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Deus como autoajuda

23 de janeiro de 2010 4

De uns tempos pra cá, o mercado editorial brasileiro descobriu que Deus é o caminho… das vendas. Em um filão editorial como a autoajuda, conhecida pela capacidade de se subdividir com facilidade em outros nichos, Deus já pode ser apontado como o mais recente. Dezenas de livros de autoajuda apostam na figura religiosa de Deus como a chave da felicidade, como já o foram o pensamento positivo, as técnicas de programação da neurolinguística e o próprio estudo da filosofia, moda ainda em voga. Ainda que o cristão argumente que para ele Deus sempre foi a salvação, agora ele também parece ser a chave para o sucesso nos negócios, na vida, nos relacionamentos. Como uma grife ou um símbolo de status.

Deus não foi parar nas prateleiras só agora. A editora Sextante, a mesma de O Código da Vinci e com uma linha editorial dedicada às obras de autoajuda, lançou nos últimos anos uma leva de publicações tais como Deus Cura a Dor e Jesus, o Maior Psicólogo que já Existiu, de Mark Baker; A Semente de Deus, de César Romão e Jesus, o Maior Líder que já Existiu, de Laurie Beth Jones. O filão gera até disputas de passe. A série Conversando com Deus, de Neale Donald Walsch, que era destaque do catálogo da Sextante, passou no ano passado para a Agir Equilíbrio/Agir Negócios, selo exclusivamente voltado para a literatura da autoajuda espiritual e financeira lançados pela Agir, do Grupo Ediouro, que aposta no crescimento do mercado para esse gênero.

Obras lançadas por outras editoras apresentam Deus como a chave e o caminho para qualquer coisa, em títulos que provocam de estranheza a riso, como E Deus Criou a Empresa Familiar (Integrare), Como os Pinguins Me Ajudaram a Encontrar Deus (Thomas Nelson Brasil) e A Lista de Tarefas de Deus (Via Lettera). Deus é o tema da moda até mesmo em obras de ficção best-seller que pegam carona na fórmula de O Código Da Vinci, como os recentes A Fórmula de Deus, do português José Rodrigues Santos (Record), O Mapa do Criador, do espanhol Emílio Calderón (Companhia das Letras), e o mais bem-sucedido comercialmente dos três: A Cabana, de William P. Young (Sextante), todos tornando o mistério da existência ou não de Deus elemento fundamental de uma trama de suspense.

Não que livros sobre Deus não tenham sido a constante na história humana: boa parte do melhores esforços do pensamento humano foi dedicada à interrogação sobre ele. O que é novo é essa tentativa de mesclar à sua figura os elementos característicos da literatura de autoajuda. Embora Deus e Cristo sejam as variantes mais presentes – o que até seria de se esperar em um país declaradamente cristão como o Brasil -, não faltam obras que, em vez do pensamento positivo, apresentam como o grande segredo da vida palavras e ensinamentos de uma figura que representa sabedoria e/ou poderes superiores – Confúcio ou Buda também entram na mistura, cujos antecedentes podem ser encontrados já nas obras do guru indiano Deepak Chopra, nos anos 1990. É como se marcassem um encontro nas gôndolas de livrarias e supermercados duas gerações de confortos para tempos de crise e insegurança: a fé, antiga como o homem, e a autoajuda, produto acabado da sociedade capitalista moderna. Ambos com a mesma função: suprir a natural necessidade do ser humano de ter algo em que acreditar.

A autoajuda é um produto do capitalismo – e, em sua origem, traz em si as forças fundamentais do sistema, conforme preconizado por Max Weber: a ética protestante do trabalho e o impulso humano de melhorar de vida. Não é à toa, portanto, que esse tipo de literatura tenha surgido e ganhado força no maior país capitalista do mundo, os Estados Unidos. Os principais percursores já apontados para o gênero, como Autoconfiança, de Ralph Waldo Emerson, no século 19, ou a biografia de Benjamin Franklin, no século 18, surgiram nos Estados Unidos, bem como as duas obras que definiram o gênero, nos anos 1930: Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie, e Pense e Enriqueça, de Napoleon Hill, ambas surgidas, não por acaso, na década de pobreza e dificuldades que se seguiu ao desastre financeiro da bolsa de Nova York, em 1929.

A autoajuda, portanto, sempre se apresentou como resposta aos desafios de seu tempo, usando as ferramentas à disposição. Numa época em que o capitalismo estava em dificuldades, após 1929, com desemprego recorde e filas de miseráveis, a ideia era ensinar a chave de se “vender” melhor do que qualquer outro. Nos anos 50, começam a pulular cursos e livros voltados para o sucesso profissional, o que influenciaria positivamente a vida pessoal. É nessa época que surge um dos precursores da atual literatura de autoajuda religiosa que hoje é presença desde a livraria até o supermercado, do aeroporto à revistaria da rodoviárias. Escrito por um pastor metodista em 1952, O Poder do Pensamento Positivo, de Norman Vincent Peale, usava as escrituras sagradas como mote para a apresentação de uma receita de recompensa à fé de quem trabalhava em busca da prosperidade – algo arraigado até hoje na cultura americana. Nos anos 1980, 1990, a autoajuda se apropriou das descobertas recentes da neurolinguística para vender a ideia de que era possível programar a mente e a vida em busca do sucesso – como nas obras do brasileiro Lair Ribeiro e do (acredite) norte-americano, apesar do nome, Jose Silva. A moda atual é a física quântica, tema da salada delirante de O Segredo.

A literatura de autoajuda é escrita dentro de um padrão bem definido, apesar das subdivisões temáticas que comporta (livros sobre sucesso no emprego, relacionamento interpessoal e por aí vai). O texto é simples, sem dubiedades, os conselhos são edificantes, a postura é sempre positiva, alto-astral e de alguma forma oferece consolo ao leitor, a esperança bastante ingênua de que há um roteiro de passos, atitudes, disposições mentais que, se executados, trarão o sucesso, a felicidade, a ausência de dor e a sabedoria como resultado quase matemático. Com essa estrutura, é óbvio que, apesar de dialogar com a ciência e a mentalidade de seu tempo, toda literatura de autoajuda oferece uma visão simplificadora de seu tema – mesmo se esse tema for Deus. O Deus apresentado nesses livros, amparado em trechos criteriosamente selecionados, seria irreconhecível se comparado com o Deus bíblico, que, principalmente no Velho Testamento, é também uma divindade irascível e destruidora: “O grande motivo de orgulho do monoteísmo é que a realidade definitiva vive em sua casa e em nenhum outro lugar. A tristeza do monoteísmo é que tudo tenha de ser acomodado nessa casa única (…).Na antiga Mesopotâmia havia dois deuses, um deus criador e um deus destruidor, que lutavam um contra o outro. No antigo  Israel, ao contrário, só havia um deus, que tanto criava como destruía“, escreve o crítico Jack Miles no estudo Deus: uma Biografia.

A autoajuda religiosa recente, por comodidade, varre um desses aspectos , o destruidor, para centrar foco no ensino de como se conectar com a outra faceta da divindade, a de amor e bondade a que se pode ter acesso a qualquer hora.  A crença nesse Deus de sentido prático, que responde imediatamente às necessidades de quem tem objetivos claros — defendida em muitos desses livros — é eco de uma necessidade humana de acreditar no poder do pensamento — algo que Freud já havia analisado em um ensaio clássico de 1922, Totem e Tabu, considerado por ele próprio um de seus melhores trabalhos. O fenômeno do “pensamento mágico”, dissecado por ele como característica da mentalidade da infância e dos povos primitivos, nasce de uma necessidade de afastar ideias que amedrontam, como a da finitude, e cria a noção de que o pensamento teria o poder para obter aquilo que se deseja. É a tentativa de enfrentar o que há de assustador no humano, algo para o que a própria ideia de Deus sempre foi por si só um consolo.

Comentários (4)

  • Paulo Olmedo diz: 23 de janeiro de 2010

    Para mim, autoajuda (maldita reforma ortográfica!) já é um termo contraditório, afinal quem busca ajuda em livros não possui “autoajuda” (hehe).
    Interessante a discussão, principalmente quando estamos vendo a união de uma busca pessoal a algo mais etéreo. O paradoxo é tão grande que daqui a pouco veremos um “Fique rico acreditando em Deus” (se é que já não existe).
    No entanto, apesar de não ser fã de autoajuda, acredito ser um mal necessário, pois há muita gente que realmente “se ajuda” com os tais livros (além de, por mais ruim que seja, estar exercitando a leitura).
    Abraços (e bom retorno!)

  • Da série: Sem Comentários « Lendo e Criticando diz: 24 de janeiro de 2010

    [...] essa pérola lendo o pertinente artigo “Deus como autoajuda“, escrito pelo editor de livros Carlos André Moreira. Como explicita o título, Moreira [...]

  • RAIMUNDO VALDO DE SOUSA diz: 10 de maio de 2012

    sou um leitor voraz. gosto de ler livros de autoajuda

  • ISRAEL MANOEL BARBOSA diz: 5 de dezembro de 2014

    é no minimo decepcionante estas revelações no meu caso perdi o pé de apoio a unica esperança que me restava de ter meu problema resolvido por um poder maior (deus)

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