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Morre Tomás Eloy Martínez

01 de fevereiro de 2010 0

A informação vem da DPA e da versão online do La Nación. Morreu na noite de ontem o escritor e jornalista argentino Tomás Eloy Martínez (foto, . Ele estava com 75 anos e vinha travando uma difícil batalha contra o câncer. Um dos grandes nomes do jornalismo argentino, com passagens por La Nación, pelo El País espanhol e pelo americano The New York Times, Martínez era mais conhecido no Brasil como escritor, por obras como O Romance de Perón, Santa Evita e O Cantor de Tango, entre outras.

Martínez nasceu em 1934, na província de Tucumán, e lá começou uma exitosa carreira na imprensa, com atuação como repórter, colunista, crítico de cinema e literatura e homem de televisão.  Além de ter sido o primeiro diretor do telejornal Telenoche, participou da equipe que formou o lendário Página 12 e esteve, nos anos 1960, à frente do semanário Primeira Plana, outra publicação fundamental do país. Nos anos 1970, passou por outras revistas e jornais como Panorama (entre 1970 e 1972) e La Opinión (1972 _ 1975). A ditadura militar argentina o levou a exilar-se na Venezuela, onde viveu até 1982 também com atuação em jornais como El Nacional e O Diário de Caracas.

Já nessa época havia feito sua estreia na literatura, com destaque para La Pasión Según Trelew, de 1974, mas seu nome seria plenamente reconhecido como romancista só uma década mais tarde, com O Romance de Perón, publicado em 1995. Na obra, originalmente gestada como uma reportagem biográfica sobre o político argentino Juan Domingo Perón, Martínez já praticava o estilo que o tornaria conhecido: uma curiosa e instigante mistura entre jornalismo e literatura, com a estrutura de uma investigação mas com um narrador que o tempo todo comentava as incongruências do relato e a dificuldade de escolha de uma única versão dos fatos, mesmo para uma história que se anunciava como fictícia.

A forma se repetiria no livro que é provavelmente o mais conhecido de Martínez: Santa Evita, de 1995, no qual Martínes mescla uma narrativa biográfica da mulher de Perón, onipresente no imaginário argentino, como também discutia a criação da imagem de Evita, de moça pobre a mito. O livro partia da reconstituição de um episódio real: o roubo do cadáver mumificado de Evita, e seu transporte, ao longo de meses, de esconderijo em esconderijo.

Nos últimos anos, Martínez vivia nos Estados Unidos por conta de uma bem-sucedida carreira acadêmica. Desde os anos 1990 era professor na Universidade Rutgers, em Nova Jérsei, onde atuava como diretor de um Programa de Estudos Latino-americanos. Também foi agraciado com o título de doutor honoris causa pela Universidade John F. Kennedy, de Buenos Aires e pela Universidad de Tucumán, sua província natal. Ele também recebeu em 2009 o Prêmio Ortega y Gasset pelo conjunto de sua obra. Ele havia visitado a Feira do Livro de Porto Alegre em 2004 para lançar O Cantor de Tango, romance no qual contava a história de um mítico intérprete de tango que se recusava a gravar discos e era perseguido por um pesquisador obcecado por entrevistá-lo. Nessa ocasião, ele concedeu a entrevista que eu reproduzo abaixo. O que ficou na minha memória dessa conversa foi uma impressão das melhores. Martínez era um conversador elegante e um entrevistado de grande gentileza. O cavalheiro que o porte altivo de sua figura já insinuava. Deixo vocês com as palavras dele:

Mi Buenos Aires Perdido

Residente nos Estados Unidos, Tomáz Eloy Martínez confessa que, a cada vez que volta a Buenos Aires, a cidade parece mudar. O que dirá ele então de Porto Alegre, que não visita desde 1966, quando passou uma noite e um dia na capital gaúcha e – se recorda – comeu frango? Martínez, autor de Santa Evita e O Romance de Perón, chega hoje à cidade para uma palestra sobre seu novo romance, O Cantor de Tango. Seguida
por uma sessão de autógrafos. Por telefone, ele concedeu a seguinte entrevista:

Zero Hora - O Cantor de Tango lembra Santa Evita: um pesquisador busca um personagem mítico e assim elabora um mosaico de histórias sobre a identidade argentina.
Tomáz Eloy Martínez -
Isso porque o pesquisador, o investigador, é um elemento constante em muitos romances. Há um pesquisador que recorda o passado no Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, há um investigador em alguns romances de Dickens. Há um ponto de vista em todos os romances, e muitas vezes esse ponto de vista é o de um pesquisador.

ZH – O senhor vive nos Estados Unidos, e no entanto a Argentina ainda é objeto de sua ficção. É característico do escritor sul-americano essa “reflexão no exílio”?
Martínez -
O que ocorre é que nós latinoamericanos estamos à margem do mundo, mesmo que seja em um país continental, como o Brasil. Se não falarmos de nós mesmos, não haverá ninguém que fale. Portanto sim, tenho uma obsessão em narrar meu país e, em geral, como afirmou um crítico alemão, em minhas obras estou completando a narração da história da Argentina no século 20.

ZH – O senhor intercala histórias que formam um panorama de Buenos Aires.
Martínez -
Em verdade, esses episódios dialogam com fragmentos da própria literatura argentina. Por exemplo, Borges e O Aleph estão recontados na figura do bibliotecário Bonorino, que vive no porão, em um mundo fantástico de fichas de papel, como uma toupeira cega, e de algum modo é uma metáfora do próprio Borges. Ou a história de duas mulheres judias em Mataderos. Elas são uma reescritura de El Matadero, o primeiro conto argentino, de Esteban Echeverría.

ZH – Outro ponto de contato com Borges é a apresentação da Buenos Aires como um gigante mítico, um labirinto.
Martínez -
Sim, mas os labirintos de Borges eram espaciais. No meu romance o labirinto está no tempo. Você está em um lugar e em um minuto tudo mudou. É uma metáfora para mostrar também as enormes mudanças que a pobreza impôs a Buenos Aires.

ZH – O romance brinca com os limites da realidade. Era sua intenção criar uma atmosfera mágica?
Martínez -
Mais onírica do que mágica. Na última vez em que estive em Buenos Aires passei por uma esquina que conheço há muito tempo e ela me pareceu outra completamente diferente, as fachada das casas, tudo mudara como se eu estivesse em outro lugar, em outro planeta. Sonho muito com essa Buenos Aires mítica, e por isso a cidade do meu romance parece com a de meus sonhos.

ZH – Julio Martel, o “Cantor de Tango” do título, é inspirado em um personagem real?
Martínez -
Vagamente em Luis Cardei, a quem eu conhecia muito bem e ouvi muitas vezes, mas a hemofilia de Martel é o único ponto de contato. Cardei era hemofílico e morreu de Aids, e Martel não tem Aids. Cardei tinha uma voz fraca, débil, e a voz do meu personagem é potente, porque me pareceu interessante pôr uma voz poderosa em um corpo doente. Pedi permissão à família de Cardei para reproduzir no personagem aspectos da enfermidade dele.

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