Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts de janeiro 2010

Nélida de las Américas

29 de janeiro de 2010 1

Foram anunciados na manhã de hoje os vencedores do Prêmio Casa de Las Américas. E a escolhida na categoria Literatura Brasileira foi Nélida Piñon, com o livro de ensaios Aprendiz de Homero, um mapa afetivo e intelectual de suas influências como autora e leitora. Primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras e autora de uma obra que abrange nove romances, uma novela infanto-juvenil e coletâneas de contos, a carioca Nélida Piñon desbrava em Aprendiz de Homero as praias do ensaio – sem abrir mão de um toque narrativo. Nélida estreou na literatura em 1961, com o romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, e é hoje uma das grandes autoras em atividade no Brasil e já havia sido contemplada com o Jabuti em 2005 pelo romance Vozes do Deserto, premiado como Melhor Romance e Livro do Ano

Aprendiz de Homero (Record, 368 páginas, R$ 38) reúne 24 textos, entre ensaios sobre arte, estética, a convivência pessoal da autora com grandes nomes da literatura de nossa época e os discursos de agradecimento feitos pela escritora ao receber os prêmios Astúrias e Menéndes Pelayo. Em comum, a preocupação em pensar, mais do que o mundo das letras, a maneira como as letras se apropriam do mundo. Na época do lançamento do livro, em 2008, entrevistamos  Nélida Piñon concedeu, por telefone, uma entrevista a este repórter de Zero Hora – entrevista essa que vale a pena recuperar agora, e que vocês podem ler clicando aqui.

Adeus, recluso

28 de janeiro de 2010 5

Às dez e meia da manhã de uma segunda-feira, em novembro de 1955, Zooey Glass, um moço de vinte e cinto anos, estava sentado numa banheira com água pelas bordas e lia uma carta datada de há quatro anos atrás. Era uma carta de texto quase interminável, datilografada em numerosas páginas de papel amarelo de segunda via, e Zooey mantinha-a encostada, com alguma dificuldade, às duas ilhas secas de seus joelhos. À sua direita,  um cigarro de aspecto úmido equilibrava-se no rebordo da saboneteira de esmalte embutida na parede e, evidentemente, estava ardendo bastante bem, pois o rapaz apanhava-o, uma vez por outra, e puxava duas tragadas, sem ter que desviar os olhos da carta. A cinza caía, invariavelmente, na água da banheira, umas vezes direta, outras deslizando pelas folhas da carta. Ele parecia alheado da desarrumação ambiente. No entanto, parecia dar-se conta, ainda que vagamente, de que o calor da água estava começando a exercer nele um efeito desidratante. Quanto mais tempo demorava lendo, naquela postura – ou relendo, para ser mais exato – mais frequentemente e menos distraidamente usava as cosas da mão para limpar o suor da testa e do lábio superior.

O trecho acima é de Franny e Zooey, romance de J.D. Salinger, publicado pela Editora do Autor em 1970 na tradução de Álvaro Cabral, e aqui colocado para homenagear o velho reculso, cuja morte, aos 91 anos, foi anunciado agora há pouco. Salinger pode ser considerado o inventor da adolescência moderna na literatura, por motivos que estão melhor explicitados neste post, escrito para marcar a passagem de seus 90 anos.

E por que um trecho de Franny e Zooey e não de O Apanhador no Campo de Centeio? Porque desse todo mundo vai falar mesmo. Mais sobre Salinger no Cultura de Sábado e amanhã em ZH

O cineasta por ele mesmo

27 de janeiro de 2010 0

Luís Bunuel, em foto de 1962 tirada por Carlos Saura

Como vocês sabem, nem sempre o titular deste blog tem tempo para atualizar esta página tanto quanto gostaria, mas sempre que pode conta com a colaboração de alguns colegas que salvam a pátria com suas leituras. É o caso do texto que vocês

vão ler agora, assinado pelo jornalista Renê Müller, do caderno Variedades do Diário Catarinense, e versado sobre um tema que eu particularmente, embora tenha interesse, não tenho tempo para ir atrás, livros sobre cinema. Divirtam-se:

Buñuel por Buñuel

RENÊ MÜLLER
Alguns livros sobre o cinema são tão imperdíveis quanto as obras-primas cinematográficas. Não são muitos. Há Hitchcock/Truffaut – Entrevistas (o diálogo do mestre Alfred com o aluno François, com edição recente em português pela Publifolha). Há Filme, a narrativa de Lilian Ross sobre as filmagens de A Glória de um Covarde (e que saiu na coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras). E há Meu Último Suspiro, a biografia de Luis Buñuel. O cineasta está ali em essência: boêmio, apaixonado pelo boxe, amigo e adversário de notáveis – o afastamento do poeta García Lorca e as brigas com Gala, mulher de Salvador Dalí, são rememorados na obra. A reedição luxuosa de Meu Último Suspiro, pela editora Cosac Naify, vem com nova tradução, de André Telles, e com a seleção de imagens feita pessoalmente por Buñuel (1900 – 1983), além de fotos de seu acervo pessoal, cedidas por seu filho Juan Luis.

A obra é assinada pelo próprio diretor, mas escrita com uma mãozinha do roteirista Jean Claude-Carrière, parceiro de Buñuel em clássicos como A Bela da Tarde e O Discreto Charme da Burguesia. O grande mestre do surrealismo foi um criador inquieto e genial da década de 1920 (Um Cão Andaluz é de 1929) até a de 1970, quando encerrou sua filmografia com Esse Obscuro Objeto do Desejo.

A iniciativa partiu de Carrière, que acreditava que o mais interessante não era um livro de memórias, mas um que servisse como um autorretrato. O charme de Meu Último Suspiro, o que o faz continuar uma obra tão vibrante hoje como há 30 anos, quando foi lançado, é conter a mente de um artista superlativo, o modo como ele se relaciona com as coisas do mundo, desde as mais prosaicas, como tabaco e drinques, às mais abstratas, como a passagem do tempo e a energia criativa. Ou com os acontecimentos mais drásticos (guerra, censura e repressão), os quais influenciaram diretamente a vida e a produção do espanhol.

Curiosamente, Buñuel não coloca em destaque seus filmes. Por conta disso, o livro torna-se justamente um saboroso complemento aos seus trabalhos. A prosa passa de leve por clássicos como Cão Andaluz, ao lembrar que a cena mais discutida de sua filmografia (a nuvem que corta a lua, e a lâmina que rasga um olho humano) surgiu de um sonho que narrou ao amigo Salvador Dalí. Embora fosse um criador organizado e que dava grande atenção aos roteiros, o cineasta não gostava da arte da escrever – quando iniciante, não tinha paciência. “Não sou homem de escrita”, diz ele, ao explicar, na apresentação de Meu Último Suspiro, como a obra foi concebida.

Fragmentos literários

27 de janeiro de 2010 1

Uma das perguntas mais ouvidas por escritores profissionais é de onde tiram as ideias que embasam suas ficções. Essa é uma pergunta que Moacyr Scliar responde, em parte, nas 54 narrativas muito breves que se enfileiram em Histórias que os Jornais Não Contam (Agir, 184 páginas, R$ 34,90). São textos nos quais as ideias para a matéria literária brotaram de uma fonte aparentemente menos nobre, as notas ressecadas do noticiário impresso.

O livro é uma reunião de cinco dezenas de histórias nascidas das páginas dos jornais e já publicadas na Folha de S.Paulo, onde Scliar – também colunista de Zero Hora – mantém uma coluna semanal. São textos que tornam difíceis as delimitações claras entre o conto e a crônica, inspirados no autor pela leitura de uma notícia de jornal, normalmente notas sucintas com menos de 10 linhas. A brevidade do relato original é mais uma vantagem e menos um problema para um escritor com a imaginação viva de Moacyr Scliar, que lança mão de seu reconhecido domínio da técnica narrativa para criar pequenas ficções delirantes sobre os dias tumultuados que vivemos. É esse caráter de registro, de instantâneo de uma realidade tirada das páginas dos jornais que torna indiscernível o limite entre conto e crônica nos textos breves do volume.

E se nos anos 1970 Scliar era apontado como expoente do mágico na literatura, neste volume seus contos se detêm no que há de insólito na banalidade cotidiana, extraindo a estranheza, a graça, a melancolia e até o absurdo de temas bastante contemporâneos. Em Cueca-Cofre, um empresário de uma pequena confecção de cuecas decide, inspirado nos escândalos do noticiário, criar um modelo misto de peça íntima e cofre. Em Na Contramão da História, um motorista descobre, para sua própria surpresa, que está avançando na contramão em uma rodovia movimentada, e decide, contra todas as evidências em contrário, que quem está na mão errada é toda a realidade que o cerca. Uma mulher que aprendeu a disfarçar cortando cebolas as lágrimas patológicas que sempre derramou pela vida que levava se desespera quando ouve falar que cientistas estrangeiros desenvolveram uma cebola que não provoca lágrimas. Um homem, depois de fazer uma campanha para que seja permitido o casamento de um ser humano com um personagem de desenho animado, não consegue se decidir sobre que personagem gostaria de desposar.

São contos que carregam todas as características marcantes que fazem do texto de Scliar um dos mais peculiares e reconhecíveis dentre os autores brasileiros em atividade: a narrativa direta e sem muitos floreios, inspirada na estrutura fabular da Bíblia e na oralidade eficiente dos bons contadores de histórias; os comentários que se interpõem no meio do texto alterando-lhe ou modernizando-lhe o sentido; anacronismos intencionais que aproximam o que está sendo narrado da realidade do leitor. Elementos que tornam as Histórias que os Jornais Não Contam um comentário ao mesmo tempo ácido e cínico sobre a dose diária de demência contemporânea.

Os textos que nascem de breves notas de jornais são eles próprios concisos, não ultrapassam três páginas, extensão imposta pelo tamanho da coluna fixa que o autor mantém no jornal. E é exatamente esse o motivo para que leitores de longa data do Moacyr Scliar contista se sintam um pouco deslocados com algumas das histórias. A questão é que a brevidade do texto reduz ao mínimo muitos dos recursos estilísticos que o autor maneja tão bem. O que dilui a força de efeitos característicos da prosa de Scliar, como as repetições de estruturas que pontuam a narrativa como refrões ou torneios de frase coloquiais, aparentados com a habilidade que o bom rapsodo tem para desfiar seus cantos e causos. Não que isso diminua a qualidade dos textos, mas os afasta um pouco do padrão que o próprio Scliar estabeleceu para o conto e não apenas os seus próprios, como os da literatura nacional.

O original de Nabokov

26 de janeiro de 2010 0

A palavra de um gênio é tão plena de virtudes que mesmo suas intenções merecem o julgamento do público? Essa é a pergunta que cerca O Original de Laura (Alfaguara, Tradução de José Rubens Siqueira, 304 páginas, R$ 59), obra inacabada do mestre russo Vladimir Nabokov (1899 – 1977). O volume lançado pela Alfaguara não deixa de ser ele próprio uma contradição: capa dura, papel de boa qualidade, fac-símiles das fichas originais (como a que ilustra este post), edição primorosa – uma das melhores que um livro de Nabokov já teve no Brasil – para algo que não deixa de ser um caderno de esboços bastante precários.

Nabokov começou a escrever O Original de Laura em 1975 – e em 1977 foi acometido de uma grave enfermidade que resultou em sua morte. A bem dizer, uma série de problemas de saúde atrasou o escritor, e o planejado …Laura ficou reduzido a apenas um conjunto de 138 fichas catalográficas nas quais, a mão, em não mais do que 9 mil palavras, Nabokov redigiu quatro capítulos completos e anotou várias ideias ou trechos – o costume de fazer os primeiros esboços de um livro a lápis em fichas avulsas ajudava o autor a literalmente “montar” suas obras, trocando capítulos de lugar quando necessário no processo de datilografar os originais. O mesmo método havia sido usado com um clássico como Lolita.

Com a morte de Nabokov, as fichas passaram à guarda da mulher do escritor, Vera – ele havia feito um pedido explícito de que, se morresse sem concluir a obra, aquela massa ainda informe deveria ser incinerada. Vera debateu-se com a tarefa até legar as anotações ao filho, Dmitri, deixando para ele a decisão. O anúncio, em 2008, de que o material seria publicado provocou uma tempestade sobre os debates literários em língua inglesa. Russo de nascimento, tendo publicado suas primeiras obras no idioma natal, Nabokov tornou-se também um mestre da língua inglesa, um esteta desconcertante da palavra escrita, autor de obras fundamentais como Lolita (1955) e Fogo Pálido (1962).

A pergunta, inevitável dado o nível de apuro com que Nabokov burilava sua prosa, recai sobre o propósito de lançar uma edição comercial de um trabalho ainda nos estágios iniciais. Dmitri, na introdução do livro, defende-se das acusações de traição à memória paterna afirmando que, em seu entender, Nabokov não gostaria de ver o manuscrito destruído: “…Nem (…) penso eu que meu pai ou a sombra de meu pai se oporia ao lançamento de Laura, uma vez que Laura sobreviveu ao murmúrio do tempo até aqui”. Já a crítica massacrou o lançamento. O romancista bósnio Aleksandar Hemon, autor de As Fantasias de Pronek e O Projeto Lázarus (publicados aqui no Brasil pela Rocco), escreveu, neste artigo para a revista Slate (em inglês): “É seguro dizer que o que está sendo publicado não é um resultado que Nabokov desejaria ou saudaria. Não apenas vai contra seus desejos expressos, mas contra sua sensibilidade estética, contra sua vida inteira como artista”.

E a história?

Não há muita, embora o que tenha vindo à tona deixe entrever uma obra bastante original se Nabokov tivesse tido tempo de concluí-la: Philip, um neurologista obeso e ridículo, é seguidamente traído por sua mulher, Flora (as traições de Flora ocupam os dois primeiros capítulos redigidos nas fichas, duas das unidades mais bem organizadas de texto). Flora é retratada por um de seus amantes em um livro intitulado My Laura – Flora, portanto, seria “o original de Laura”, a palavra fazendo referência à mulher, e não ao original propriamente dito. Melancólico com as traições da esposa, Philip desenvolve, por meio de uma síntese química, um método de enviar mensagens de autodestruição do cérebro ao restante do corpo, permitindo, assim, que alguém literalmente “apague” partes de si próprio, um processo que se revela, por estranho que pareça, prazeroso e embriagador – daí o subtítulo do livro, Morrer É Divertido, que hoje Nabokov, dada a polêmica, talvez não endossasse.

Noll para a juventude

26 de janeiro de 2010 1

Literatura para adolescentes precisa ter enredo simples e linear, personagens e vozes narrativas fáceis de decifrar? Precisa entregar tudo pronto ao leitor, sob pena de, em caso contrário, perdê-lo irrevogavelmente? João Gilberto Noll defende que não. O escritor porto-alegrense, que em 2010 festeja os 30 anos de sua estreia literária (com o volume de contos O Cego e a Dançarina), acaba de estrear como autor de livros infanto-juvenis. Com dois lançamentos, Sou Eu! e O Nervo da Noite, que trazem para o universo adolescente seu texto denso, pontuado por imagens e uma sonoridade poética, que convida o leitor a descobertas e prazeres “menos imediatos”, como afirma o também escritor e jornalista Michel Laub na introdução de um deles.

Sou Eu! é o relato das lembranças de um menino da cidade grande, a partir das suas memórias de um banho de rio que tomou com um garoto do campo durante as férias de verão no interior. O que começa como um devaneio se torna uma reflexão sobre as transformações a que ele é submetido na passagem para a  maturidade, que o público vai descobrindo aos poucos, em todos os seus medos e em todas as suas incertezas:

“O menino da cidade saiu do rio, sentou na margem e tentou se concentrar mais uma vez no seu próprio eixo. Mas no momento era difícil voltar para dentro de si mesmo. Viu que sua vida de verão seria mesmo aquela alegria desvairada com o garoto campesino.
Aferrado aos próprios pensamentos, aos pequenos tormentos diários da cidade, ele deixaria passar a festa daquele dia ensolarado, uma festa a que ele fora convidado sem saber quem era o anfitrião.
O guri dos campos, ah, o guri dos campos parecia continuar intacto em sua alegria, cuspia longe para ver até onde ia a saliva e subia o terreno íngreme da margem em direção ao companheiro de férias de quem ele nunca soubera o nome.”

Pelo trecho acima, de Sou Eu!, pode-se ver que Noll, mesmo em textos curtos (ambos os livros têm 48 páginas e mais parecem contos do que novelas) e voltados para o leitor menos maduro (a editora Scipione indica que os dois são proprícios ao público adolescente e aos jovens adultos), mantém o lirismo característico da sua prosa adulta.

Em O Nervo da Noite, o exercício de embaralhamento de sonho e realidade é ainda mais instigante. Ao acordar, o jovem protagonista tem de assumir um novo e desconhecido papel. O rito de passagem, aqui, também é o foco do autor. A história, no entanto, tem duração determinada, restrita: apenas uma noite. É nesse período que o adolescente deve se preparar para uma nova fase, que surgirá no outro dia, quando já não lhe será mais permitido, escreve Noll, “retroceder para o reino da infância”.

“Havia horas como aquelas, onde tudo parecia estar aquém de certos folguedos cultivados na infância. Quando menino subia no telhado de casa em noites estreladas. Sentia que o seu mundo era aquele na abóbada noturna do céu. Ele pertencia, sim, muito mais àquele imenso mistério silencioso do que ao solo ao pé da casa, cheio de incógnitas jamais decifradas, embora bancando sempre o sabichão.
Achou melhor abandonar a bicicleta. Deu alguns passos, virou-se uma vez, e a olhou como a um ser vivo em sua solidão. Abandonava a sua velha bicicleta porque pressentia que não precisaria mais dela. para esse guri, ela passaria a ser um estorvo, nada mais. Ele parecia prestes a entrar em um mundo onde aprenderia a vencer distâncias que costumávamos chamar de “futuro”, além da nossa acanhada imaginação.”

Parece confuso? Não é. Talvez seja somente um pouco menos simples do que os leitores mais jovens estão acostumados. Mas eles vão entender. E, ao que tudo indica, gostar

Texto de Daniel Feix, nosso colega do blog CineClube

Deus como autoajuda

23 de janeiro de 2010 3

De uns tempos pra cá, o mercado editorial brasileiro descobriu que Deus é o caminho… das vendas. Em um filão editorial como a autoajuda, conhecida pela capacidade de se subdividir com facilidade em outros nichos, Deus já pode ser apontado como o mais recente. Dezenas de livros de autoajuda apostam na figura religiosa de Deus como a chave da felicidade, como já o foram o pensamento positivo, as técnicas de programação da neurolinguística e o próprio estudo da filosofia, moda ainda em voga. Ainda que o cristão argumente que para ele Deus sempre foi a salvação, agora ele também parece ser a chave para o sucesso nos negócios, na vida, nos relacionamentos. Como uma grife ou um símbolo de status.

Deus não foi parar nas prateleiras só agora. A editora Sextante, a mesma de O Código da Vinci e com uma linha editorial dedicada às obras de autoajuda, lançou nos últimos anos uma leva de publicações tais como Deus Cura a Dor e Jesus, o Maior Psicólogo que já Existiu, de Mark Baker; A Semente de Deus, de César Romão e Jesus, o Maior Líder que já Existiu, de Laurie Beth Jones. O filão gera até disputas de passe. A série Conversando com Deus, de Neale Donald Walsch, que era destaque do catálogo da Sextante, passou no ano passado para a Agir Equilíbrio/Agir Negócios, selo exclusivamente voltado para a literatura da autoajuda espiritual e financeira lançados pela Agir, do Grupo Ediouro, que aposta no crescimento do mercado para esse gênero.

Obras lançadas por outras editoras apresentam Deus como a chave e o caminho para qualquer coisa, em títulos que provocam de estranheza a riso, como E Deus Criou a Empresa Familiar (Integrare), Como os Pinguins Me Ajudaram a Encontrar Deus (Thomas Nelson Brasil) e A Lista de Tarefas de Deus (Via Lettera). Deus é o tema da moda até mesmo em obras de ficção best-seller que pegam carona na fórmula de O Código Da Vinci, como os recentes A Fórmula de Deus, do português José Rodrigues Santos (Record), O Mapa do Criador, do espanhol Emílio Calderón (Companhia das Letras), e o mais bem-sucedido comercialmente dos três: A Cabana, de William P. Young (Sextante), todos tornando o mistério da existência ou não de Deus elemento fundamental de uma trama de suspense.

Não que livros sobre Deus não tenham sido a constante na história humana: boa parte do melhores esforços do pensamento humano foi dedicada à interrogação sobre ele. O que é novo é essa tentativa de mesclar à sua figura os elementos característicos da literatura de autoajuda. Embora Deus e Cristo sejam as variantes mais presentes – o que até seria de se esperar em um país declaradamente cristão como o Brasil -, não faltam obras que, em vez do pensamento positivo, apresentam como o grande segredo da vida palavras e ensinamentos de uma figura que representa sabedoria e/ou poderes superiores – Confúcio ou Buda também entram na mistura, cujos antecedentes podem ser encontrados já nas obras do guru indiano Deepak Chopra, nos anos 1990. É como se marcassem um encontro nas gôndolas de livrarias e supermercados duas gerações de confortos para tempos de crise e insegurança: a fé, antiga como o homem, e a autoajuda, produto acabado da sociedade capitalista moderna. Ambos com a mesma função: suprir a natural necessidade do ser humano de ter algo em que acreditar.

A autoajuda é um produto do capitalismo – e, em sua origem, traz em si as forças fundamentais do sistema, conforme preconizado por Max Weber: a ética protestante do trabalho e o impulso humano de melhorar de vida. Não é à toa, portanto, que esse tipo de literatura tenha surgido e ganhado força no maior país capitalista do mundo, os Estados Unidos. Os principais percursores já apontados para o gênero, como Autoconfiança, de Ralph Waldo Emerson, no século 19, ou a biografia de Benjamin Franklin, no século 18, surgiram nos Estados Unidos, bem como as duas obras que definiram o gênero, nos anos 1930: Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie, e Pense e Enriqueça, de Napoleon Hill, ambas surgidas, não por acaso, na década de pobreza e dificuldades que se seguiu ao desastre financeiro da bolsa de Nova York, em 1929.

A autoajuda, portanto, sempre se apresentou como resposta aos desafios de seu tempo, usando as ferramentas à disposição. Numa época em que o capitalismo estava em dificuldades, após 1929, com desemprego recorde e filas de miseráveis, a ideia era ensinar a chave de se “vender” melhor do que qualquer outro. Nos anos 50, começam a pulular cursos e livros voltados para o sucesso profissional, o que influenciaria positivamente a vida pessoal. É nessa época que surge um dos precursores da atual literatura de autoajuda religiosa que hoje é presença desde a livraria até o supermercado, do aeroporto à revistaria da rodoviárias. Escrito por um pastor metodista em 1952, O Poder do Pensamento Positivo, de Norman Vincent Peale, usava as escrituras sagradas como mote para a apresentação de uma receita de recompensa à fé de quem trabalhava em busca da prosperidade – algo arraigado até hoje na cultura americana. Nos anos 1980, 1990, a autoajuda se apropriou das descobertas recentes da neurolinguística para vender a ideia de que era possível programar a mente e a vida em busca do sucesso – como nas obras do brasileiro Lair Ribeiro e do (acredite) norte-americano, apesar do nome, Jose Silva. A moda atual é a física quântica, tema da salada delirante de O Segredo.

A literatura de autoajuda é escrita dentro de um padrão bem definido, apesar das subdivisões temáticas que comporta (livros sobre sucesso no emprego, relacionamento interpessoal e por aí vai). O texto é simples, sem dubiedades, os conselhos são edificantes, a postura é sempre positiva, alto-astral e de alguma forma oferece consolo ao leitor, a esperança bastante ingênua de que há um roteiro de passos, atitudes, disposições mentais que, se executados, trarão o sucesso, a felicidade, a ausência de dor e a sabedoria como resultado quase matemático. Com essa estrutura, é óbvio que, apesar de dialogar com a ciência e a mentalidade de seu tempo, toda literatura de autoajuda oferece uma visão simplificadora de seu tema – mesmo se esse tema for Deus. O Deus apresentado nesses livros, amparado em trechos criteriosamente selecionados, seria irreconhecível se comparado com o Deus bíblico, que, principalmente no Velho Testamento, é também uma divindade irascível e destruidora: “O grande motivo de orgulho do monoteísmo é que a realidade definitiva vive em sua casa e em nenhum outro lugar. A tristeza do monoteísmo é que tudo tenha de ser acomodado nessa casa única (…).Na antiga Mesopotâmia havia dois deuses, um deus criador e um deus destruidor, que lutavam um contra o outro. No antigo  Israel, ao contrário, só havia um deus, que tanto criava como destruía“, escreve o crítico Jack Miles no estudo Deus: uma Biografia.

A autoajuda religiosa recente, por comodidade, varre um desses aspectos , o destruidor, para centrar foco no ensino de como se conectar com a outra faceta da divindade, a de amor e bondade a que se pode ter acesso a qualquer hora.  A crença nesse Deus de sentido prático, que responde imediatamente às necessidades de quem tem objetivos claros — defendida em muitos desses livros — é eco de uma necessidade humana de acreditar no poder do pensamento — algo que Freud já havia analisado em um ensaio clássico de 1922, Totem e Tabu, considerado por ele próprio um de seus melhores trabalhos. O fenômeno do “pensamento mágico”, dissecado por ele como característica da mentalidade da infância e dos povos primitivos, nasce de uma necessidade de afastar ideias que amedrontam, como a da finitude, e cria a noção de que o pensamento teria o poder para obter aquilo que se deseja. É a tentativa de enfrentar o que há de assustador no humano, algo para o que a própria ideia de Deus sempre foi por si só um consolo.

A paixão da cidade dupla

22 de janeiro de 2010 4

Uma das ideias fundamentais a nortear a ficção de Chico Buarque no romance Budapeste é o estudo do estranho, da língua como identidade e do aprendizado da língua como tentativa — infrutífera — de trocar de pele e biografia. A escolha da cidade húngara e sua melancolia amarelada em oposição ao sol sufocante do Rio de Janeiro pode ter sido arbitrária, mas a leitura de Budapeste 1900 (Tradução de Ana Luiza Dantas. José Olympio, 308 páginas, R$ 46), apaixonado livro de John Lukacs, húngaro de nascimento e radicado nos Estados Unidos, mostra que não poderia ter sido mais apropriada.

Em um livro que conjuga de forma supreendentemente orgânica o rigor acadêmico do historiador experimentado e a linguagem poética de quem está encantado pelo assunto sobre o qual escreve, Lukacs reconstrói o esplendor de Budapeste como capital da Belle Époque — e evoca justamente o caráter único da metrópole húngara em comparação com outras cidades mais charmosas e lembradas do período, como Paris, Praga ou a outra capital do Império Austro-húngaro, Viena - normalmente alvo de interesse maior por parte de turistas, romancistas e mesmo historiadores.

Um dos mais respeitados historiadores do século 20 em atividade, com obras publicadas sobre a II Guerra, como O Duelo: Churchill x Hitler ou Junho de 1941: Hitler e Stálin, Lukacs recua o foco neste livro para abordar o passado de sua cidade natal. Entregando-se ao lirismo mas fugindo da mera nostalgia, retrata em seu livro uma cidade em formação – bem como a tensão permanente entre o exacerbado nacionalismo húngaro, orgulhoso de suas peculiaridades, e os elementos que ligavam a recém-criada capital à Europa – Budapeste em 1900 era a mais jovem das grandes cidades europeias, e havia sido fundada apenas um quarto de século antes, com a fusão de duas cidades separadas pelo Danúbio: Buda e Peste.

Era, portanto, uma capital em obras, algo que se refletia até mesmo nas vias de acesso de um lado para outro do rio: “Três das sete grandes pontes sobre o Danúbio já estavam lá; a quarta, a ponte Elizabeth, que ainda era um enorme canteiro de andaimes de madeira, seria concluída dois anos depois“, escreve Lukacs. Na visão do historiador, os moradores da jovem capital viveram, em 1900, o apogeu da cidade, simbolizado pela cena com que Lukacs abre o livro: o sepultamento com honras de herói popular do mais famoso pintor húngaro do período: Miháli Munkácsy, mestre de um realismo acadêmico que mais tarde seria renegado pela geração seguinte. O nome, obviamente, não é familiar para a maioria dos leitores de língua portuguesa, o que pode representar o único senão, embora não determinante, para a fruição do livro. Lukacs se dedica a
traçar os caminhos de uma geração artística brilhante que abriu caminho no Exterior e tornou-se famosa mesmo por quem não tem particular interesse pela Hungria como tema: o compositor Béla Bartók, o jornalista Theodor Herzl, o filósofo Georg Lukács (que não é parente do autor), todos jovens no período de 1900, época em que os intelectuais e artistas locais tinham seu ponto de reunião na cafeteria Japan, na ampla Avenida Andrássy (a foto que ilustra este post é um instantâneo da Avenida Andrássy em 1896).

Mas Lukacs se detém ainda mais nos que ficaram na cidade, e não nos que partiram para a consagração no exílio: nomes alienígenas para o leitor brasileiro, como os poetas Endre Ady e Mihaly Babits, os romancistas Ferenc Herczeg, Sándor Hunyady, Dezsö Kosztolanyi e Gyula Krúdy, o ensaísta Dezsö Szabó e o dramaturgo Erno Szep. Esse desfile de personagens desconhecidos, contudo, não constitui um obstáculo. A profundidade e a mão segura com que Lukacs conduz seu leitor fazem de Budapeste 1900 um mergulho recompensador no entrecruzamento que foi essencial para a modernidade: o da história de uma cidade com a cultura que a erigiu.

A obra de arte e a prova do crime

21 de janeiro de 2010 1

O ano de 1911 foi mesmo cheio de emoções e de notícias que os jornais da época, embora as estampassem em letras grandes, ainda não chamavam de “sensacionais”. Em Belfast estava sendo construído um navio de cruzeiro monumental, destinado a jamais afundar e a demonstrar todo o poder da ciência herdada do século das Luzes. Mas a partida do navio só se daria dali a um ano. Em 1911, as manchetes se ocuparam com outra notícia de proporções tão colossais quanto as dimensões do Titanic ainda em construção:

Entre o momento em que o gordo e envelhecido vigia do Louvre, o museu parisiense dotado da maior e mais completa coleção de pinturas (fora da Itália) dos mestres italianos do século XVI, fechou as portas na noite de domingo dia 20 de agosto e a manhã da terça-feira dia 22 de agosto, quando um pintor chamado Louis Béroud chegou ao Louvre, uma das pinturas mais famosas do Ocidente, talvez a mais famosa, havia simplesmente desaparecido de seu lugar na parede do museu, deixando como sinal de sua ausência apenas os quatro ganchos que a sustentavam. Béroud pretendia pintar um quadro com a própria Mona Lisa. Para alguns, a ideia era mostrar um homem usando o reflexo do vidro da Mona Lisa para pentear os cabelos. Para outros, o mesmo homem na verdade estaria fazendo a barba usando para isso o reflexo do quadro – a ideia de Béroud era fazer uma pintura que repudiasse por meio de imagens o que ele considerava uma excrescência: a caixa de vidro que havia sido posta em volta da pintura.

O fato é que ao chegar no museu para fazer seus esboços, Béroud não encontrou a “senhora” – ou Madame Lisa, como também era reverentemente chamada – na parede de sempre. Ao perguntar o que havia acontecido para o guarda, ouviu uma resposta muito tranquila de que o quadro devia estar no estúdio fotográfico recém-montado pelo Louvre e que estava se dedicando a reproduzir todo o acervo da instituição – aproveitando-se da revolucionária tecnologia recente para preservar a memória do Louvre em caso de acidente. Béroud saiu e voltou no fim da manhã, e a pintura ainda não havia sido restituída a seu lugar. Só aí começou a soar o alarme. Em breve, o grito do guarda Paupardin ecoava pelas paredes do museu: “Roubaram a Mona Lisa!”

Esse é também o título do livro de R.A. Scotti lançado faz pouco pela L&PM e que recria, com uma prosa sofisticada, um dos maiores casos de polícia da primeira metade do século 20 – não por acaso, a autora iniciou a carreira escrevendo romances de espionagem, razão pela qual assinava com as iniciais R.A.: no mundo essencialmente masculino dos thrillers de espião, o nome soaria como o de um homem, permitindo que a obra fosse lida sem preconceitos.

Em Roubaram a Mona Lisa! (Tradução de Ana Ban. L&PM, 240 páginas, R$ 48), Scotti transforma o episódio – um dos mais famosos da história da arte – em uma narrativa que se lê freneticamente. Ela reconstitui o furto, as suspeitas, as informações desencontradas garimpadas pela polícia desesperada, o modo como o crime pôs a Europa em polvorosa e provocou uma caçada internacional sem precedentes até então – e que respingaria em dois nomes fundamentais da arte do Ocidente: Pablo Picasso e Guillaume Apollinaire, que chegaram a ser arrolados pela polícia no rol dos suspeitos na ousada conspiração.

Além do bom e velho Charlie Brown

12 de janeiro de 2010 2

Algumas pessoas não começam o dia sem conferir o horóscopo. Outras, só levantam da cama depois de lerem um versículo na Bíblia. Pois eu proponho uma troca, por uma manhã que seja, pelos Peanuts. Faça isso, pegue a luxuosa edição de Peanuts Completo, que a L&PM está lançando, e abra em qualquer uma das páginas _ elas cobrem toda a produção a respeito de Charlie Brown e sua turma de 1950 a 1952, não será difícil _ e leia.

Leu?

Voila! Seu dia certamente não começará melhor. E nem pior. Porque diferente dos astrólogos e das sagradas escrituras, Charles Schulz jamais vai te enganar.

Certo, pode não ser a melhor maneira de começar o dia, levando um sopapo de verdade entre os olhos ainda inchados de sono, mas o que você queria? Num universo de pirralhos niilistas, o mínimo que eles farão é tirar a bola da frente no momento que você estiver se preparando para chutá-la.

E pior, sequer vão rir do seu tombo. Vão é virar a costas e partir, como se ser logrado pelo seu melhor amigo durante um simples jogo de futebol fosse a coisa mais natural do mundo. Ou então sentirão pena de você, do tipo “tsc, tsc, como você foi cair nessa de novo?”.

Mas sem mágoas, ok? Não há espaço para ressentimento nos quatro quadrinhos que duram as pílulas de sabedoria de Schulz. São como os melhores filmes de Woody Allen: você acompanha as seqüências com um sorriso no rosto só esperando o momento em que ele vai te fazer gargalhar. E _ diferente dos esotéricos e dos evangelhos _ ele nunca te decepciona: de repente, dobrando uma esquina, PIMBA, um riso nervoso, que sai numa catarse de angústia para selar a cumplicidade entre autor e leitor/espectador.

Sim, cumplicidade. Companheirismo. Brodagem, mesmo. Charlie Brown _ Benito de Paula tinha razão _ é nosso amigo quadradinho por quadradinho. Ele caminha, trôpego como nós, pelos vales da incerteza, do desamparo e da desilusão.

Mesmo cercado de amigos, sabe que está sozinho e não há nada que possa fazer. Por isso, não se lamenta, não chora, como bem observa David Michaelis, autor da biografia Schulz and Peanuts: A Biography, no epílogo da compilação. Apenas resiste, tirinha após tirinha. É de fazer toda a obra de Schopenhauer parecer uma solar auto-ajuda.

Notável que Schulz tenha capturado somente o zeitgest do seu tempo e que ele permanece atual. O que difere os EUA pós-guerra do Brasil em 2010. Quando se trata de crianças, nada. Talvez essa seja uma das chaves do sucesso imortal dos Peanuts: os guris de Schulz dialogam diretamente e há mais de meio século com a criança que existe em cada um de nós.

Mas não a criança interior infantilizada que uma sociedade a base de psicotrópicos e repleta de culpa quer acreditar existir. É a criança cruel, brutal, ID em estado puro, que de inocente e conveniente não tem nada. Substitua a violência física pela psicológica e Peanuts se transforma em O Senhor das Moscas, com personagens que se encaixam à perfeição.

E tenha um bom dia.