Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Retomando em dezembro

06 de dezembro de 2009 1

Já é dezembro, vocês notaram? É, eu também notei. Não me lembro mais onde li que os anos vão parecendo mais céleres à medida que se envelhece pelo mesmo processo que fazia os sulcos girarem mais rápido nos antigos LP’s. O diâmetro do disco vai diminuindo com a passagem do tempo e os círculos vão se tornando mais curtos.

Pois é. Já é dezembro. Em homenagem a isso, lá vai um Drummond publicado originalmente em A Rosa do Povo e, no ano passado, incluído em uma coletânea de textos natalinos do escritor publicada pela Record.

Interpretação de dezembro
Carlos Drummond de Andrade
É talvez o menino
suspenso na memória.
Duas velas acesas
no fundo do quarto.
E o rosto judaico
na estampa ,talvez.
O cheiro do fogão
vário a cada panela.
São pés caminhando
na neve, no sertão
ou na imaginação.
A boneca partida
antes de brincada,
também uma roda
rodando no jardim,
e o trem de ferro
passando sobre mim
tão leve: não me esmaga,
antes me recorda.
É a carta escrita
com letras difíceis,
posta num correio
sem selo e censura.
A janela aberta onde se debruçam
olhos caminhantes,
olhos que te pedem
e não sabes dar.
O velho dormindo
na cadeira imprópria.
O jornal rasgado.
O cão farejando.
A barata andando.
O vento soprando.
E o relógio inerte.
O cântico da missa
mais do que abafado,
numa rua branca
o vestido branco
revoando ao frio.
O doce escondido,
o livro proibido,
o banho frustrado,
o sonho do baile
sobre chão de água
ou aquela viagem
ao sem-fim do tempo
lá onde não chega
a lei dos mais velhos.
É o isolamento
em frente às castanhas,
a zona de pasmo
na bola de som,
a mancha de vinho
na toalha bêbada,
desgosto de quinhentas
bocas engolindo
falsos caramelos
ainda orvalhados
do pranto das ruas.
A cabana oca
na terra sem música.
O silêncio interessado
no país das formigas.
Sono de lagartos
que não ouvem o sino.
Conversa de peixes
sobre coisas líquidas.
São casos de aranha
em luta com mosquitos.
Manchas na madeira
cortada e apodrecida.
Usura da pedra
em lento solilóquio.
A mina de mica
e esse caramujo.
A noite natural
e não encantada.
Algo irredutível
ao sopro das lendas
mas incorporado
ao coração do mito.
É o menino em nós
ou fora de nós
recolhendo o mito.

Comentários (1)

  • Marcelo Xavier diz: 11 de dezembro de 2009

    Ler? Basta passar dos trinta para ver os meses passarem cleremente, fik dik

    Sim, Marcelo, sei que depois dos trinta os anos e meses se aceleram. O que li foi uma original explicação para as causas dessa impressão – e que como explicação funciona muito mal, mas como imagem, funciona muito bem.
    Abraço.
    Carlos André

Envie seu Comentário