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Herta Müller recebe o Nobel de Literatura

08 de outubro de 2009 5

Bernd Weissbrod, EFE

A Academia Sueca anunciou agora pela manhã o nome da escritora alemã (romena de nascimento) Herta Müller como a vencedora do prêmio Nobel de Literatura 2009, porque, de acordo com a justificativa oficial do júri, “retrata, com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, o horizonte dos despossuídos“. Müller é o terceiro escritor de língua alemã a receber a honraria nos últimos 10 anos (antes dela, Elfriede Jelinek foi agraciada em 2004 e Günther Grass em 1999). O nome de Müller mantém o hábito da comissão do prêmio de voltar seus olhos para Europa em detrimento dos Estados Unidos ou da América Latina. Apenas nos anos 2000, foramn agraciados o húngaro Imre Kertész, a já mencionada alemã Jelinek, os britânicos Harold Pinter e Doris Lessing e o francês J.M.G. Le Clézio (embora Lessing e Le Clézio tenham vivido parte de suas vidas aquela no Irã e este nas Ilhas Maurício).

Müller é um nome ainda pouco publicado no Brasil. Seu primeiro romance a sair por aqui foi O Compromisso, editado em 2004, pela Globo, com tradução de Lya Luft. E um conto da autora foi reunido por Rolf G. Renner e Marcelo Backes no volume (também de 2004) Escombros e Caprichos: O Melhor do Conto Alemão no Século 20, da L&PM – onde, a propósito, também figura a única obra de Jelinek traduzida por aqui. É desse livro que retiramos a seguinte biografia de Müller, redigida por Marcelo Backes, também responsável pela tradução dos contos:

“Herta Müller nasceu em 17 de agosto de 1953, em Nitzkydorf, na Romênia, numa aldeia de fala alemã. Estudou Literatura Alemã e Romanística em Temeswar e começou ali seus trabalhos literários como tradutora e professora de alemão. Acabou perdendo o emprego por não querer colaborar com o serviço secreto romeno, passou a trabalhar num jardim de infância. Em 1987, pôde abandonar seu país e passou a viver em Berlim Ocidental, mais tarde em Hamburgo.Entre outros prêmios, recebeu o Kleist de Literatura. Seguindo os passos intelectuais de autores como Trakl e Celan, Herta Müller é uma vítima do exílio e estuda o lento e irreversível fenecer das relações humanas em suas obras.”

Para que vocês travem contato com a prosa dessa autora ainda pouco conhecida por aqui, transcrevo abaixo o conto de Herta Müller presente na já mencionada antologia de contos alemães da L&PM:

A Canção de Marchar
Herta Müller

Sempre que o domingo, conforme dizia papai, chegava ao céu, papai encontrava esses estilhaços na sopa. Papai, na condição de herói alemão da guerra, tinha três deles no pulmão. Eles se mudavam de um lugar a outro. Papai tinha medo de que um dia se mudassem para o coração. Aí será o fim, disse papai.

Um dia, os estilhaços chegaram ao rosto de papai, e papai não fez a barba durante vários dias.

Quando eu olhava, papai punha a colher sobre os estilhaços ou enterrava-os debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume. Na hora de lavar a louça, os estilhaços tiniam em seu prato.

Um dia nós estávamos visitando a irmã de papai e ela serviu uma sopa rala. Papai mais uma vez encontrou os estilhaços em seu prato. E como não pôde enterrá-los debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume, papai engoliu os estilhaços. Todos haviam acabado com a sopa de seus pratos e elogiado os dotes culinários de minha tia.

Depois da refeição as mulheres dançaram umas com as outras. Minha mãe, pequena e seca, dançava, suando, com minha tia gorda. A irmã de meu pai ria, e suas bochechas tremiam o tempo todo.

Os homens haviam ficado à mesa e cantavam canções de guerra alemãs. Quando as mulheres passavam por eles dançando, os homens davam palmadas em suas bundas grossas e saltitantes. as mulheres riam alto, davam passos de dança ainda mais saltitantes e movimentavam os braços para cima e para baixo. Papai seguia o compasso, batendo com sua mão imensa sobre o tampo da mesa: “E minha noiva, a Loiva, ela é igualzinha a mim”.

Quando estava anoitecendo, papai se levantou e cantou, em pé e com os lábios tremebundos e os olhos vermelhos, a canção de marchar. Minhas tias balançavam as pequenas cabeças e tinham os olhos úmidos.

Na terceira estrofe papai se curvou de dor.

Desde aquele dia nós íamos todos os anos visitar a irmã de papai e nos era servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres dançavam umas com as outras. Minha mãe ficava sempre sentada, pálida e passando frio, a um canto da sala. Seus olhos ficavam molhados e ela voltava a puxar de volta à testa as lágrimas tépidas que insistiam em forçar passagem através de seu nariz. Ela embolava seu lenço na mão congelada, soluçava, dizendo que meu pai era inesquecível, que ele continuava sendo o mesmo para ela. Também a irmã de meu pai afundava em uma cadeira e chorava longas frases. E suas bochechas tremiam nas palavras afogadas.

Os homens que haviam ficado à mesa cantavam canções de guerra. Sempre, quando anoitecia, eles se levantavam. Ficavam parados em volta da mesa. De seus olhos vermelhos, um brilho profundamente vermelho se deitva sobre a toalha de mesa, entre suas grandes mãos. Eles olhavam paralisados dentro desse brilho vermelho e cantavam, com lábios tremebundos, a canção de marchar.

Todos os anos um deles se curvava de dor na terceira estrofe e morria.

No ano passado nós mais uma vez estávamos visitando a irmã de papai e nos foi servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres se levantaram e a mesa estava vazia. Cada uma das tias sentou-se, pálida e passando frio, a um canto da sala e chorou, pressionando o lenço sobre as lágrimas tépidas, sobre o rosto, e soluçou dizendo que seu marido era inesquecível e continuava sendo o mesmo para ela.

Quando estava anoitecendo as mulheres se levantaram e puseram-se em volta da mesa. E através do vão da porta do armário semifechada, soou a fita com a canção de marchar. Minhas tias ficaram paradas, imóveis e mudas. Na segunda estrofe minha mãe pequena e seca cantarolou junto, sem abrir a boca. Na comissura de seus lábios movia-se uma sombra fraca. Quando chegaram à terceira estrofe, a irmã gorda de papai cantarolou junto, de boca fechada. A canção tremeu em suas bochechas e sua testa estava branca. Na quarta estrofe a minha tia mais gorda cantarolou junto. Ela respirava profundamente em meio à canção e sobre seus seios os botões em suas molduras finas e douradas brilhava como se fossem medalhas.

Quando a canção chegou ao fim, a irmã de papai estava diante do armário. Suas mãos estavam pesadas da luz do crepúsculo, e com as pontas mudas dos dedos ela fechou a porta do armário.

O cantarolar ainda pairou por longo tempo no ar da sala. O cantarolar já estava monótono e cansado. E ele era ilimitado no crepúsculo.

Comentários (5)

  • Ivo Leo Hammes diz: 8 de outubro de 2009

    Li, gostei e me interessei por esta autora.
    Certamente na próxima Feira do Livro vai ter obras dela à disposição.

  • Marcelo Xavier diz: 12 de outubro de 2009

    Tô te segundo no Twitter kra abrass

    Valeu, Marcelo. Grande abraço.
    Carlos André

  • Beatriz Galvão Nogueira diz: 8 de outubro de 2009

    Não conhecia. Deu vontade de ler e conhecer mais!

  • Denis Muller diz: 8 de outubro de 2009

    O sobrenome esta errado nesta materia. O correto seria Mueller

    Dênis, primeiramente bom dia para você também.
    E em segundo lugar, não, não está. Há duas representações gráficas para o mesmo fonema em alemão, e ambas são corretas: MUEller e MÜller — é o mesmo mecanismo que transforma AE em Ä, como em GAERTNER ou GÄRTNER. Optei, entre duas alternativas corretas, reitero, pelo modo como o sobrenome é grafado NOS LIVROS da autora — seja aqui no Brasil seja na Alemanha, como você pode ver clicando
    neste link:

  • PC, O PC diz: 8 de outubro de 2009

    ganhou o prêmio porque retrata , com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, o horizonte dos despossuidos…
    Hummmm. pensei que os escritores ganhassem o Nobel por que escrevssem bons livross. heheheheh
    Agora tchuss por que o Papilon tá desembarcando nas Ilhas e eu tenho que acompanhar isso mais de perto pois vai ser um longo período sem a concentração da poesia mas com uma prosa franca de quem, mesmo sendo um despossuido, tem um horizonte a possuir, heheheheh

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