner é um agressivo jovem da classe trabalhadora britânica. Filho de uma veterana punk que transou três vezes no mesmo dia, data inesquecível de um show do The Clash, exatos nove meses antes do seu próprio nascimento. O livro apanha o escocês na primeira parte dos seus conturbados 20 anos.

Distante da mãe, muito mais do pai, ele busca o sentido da vida, ora derrapando na droga, ora nadando no álcool, se equilibrando nos amigos, se alimentando de paixões rápidas. Skinner é um atormentado, um navegante solitário sem um porto seguro. O equilíbrio está em algum lugar, distante. Ele sabe, mas não enxerga um risco de claridade na sua vida cada vez mais aflita. Tenta desesperadamente erguer uma tocha, iluminar o caminho. O custo é astronômico. Ele é um contra o mundo.

Postado por Luiz Zini Pires

Don Rigo por Don Mario

24 de agosto de 2009 4

A Objetiva estreou seu selo Alfaguara, no Brasil, com a publicação do inédito Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa. Nos anos seguintes, enquanto aumentava seu catálogo de edições em português, a Alfaguara relançou outros livros de Vargas Llosa, clássicos de leitura constante, alguns deles esgotados mesmo apesar das sucessivas reedições: Pantaleão e as Visitadoras, Tia Júlia e o Escrevinhador, A Cidade e os Cachorros, A Guerra do FIm do Mundo. Pois dois desses últimos lançamentos são os romances interligados O Elogio da Madrasta e Cadernos de Don Rigoberto, duas poderosas incursões do autor peruano no universo da literatura erótica e que abordam um sutil e elegante triângulo amoroso no qual o jovem Fonchito seduz a bela mulher de seu pai, Don Rigoberto. No primeiro livro, Fonchito e seu arrebatamento erótico com a madrasta Lucrécia é o centro da trama. No segundo, a história centra-se no pai, Don Rigoberto. Vargas Llosa chegou a prometer que seu próximo romance voltaria à mesma história, desta vez com o foco em Lucrécia, mas depois disso não divulgou mais nada sobre em que pé anda a escritura da obra.

Para marcar o relançamento de Don Rigoberto, publicado aqui no Brasil pela primeira vez em 1997, recupero abaixo um texto do Ricardo Carle publicado na Zero Hora em 23/09/97 sobre o livro (e para apresentar um pouco mais do trabalho dele para quem não o acompanhou como repórter responsável pela área de livros e pelo caderno Cultura:

 Uma filosofia do erotismo
 O último romance de Vargas Llosa conquista pela sensualidade
 RICARDO CARLE

 É preciso dizer algo em favor de dona Lucrecia. Antes que os mais apressados a julguem mal, faça-se referência a sua antecessora. “Famosa por sua beleza e virtude”, Lucrécia (por histórica, admite o acento) foi violada por Sexto Tarqüínio, filho do rei Tarqüínio, o Soberbo, e matou-se pedindo vingança. “O suicídio de Lucrécia desencadeou a expulsão dos Reis de Roma e a instauração da República, no ano 509 antes de Cristo. A figura de Lucrécia transformou-se em símbolo do pudor e da honestidade e, sobretudo, da esposa honesta.”
 A informação consta num dos famosos cadernos de don Rigoberto, esse pacato limenho que tem causado espécie em grande parte do mundo. Suas reflexões, devaneios e principalmente suas fantasias têm mantido o sonoro nome nas listas do livros mais vendidos em diversos países da Europa e da América Latina. Tornou-se um filósofo muito popular, embora não seja tão bem intencionado quanto o benfeitor da Sofia de Jostein Gaarder. Pelos deuses, ele merece.
 Rigoberto no fundo é um safado e sua mulher, Lucrecia, nada mais do que uma esposa apaixonada, extremamente dedicada ao marido. Merece o bom nome que tem (uma herança prejudicada pela operosa Lucrécia da dissoluta Itália quatrocentista). Então, qual o problema com a reputação de dona Lucrecia? Está tudo lá, nos cadernos guardados a sete chaves de don Rigoberto. Esta jovem e apetitosa senhora é capaz de lançar-se às aventuras sensuais mais revolucionárias e impudicas.
 Erudito e cheio de gostos refinados, Rigoberto sonha com situações eróticas de variadas espécies. Nada muito radical, a ponto de ser considerado tara, mas suficientemente inusual para ser tachado de imoral pelos cidadãos de bem. E mais, sendo um monógamo militante, este senhor, conceituado corretor de seguros, morador de elegante casa em Barranco, bairro da capital peruana, não sonha jamais em trair a mulher. Sua lubricidade é saciada com os relatos das escapadas da bondosa Lucrecia.
 Isso tudo não resume nem metade do que Mario Vargas Llosa enfiou nas pouco mais de 300 páginas de Os Cadernos de Don Rigoberto, um deliciosa brincadeira, bem-humorada e bem-sucedida. Desde o lançamento mundial em abril deste ano, o romance tem vendido mais do que camisinha. Há passagens para lá de excitantes, há situações loucamente engraçadas, há gravidade, erudição, leveza e perplexidade.
 O truque manjado de contar uma história fingindo que ela está escrita por outra pessoa foi manipulado com a conhecida maestria por Llosa. Os Cadernos de Don Rigoberto não contêm uma narrativa linear, nem são tudo o que se lê no livro. O escritor peruano não dispensa o requinte. O casal de heróis vive um amor à distância – o elo que os une é o mesmo que os separou. De um artifício, porém, o autor não deixa de lançar mão. Rigoberto às vezes confunde-se com seu criador.
 O fornecedor de apólices para os “mesocráticos” peruanos não se furta de, sob o pretexto de defesa de suas preferências sexuais, manifestar opiniões sobre o mundinho que o cerca. Faz a defesa do individualismo e da idiossincrasia que o acompanha, despejando vitupérios contra o coletivismo e a massificação. Não suporta esportes, Andy Wharol, Frida Kahlo, revistas masculinas, Mahler, Mercedes Sosa, Oliver Stone, patriotas e rotarianos. Gosta de muitas outras coisas mais.
 Pelas preferências de don Rigoberto, seu cadernos podem ser lidos como fontes de consulta. Pode-se dar uma folheada e descobrir uma pérola. Daqueles livros que os citadores adoram, mas desperdiçam por despedaçá-los.

Postado por Carlos André Moreira

Por amor à cidade

22 de agosto de 2009 4

Hoje os eleitores de Porto Alegre vão votar na consulta popular sobre o polêmico projeto do Pontal do Guaíba, uma autorização para a construção de um condomínio na beira do rio/lago que é um símbolo da cidade. Muita gente é contra, muita gente é a favor, todos com seus argumentos bem embasados de parte a parte, portanto, não tenho por que apresentar aqui minhas próprias considerações. Mas mesmo assim, deixo-vos, para reflexão, com um dos grandes estudiosos da cidade e de seu papel na modernidade, Marshall Berman, em seu livro recente Um Século em Nova York (Companhia das Letras, 376 páginas):

Na primeira parte do século XX, os americanos consideravam as suas cidades como algo natural. As pessoas podiam amá-las ou odiá-las, podiam tentar aproximar-se ou afastar-se delas, mas ninguém punha em dúvida o fato de estarem assombrosamente ali. Na última parte, de forma muito dramática na década de 1970, tornou-se chocantemente claro que elas afinal não tinham de estar ali. Em apenas alguns anos, por toda a América, paisagens urbanas ricas e complexas se transformaram em ruínas. Ninguém podia deixar de ver a mudança, mas as pessoas lhe davam diferentes significados. Alguns diziam que as cidades eram lugares sujos, barulhentos, sórdidos, de que as pessoas absolutamente não precisavam — sendo esse um velho tema americano. Outros desenvolveram tremendos planos de renovação urbna que se revelaram mais parecidos com remoção urbana. Dois temas dessa época significaram muito para mim: eles têm tons e um colorido emocional diferentes, mas são do mesmo tipo, e reúnem-se e vivem juntos neste livro. O primeiro é a ideia de que um dos direitos humanos básicos é o direito à cidade; isso significa que a vida na cidade é uma experiência a que todos os seres humanos têm direito, quer saibam disso, quer não. Junto está a ideia de que as cidades são vulneráveis, elas precisam de amor e cuidados incessantes. O primeiro tema deve recrutar nossa vontade de realizar ação militante; o segundo deve trazer à tona a nossa capacidade menos dramática, mas igualmente vital, de cuidar das coisas.

Postado por Carlos André Moreira

O 11 de setembro e a ficção

19 de agosto de 2009 7

O primeiro impacto literário do atentado que inaugurou o século 21 se deu em livros de não ficção – e talvez fosse natural, dado o caráter espetacular, midiático e desconcertante dos eventos de 11 de Setembro. Bombardeado por imagens a exaustão do choque dos aviões contra as Torres Gêmeas e da consequente queda destas últimas, o mundo parecia, em um primeiro momento, mais carente de uma reflexão intelectual acurada e de uma tentativa de entender o que estava acontecendo. Talvez por isso logo após o 11 de Setembro as livrarias se viram inundadas de artigos, ensaios, tentativas de compreensão teórica do que os ataques da Al Qaeda significaram – ou não significaram, como no caso de Baudrillard, que escreveu, no ensaio Réquiem para as Twin Towers, sobre o caráter gigantesco do evento e como ele rompia uma cadeia de “não acontecimentos” em que a profusão de signos havia provocado um colapso do sistema simbólico.

Esse artigo, aliás, com tradução de Juremir Machado da Silva, foi incluído na coletânea Power Inferno, já publicada por aqui (Editora Sulina, 2003), bem como outras obras como a reconstituição 102 Minutos, de Jim Dwyer e Kevin Flynn (Tradução de Maria Lucia de Oliveira. Jorge Zahar, 2005), o ensaio Globalização, Democracia e Terrorismo, do historiador Eric Hobsbawn (Tradução de José Viegas. Companhia das Letras, 2007) e a grande reportagem O Vulto das Torres, de Lawrence Wright (tradução de Ivo Korytowski. Companhia das Letras, 2007).

Na ficção, justamente pelo caráter peculiar e pelo tempo próprio da reflexão artística, demorou um pouco mais para que os grandes escritores começassem a enfrentar as questões abertas pelo atentado, como as guerras no Oriente Médio, o sentimento de antiamericanismo dos imigrantes muçulmanos, a própria reorganização da vida À Sombra das Torres Ausentes, para pegar emprestado o título do livro sobre o tema escrito e desenhado pelo quadrinista Art Spiegelman — o autor da obra-prima Maus. Mas depois de um período de “luto” que pode ser definido em dois ou três anos, a literatura americana e mundial se viu inundada por obras de ficção que usam a queda das Torres como um pano de fundo para obras díspares tanto em qualidades quanto em propostas estéticas – dentre os quais o romance Terras Baixas, do irlandês Joseph O`Neill, tema da nossa central de livros desta quarta, é só o exemplar mais recente.

Uma das primeiras obras ficcionais sobre o 11 de Setembro a ser lançada e a chegar no Brasil foi o romance Windows on the World, do francês Frederic Beigbeder (tradução de Andre Telles. Record, 2005), um livro que acrescenta sarcasmo e uma crítica que chegou a provocar polêmica a sua abordagem dos atentados, que acompanhamos pelo ponto de vista de David Carthew, um pai divorcidado que passa suas duas últimas horas em um almoço com os filhos no restaurante panorâmico que ficava no topo de uma das torres, e que dá nome ao livro. Carthew é o retrato de uma era fadada a desmoronar junto com as torres: a de um hedonismo individualista assentado na prosperidade econômica americana. Um tema que o indiano Salman Rushdie, também residente em Nova York, disse ser incontornável: os atentados como o fim de uma era que só se soube dourada em comparação com o que se seguiu.

Esse tema da felicidade perdida e só reconhecida depois que se perdeu também perpassa todo o romance Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, da jovem revelação das letras americanas Jonathan Safran Foer (Tradução de Daniel Galera. Rocco, 2006). Se Beigbeder é cínico em seu retrato do impacto do 11 de Setembro, Safran Foer é lírico, em alguns momentos mágico, belo embora doloroso. Talvez pela escolha do olhar que conduz o leitor pela narrativa, o do menino Oskar, um garoto de nove anos, muito inteligente, que perdeu o pai no atentado às Torres – ele tinha uma reunião marcada no mesmo Windows on the World do livro de Beigbeder. No casaco do terno do pai, encontra uma chave e sai em busca de um sentido não apenas para o achado como também para a própria perda — numa jornada em que é acompanhado pelo avô, sobrevivente do bombardeio de Dresden, na II Guerra e elo entre a tragédia do presente e a do passado.

Foer faz uso de alguns signos recorrentes, entre eles a imagem de uma mulher que, em pânico, jogou-se do prédio enquanto as Torres ardiam. Outras pessoas fizeram isso. Uma delas, também filmado, é o Homem em Queda que dá título ao livro do americano Don de Lillo (Tradução de Paulo Henriques Britto. Companhia, 2007). A literatura é feita de cenas, e este tem uma das mais arrebatadoras dentre os romances recentes: uma magistral e angustiante descrição, logo na abertura, de um homem reagindo à explosão de nuvem, poeira e confusão que se segue ao atentado terrorista. O livro é também um dos melhores e mais intensos dentre os escritos sobre o atentado. Um sobrevivente do ataque busca, em choque, refúgio com a ex-mulher, e passa os dias depois rodando cassinos e tentando entender o que houve.

O entendimento é a chave de outros exemplares. Os aviões não bateram sozinhos nas Torres, por exemplo, foram pilotados por homens que se dedicaram a aprender como manejá-los e que treinaram para se sacrificar na empreitada, desde fundamentalistas raivosos como Mohammed Atta quanto muçulmanos absolutamente ocidentalizados, vindos de famílias laicas de classe média, como Ziad Jarrah, para abordar dois dos terroristas que representavam os extremos entre os comandos da Al Qaeda. Pois dois romances se dedicaram justamente a pensar a formação do terrorista em solo americano. Um deles de um mestre do gênero, John Updike, que em Terrorista retrata um adolescente, filho de pai árabe e mãe de ascendência irlandesa, lutando entre os impulsos contrários de suas duas lealdades: o chamado da luta religiosa contra o Oeste decadente no qual o jovem tem dificuldade de se enquadrar; o sentimento profundamente religioso do imigrante e sua relação conflituosa com a liberalidade de costumes vigente nos Estados Unidos. O estilo descritivo exuberante de Updike, aplicado com mão de mestre à investigação psicológica do protagonista, torna o livro um dos melhores desta lista.

Mas Updike é americano, e mais ainda: é o cronista americano por excelência. Para ter contato com o mesmo tema, mas tratado pelo lado “de dentro” — ou “de fora”, depende do ponto de vista, há também O Fundamentalista Relutante, de Mohsin Hamid, que narra a história do jovem Changez, 22 anos. Ou melhor, é o próprio Changez que narra sua história em um longo monólogo dirigido a um americano que encontra em um café. E essa história é de uma lenta transformação: Changez, paquistanês formado com excelentes notas em Princeton, namorado de uma americana linda e com um emprego muito promissor e bem remunerado em Manhattan. Até que acontecem os atentados, que Changez testemunha de sua janela, e sua realidade muda completamente: sua cor, seus traços, seu nome, tudo leva Changez a se tornar, de um imigrante “integrado” pronto a “fazer a América” em um alvo de desconfiança na paranoia posterior à queda das torres: perde a namorada, o emprego, e logo está mergulhando ele próprio em uma espiral descendente de preconceito antiamericano — Hamid estuda o ciclo da violência e como ela se retroalimenta.

Haveria mais, é claro, muitos outros livros a citar, como o inglês Sábado (Companhia das Letras, 2006), no qual Ian McEwan, em prosa suntuosa, investiga o mundo pós-11 de setembro pela voz de um cirurgião inglês no dia em que está sendo realizada a maior manifestação britânica contra a Guerra do Iraque. E mesmo o toque brasileiro e bem humorado do gaúcho Tailor Diniz, que em Um Terrorista no Pampa (Leitura XXI, 2007) imagina a história de um empresário do Interior do Rio Grande do Sul que, por engano, é dado como morto por ter anunciado que iria visitar as Torres no dia em que acontece o atentado. Para se escapar de uma situação financeira ruim, resolve ficar pelos Estados Unidos mesmo, e, tempos depois, ao voltar para sua cidade, é confundido com um terrorista.

Mas esta lista não contempla tudo, todos os livros que já foram publicados. E nem pretende. É uma relação que tende ao infinito e que ainda deve aumentar bastante nos próximos anos.

Ficção de si mesmo

18 de agosto de 2009 0

O trem desliza, é noite, faço amor com Sophie no leito do vagão e é de fato ela. As parceiras dos meus sonhos eróticos geralmente são difíceis de identifi car, são várias pessoas ao mesmo tempo sem terem o rosto de nenhuma delas, mas dessa vez não, reconheço a voz de Sophie, suas palavras, suas pernas abertas. No compartimento do vagão-leito onde até aquele instante estávamos a sós chega outro casal: o sr. e a sra. Fujimori. A sra. Fujimori junta-se a nós, sem cerimônia. O entendimento é imediato, muito divertido. Escorado por Sophie numa postura acrobática, penetro a sra. Fujimori, que não demora a gozar efusivamente.
Nesse momento, o sr. Fujimori nos avisa que o trem deixou de avançar. Está parado na estação, talvez já há algum tempo. Imóvel na plataforma iluminada com luz de sódio, um policial nos observa. Fechamos as cortinas às pressas e, convencidos de que o policial vai subir no vagão para exigir satisfações sobre nossa conduta, corremos para arrumar tudo e nos vestir a fim de, quando ele abrir a porta do compartimento, estarmos prontos para lhe assegurar com desenvoltura que ele não viu nada, que sonhou. Imaginamos sua expressão ressentida, desconfiada.
Tudo acontece numa excitante mistura de agitação e risadas frenéticas. Entretanto, explico que não há motivo para risadas: estamos correndo o risco de sermos presos, levados para a delegacia e perdermos o trem, e então sabe Deus o que pode acontecer, nossos vestígios irão desaparecer, morreremos sem que ninguém ouça o nosso grito numa vala nos confins desse ermo lamacento da Rússia profunda. Meus alarmes fazem Sophie e a sra. Fujimori
se contorcerem de rir e acabo rindo com elas.

O trem está parado, como no sonho, ao longo de uma plataforma deserta mas bem iluminada. São três horas da madrugada, algum lugar entre Moscou e Kotelnitch. Estou com a garganta seca, dor de cabeça, bebi muito no restaurante antes de ir para a estação. Tomando cuidado para não acordar Jean-Marie, deitado no outro leito, deslizo por entre as caixas de material que abarrotam o compartimento e saio para o corredor atrás de uma garrafa d`água. No vagão-restaurante, onde, poucas horas antes, enxugamos nossas últimas vodcas, pararam de servir. A luz limita-se a um abajur de parede por mesa. Quatro militares, que se precaveram, continuam todavia a encher a cara. Quando passo por eles, oferecem-me um copo, que declino, e, continuando a avançar, reconheço Sacha, nosso intérprete, refestelado num banco e roncando estrepitosamente. Sento-me um pouco adiante, calculo o fuso horário, meia-noite em Paris, tudo bem por enquanto, tento fazer uma ligação para Sophie para lhe contar esse sonho, que me parece extraordinariamente promissor, mas o celular está fora de área, então pego minha caderneta e, ali mesmo, o registro.

De onde surgem o sr. e a sra. Fujimori? Não demoro a me dar conta. É o nome do presidente peruano, de origem japonesa, sobre quem havia um artigo no Libération esta manhã. Li no avião, na diagonal: os negócios corruptos que acabam de lhe custar o poder não me seduzem. Na página ao lado, em contrapartida, uma outra matéria me intrigou. Tratava-se de japoneses desaparecidos cujas famílias se convenceram de que eles foram raptados e retidos na Coréia do Norte, alguns há trinta anos. Nenhuma atualidade correspondia àquele artigo, acerca do qual era possível perguntar por que estava sendo publicado naquele dia em vez de em outro, e até mesmo naquele ano em vez de em outro: nenhuma manifestação organizada pelas famílias, nenhum aniversário, nenhum elemento novo no processo, arquivado há muito tempo, a supor que um dia tenha sido aberto. A impressão era de que o jornalista, por acaso, no metrô, num bar, entrara em contato com pessoas cujo filho ou irmão desaparecera nos anos setenta sem deixar vestígios. Para enfrentar o horror da incerteza, essas pessoas haviam passado adiante essa história, depois, muito tempo depois, contaram-na a um desconhecido, que, por sua vez, a passava agora adiante. Seria ela plausível?Será que, na falta de provas, existiam pelo menos indícios que embasassem essa argumentação? Acho que, se eu fosse o redator-chefe, teria pedido ao jornalista para apurar mais a fundo. Mas não, ele apenas informava que pessoas, famílias, acreditavam que seus parentes desaparecidos eram prisioneiros em campos da Coréia do Norte. Mortos ou vivos, como saber? Com mais probabilidade, mortos, de fome ou espancados pelos carcereiros. E, caso ainda vivessem, não deviam ter mais nada em comum com os jovens avistados pela última vez trinta anos antes. Se fossem encontrados, que poderíamos dizer a eles? E eles, que diriam? Será que convinha desejar encontrá-los?

***

Provavelmente um dos recursos mais utilizados hoje em dia pelos autores de ficção seja a metaficção na qual um Vila-Matas é mestre. É, entre outras coisas, o recurso do livro que discute sobre sua própria produção, ou que embaralha as noções de real e verdadeiro, narrado na maioria das vezes por um personagem que pode ou não ser o próprio autor, mesmo que batizado com o nome verdadeiro do escritor que assina o livro. É nessa linha que segue Um Romance Russo, livro do francês Emmanuel Carrère do qual foi tirado o trecho que vocês leram acima.

Apesar de ter nascido em Paris e de ter um nome perfeitamente francês, Carrère vem de uma família com raízes na Rússia, ou na antiga União Soviética, melhor dizendo. É um autor cujo trabalho transita entre o cinema e a literatura. É dele o perturbador livro-reportagem O Adversário, no qual se baseou o filme de 2002 com Daniel Auteuill, sobre um pai que, para esconder uma vida de mentiras — entre elas ser formado em Medicina, pesquisador renomado com um gabinete na Organização Mundial de Saúde —, chacinou toda sua família, incluindo os filhos menores. Carrère também já dirigiu dois filmes.

Interessado nas fronteiras estreitas entre sanidade e loucura e entre verdade e mentira, Um Romance Russo (Tradução de André Telles. Alfaguara, 247 páginas, R$ 34,90) brinca já desde o título com essas delimitações bem definidas. A denominação é “Romance”, mas o narrador em primeira pessoa é o próprio Carrère, referindo-se a fatos de sua própria vida e em busca de um segredo de sua própria família. Um tema que não deixa de ter relação com os “romances russos” de fato, as grandes obras do realismo literário do século 19. Carrère viaja à Rússia para um documentário de TV sobre um húngaro que ficou internado em uma instituição psiquiátrica em um vilarejo desde a II Guerra Mundial. Desafiado pela língua que ouviu em família na infância e que fala com pouquíssima fluência, o escritor resolve voltar ao lugarejo em outra ocasião para produzir um documentário e finalmente enfrentar um segredo de família: seu avô, russo, residente na França durante o período de ocupação nazista, colaborou com os ocupantes e desapareceu, justiçado pela Resistência, ao fim da Guerra.

Em paralelo a essas duas tramas, Carrère narra ainda a dissolução progressiva do romance (aqui em seu outro sentido, o de envolvimento amoroso) que mantém com a namorada. O que Carrère – ou o personagem de nome Carrère – busca nas imensidões de Kotelnitch, o vilarejo do documentário, ou mesmo na língua russa que aprende de modo errático, é na verdade o mistério sobre o desaparecimento do avô, sobre quem recaem suspeitas de insanidade – insanidade que o próprio autor terá de enfrentar em si mesmo à medidade que sua relação com Sophie se desagrega destruída pelo ciúme.

Um trecho...

15 de agosto de 2009 1

…de Após o anoitecer, romance de Haruki Murakami que ganhou tradução recente no Brasil pela Alfaguara, a editora que está lançando por aqui a obra do romancista japonês. Incluindo nesse relançamento livros que já tinham edição anterior no Brasil, como Minha Querida Sputnik e Norweggian Wood. Murakami é, dentre os autores japoneses em atividade, provavelmente o mais conhecido no mundo atualmente, e seu talento vem justamente da estranheza que provoca ao reler por uma perspectiva toda própria a tradição da literatura de seu país e elementos literários e culturais do ocidente, de cinema à Bela Adormecida, retrabalhada em Após o Anoitecer na trama de uma modelo que adormece sem conseguir acordar por dois meses.

Abaixo, conforme prometemos no Donna deste domingo (que, por essas coisas que só rolam aqui no Rio Grande do Sul já está na rua nesta tarde de sábado), um trecho de Após o Anoitecer:

Estamos no Denny`s.
Nada tem de muito especial, mas a iluminação é adequada; a decoração e as louças são neutras; o projeto do piso foi minuciosamente planejado e padronizado por especialistas de engenharia; a música ambiente é discreta e o volume é baixo; e os funcionários são treinados para atender os clientes corretamente, conforme o manual: “Bem-vindos ao Denny`s!” Aqui dentro, todas as coisas são de anônimos e podem ser substituídas. A casa está quase lotada.
Após observarmos todo o interior do estabelecimento, nossos olhos fixam-se numa garota sentada ao lado da janela. Por que ela? Por que não outra pessoa?
Não saberíamos responder. Mas o fato é que essa garota — não se sabe por quê — atraiu o nosso olhar, de um modo extremamente espontâneo. Ela está sentada numa mesa para quatro e lê um livro. Veste agasalho cinza com capuz, calça jeans azul e tênis amarelo desbotado, de tanto ser lavado. Uma jaqueta esportiva envolve o encosto da cadeira ao lado. A jaqueta também não é nova. A garota tem a idade de quem acabou de ingressar na faculdade, mas algo nela ainda preserva o ar de uma colegial. Seus cabelos são pretos, curtos, lisos e de corte reto. Usa pouquíssima maquiagem e nada de acessórios. O rosto é fino e pequeno. Usa óculos de aro preto. De vez em quando, entre as sobrancelhas formam-se algumas rugas de expressão que lhe conferem seriedade.
Ela está tão compenetrada lendo o livro que praticamente não tira os olhos dele. É um livro volumoso de capa dura, mas como está encapado com essas sobrecapas oferecidas pelas livrarias, não há como saber seu título.
A seriedade com que lê nos faz supor que se trata de um assunto denso. Ela parece ser o tipo de leitor que procura saborear intensamente cada linha, uma a uma, sem jamais ousar pular algum trecho.
Sobre a mesa temos uma xícara grande de café, um cinzeiro e, ao lado, um boné de beisebol azul-marinho com a logomarca B, do Boston Red Sox. Pelo tamanho de sua cabeça, o boné lhe deve ser um pouco largo. Na cadeira ao lado há uma bolsa a tiracolo de couro marrom e, pelo formato de seu volume, podemos imaginar que nela foram colocadas diversas coisas — tudo de qualquer jeito,
tudo bem rápido — conforme eram lembradas. De vez em quando, ela pega a xícara de café e a leva à boca, mas não parece apreciar o que bebe. Digamos que ela apenas toma o café porque a xícara, por um acaso, está lá e isso a faz sentir-se no papel de bebê-lo. Ela também se lembra do cigarro, leva-o à boca e o acende com um isqueiro de plástico. Comprime um pouco os olhos e, despreocupadamente, solta a fumaça no ar. Depois, apoia o cigarro no cinzeiro e, para aliviar aquela sensação de uma possível dor de cabeça que se aproxima, massageia as têmporas com as pontas dos dedos.
A música de fundo é Go away little girl, de Percy Faith e sua Orquestra. É claro que ninguém está ouvindo isso. Gente de tudo quanto é tipo faz refeições e toma café na madrugada do Denny`s, mas ela é a única mulher desacompanhada. Às vezes, a garota levanta o rosto e olha para o relógio de pulso. No entanto, parece que a hora custa-lhe a passar. Não nos parece esperar alguém. Afinal, ela não fica nem olhando ao redor, nem sequer a entrada. Apenas está sozinha e aguarda ansiosamente o tempo passar — enquanto lê um livro, acende um cigarro e, mecanicamente, pega da xícara e toma pequenos goles de café —, mas o fato é que, até o dia amanhecer, ainda falta muito, muito tempo.
Ela interrompe a leitura e volta-se para a janela, que, do segundo andar, permite observar o movimento lá embaixo. Apesar do horário, as ruas ainda estão bem iluminadas e é grande o número de pessoas que vêm e vão.
Pessoas que têm para onde ir e as que não têm. Pessoas que têm objetivos e as que não têm. Pessoas que tentam parar o tempo e as que querem acelerá-lo. Ela observa por algum tempo essa cidade sem nexo e procura concentrar-se em respirar com serenidade, para depois voltar novamente às páginas do livro.

Postado por Carlos André Moreira

Prazer e dever

14 de agosto de 2009 19

Duas considerações feitas por dois autores ingleses sobre a oposição entre a leitura por prazer e a leitura como esforço.

“Se quisermos que a leitura soberviva como forma de lazer — e há estatísticas que mostram que não há como garantir isso –, temos então de promover as alegrias da leitura e não os benefícios (dúbios). Eu jamais tentaria dissuadir alguém de ler um livro. Mas, por favor, se você estiver lendo um livro simplesmente sacal, coloque-o de lado e vá ler outra coisa, da mesma forma com que pegaria o controle remoto caso não estivesse gostando de um programa na TV. Se não conseguir curtir um romance altamente recomendado e aclamado, não fique achando que você é um tapado — pode ser que você ache Graham Greene mais interessante, ou Stephen Hawking, ou Irir Murdoch ou Ian Rankin. Dickens, Stephen King, seja lá quem for. Não importa. Só sei que quando a leitura está enchendo o saco, pouco conseguimos extrair dela. O livro cai no esquecimento, não aprendemos nada com ele e, mais tarde, a pessoa acaba preferindo assistir ao Big Brother.”
Nick Hornby, em Frenesi Polissilábico. Rocco, 264 páginas, publicado no primeiro semestre deste ano.

“Alguns alegam que o resultado de transformar a Literatura Inglesa em “disciplina” de escolas e universidades é que a leitura dos grandes autores é, desde a mais tenra idade, impressa nas mentes dos jovens conscienciosos e aplicados como algo meritório. Quando o jovem em questão é um agnóstico cujos ancestrais eram puritanos, consegue-se um estado de espírito deplorável. A consciência puritana opera sem a teologia puritana — como pedras de moinho triturando o nada; como sucos gástricos atuando num estômago vazio e produzindo úlceras. A juventude infeliz aplica à literatura todos os escrúpulos, o rigor excessivo, o exame de consciência, a desconfiança do prazer que seus antepassados aplicaram à vida espiritual; e logo, talvez, a intolerância e a retidão exacerbada. A doutrina do dr. I.A. Richards na qual a leitura correta de boa poesia tem verdadeiro valor terapêutico confirma essa atitude. As musas assumem o papel de Eumênides. Uma jovem das mais penitentes confessou a um amigo meu que seu desejo profano de ler revistas femininas era para ela uma forte `tentação`.”
C.S.Lewis, ele mesmo, o autor de Crônicas de Nárnia, em Um experimento na crítica literária. Editora da Unesp, 124 páginas. Lançado no segundo semestre deste ano.

Postado por Carlos André Moreira

O Clone no escuro

14 de agosto de 2009 7

Dia desses fui parar em um site ligado a uma publicação hypada e li uma coluna de livros assinada por uma jornalista e escritora brasileira. Tinha um texto grande sobre os dois recentes vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura, Galiléia, de Ronaldo Correia de Britto, e A Parede no Escuro, do gaúcho Altair Martins. Fui lendo, fui lendo, estava gostando, confesso. Até que chegou na parte em que a autora da coluna dedicava-se a falar um pouco do romance. E alguma coisa me soou muito familiar na primeira frase. E me soou mais familiar ainda em outros trechos adiante.

Não que eu não soubesse de onde vinha aquela sensação estranha de familiaridade, eu sabia, era essa a questão. O texto parecia um tanto com o texto que eu próprio escrevi e que foi capa do Segundo Caderno em outubro do ano passado. logo no lançamento do romance. Não era uma cópia integral, mas parecia que a maneira como o pensamento era encadeado era muito semelhante à descrição que eu próprio havia feito no meu texto. Para não ser leviano em minhas impressões, fui até o post publicado aqui mesmo no blog em 14 de julho, onde havia republicado o texto por conta da indicação do romance entre os semifinalistas do prêmio Passo Fundo Zaffari Bourbon. E comprovei que, ao menos para mim, há coisas bem semelhantes.

Para não dizer que eu sou paranoico, transcrevo abaixo o meu texto e o texto da escritora/colunista, com as passagens que me soaram familiares destacadas, e pergunto aos considerados leitores. Não parece ter havido uma inspiração bastante acentuada, ao ponto de ultrapassar a simples coincidência? Palpites nos comentários:

O meu texto:
Chove a cântaros quando o padeiro Adorno estaciona a Kombi velha na qual faz as entregas à frente de uma padaria onde vai deixar um lote de pãezinhos. No meio do vendaval, não vê nem é visto por um carro que entra na mesma rua no exato momento em que ele tenta atravessá-la.
O acidente na chuva é um dos pontos-chave da narrativa de A Parede no Escuro, primeiro romance do escritor Altair Martins, 33 anos, até aqui conhecido pela originalidade e pelo cuidado com a linguagem em seus contos, nos livros Se Choverem Pássaros, Dentro do Olho Dentro e Como se Moesse Ferro - um cuidado que lhe valeu duas vezes o prêmio Guimarães Rosa, organizado pela Rádio France Internationale, em 1994 e 1999. A Parede no Escuro é narrado por uma profusão de narradores que se cruzam no mesmo capítulo e às vezes na mesma cena.
- Nesse livro eu me propus um desafio: buscar a possibilidade de colocar mais de um narrador no mesmo espaço narrativo em cena sem quebra.
Tive alguns contos anteriores nos quais experimentei coisas assim, mas no romance em particular eu queria trabalhar na forma a idéia central do tema, a de as pessoas invadindo abruptamente o espaço e o discurso umas das outras – conta o autor, mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS em 2006 com uma dissertação na qual defendia os procedimentos narrativos desse mesmo primeiro romance, na época provisoriamente chamado de Desencanto.
Uma série de personagens se cruzam numa narrativa circular na manhã do já descrito atropelamento. Adorno, padeiro doente mas ainda na ativa, acorda depois de um sonho opressivo e de passar mal, discute com a mulher, Onilda, acende o forno e faz seus pães. Sai e é colhido na frente da padaria por um carro dirigido pelo professor de matemática Emanuel. Este, por sua vez, dirigia-se à casa do pai, Fojo, para apanhá-lo e levá-lo a uma consulta médica. Emanuel vinha, perturbado, do apartamento em que dormiu com uma aluna, Lisla – que vem, pelas artes circulares do romance, a ser colega de quarto de Maria do Céu, filha do padeiro atropelado. Cada um deles, e outros personagens colaterais que a trama vai agregando, narra um fragmento da história, numa polifonia narrativa quebrada às vezes por um narrador em terceira pessoa, distante, que também tem voz nas transições entre um episódio e outro.

O texto dela:
O romance “A Parede no Escuro” é resultado de dissertação de mestrado do autor, sobre discurso narrativo. O objetivo de Altair era mostrar a possibilidade de colocar mais de um narrador no mesmo espaço narrativo, no caso do livro, no mesmo capítulo, ou na mesma cena. O ponto de partida é um acidente: chove a cântaros, quando o padeiro Adorno sai para cumprir sua rotina de entregas de pães. Ele havia passado uma noite péssima, para piorar, ao acordar, discutira com a mulher, Onilda. No meio da tempestade, não vê nem é visto por um carro que entra numa rua no exato momento em que ele tenta atravessá-la. O motorista, o professor de matemática Emanuel, dirigia-se à casa do pai, Fojo, para levá-lo a uma consulta médica. Emanuel, assim como Adorno, estava desorientado, vinha do apartamento em que dormira com uma aluna, Lisla, que, por sua vez, é colega de quarto de Maria do Céu, filha do padeiro atropelado. Esses personagens, além de outros que vão surgindo no desenrolar do enredo, relatam fragmentos da história, produzindo um texto polifônico, o qual, às vezes, é interrompido por um narrador em terceira pessoa, descolado da trama, e que também aparece nas transições entre um episódio e outro.

Ah, antes que perguntem: Não, não vou declinar o nome da moça. Primeiro porque espero a opinião de vocês, e segundo porque não é do meu feitio subir nas tamancas quando sou plagiado - se plagiado fui, não terá sido a primeira vez que texto meu foi parar sem crédito em outros pontos da rede, por aí.

O santo e a arte

13 de agosto de 2009 0

Otto Lara Resende, que foi seu amigo, não abusa da retórica ao falar de Jayme Ovalle como “um largo estuário mágico”. Pois nele, de fato, muitos, as figuras mais díspares, de mais de uma geração, foram se encontrar. Foi Ovalle, diz Otto, uma “silenciosa presença” que, “sem querer marcar, marcou todo mundo que passou por ele”, deixando “por toda parte, ao léu, suas impressões dígito-espirituais, espirituosas”.

Vinicius de Moraes, por exemplo, diz o escritor mineiro, “com todos os seus ovallianos diminutivos”, deve ser visto como “um viril expoente” do “carinho antimachista” de que Jayme Ovalle seria o “patriarca”. A uni-los, acrescenta, uma ausência de vergonha “do que é ser bom, frágil e humano, também feminino”.

Muito antes, porém, do “poetinha” – que um dia, para justificar atraso num compromisso, explicou a Paulo Mendes Campos que em sua casa tinha entrado “um ladrãozinho” -, houve Manuel Bandeira, o mais próximo e querido dos amigos de Ovalle. Também ele sucumbiu ao mel dos diminutivos de seu “irmãozinho” – e invocou, no poema em prosa “Conto cruel”, que incluiria em Estrela da manhã, de 1936: “Meu Jesus-Cristinho!”. Adorava os inhos e inhas em que Ovalle se derretia. Não deixaria passar sem registro, entre outras pérolas, a resposta que o companheiro deu a alguém que o criticara por estar usando luto:

— Deixa eu usar o meu lutinho!

Difícil precisar quando foi que os dois se conheceram, mas seguramente o engate já se dera em 1922, pois Bandeira data desse ano “sua amizade, de contato quase diário”, com amigos que foi fazendo, “em cadeia”, a partir de Ribeiro Couto (que em sua porta fora bater, recém-chegado de São Paulo, em dezembro de 1918): Jayme Ovalle, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Dante Milano, Sérgio Buarque de Holanda, Prudente de Morais, neto, Osvaldo Costa. Menos conhecido que os demais, este último, nascido no Pará, era jornalista e no final da década participou da fase mais radical – a chamada “segunda dentição” – da Revista de Antropofagia, de Oswald de Andrade, onde escreveu, como “Tamandaré”, corrosivas críticas a antigos companheiros de movimento modernista, e para a qual criou um slogan: “Quatro séculos de carne de vaca! Que horror!”.

A esse time masculino se juntou, também por essa época, a cantora Germana Bittencourt, que seria a primeira intérprete de canções de Jayme Ovalle em espetáculos públicos – em 22 de outubro de 1926, quando cantou “Zé Reymundo”, “Papai Curumiassu”, “Macumbebê” e “Caboclinho” no Cassino do Passeio Público, no Rio de Janeiro. Escrevendo sobre o recital, Manuel Bandeira fez elogios à cantora (“Mlle. Germana Bittencourt possui uma voz de timbre agradável, um temperamento muito vibrátil”), arriscou uma aposta no seu futuro (“Se ela tiver a força de se consagrar inteiramente ao estudo, há muito que esperar dos seus dotes naturais, tão ricos de promessas”) e considerou oportuno encaixar uma observação mais própria de pai do que de crítico musical:

“Mas em primeiro lugar convém que se fortifique fisicamente. A sua figurinha graciosa, a que assentava bem o romantismo daquela toalete de estilo, está pedindo urgentemente dois meses de fazenda mineira com muita papa de milho verde e muito leite de vaca sã.”

Boas razões tinha o poeta, ex-tísico com passagem por sanatório europeu, para fazer tal recomendação: Germana Bittencourt morrerá cedo, em 1931, de tuberculose, deixando um filho de seu casamento com o poeta argentino Pedro Juan Vignale, e sem realizar o sonho de estudar em Paris com Ninon Vallin, o amor francês de Jayme Ovalle. Mas provavelmente ainda agradecida ao compositor, pelas atenções, conselhos e carinho que lhe dera, e a quem se referira mais de uma vez nas nove cartas que enviou a Mário de Andrade. “Até hoje”, disse numa delas, “são vocês dois os homens e os amigos mais nobres e mais puros de sentimento que conheci.”

***

Você provavelmente não sabe quem é Jayme Ovalle, nunca ouviu falar de Jayme Ovalle e, mesmo se o nome lhe soar familiar, talvez você não tenha muita certeza de quem foi — ao menos não sem consultar o Google. Pois Jayme Ovalle (1896-1955) é o tema de uma biografias das mais interessantes publicadas do ano passado para cá, recuperando um dos personagens obscuros mais célebres da cultura brasileira, por paradoxal que pareça.

O Santo Sujo: A Vida de Jayme Ovalle (Cosac Naify, 400 páginas, R$ 55), de onde foi tirado o trecho acima, é fruto do trabalho de uma década do jornalista Humberto Werneck, e reconta a história desse que pode ser considerado o Forrest Gump da intelectualidade nacional, um sujeito que era parceiro de copo de Vinícius de Moraes e Fernando Sabino, que fez parcerias musicais com Manuel Bandeira — entre elas Azulão, um sucesso internacional — e que, no entanto, era mais brilhante na mesa do botequim do que nas letras.

Dotado de uma ingenuidade infantil desconcertante, também era capaz de ir às lágrimas — copiosas — por causa de uma discussão em que não conseguisse convencer o interlocutor. Ovalle é uma nota de rodapé na história da cultura nacional, mas uma nota das mais curiosas. É citado, com admiração, em crônicas de Otto Lara Resende, Vinícius de Moraes e, principalmente, Fernando Sabino, que o considerava um mestre da verve e da poesia. Foi retratado pelos pintores Di Cavalcanti e Cândido Portinari e Bandeira dedicou a ele alguns de seus mais belos poemas, entre eles o que transcrevo abaixo:

POEMA SÓ PARA JAYME OVALLE

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…
— Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

Mas Ovalle, antes de ser um guru, é um mistério. De intuição poética aguçada, Ovalle foi, na intensa boemia carioca da época, fonte de diálogo e inspiração para os artista já citados e mais alguns como Murilo Mendes e Augusto Frederico Schmidt. Mas ele próprio, Ovalle, não deixou uma obra artística relevante em seus quase 60 anos de vida. Foram apenas 33 composições musicais e alguns poemas escritos em inglês.

Em uma conversa que tive com Werneck ainda durante a Flip do ano passado, ele me contou, sentado à mesa do café na entrada do palco das palestras (passando a ponte para quem já esteve em Parati), que por anos após a morte de Ovalle corria a lenda de que havia um baú em algum lugar com composições, poemas e contos (“um tesouro artístico inestimável”, estimou Werneck). Ao terminar a biografia após uma década correndo atrás do tal baú, Werneck conclui — e afirma no livro — que, a exemplo de um Joe Gould brasileiro, Ovalle não tinha uma obra monumental escondida em lugar algum.

— Tudo o que Ovalle produziu foi aquilo mesmo que se conhecia — comentou Werneck

Nascido no Pará, filho de um chileno com uma brasileira, órfão desde os 10 anos de idade, residente a maior parte da vida no Rio e por anos funcionário público da Alfândega, Ovalle foi, já em seu tempo, um personagem folclórico. Na juventude, era tido como um galã com traços exóticos. Na meia-idade, no Rio dos anos 1930 e 1940, andava pelos bares do Rio de Janeiro com um casacão e um monóculo (coisa que ninguém mais usava naquela época). Entre Nova York e Londres, Ovalle viveu ao todo oito anos, e conseguiu o prodígio de voltar de ambas as cidades sem saber inglês — os poemas que escreveu na língua de Shakespeare foram praticamente traduzidos por sua namorada americana e mais tarde mulher Virginia Peckham.

Apesar da profusão de detalhes folclóricos, que poderiam caricaturar Ovalle, Werneck também recupera a dimensão melancólica do biografado, um homem triste, dotado de um misticismo peculiar e de uma inocência inacreditável e que, apesar de ser considerado um exemplo por vários dos grandes criadores brasileiros, não conseguiu ele próprio desenvolver as aptidões técnicas para transformar em obras literária ou musical o caldeirão de idéias que fervilhava nele.

Ah, sim, um último comentário: Werneck está lançando agora um novo livro, O Pai dos Burros, uma compilação de milhares de lugares-comuns e frases feitas, que está saindo pela editora gaúcha ArquipélagoMas sobre esse livro em particular vocês poderão ler no caderno Cultura do próximo sábado, em resenha escrita pelo jornalista e professor Victor Necchi.

Postado por Carlos André Moreira

Justificando a ausência

13 de agosto de 2009 0

Andei agregado na força-tarefa da editoria de Política que está cobrindo os desdobramentos da denúncia feita pelo Ministério Público Federal contra a governadora Yeda Crusius e outras oito pessoas ligadas a ela ou seu governo (o que eu estava fazendo lá, perguntarão vocês, e eu direi que deve ser porque antes de ser crítico literário já fui repórter por muito tempo, cobrindo polícia, economia ou esportes).

Por isso o ritmo das postagens diminuiu. Vamos ver se corrijo isso daqui pra frente na medida do possível.

 

Postado por Carlos André Moreira