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Posts de setembro 2009

Patrono e colega

23 de setembro de 2009 1


Carlos Urbim, em solenidade no Leopoldina Juvenil em abril deste ano. Foto: Dulce Helfer/ZH

Como a essa altura vocês já puderam ler aqui neste texto publicado na Zero Hora Online, o cidadão sorridente aí de cima, o jornalista e escritor Carlos Urbim, 61 anos, foi anunciado hoje pela manhã como o novo patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, que realizará sua 55º edição de 30 de outubro a 15 de novembro.

Ali no texto do online vocês têm um panorama resumido da trajetória de Urbim como escritor, então aqui no nosso bloguinho Mundo Livro vamos apresentar o patrono sob uma luz diferente: a do Urbim jornalista. Em quatro décadas como jornalista, Urbim já trabalhou em Istoé, DIário do Sul, Folha da Manhã e esteve por muitos anos na redação de Zero Hora, onde editou cadernos variados como o Vida, o Cultura, a antiga Revista ZH e depois sua versão fundida com o caderno Donna. É uma personalidade carismática e generosa o Urbim, algo que vocês poderão comprovar perguntando a qualquer pessoa do meio – e foi oq ue eu resolvi fazer, a propósito. Pedi ao editor de ZH Eduardo Veras, que trabalhou com Carlos Urbim aqui no Segundo Caderno (quando este seu blogueiro era repórter de polícia, do outro lado da redação). Passei a mão também em um texto escrito em 1999 pelo hoje famosoDavid Coimbra, quando Urbim estava lançando seu livro Caderno de Temas, pela editora gaúcha Mercado Aberto. Aproveitem, porque acho que vocês terão uma ideia bem melhor de quem é esse Carlos Urbim, autor de Um Guri Daltônico, Uma Graça de Traça e Um Piá Farroupilha, esse senhor sorridente que a partir do fim de outubro será o novo rosto da Praça da Alfândega, metaforicamente falando, lendo os seguintes textos, de grande qualidade.

Um autor apaixonado
EDUARDO VERAS

A primeira vez em que ouvi falar de forma elogiosa do escritor e jornalista Carlos Urbim — o novo patrono da Feira do Livro de Porto Alegre — foi aos tempos em que eu era estagiário no Departamento de Jornalismo da Rádio da Universidade, uns 20 anos atrás. O Urbim iria voltar a trabalhar na rádio, depois de uma temporada no Diário do Sul, e havia uma animadora expectativa em razão disso: 
— O Urbim vai voltar! O Urbim vai voltar! — vibravam os funcionários mais antigos.
Mas ninguém sabia explicar direito o porquê.
Só aos poucos fui descobrir, e da melhor forma possível: trabalhando ao lado dele. Primeiro, lá mesmo, na Rádio da Universidade, e, muito depois, na Redação da Zero Hora. Num lugar e no outro, as pessoas sempre sublinhavam o espírito generoso do Urbim, a bonomia que se irradia da sua gargalhada, o jeito de menino grande meio fora do lugar (se bem que, às vezes, ele era de rompantes, se irritava, discursava).
Se eu fosse tentar apontar o que há de tão animador em trabalhar ao lado do novo patrono da Feira do Livro, citaria, talvez, o jeito apaixonado como ele observa as coisas do mundo. Qualquer acontecimento de aparência desimportante pode virar pretexto para uma história infantil ou o ponto alto de uma reportagem. Urbim é sujeito de uma entrega amorosa — às pautas e à vida. Um breve exemplo:
Certa vez, ele entrevistava, por telefone, o escritor Fernando Sabino. Era para um perfil de Mafalda Verissimo (a viúva de Erico, discreta, serena, recusava-se a falar com a imprensa, a única forma de saber dela era a partir dos depoimentos de amigos e conhecidos). O Urbim entrevistou o Sabino, fez as perguntas que tinha de fazer, agradeceu a entrevista. Foi então que, emocionado, ainda com o fone no ouvido, antes do tchau definitivo, levantou-se da cadeira e, com aquela voz grave, tonitruante, quase aos berros, anunciou:
— Fernando Sabino, eu queria lhe dizer que quem lhe entrevistou foi um menino que, lá em Santana do Livramento, no extremo sul do Brasil, devorava, lia todos, não perdia um livro de Fernando Sabino.
Imagino a surpresa do Sabino. Pena que ele não viu que o Urbim falou isso de pé, solene, apaixonado.

Como pandorga em céu azul
DAVID COIMBRA

O Urbim tem pé 43. Pezão. Daqueles caras que a turma diz: se leva um tiro, morre de pé.
Tem um vozeirão, também. Quando fala alto, todo mundo ouve, mesmo se está num salão.
O Urbim tem os gestos largos de quem é da Fronteira. Aliás, ele É da Fronteira. De Livramento. Fala cheio de sotaque. Assim:
— LeiTE quenTE é bom pra genTE.
E o Urbim, que coisa, escreve poesia para crianças.
Não é estranho?
Não.
Porque o Urbim, apesar de ter 30 anos só de jornalismo, apesar de ter a responsabilidade de ser o editor da Revista ZH, apesar de coordenar o projeto Jornalista por um Dia, apesar de ser pai zeloso de um quase jornalista, Emiliano, 20 anos, e um futuro quase advogado, Glauco, 18, apesar de todas essas adultas responsabilidades, Carlos Urbim é um piazão. É. Um guri. Desses que puxam carrinho pelas ruas e pelos terrenos baldios das cidades do Interior.
Por isso, por ainda ser um piá, o Urbim escreve com tanta naturalidade para os piás. Por isso, o livro que ele lança hoje, às 16h, na Livraria Bamboletras, no Nova Olaria, esse livro, Caderno de Temas, flui, leve como uma pandorga no céu azul.
O Urbim entende disso, de livro infantil. Já escreveu nove. Entre eles, clássicos como Um Guri Daltônico, Saco de Brinquedos e Uma Graça de Traça. Para Urbim, fazer poesia infantil é brincadeira de criança. Que faz com tanto gosto que, numa festa, num churrasco entre amigos ou numa mesa de bar, de repente ele começa, lá com sua voz retumbante e seu sotaque vincado:

O que será?
Pense: de Ibirubá,
ibirubense?
Ou menininha
de Ibirubá
é ibirubinha?
Ibirubá
o que será?
É pitangueira
do mato, constato

Declamado com sua entonação emocionada, esse pequeno poema, um dos tantos que estão no Caderno de Temas, faz sucesso nas rodas freqüentadas por Urbim. Exatamente porque ele se emociona, porque faz o que faz com prazer. Como quem brinca. E, na verdade, brinca. Porque o Urbim ainda é um guri. Que calça 43.

Os dez do Portugal Telecom

17 de setembro de 2009 1

A Portugal Telecom anunciou ontem seus 10 finalistas – bem como o Júri Final que vai eleger o grande vencedor do Prêmio, um dos mais importantes do país e um dos que melhor pagam. Dessa lista de 10 nomes serão eleitos os três vencedores da sétima edição do Prêmio – ao qual podem concorrer obras de autores de língua portuguesa editadas no Brasil no último ano. Os vencedores serão anunciados na noite de 10 de novembro, em São Paulo.

Abaixo, a lista dos dez concorrentes, com o link para uma postagem no blog quando já falamos deles por aqui:

Acenos e Afagos, de João Gilberto Noll
Aprender a Rezar na Era da Técnica, de Gonçalo M. Tavares
A Arte de Produzir Efeito sem Causa, de Lourenço Mutarelli
Cemitério de Pianos, de José Luis Peixoto
Cinemateca, de Eucanaã Ferraz
A Eternidade e o Desejo
, de Inês Pedrosa.
Heranças, de Silviano Santiago
O Livro dos Nomes
, de Maria Esther Maciel
Ó, de Nuno Ramos
Ontem não te vi em Babilônia, de António Lobo Antunes

Postado por Carlos André Moreira

Vai começar tudo de novo...

14 de setembro de 2009 11

Ao contrário do que pode pensar a maioria, trabalhar com livros nem sempre é gratificante – principalmente quando determinados hypes atropelam coisas que a gente vinha planejando para a literatura menos comercial. Há uns dois anos li o último Harry Potter em inglês no meu fim de semana de folga porque o livro-evento estava chegando às livrarias naquele fim de semana. O livro até era bacana, mas eu teria muitas outras prioridades antes dele se não estivesse trabalhando com isso.

Não é sempre que a gente embarca em um hype literário qualquer (consegui escapar incólume até agora da série Crepúsculo, que eu comecei a ler e me provocou dores estéticas até na alma, e o romance policial do Stieg Larsson foi lido pelo meu colega Gustavo Paradinha Brigatti), mas o que vem por aí sei que é inescapável. Chega esta semana às livrarias, depois de quatro anos de enrolação, O Símbolo Perdido, de Dan Brown, a mais nova aventura do protagonista de O Código Da Vinci, o simbologista Robert Langdon (na prática, os livros de Dan Brown são todos iguais, usando uma fórmula esquemática que ele sequer esconde, mas o que fez a diferença dos dois mais recentes, O Código… e Anjos e demônios foi a popularidade da trama envolvendo segredos da igreja e o carisma de Langdon como personagem).

A prova de que os livros de Dan Brown se assentam nas mesmas bases de seriados de TV e álbuns de artistas pop (e menos em literatura de fato) é o mistério que ele e sua editora Doubleday estão fazendo a respeito da trama de O Símbolo Perdido. O livro de Brown está sendo tratado como o novo álbum do Coldplay: contratos de confidencialidade, originais e exemplares sob custódia, negação dos detalhes de trama que já escaparam. Alguns deles especulam que Langdon estará casado com Sophie Neveu, a descendente de Cristo de O Código da Vinci (tá, não apelem, a essa altura se nem com o filme e nem com o livro você não sabia disso, o problema não é mais meu), e que a trama começa depois que ela “ressuscita” um homem em Israel. Os sites de livrarias  já estão com o livro em pré-venda e a procura tem sido grande, mas não teremos aquela histeria pré-Harry Potter, acredito, com gente fazendo fila em livrarias atrás do livro. Ou teremos, vai saber.

Bom, lá vamos nós de novo. Sempre me dá uma canseira essa etapa – porque tanto eu quanto os fãs de um cara como esses sabemos o que vamos encontrar no livro (eles vão achar o máximo, eu vou ser menos entusiástico), mas ao mesmo tempo, todo mundo hoje está tomado pela doença infantil do spoiler, na qual o sujeito se considera pessoalmente atraiçoado se souber antes de algum detalhe na trama, o que dificulta um pouco o que se vai escrever a respeito de um livro desses.

Não que a dificuldade para falar de um livro seja um problema. Na maioria das vezes é um desafio prazeroso. O problema é que com os livros-hype costuma ser um desafio que talvez esses livros não mereçam.

Mas devaneio, desculpem.

Cidade dos sonhos, sonhos citadinos

11 de setembro de 2009 1

Forma burguesa e europeia por excelência, o romance sempre foi um gênero abrangente o bastante para atrair artistas de outras culturas e ao mesmo tempo incorporar elementos externos que garantiram sua constante renovação. É assim que o romance realista europeu do século 19 vai germinar no maravilhoso latino-americano do boom dos anos 1970, por exemplo. A chegada da forma romanesca a um país de cultura e tradição artística milenares, como o Japão, também produziu seus frutos maravilhosos, como a obra do romancista Haruki Murakami, um dos autores mais traduzidos do país e que tem agora sua obra Após o Anoitecer (Alfaguara/Objetiva, 208 páginas, R$ 49,90) lançada no Brasil. Construída nos limites entre o sonho e a vigília, a narrativa de Após o Anoitecer acompanha duas irmãs ao longo de uma madrugada na Tóquio comparada pelo autor a “um ser vivo gigante; um aglomerado de vidas que se entrelaçam”.

Duas dessas vidas são as das irmãs Mari e Eri Asai – o que as separa não
é apenas uma sílaba no prenome. Eri é modelo de destaque, tratada como princesa desde a infância. Mari é a estudante esforçada, de temperamento antissocial e personalidade forte. Ao longo de capítulos que acompanham o passar das horas na noite da cidade, intercala-se a história de Eri, sentada em um restaurante de estação de trem, e sua irmã, dormindo em um quarto, sem saber que algo estranho está acontecendo.

Uma boa dose de estranheza não é algo inesperado na literatura de Murakami,
seja na forma seja no desenvolvimento dos temas. Sua singularidade está em aplicar o inusitado não como um elemento fantástico, mas como uma peça a mais do cenário. O que poderia ser um componente de horror ou de fantasia se dilui no quadro maior de uma realidade por si só bizarra. Em Kafka à Beira-Mar, publicado no ano passado pela mesma Alfaguara, o jovem Kafka, protagonista da história, tem o dom de falar com os peixes. Em Minha Querida Sputnik uma jovem desaparece misteriosamente, e a explicação para o desaparecimento envolve uma traumática experiência de ver a si mesma fazendo sexo com um desconhecido pela janela de seu apartamento. 
São episódios inusitados, mas não tratados como a manifestação do impossível. Murakami cruza um registro narrativo ágil e realista, vai fundo na investigação psicológica de seus personagens e ainda lembra que na criação de um mundo ficcional não é necessário seguir as simples leis naturais. Quase como se escrevesse um conto de fadas à japonesa.

Em Após o Anoitecer (leia um trecho aqui mesmo no blog), essa estranheza
fantástica da obra de Murakami se traduz principalmente na linha narrativa que acompanha a modelo Eri Asai. Quando o leitor é apresentado a ela, a jovem está dormindo em sua cama, em um quarto às escuras, iluminado apenas pela luz que vem de um aparelho de televisão — que se encontra desligado da tomada. A TV não mostra programa algum, e sim a figura sinistra de um homem mascarado sentado em uma cadeira, observando o sono de Eri — ao menos é o que diz o narrador, uma voz sem dono que conduz o leitor em suas movimentações como se o arrastasse pela mão: “Enquanto estamos do lado de cá observando passivamente a cena, aos poucos sentimos que nossa insatisfação aumenta. Queremos verificar, com nossos próprios olhos, o interior desse quarto”.

À medida que a noite avança, coisas estranhas vão se processando com Eri em seu quarto: primeiro o homem desaparece da imagem na TV. Depois ela própria some de seu quarto e vai parar no lugar que era mostrado na tela. Lá, acorda prisioneira de um espaço vazio, preenchido apenas pela cama em que dormia e sem saber como escapar.

Enquanto isso, no mundo desperto, ficamos sabendo que Eri, como uma Bela Adormecida do Oriente, está dormindo há dois meses – deitou-se e simplesmente se recusa a acordar. É algo que o leitor vai descobrindo através das interações entre Mari, a irmã da modelo, e as pessoas que encontra em sua jornada noturna pelas ruas de Tóquio. Sentada no restaurante, ela é interrompida em sua leitura pela aparição súbita de um rapaz chamado Takahashi, músico despachado que se senta à mesa da moça e puxa um papo lembrando que já esteve com ela e a irmã em uma ocasião social anterior.

Mais tarde, ela é procurada por Kaoru, gerente de um motel para encontros clandestinos onde uma jovem prostituta chinesa — ligada à máfia — acabou de
ser assaltada e espancada. O espancador é um analista de sistemas que trabalha durante a madrugada em um escritório de computação e que por vezes dá vazões a instintos brutais. Embora aqui a narrativa assuma um tom mais sóbrio, coisas estranhas também invadem por vezes o mundo desperto no qual tais personagens vivem: um deles o fato de que os reflexos permanecem no espelho mais tempo do que as pessoas que se miravam neles, como num pesadelo de David Lynch. Sinais de alerta de que por baixo de uma realidade aparentemente simples, as interações humanas se dão entre indivíduos que ocultam mais do que aparentam; pessoas que disfarçam uma dimensão íntima muitas vezes composta de horror.

Postado por Carlos André Moreira

Livro de sacanagem

07 de setembro de 2009 4

Nota do repórter: depois da discreta comida de fígado do editor deste nobre espaço, enchi-me de inspiração para finalmente desovar essa resenha que há pelo menos um mês vinha prometendo. Ei-lá, pois.

Quatorze anos depois de seu último romance, Reinaldo Moraes volta com uma epopéia sexual, entitulada – surpresa! – Pornopopéia. E o leitor que não espere nada menos ou mais enquanto na companhia de Zeca, cineasta maldito e roteirista de quinta categoria, personagem central do catatau de 500 páginas lançado pela Objetiva.

Mas seriam 500 páginas de sacanagem, Reinaldo?
– Não, só umas 499 – graceja o paulistano, autor de outros cinco livros, em entrevista por e-mail.

Mas, a exemplo de seu anti-herói, o escritor não vive do que gosta. A não ser que o leitor realmente acredite que Reinaldo gostou de participar de produções do quilate das novelas O Campeão (1982) e Bang Bang (2005), do “humorístico” Ô, Coitado (1999) e dos filmes Tainá – Uma Aventura na Amazônia (2000) e Eliana e O Segredo dos Golfinhos (2005). Vamos combinar que pra quem elevou a categoria de cult o curto Tanto Faz (1981), até hoje tido como a mais bem sucedida experiência beatnik tupiniquim, só a cesta-básica justifica.

O mesmo acontece com Zeca. Zeca queria trabalhar com cinema. Tem em sua econômica cinegrafia o experimental Holisticofrenia, que pouca gente viu, e quem viu achou… bom, quem viu não se lembra. E vez ou outra ele engata – sem trocadilho – um filme pornô na Boca do Lixo paulistana. O dinheiro de verdade, que ele gasta quase todo com prostitutas, drogas e bebidas, vem de comerciais que ele roteiriza para a produtora do cunhado.

E roteiriza mais ou menos, porque é justamente quando está tentando bolar um anúncio para TV de uma linha de embutidos de frango que o sujeito começa a se enroscar. A propósito, Reinaldo, gostas de comer embutidos?
– Sim, tô até com um belo salame aqui na mão, tá a fim? – oferece, boquinha devidamente rejeitada pelo repórter.

Pornopopéia demorou quatro anos para ser finalizado, entre escrita, revisão e edição. Sim, ao contrário do que se vende, o livro foi criteriosamente esquadrinhado antes de ir pra gráfica e “Então eu fui mergulhar meu saco na cerveja“, ressalta o autor.

A preocupação fica nítida quando se percebe a quantidade de neologismos que o personagem utiliza para o mais variados fins, expediente válido, mas que passa longe do tal “fluxo de consciência” que consagrou os beats _ eles mesmo, é fato, liam e reliam seus escritos.

Seria um sintoma de alguém que quer ser levado a sério, depois da fama de porralouca adquirida com Tanto Faz?
Caguei pra essa ou pra qualquer outra fama. Desde que não venha bater nos ouvidos do síndico aqui do prédio _ responde o autor, indicando que eventos fisiológicos são parte integrante do seu vocabulário.

E que também se fazem presentes no livro. No melhor estilo American Pie – ou Porky´s, dependendo da sua idade, leitor – as piadas podem e virão carregadas de escatologia. Não há economia na sujeira, o que inclui, evidentemente, o sexo. O verdadeiro personagem principal da, hã, epopéia pornô de Reinaldo.

E o sexo aparece de todo tipo, sob todas as formas e circunstâncias, incluindo com uma lula (o bicho, não vocês-sabem-quem). Mas nada gratuito. Há uma razão, nem que seja a falta de razão de Zeca e sua fome insaciável por perversões de rivalizar com Marquês de Sade.

Só que Pornopopéia, para o bem e para o mal, segue justamente a linha dos clássicos do Divino Marquês. Como Os 120 Dias de Sodoma, a obra de Reinaldo Moraes demora a pegar no tranco, e torna-se interessante apenas para, em seguida, obrigar o leitor a praticar leitura dinâmica. E o que é pior: sem perda alguma. Chega um ponto que, saturado de tanta variação do mesmo assunto, tudo o que se quer é saber logo o destino de Zeca para poder colocar o livro na estante. Ou passar adiante.

Ao final, tem-se a impressão que se tivesse menos páginas, o impacto seria o mesmo. Quer dizer, é só mais um livro de sacagem. É isso ou não, Reinaldo?
– Pode dizer o que você quiser. Menos pro síndico aqui do meu prédio, repito.

Live reading

07 de setembro de 2009 5

Quem teve primeiro a ideia da Maratona Tijolão Literário foi o nosso amigo e colaborador cada vez menos frequente Gustavo Brigatti (que agora anda barbarizando e provocando polêmicas a rodo no Blog do Remix). Ele dividiria com o leitor as impressões que iam lhe ocorrendo durante a leitura de um romance policial de mil páginas escrito por um indiano (e lançado, obviamente, antes da crise, hoje não sei se os caras da companhia se aventurariam). O Gustavo completou com honra o desafio, como é possível ler na Série de Posts Maratona Tijolão Literário.

Era uma ideia tão boa que me deu inveja por não ter tido essa sacada eu mesmo e por eu próprio não estar fazendo os textos. Daí, como inveja é um problema sério e como quem edita este blog sou eu, resolvi fazer eu próprio minha Maratoninha Tijolo — infelizmente não tivemos muitas publicações de mil páginas nos últimos tempos (quando saiu o As Benevolentes eu não tive a ideia, por exemplo), então resolvi aproveitar um livro um pouco menos coxudo, de apenas umas 600 páginas, mas espero que isso não seja um problema para vocês, meus caros leitores.

Uma das (muitas) lacunas no meu conhecimento de literatura era sobre a obra do americano Richard Ford – a quem meu colega e editor do Cultura cobriu de elogios depois de ler seu primeiro livro editado no Brasil, Independência. Mas eu não li o livro, e não havia ainda lido nada do cidadão até que deparei na livraria com O Sal da Terra (Record, 600 páginas, tradução de Maria Beatriz de Medina) , o mais recente livro de Ford lançado no Brasil. Não gostei lá muito do título, que me remete a modas de viola de um primitivismo atroz, mas me interessei pelo livro. Comprei e, hoje, quando folheava distraidamente suas primeiras páginas, me dei conta de que poderia ser o livro perfeito para que eu próprio fizesse minha Maratona Literária particular, compartilhando com vocês impressões de leitura à medida que for avançando no livro (gosto da ideia de ir entregando minhas opiniões e sensações antes da leitura integral do livro, ao contrário do que normalmente faço, escrevendo apenas depois de ler o livro. Pode ser uma bela aventura).

Portanto, a partir desta semana, começa aqui no Mundo Livro a Segunda Edição da Maratona Tijolão Literário. Espero honrar o precedente de nosso camaradinha Gustavo e divertir tanto a nossos leitores como eu próprio espero me divertir com a empreitada.

Postado por Carlos André Moreira

Retomando atividades

07 de setembro de 2009 3

Precisamos fazer alguma coisa. Não podemos deixar que nos matem, ir como o gado para o abate. Temos que nos revoltar.
Entre nós havia alguns rapazes robustos. Tinham punhais e incitavam seus companheiros a atacar os guardas armados. Um jovem dizia:
— O mundo precisa saber da existência de Auschwitz. Todos os que ainda podem escapar de vir para cá precisam saber…
Mas os mais velhos imploravam a seus filhos que não fizessem besteira:
— Não devemos perder a confiança, mesmo quando a espada está pendurada em cima de nossas cabeças. Assim falavam nossos Sábios.
O vento de revolta se acalmou. Continuamos a andar até uma praça. No centro estava o doutor Mengele, o famoso doutor Mengele (oficial S.S. típico, rosto cruel, não desprovido de inteligência, monóculo), com uma batuta de maestro na mão, cercado de outros oficiais. A batuta se movia sem trégua, ora à direita, ora à esquerda.
Logo eu estava diante dele:
— Sua idade? – perguntou num tom que poderia parecer paternal.
— Dezoito anos. Minha voz tremia.
— Boa saúde?
— Sim.
— Profissão?
Dizer que eu era estudante?
— Agricultor – ouvi minha voz pronunciar.
Essa conversa não durou mais do que alguns segundos. Mas para mim pareceu durar uma eternidade.
Batuta para a esquerda. Dei um meio passo para a frente. Queria ver antes para onde mandariam meu pai. Se fosse para a direita, eu correria atrás dele.
A batuta, mais uma vez, se inclinou apontando-lhe a esquerda. Foi como se me tirassem um peso do coração.
Ainda não sabíamos qual era a direção boa, se a da esquerda ou a da direita, qual caminho levaria ao banho e qual levaria ao crematório. No entanto, eu me sentia feliz: estava perto do meu pai. Nossa procissão continuava a avançar, lentamente.
Um outro detento se aproximou de nós:
— Satisfeitos?
— Sim — alguém respondeu.
— Infelizes, vocês vão para o crematório.
Ele parecia estar dizendo a verdade. Não longe de nós, de uma fossa subiam chamas, chamas gigantescas. Alguma coisa estava sendo queimada ali. Um caminhão se aproximou do buraco e despejou sua carga: eram criancinhas. Bebês! Sim, eu vi, vi com meus olhos… Crianças nas chamas. (É de se admirar então que desde aquela época o sono fuja de meus olhos?) Então é para lá que nós vamos. Um pouco adiante haverá uma outra vala, maior, para adultos.
Belisquei-me no rosto: eu estava vivo? Estava acordado? Não conseguia acreditar. Como era possível que queimassem homens, crianças, e o mundo se calasse? Não, nada daquilo podia ser verdade. Um pesadelo… Logo eu despertaria sobressaltado, com o coração batendo, e encontraria meu quarto de menino, meus livros…
A voz de meu pai arrancou-me de meus pensamentos:
— É pena… Pena que você não tenha ido com sua mãe… Vi muitas crianças da sua idade indo embora com a mãe…
Sua voz estava terrivelmente triste. Percebi que ele não queria ver o que fariam comigo. Não queria ver seu único filho sendo queimado.
Um suor frio cobria sua testa. Mas eu lhe disse que não acreditava que queimassem homens na nossa época, que a humanidade jamais toleraria isso…
— A humanidade? A humanidade não se interessa por nós. Hoje em dia, tudo é permitido. Tudo é possível, até mesmo os fornos crematórios… Sua voz estava estrangulada.

***

Sim, eu andei meio distante do blog – e nesse processo deixei passar algumas efemérides que poderiam ter rendido um material interessante para a página, mas atualizar blog e trabalhar ao mesmo tempo em um jornal cada vez com menos gente para dar conta da rotina diária é extenuante (principalmente quando se está fazendo a dissertação de mestrado de permeio)…

Bueno, como deixei passar os 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, embora tivesse começado a preparar alguma coisa sobre a data, achei oportunido trazer o texto abaixo, assinado pela nossa ex-colega Mirella Nascimento, nossa gracinha sósia da Drew Barrymore que hoje mora em São Paulo. É sobre a reedição recente de A Noite, de Elie Wiesel – que, ao lado de Primo Levi, publicou alguns dos testemunhos mais dolorosos e perturbadores do que representou a insânia dos campos de concentração (como vocês puderam comprovar no trecho que abre o post).

Com vocês, o texto da Mirella:

Memórias do holocausto
MIRELLA NASCIMENTO

Depois de narrar seu primeiro dia em Auschwitz, Elie Wiesel escreve, no segundo capítulo de A Noite (Tradução de Irene Ernest Dias. Ediouro, 120 paginas): “Nunca me esquecerei daquela fumaça. Nunca me esquecerei dos rostos das crianças cujos corpos eu vi se transformarem em volutas sob um céu azul e mudo. Nunca me esquecerei daquelas chamas que consumiram minha fé para sempre”.

Publicada em 1958 e relançada recentemente em vários países, a obra de estréia de Wiesel, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1986, é um relato dos horrores vividos em quatro campos de concentração durante a II Guerra — depois de Auschwitz, ele passou por Buna, Gleiwitz e Buchenwald. A Noite começa perto do fim de 1941, quando Wiesel tinha 12 anos e procurava um mestre que pudesse orientá-lo sobre os mistérios da Cabala. Judeu nascido no pequeno lugarejo de Sighet — região, na época, disputada por Romênia e Hungria —, era o único menino entre quatro filhos de seu pai.

Depois da Páscoa de 1944, sua família é transferida para Auschwitz e  definitivamente desmembrada: “homens para um lado, mulheres para outro“. Wiesel ainda não sabe, mas será a última vez em que verá sua mãe e sua irmã caçula. A esperança de sobrevivência do pai passa a ser seu único elo com a vida. Juntos, dividem o pão e a sopa distribuídos aos prisioneiros, passam por
provas de resistência e adoecem.

Wiesel utiliza uma linguagem simples e direta, mas com forte carga emocional. Com frases curtas, em parágrafos igualmente sintéticos, A Noite passeia pela reconstituição dos acontecimentos – a surpresa com a chegada dos soldados a Sighet, a travessia como gado amontoado nos vagões até os campos, a separação das mulheres da família, a via-crúcis do pai até a morte – e pelos pensamentos do jovem que, constantemente, percebe a morte a poucos passos de distância. O leitor testemunha o clima tenso e sombrio dos campos de concentração e a transformação de um adolescente judeu extremamente religioso em um homem que questiona os poderes (talvez até a existência)
de Deus: “
Por que Ele tinha feito queimar milhares de crianças naquelas valas?”.

Depois da guerra,Wiesel foi para a França, onde estudou literatura, filosofia e psicologia na Sorbonne. Naturalizou-se norte-americano e hoje vive em Nova York — escreveu mais de 40 livros de reportagens, ensaios e ficção.

Postado por Carlos André Moreira