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Livro de sacanagem

07 de setembro de 2009 4

Nota do repórter: depois da discreta comida de fígado do editor deste nobre espaço, enchi-me de inspiração para finalmente desovar essa resenha que há pelo menos um mês vinha prometendo. Ei-lá, pois.

Quatorze anos depois de seu último romance, Reinaldo Moraes volta com uma epopéia sexual, entitulada – surpresa! – Pornopopéia. E o leitor que não espere nada menos ou mais enquanto na companhia de Zeca, cineasta maldito e roteirista de quinta categoria, personagem central do catatau de 500 páginas lançado pela Objetiva.

Mas seriam 500 páginas de sacanagem, Reinaldo?
– Não, só umas 499 – graceja o paulistano, autor de outros cinco livros, em entrevista por e-mail.

Mas, a exemplo de seu anti-herói, o escritor não vive do que gosta. A não ser que o leitor realmente acredite que Reinaldo gostou de participar de produções do quilate das novelas O Campeão (1982) e Bang Bang (2005), do “humorístico” Ô, Coitado (1999) e dos filmes Tainá – Uma Aventura na Amazônia (2000) e Eliana e O Segredo dos Golfinhos (2005). Vamos combinar que pra quem elevou a categoria de cult o curto Tanto Faz (1981), até hoje tido como a mais bem sucedida experiência beatnik tupiniquim, só a cesta-básica justifica.

O mesmo acontece com Zeca. Zeca queria trabalhar com cinema. Tem em sua econômica cinegrafia o experimental Holisticofrenia, que pouca gente viu, e quem viu achou… bom, quem viu não se lembra. E vez ou outra ele engata – sem trocadilho – um filme pornô na Boca do Lixo paulistana. O dinheiro de verdade, que ele gasta quase todo com prostitutas, drogas e bebidas, vem de comerciais que ele roteiriza para a produtora do cunhado.

E roteiriza mais ou menos, porque é justamente quando está tentando bolar um anúncio para TV de uma linha de embutidos de frango que o sujeito começa a se enroscar. A propósito, Reinaldo, gostas de comer embutidos?
– Sim, tô até com um belo salame aqui na mão, tá a fim? – oferece, boquinha devidamente rejeitada pelo repórter.

Pornopopéia demorou quatro anos para ser finalizado, entre escrita, revisão e edição. Sim, ao contrário do que se vende, o livro foi criteriosamente esquadrinhado antes de ir pra gráfica e “Então eu fui mergulhar meu saco na cerveja“, ressalta o autor.

A preocupação fica nítida quando se percebe a quantidade de neologismos que o personagem utiliza para o mais variados fins, expediente válido, mas que passa longe do tal “fluxo de consciência” que consagrou os beats _ eles mesmo, é fato, liam e reliam seus escritos.

Seria um sintoma de alguém que quer ser levado a sério, depois da fama de porralouca adquirida com Tanto Faz?
Caguei pra essa ou pra qualquer outra fama. Desde que não venha bater nos ouvidos do síndico aqui do prédio _ responde o autor, indicando que eventos fisiológicos são parte integrante do seu vocabulário.

E que também se fazem presentes no livro. No melhor estilo American Pie – ou Porky´s, dependendo da sua idade, leitor – as piadas podem e virão carregadas de escatologia. Não há economia na sujeira, o que inclui, evidentemente, o sexo. O verdadeiro personagem principal da, hã, epopéia pornô de Reinaldo.

E o sexo aparece de todo tipo, sob todas as formas e circunstâncias, incluindo com uma lula (o bicho, não vocês-sabem-quem). Mas nada gratuito. Há uma razão, nem que seja a falta de razão de Zeca e sua fome insaciável por perversões de rivalizar com Marquês de Sade.

Só que Pornopopéia, para o bem e para o mal, segue justamente a linha dos clássicos do Divino Marquês. Como Os 120 Dias de Sodoma, a obra de Reinaldo Moraes demora a pegar no tranco, e torna-se interessante apenas para, em seguida, obrigar o leitor a praticar leitura dinâmica. E o que é pior: sem perda alguma. Chega um ponto que, saturado de tanta variação do mesmo assunto, tudo o que se quer é saber logo o destino de Zeca para poder colocar o livro na estante. Ou passar adiante.

Ao final, tem-se a impressão que se tivesse menos páginas, o impacto seria o mesmo. Quer dizer, é só mais um livro de sacagem. É isso ou não, Reinaldo?
– Pode dizer o que você quiser. Menos pro síndico aqui do meu prédio, repito.

Comentários (4)

  • PC, O PC diz: 8 de setembro de 2009

    Livro de sacanagem ? Livro de sacanagem é o Diário Oficial, ha ha ha ha ah ah ah Tchus…

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    [...] Moraes, autor do marco da contracultura Tanto Faz e que voltou à cena no passado com Pornopopeia (sobre o qual você pode ler mais aqui mesmo no blog). Só que, diferente de nomes como Bob Dylan (autor de Tarântula e Crônicas: Volume 1), Leonard [...]

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    [...] pocket do livro, com a mesma tradução também clássica do Reinaldo Moraes, autor de Tanto Faz e Pornopopeia (o escritor relata a experiência de traduzir o livro em um depoimento no site da L&PM). Salvar [...]

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