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Posts de dezembro 2009

O cartunista está nu

23 de dezembro de 2009 4

Em 1992, Art Spiegelman trocava as trevas do underground dos quadrinhos pela sombra que sua obra-prima, Maus, começava a projetar sobre ele ao vencer o Prêmio Pulitzer. Feito inédito para um quadrinista, a (merecida) distinção ao mesmo tempo jogava luz sobre aquele judeu de meia-idade, filho de sobreviventes do campo de concentração nazista de Auschwitz e que tinha muitas histórias para contar. Parte delas está reunida em Breakdowns – Retrato do Artista Quando Jovem %@*!.

O compêndio cobre o período de 1972 a 1977, considerado pelo próprio Spiegelman, hoje como 61 anos, como um tempo de experimentação quando ele, na falta de horrores melhores para descrever, resolveu falar da própria vida. É quando se dá, por exemplo, a gênese de Maus, inicialmente uma história de três páginas em que o pai conta o terror da ocupação nazista na sua Polônia natal, na forma de uma inocente parábola para dormir – em que judeus são retratados como ratos, e nazistas, como gatos. O quadrinista sueco radicado nos EUA demoraria quase 10 anos para estender a narrativa e transformá-la no best-seller que o consagraria.

Lançado inicialmente em 1978, Breakdowns sai em formato de luxo com uma introdução autobiográfica que por si só valeria o investimento. Nela, Spiegelman conta um pouco de sua solitária infância em Nova York (avesso a esportes e louco por gibis, o que ele queria?), o despertar da paixão pela arte (leia-se a então transgressora MAD e revistinhas de ficção e terror), a difícil relação com o pai (que mais tarde lhe entregaria, de uma forma ou de outra, o Pulitzer de bandeja…) e a formação de um gigantesco complexo de culpa que o levaria a uma de suas criações mais emblemáticas e tristes.

Prisioneiro do Planeta Inferno recria, em traços grossos e duros, o impacto do suicídio da mãe num Art Spiegelman de 20 anos que acabara de voltar de uma temporada numa instituição psiquiátrica. A tragédia, junto com o Holocausto judeu, definiria o leitmotiv de sua obra.

Abalado, tudo o que faz a partir disso, especialmente em Breakdowns, é desnudar-se diante dos leitores, numa espécie de autoanálise pública (“Fazer arte é mais barato”, afirma, em tom de deboche, com relação à terapia). É possível, então, distinguir não só as diversas escolas que influenciaram o desenho de Spiegelman (de Picasso aos expressionistas alemães, passando pelo amigo Robert Crumb), mas também seus mentores intelectuais (os parceiros Woody Gelman e Justin Green em especial), as incursões pela psicodelia movidas a muito LSD e o tratamento, nem sempre ortodoxo, dado ao sexo.

Breakdowns, seu antes e depois, são mais do que um retrato do artista quando jovem. São o flagrante de toda uma vida. Uma vida em quadrinhos.

Matéria publicada no Segundo Caderno desta quarta-feira, 23.12.2009

Os Açorianos de Literatura

15 de dezembro de 2009 6

Logotipo do Prêmio Açorianos 2009

Foi divulgada faz pouco, na noite desta segunda-feira no Centro Municipal de Cultura, ali na Erico Verissimo, em diagonal com o prédio da Zero Hora, a lista dos premiados na 16ª edição do Açorianos de Literatura, entregue pela Coordenação do Livro e da Literatura da Secretaria Municipal de Cultura. O prêmio é um dos mais importantes do Estado na área, e escolhe dentre oito categorias literárias aquele que é considerado O Livro do Ano. Também são premiados anualmente categorias chamadas de “não-literárias”, com capa e projeto gráfico, além de destaques em seis áreas. Este que vos escreve havia sido um dos jurados deste ano, na categoria Narrativa Longa (ao lado de Cláudia Tajes e Maria Eunice Moreira, que não, não é minha parente). Portanto, eu já sabia há algum tempo que o romance A Parede no Escuro, de Altair Martins (sobre o qual vocês podem ler aqui), seria o vencedor na categoria Narrativa Longa – o livro já havia recebido também o Prêmio Sáo Paulo de Literatura deste ano na categoria romance de estreia. Altair confirmou a ampla aceitação de seu livro também ao ter A Parede no Escuro escolhido como Livro do Ano – eleito dentre os campeões de cada categoria por um corpo de jurados formado por  José Castello, José Hildebrando Dacanal e Maria do Carmo Alves de Campos.

Abaixo, vocês podem conferir a lista completa dos vencedores em cada categoria. Mas antes, uma nota pessoal (afinal, esta notícia está sendo publicada em um blog): cada jurado, depois da reunião na qual abre seu voto para o livro vencedor na sua categoria de julgamento, é solicitado a preencher uma folha de indicações espontâneas com os destaques culturais do ano em categorias como Rádio, TV, Mídia Impressa, Mìdia Digital, Incentivo à Leitura, Livraria, Editora – não me lembro de todas, então desculpe se cometo alguma injustiça. É, portanto, uma eleição sem inscrição e nem indicados, e reflete um reconhecimento espontâneo dos jurados. Assim, fico orgulhoso e bem pimpão em anunciar que nosso blog Mundo Livro foi escolhido Destaque em Mídia Digital. É um prêmio que dá novo alento a quem mantém este blog fazendo tudo que um blogueiro “profissa” faria: atualizando sem periodicidade, com textos enormes “que ninguém lê” e fazendo um blog com uma dose teimosa de idiosincrasias. Este prêmio é do blog e de vocês, leitores que nos mantémna obrigação de continuar atualizando (sim, sei que tenho sido relapso nessa parte, mas vou emendar isso). E que venham outros muitos anos de Mundo Livro.

Ah, sim, os vencedores do Açorianos vão abaixo. Por pura falha minha – já que precisei subir ao palco para pegar o troféu e não consegui anotar todos os demais destaques, esta lista vai ser atualizada com os demais destaques premiados amanhã:

CAPA
Samir Machado de Machado, por Raiva nos Raios de Sol, de Fernando Mantelli (Não Editora)

PROJETO GRÁFICO
Marília Ryff-Moreira Vianna, por As Guerras dos Gaúchos:  História dos Conflitos do Rio Grande do Sul, coordenação de Gunter Axt (Nova Prova)

CONTO
As Grades do Céu, de Susana Vernieri (Libretos)

CRÔNICA
100 Lições para Viver Melhor, de Cláudio Moreno (L&PM)

ENSAIOS
Moinhos de Vento – Histórias de um Bairro de Porto Alegre, de Carlos Augusto Bissón (Editora da Cidade)

ESPECIAL

As Guerras dos Gaúchos – História dos Conflitos do Rio Grande do Sul, coordenação de Gunter Axt (Nova Prova)

INFANTIL
Histórias Bem… (coleção), de Caio Riter e Márcia Leite (Escala Educacional)

INFANTO-JUVENIL
De Carona com Nitro, de Luis Dill (Artes e Ofícios)

NARRATIVA LONGA
A Parede no Escuro, de Altair Martins (Record)

POESIA
Monolítico: Memória que Não Morre, de Luiz de Miranda (Design Editora)

LIVRO DO ANO
A Parede no Escuro, de Altair Martins (Record)

>> Update:

Ontem fiquei devendo, mas agora vão abaixo os seis destaques escolhidos pelo Júri:

* Editora e livraria: Edelbra
* Mídia Digital: blog Mundo Livro (www.zerohora.com/mundolivro)
* Projetos de Incentivo, Promoção e Divulgação da Literatura em Porto Alegre: Maratona Literária
* Mídia Impressa: revista Norte (Arquipélago Editorial)
* Rádio: Rejane Salvi, da Rádio da Universidade (UFRGS)
* TV: adaptação de Aventuras da Família Brasil, de Luis Fernando Verissimo (RBS TV)

Livro Inédito. Pero no mucho...

08 de dezembro de 2009 0

A meta de chegar a 500 mil livros doados não foi batida. Mas quem colaborou com a campanha Livro Inédito, do Banco de Livros, pode degustar virtualmente os dois primeiros capítulos de Os Espiões, novo trabalho de Luis Fernando Verissimo. A decisão de liberar 20% do romance policial foi tomada depois do recolhimento próximo de 350 mil unidades e o lançamento do livro em papel.

– Como Os Espiões deixou de ser inédito, não havia porque segurar muito mais _ explica Waldir Silveira, presidente do Banco de Livros, projeto de arrecadação de livros desenvolvido pela Fiergs.

As doações, no entanto, continuam. Quem quiser pode procurar qualquer um dos pontos de arrecadação nas agências dos Correios, Caixa Econômica Federal, Panvel, Zaffari, Chevrolet e estacionamentos Safe Park.

A liberação do restante do livro, no entanto, ainda é incerta:
– Nosso prazo era até o final de novembro, ou seja, não temos mais o que bater. Agora vamos conversar com a editora para acharmos uma solução _ define Silveira.

Retomando em dezembro

06 de dezembro de 2009 1

Já é dezembro, vocês notaram? É, eu também notei. Não me lembro mais onde li que os anos vão parecendo mais céleres à medida que se envelhece pelo mesmo processo que fazia os sulcos girarem mais rápido nos antigos LP’s. O diâmetro do disco vai diminuindo com a passagem do tempo e os círculos vão se tornando mais curtos.

Pois é. Já é dezembro. Em homenagem a isso, lá vai um Drummond publicado originalmente em A Rosa do Povo e, no ano passado, incluído em uma coletânea de textos natalinos do escritor publicada pela Record.

Interpretação de dezembro
Carlos Drummond de Andrade
É talvez o menino
suspenso na memória.
Duas velas acesas
no fundo do quarto.
E o rosto judaico
na estampa ,talvez.
O cheiro do fogão
vário a cada panela.
São pés caminhando
na neve, no sertão
ou na imaginação.
A boneca partida
antes de brincada,
também uma roda
rodando no jardim,
e o trem de ferro
passando sobre mim
tão leve: não me esmaga,
antes me recorda.
É a carta escrita
com letras difíceis,
posta num correio
sem selo e censura.
A janela aberta onde se debruçam
olhos caminhantes,
olhos que te pedem
e não sabes dar.
O velho dormindo
na cadeira imprópria.
O jornal rasgado.
O cão farejando.
A barata andando.
O vento soprando.
E o relógio inerte.
O cântico da missa
mais do que abafado,
numa rua branca
o vestido branco
revoando ao frio.
O doce escondido,
o livro proibido,
o banho frustrado,
o sonho do baile
sobre chão de água
ou aquela viagem
ao sem-fim do tempo
lá onde não chega
a lei dos mais velhos.
É o isolamento
em frente às castanhas,
a zona de pasmo
na bola de som,
a mancha de vinho
na toalha bêbada,
desgosto de quinhentas
bocas engolindo
falsos caramelos
ainda orvalhados
do pranto das ruas.
A cabana oca
na terra sem música.
O silêncio interessado
no país das formigas.
Sono de lagartos
que não ouvem o sino.
Conversa de peixes
sobre coisas líquidas.
São casos de aranha
em luta com mosquitos.
Manchas na madeira
cortada e apodrecida.
Usura da pedra
em lento solilóquio.
A mina de mica
e esse caramujo.
A noite natural
e não encantada.
Algo irredutível
ao sopro das lendas
mas incorporado
ao coração do mito.
É o menino em nós
ou fora de nós
recolhendo o mito.