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Céu particular

19 de fevereiro de 2010 4

Saorsie Ronan em cena de Um Olhar do Paraíso. Foto: Divulgação

Meu sobrenome era Salmon, salmão, igual ao peixe; meu primeiro nome era Susie. Eu tinha 14 anos quando fui assassinada no dia 6 de dezembro de 1973. Nas fotos de meninas desaparecidas que saíam nos jornais nos anos 1970, a maioria se parecia comigo: meninas brancas de cabelos castanhos cor de camundongo. Isso foi antes de todas as raças e sexos começarem a aparecer nas caixas de leite ou na correspondência diária. Ainda era na época em que as pessoas acreditavam que coisas assim não aconteciam.
No meu livro de classe do ginásio coloquei a citação de um poeta espanhol a quem minha irmã tinha me apresentado, Juan Ramon Jimenez. Dizia mais ou menos o seguinte: “Se alguém lhe der uma folha de papel pautado, escreva no sentido contrário”. Escolhi essa citação tanto porque ela expressava meu desprezo pelos ambientes estruturados do tipo sala de aula e porque, já que não era uma citação ridícula de alguma banda de
rock, pensava que ela mostrasse meus dotes literários. Eu fazia parte do Clube de Xadrez e do Clube de Química e queimava tudo o que tentava fazer na aula de prendas domésticas da sra. Delminico. Meu professor preferido era o sr. Botte, que lecionava biologia e gostava de animar os sapos e lagostins que tínhamos de dissecar fazendo-os dançar em suas tigelas enceradas.
A propósito, eu não fui morta pelo sr. Botte. Não pensem que todas as pessoas que vão encontrar aqui são suspeitas. É esse o problema. Nunca se sabe. O sr. Botte compareceu à minha homenagem (assim como, devo acrescentar, quase todo o colégio em que eu estudava — nunca fui tão popular) e chorou bastante. Ele tinha uma filha doente. Todo mundo sabia disso, então, quando ele ria das próprias piadas, que já eram velhas muito antes de ele virar meu professor, nós também ríamos, às vezes nos forçando, só para deixá-lo feliz. A filha dele morreu um ano e meio depois de mim. Ela tinha leucemia, mas nunca a vi no meu céu.
Meu assassino foi um homem do nosso bairro. Minha mãe gostava das flores dos canteiros dele, e meu pai uma vez conversou com ele sobre fertilizantes. Meu assassino acreditava em coisas antiquadas, como casca de ovo e borra de café, que segundo ele sua própria mãe tinha usado. Meu pai chegou em casa sorrindo, fazendo piadas sobre como o jardim do cara podia ser lindo, mas que teria um fedor insuportável quando chegasse o calor.

O trecho acima vem do parágrafo inicial de Uma Vida Interrompida: Memórias de um Anjo Assassinado, de Alice Sebold – que começa, como definiu a jornalista Katharine Viner em uma entrevista com a autora para o Guardian, com “o tipo de frase que te faz famoso”. O livro, lançado em 2003, tornou-se best-seller imediato e deu origem ao filme do aclamado Peter Jackson que estreou esta semana em Porto Alegre e que tem o nome em português de Um Olhar do Paraíso (em tempo: não entendo por que em casos como esse ou o de Ilha do Medo, de Martin Scorsese, as distribuidoras preferem alterar completamente o nome de um filme baseado em um livro). Uma Vida Interrompida narra, como a maioria a essa altura já sabe, a história de Susie Salmon, uma jovem de 14 anos estuprada e morta por um vizinho esquisito depois de ingenuamente seguí-lo até um esconderijo subterrâneo que o homem havia cavado em um milharal próximo de sua casa. Fascinada por ciências, mesmo achando estranho o modo como o vizinho a olha, Susie entra no esconderijo curiosa por saber ciomo ele havia sido construído, um refúgio cavado no solo seis degraus abaixo do chão e protegido por uma porta de madeira – como ela mesmo diz no trecho, era um tempo em que “as pessoas acreditavam que coisas assim não aconteciam“, o que explica a confiança imprudente com que ela segue o estranho que termina por violentá-la e esfaqueá-la até a morte.

É um livro com um início mais que promissor pelo impacto que provoca, pela maneira neutra e desapaixonada como a garota vai narrando o horror infligido pelo seu assassino. Depois de morta, em uma ideia que mescla noções espíritas e católicas, Susie vai para seu “céu particular”, para ser orientada a aceitar que está morta. Não exatamente um “céu particular”, melhor dizendo. É o mesmo céu para todo mundo, mas cada um o vê de modo diferente. Para Susie, o “paraíso” “tinha traves de futebol ao longe e mulheres lançando pesos ou dardos em câmera lenta“. Ali, também, “todos os prédios se pareciam com ginásios suburbanos do nordeste americano construídos nos anos 60. Prédios grandes e atarracados espalhados por terrenos arenosos com projetos paisagísticos ruins, e anexos e espaços abertos para fazê-los parecer modernos“. De lá, ela acompanha a busca por seu corpo desaparecido (o cachorro de um vizinho encontra apenas o cotovelo, daí o título original The Lovely Bones, os “ossos amorosos”), a progressiva desagregação de sua família – a mãe, sem vocação desde o início para a maternidade, lida com o desabar de seu mundo com um caso extraconjugal; o pai desafoga a dor na obsessão por desvendar o que aconteceu com sua filha – e a impunidade tranquila de seu assassino, que chega a oferecer condolências para a família no funeral e alguns anos depois passa a olhar perigosamente para a irmã mais nova de Susie.

Esse ponto de vista narrativo, entretanto, não é exatamente um trunfo do livro. Histórias narradas por mortos, qualquer leitor brasileiro com meio neurônio sabe, não são exatamente novidade. E o ponto no qual  Uma Vida Interrompida difere brutalmente de livros como Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis ou o provocativo Como Vivem os Mortos, do inglês Will Self (leitor de Machado, diga-se) é justamente pela ausência de acidez e pela necessidade de, mais para o fim, abandonar a perspectiva descarnada que insinuava no início para investir cada vez mais em uma redenção sentimental ao gosto médio do apreciador de Sessões da Tarde.  Ao calibrar sua narrativa para a emoção, Sebold parece desfazer-se daquilo que seria a principal qualidade de seu romance – o desapego do morto e a inevitável ironia ácida disso resultante. Vamos ver como o filme se sai com esse material.

Ah, um último comentário. Confesso que só fui ler o livro anos depois que ele saiu, ao saber, em uma notícia em algum lugar, acho que foi no Omelete, que Peter Jackson estava adaptando a história. O motivo é a capa horrorosa da edição nacional – que vocês podem ver aí do lado. O título, a ênfase no ANJO ASSASSINADO em maiúsculas, a imagem de capa e o fato de que esse livro foi lançado mais ou menos na época da reestruturação da Ediouro – que culminou na abertura de dois selos editoriais voltados para autoajuda – me deram, em um primeiro momento, a impressão de ser literatura espírita – contra a qual não tenho nada, mas também não tenho nada a favor, sequer interesse. Provavelmente com a onda em cima do filme, o livro ganhe uma nova edição com a capa remetendo a uma imagem da produção, ao cartaz, alguma coisa assim. Não sou um entusiasta especial desse tipo de recurso, como já expliquei neste post do próprio blog, mas confesso que neste caso acho que o livro vai se beneficiar.

Comentários (4)

  • Everson diz: 20 de fevereiro de 2010

    Eu peguei este livro umas duas vezes e deixei de comprar justamente por ter a mesma impressão, de que se tratava de alguma coisa de auto-ajuda, coisa que não me interessa em absoluto.

  • Caroline lima diz: 4 de abril de 2012

    amei esse livro
    mt mt mt lindo
    ja assisti o filme …
    (:

  • Cinthia Maria da Silva diz: 25 de julho de 2014

    Bom, no momento eu vi o filme :3
    Gostei bastante.Embora seja muito triste e lindo

  • maria nazare da silva diz: 16 de setembro de 2015

    maravilhoso!Ameiiii embora triste em partes,mas tbm ajudou como alerta para os adolecentes ingênuos !!!

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