De uns tempos pra cá, o mercado editorial brasileiro descobriu que Deus é o caminho... das vendas. Em um filão editorial como a autoajuda, conhecida pela capacidade de se subdividir com facilidade em outros nichos, Deus já pode ser apontado como o mais recente. Dezenas de livros de autoajuda apostam na figura religiosa de Deus como a chave da felicidade, como já o foram o pensamento positivo, as técnicas de programação da neurolinguística e o próprio estudo da filosofia, moda ainda em voga. Ainda que o cristão argumente que para ele Deus sempre foi a salvação, agora ele também parece ser a chave para o sucesso nos negócios, na vida, nos relacionamentos. Como uma grife ou um símbolo de status.
Deus não foi parar nas prateleiras só agora. A editora Sextante, a mesma de O Código da Vinci e com uma linha editorial dedicada às obras de autoajuda, lançou nos últimos anos uma leva de publicações tais como Deus Cura a Dor e Jesus, o Maior Psicólogo que já Existiu, de Mark Baker; A Semente de Deus, de César Romão e Jesus, o Maior Líder que já Existiu, de Laurie Beth Jones. O filão gera até disputas de passe. A série Conversando com Deus, de Neale Donald Walsch, que era destaque do catálogo da Sextante, passou no ano passado para a Agir Equilíbrio/Agir Negócios, selo exclusivamente voltado para a literatura da autoajuda espiritual e financeira lançados pela Agir, do Grupo Ediouro, que aposta no crescimento do mercado para esse gênero.
Obras lançadas por outras editoras apresentam Deus como a chave e o caminho para qualquer coisa, em títulos que provocam de estranheza a riso, como E Deus Criou a Empresa Familiar (Integrare), Como os Pinguins Me Ajudaram a Encontrar Deus (Thomas Nelson Brasil) e A Lista de Tarefas de Deus (Via Lettera). Deus é o tema da moda até mesmo em obras de ficção best-seller que pegam carona na fórmula de O Código Da Vinci, como os recentes A Fórmula de Deus, do português José Rodrigues Santos (Record), O Mapa do Criador, do espanhol Emílio Calderón (Companhia das Letras), e o mais bem-sucedido comercialmente dos três: A Cabana, de William P. Young (Sextante), todos tornando o mistério da existência ou não de Deus elemento fundamental de uma trama de suspense.
Não que livros sobre Deus não tenham sido a constante na história humana: boa parte do melhores esforços do pensamento humano foi dedicada à interrogação sobre ele. O que é novo é essa tentativa de mesclar à sua figura os elementos característicos da literatura de autoajuda. Embora Deus e Cristo sejam as variantes mais presentes - o que até seria de se esperar em um país declaradamente cristão como o Brasil -, não faltam obras que, em vez do pensamento positivo, apresentam como o grande segredo da vida palavras e ensinamentos de uma figura que representa sabedoria e/ou poderes superiores - Confúcio ou Buda também entram na mistura, cujos antecedentes podem ser encontrados já nas obras do guru indiano Deepak Chopra, nos anos 1990. É como se marcassem um encontro nas gôndolas de livrarias e supermercados duas gerações de confortos para tempos de crise e insegurança: a fé, antiga como o homem, e a autoajuda, produto acabado da sociedade capitalista moderna. Ambos com a mesma função: suprir a natural necessidade do ser humano de ter algo em que acreditar.
A autoajuda é um produto do capitalismo - e, em sua origem, traz em si as forças fundamentais do sistema, conforme preconizado por Max Weber: a ética protestante do trabalho e o impulso humano de melhorar de vida. Não é à toa, portanto, que esse tipo de literatura tenha surgido e ganhado força no maior país capitalista do mundo, os Estados Unidos. Os principais percursores já apontados para o gênero, como Autoconfiança, de Ralph Waldo Emerson, no século 19, ou a biografia de Benjamin Franklin, no século 18, surgiram nos Estados Unidos, bem como as duas obras que definiram o gênero, nos anos 1930: Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie, e Pense e Enriqueça, de Napoleon Hill, ambas surgidas, não por acaso, na década de pobreza e dificuldades que se seguiu ao desastre financeiro da bolsa de Nova York, em 1929.
A autoajuda, portanto, sempre se apresentou como resposta aos desafios de seu tempo, usando as ferramentas à disposição. Numa época em que o capitalismo estava em dificuldades, após 1929, com desemprego recorde e filas de miseráveis, a ideia era ensinar a chave de se "vender" melhor do que qualquer outro. Nos anos 50, começam a pulular cursos e livros voltados para o sucesso profissional, o que influenciaria positivamente a vida pessoal. É nessa época que surge um dos precursores da atual literatura de autoajuda religiosa que hoje é presença desde a livraria até o supermercado, do aeroporto à revistaria da rodoviárias. Escrito por um pastor metodista em 1952, O Poder do Pensamento Positivo, de Norman Vincent Peale, usava as escrituras sagradas como mote para a apresentação de uma receita de recompensa à fé de quem trabalhava em busca da prosperidade - algo arraigado até hoje na cultura americana. Nos anos 1980, 1990, a autoajuda se apropriou das descobertas recentes da neurolinguística para vender a ideia de que era possível programar a mente e a vida em busca do sucesso - como nas obras do brasileiro Lair Ribeiro e do (acredite) norte-americano, apesar do nome, Jose Silva. A moda atual é a física quântica, tema da salada delirante de O Segredo.
A literatura de autoajuda é escrita dentro de um padrão bem definido, apesar das subdivisões temáticas que comporta (livros sobre sucesso no emprego, relacionamento interpessoal e por aí vai). O texto é simples, sem dubiedades, os conselhos são edificantes, a postura é sempre positiva, alto-astral e de alguma forma oferece consolo ao leitor, a esperança bastante ingênua de que há um roteiro de passos, atitudes, disposições mentais que, se executados, trarão o sucesso, a felicidade, a ausência de dor e a sabedoria como resultado quase matemático. Com essa estrutura, é óbvio que, apesar de dialogar com a ciência e a mentalidade de seu tempo, toda literatura de autoajuda oferece uma visão simplificadora de seu tema – mesmo se esse tema for Deus. O Deus apresentado nesses livros, amparado em trechos criteriosamente selecionados, seria irreconhecível se comparado com o Deus bíblico, que, principalmente no Velho Testamento, é também uma divindade irascível e destruidora: "O grande motivo de orgulho do monoteísmo é que a realidade definitiva vive em sua casa e em nenhum outro lugar. A tristeza do monoteísmo é que tudo tenha de ser acomodado nessa casa única (...).Na antiga Mesopotâmia havia dois deuses, um deus criador e um deus destruidor, que lutavam um contra o outro. No antigo Israel, ao contrário, só havia um deus, que tanto criava como destruía", escreve o crítico Jack Miles no estudo Deus: uma Biografia.
A autoajuda religiosa recente, por comodidade, varre um desses aspectos , o destruidor, para centrar foco no ensino de como se conectar com a outra faceta da divindade, a de amor e bondade a que se pode ter acesso a qualquer hora. A crença nesse Deus de sentido prático, que responde imediatamente às necessidades de quem tem objetivos claros — defendida em muitos desses livros — é eco de uma necessidade humana de acreditar no poder do pensamento — algo que Freud já havia analisado em um ensaio clássico de 1922, Totem e Tabu, considerado por ele próprio um de seus melhores trabalhos. O fenômeno do "pensamento mágico", dissecado por ele como característica da mentalidade da infância e dos povos primitivos, nasce de uma necessidade de afastar ideias que amedrontam, como a da finitude, e cria a noção de que o pensamento teria o poder para obter aquilo que se deseja. É a tentativa de enfrentar o que há de assustador no humano, algo para o que a própria ideia de Deus sempre foi por si só um consolo.
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