Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

E já que se tem falado tanto...

06 de outubro de 2009 2

…em Honduras, em conflito em Honduras, em Copa do Mundo, em Olimpíadas, e no valor do Esporte para unir os povos e promover o progresso, a harmonia, a paz entre os homens e um futuro pleno, deixo vocês com um trecho significativo do livro A Guerra do Futebol e Outros Relatos, reunindo reportagens do grande jornalista polonês Ryszard Kapuscinski  (Tradução de Tomasz Barcinski. Companhia das Letras, 280 páginas, R$ 43):

 

Na foto, o jogador salvadorenho Pipo Rodríguez marca, na meta defendida por Varela, o gol da vitória no segundo jogo contra Honduras. Foto: Jornal El País

Luís Suarez disse que haveria uma guerra, e eu acredito piamente em tudo que Luís Suarez dizia. Nós dois morávamos no México, e Luis me dava aulas sobre a América Latina — de como ela era e como devia ser entendida. Ele conseguia prever muitos acontecimentos. Acertara sobre a queda de Goulart no Brasil, a queda de Bosch na República Dominicana e de Jimenez na Venezuela. Ainda muito antes do retorno de Perón, acreditava que o velho caudilho voltaria a assumir a presidência da Argentina, previu o iminente falecimento do ditador do Haiti — Fraçois Duvalier, a quem muitos davam muitos anos de vida. Luis sabia se mover nas areias movediças da política local, nas quais amadores como eu afundavam impreterivelmente, cometendo erros a cada passo.
Dessa vez, Luis emitiu sua opinião sobre uma guerra inevitável assim que pôs de lado um jornal no qual lera a reportagem sobre uma partida de futebol entre Honduras e El Salvador. Os dois países disputavam uma vaga para próxima Copa do Mundo, programada para o verão de 1970 no México.

O primeiro confronto ocorreu num domingo, 8 de março de 1969, em Tegucigalpa, capital de Honduras.
Ninguém no mundo deu importância a esse acontecimento.
O time de El Salvador chegou a Tegucigalpa no sábado e passou uma noite insone no hotel. Não pôde dormir, alvo que foi de uma guerra psicológica deflagrada pelos torcedores hondurenhos. O hotel foi cercado por uma multidão que atirava pedras nas janelas dos quartos dos joagadores e batia em tambores de lata ou em tonéis vazios. De vez em quando, ouviam-se explosões de foguetes. Centenas de carros estacionados diante do hotel buzinavam sem parar. Os torcedores assobiavam, berravam, gritavam palavras de ordem. Aquilo durou a noite toda, para que o time adversário, insone, nervoso e cansado, perdesse a partida do dia seguinte. Na América Latina, tal comportamento é muito comum e não espanta ninguém.
No dia seguinte, Honduras derrotou o maldormido time salvadorenho por 1 a 0.
Quando o atacante de Honduras Roberto Cardona fez o gol da vitória no último minuto do jogo, Amélia Bolanios, uma jovem salvadorenha de dezoito anos que assistia à partida pela televisão em San Salvador, levantou-se da cadeira, correu até uma escrivaninha em cuja gaveta estava o revólver de seu pai e disparou a arma no coração. “A jovem não suportou ver seu país posto de joelhos”, escreveu, no dia seguinte, o El Nacional, diário de San Salvador. O enterro de Amelia Bolanios foi transmitido pela TV e acompanhado por toda a população da capital. O cortejo era precedido por um destacamento militar, com um estandarte. Atrás do caixão, coberto pela bandeira nacional, caminhavam o presidente da República e todos os seus ministros, seguidos pelos onze jogadores da seleção salvadorenha, que, vaiada, debochada e ofendida no aeroporto de Tegucigalpa, retornara ao país naquela madrugada num avião especial.

Uma semana depois, no estádio com o belo nome de Flor Blanca de San Salvador, foi realizada a segunda partida. Dessa vez, foi o time de Honduras que passou a noite em claro: os enfurecidos torcedores salvadorenhos quebraram as vidraças de todas as janelas do hotel, atirando para dentro dos quartos toneladas de ovos podres, ratos mortos e panos fedorentos. Os competidores foram levados ao estádio em carros de combate da Divisão Motorizada de San Salvador, o que os salvou de uma vingança sangrenta da multidão, que acompanhou o trajeto carregando fotografias da heroína nacional Amelia Bolanios.
O estádio foi cercado por tropas de elite – a Guardia Nacional – munidas de metralhadoras. Durante a execução do hino hondurenho, o público vaiava e assobiava. Em seguida, em vez da bandeira nacional de Honduras, que fora queimada diante do olhar extasiado da multidão, os organizadores da partida içaram no mastro um pano esfarrapado. Era totalmente compreensível que, nessas circunstâncias, os jogadores de Honduras não pensassem na partida, mas se perguntassem se sairiam dali com vida. “A nossa sorte foi termos perdido aquele jogo”, declarou, aliviado, o técnico hondurenho, Mario Griffin.
El Salvador ganhou por 3 a 0.
Logo após a partida, a equipe hondurenha foi levada, nos mesmos carros de combate, diretamente para o aeroporto. Seus torcedores não tiveram a mesma sorte: agredidos a pauladas e pontapés, fugiram em direção à fronteira, sendo que dois foram mortos pelo caminho e dezenas de outros acabaram hospitalizados. Cento e cinqüenta automóveis dos visitantes foram incendiados. Horas depois, a fronteira entre os dois países foi fechada.
Fora isso que Luis lera no jornal antes de afirmar que haveria uma guerra. Ele fora um repórter experimentado e conhecia muito bem o seu terreno.
Segundo ele, na América Latina a fronteira entre futebol e política é extremamente tênue. A lista de governos que foram derrubados por causa de uma derrota de sua seleção é extensa. Os profissionais da equipe derrotada costumam ser chamados de “traidores da pátria”. Quando o Brasil conquistou a Copa do Mundo no México, um amigo meu brasileiro — um asilado político — ficou desesperado. “Os militares da direita”, disse, “acabaram de assegurar mais cinco anos de governo pacífico”. Em sua trajetória para a conquista da Copa, o Brasil derrotara a Inglaterra. O diário carioca Jornal dos Esportes, num artigo intitulado “Jesus defende o Brasil”, explica da seguinte forma o motivo da vitória: “Toda vez que a bola corria em direção à nossa defesa e o gol parecia inevitável, Jesus baixava a Sua perna do céu e chutava a bola para fora”. O artigo era complementado por desenhos que ilustravam aquele milagre.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (2)

  • Marcelo Xavier diz: 12 de outubro de 2009

    Me lembrei daquela foto do Sadi cavocando a grama do recém inaugurado Beira-Rio com a cabeça do Alcindo, naquele Gre-nal de 1969, quando vinte jogadores foram expulsos. Isso que aqui a rivalidade se daria mais por um atavismo degolador do autóctone sulino do que por motivos ideológicos. Se bem que a degola também era honestamente ideológica…vá saber…

  • Mundo Livro » Blog Archive » Serviu a Kapuscinki diz: 5 de março de 2010

    [...] O sobrenome, mesmo inóspito, é fácil de guardar porque é único. Seus livros, entre eles, A Guerra do Futebol (Companhia das Letras, 2008), sobre a luta de 1969 entre Honduras e El Salvador e duas [...]

Envie seu Comentário