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O Cantor e o Escriba

06 de fevereiro de 2010 1

Tomás Eloy Martínez em imagem de 2002. Foto de Gonzalo Martínez/Divulgação

>>> NOTA DO EDITOR: Espero que todos vocês tenham lido hoje na página 8 do Caderno Cultura de Zero Hora um texto no qual o jornalista argentino Edgardo Litvinoff faz o elogio do crítico, jornalista e romancista argentino Tomás Eloy Martínez (foto acima,), autor de Santa Evita e O Romance de Perón, entre outros, morto no último domingo, dia 31 de janeiro, depois de um longo tempo de batalha contra o câncer.

Pois aqui abaixo vai outro texto, belíssimo, escrito pelo editor do caderno, o jornalista Luiz Antônio Araújo, celebrando a memória do Martínez, a quem conheceu pessoalmente durante um curso em Buenos Aires.  É uma elegante elegia de um autor por si só já conhecido como um sinônimo de elegância –na prosa e na vida. No texto, que vocês podem ler abaixo, Araújo relata um encontro entre Martínez e o tanguero Luis Cardei, que mais tarde seria usado pelo escritor como modelo para o romance O Cantor de Tango. Sem mais, deixo vocês com a crônica do Araújo. E lá no fim do post, vocês podem ver um breve video de uma apresentação de Cardei, realizada no Club del Vino em 1998 – dois anos antes da história relatada abaixo:

O cantor e o escriba

LUIZ ANTÔNIO ARAUJO
Editor de Cultura

Chovia e fazia calor naquela noite de maio de 2000 em que nos reunimos no bar Clásica y Moderna, centro de Buenos Aires. Éramos uma dúzia de editores latino-americanos por volta dos 30 anos, e naquela tarde havíamos terminado de assistir a um seminário de edição com Tomás Eloy Martínez. Aos 64 anos, ele viajara dos Estados Unidos para, entre outros compromissos, animar o encontro com jovens colegas patrocinado pela Fundação Latino-americana de Jornalismo. Não era segredo que sua saúde inspirava cuidados – no segundo dia do evento, teve de se ausentar em razão de uma indisposição. Nos momentos que passamos juntos, porém, revelava a lucidez, o equilíbrio e a humildade que o tornaram admirado por quem o conheceu.

Não sei quem escolheu o café no qual nos encontramos para a despedida. Ocupamos três ou quatro mesas, acompanhados por Jaime Abello Banfi, então presidente da Fundação, por Gonzalo Martínez, fotógrafo e filho de Eloy, e pelo pessoal de apoio do seminário.

Por algumas horas, jogamos conversa fora com o descompromisso que domina as confraternizações que encerram jornadas árduas. A certa altura, perguntei a Eloy a que atribuía o costume de grandes escritores argentinos – Borges, Cortázar, ele próprio – de optarem por viver no exterior.

– Talvez porque não exista aqui um mercado leitor como o de vocês _ me respondeu, acrescentando que Santa Evita, seu título mais famoso, vendeu mais no Brasil do que na Argentina.

Ele confidenciou que havia recebido de uma editora brasileira, a Objetiva, o convite para participar da coleção Plenos Pecados, na qual grandes autores revisitavam os sete pecados capitais. Ao argentino Eloy, único não-brasileiro num time em que figuravam Luis Fernando Verissimo e João Ubaldo Ribeiro, havia tocado a Soberba. A gaiatice da escolha não lhe escapava, mas ele admitiu que enfrentava dificuldades para fazer decolar o que um dia viria a ser o livro O Voo da Rainha.

É que não sou uma pessoa arrogante _ comentou.

Enquanto falávamos, apresentava-se sobre um pequeno palco o cantor de tango Luis Cardei. Baixo, claudicante – ficara sem caminhar dos oito aos 13 anos em consequência da hemofilia –, com uma vozinha de gnomo, era um monumento à debilidade. Cantando, se agigantava. Desfiava um repertório tradicionalíssimo, clássico, no qual reluziam pérolas dos anos 20 e 30 como Anclao en Paris e Barrio Viejo. Embora tivesse nascido no mundo do tango, conhecera o sucesso apenas no fim da vida. Entre uma e outra canção, se divertia contando histórias num diálogo de mão única com o parceiro a quem chamava AntonitoAntonio Pisano, virtuose do bandoneón. Um bordão marcava a passagem da anedota ao tango:

– Qué lindo!

Num intervalo, Eloy foi à mesa de Cardei cumprimentá-lo. O cantor, embora cordial, permaneceu sentado durante a breve troca de palavras. Por muito tempo, os versos de Anclao en Paris _ “Quien sabe a la noche / Me encuentre la muerte / Y ciao, Buenos Aires / No te vuelvo a ver” – foram o único rescaldo daquela noite em minha memória.

Anos depois, ao folhear um dos romances de Eloy, encontrei a passagem em que um dos personagens ouve, num café, um cantor que rememora velhas histórias e exclama:

– Qué lindo!

Cardei seria também a inspiração para o tanguero hemofílico Julio Martel em O Cantor de Tango (2004). Teria sido casual o encontro do escritor e do intérprete naquela longínqua noite de 2000? Teria Eloy aproveitado a passagem por Buenos Aires para se acercar de um personagem que lhe chamara atenção? Teria antecipado a nós, seus alunos, uma pista da direção em que se orientava sua mente de criador? Difícil saber. Cardei morreu semanas depois, em 13 de junho. Agora, Eloy também se retirou. Só Buenos Aires pode ser encontrada onde os dois a deixaram.

+++

A meu pedido, o jornalista argentino Edgardo Litvinoff aceitou gentilmente escrever o artigo “O Evangelho Segundo Tomás” que aparece na página 8 do Cultura deste sábado. Além de ter presenciado o encontro de Eloy e Cardei em 2000, Litvinoff voltou a encontrar e entrevistar o escritor muitas vezes desde então.

 

>>> ADENDO DO EDITOR: Para quem não conhece o trabalho de Luis Cardei e ficou curioso, deixo abaixo um breve video de uma apresentação do cantor, realizada no Club del Vino em 1998 – dois anos antes da história relatada por Araújo.

 

Comentários (1)

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