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Décio e Brasília

21 de fevereiro de 2010 0

Tive um pequeno problema ao programar os posts do blog para entrar no ar e este texto, que deveria ter ido ao ar ontem, acabou por só entrar agora, bem como os outros dois. Lamento o atraso e desejo boa leitura. O texto abaixo, do historiador Décio Freitas, analisava a criação de Brasília, e serve como complemento ao que vocês leram no Cultura sobre os 50 anos da cidade:

A alma de uma desalmada cidade

Os belos edifícios de Brasília não compensam o erro da mudança da Capital para o Planalto

DÉCIO FREITAS *

Numa das suas viagens a Porto Alegre, no final da década de 50, o presidente Juscelino Kubitschek concedeu, no Palácio Piratini, uma entrevista coletiva, à qual estive presente na condição de repórter político do órgão local dos Diários Associados. Finda a entrevista, acenou-me para que ficasse e perguntou-me se estaria livre no seguinte final de semana. Quando respondi afirmativamente, convidou-me para visitar as obras de construção de Brasília. O presidente havia sido informado dos meus artigos contra a nova Capital e tentava assim persuadir-me da validade do projeto.

Passei um final de semana no rústico Catetinho, acompanhando o presidente nas suas entusiasmadas e incansáveis andanças por aquele imenso canteiro de obras, onde o vento fazia gigantescos redemoinhos de poeira vermelha.

Todos que conheceram Juscelino sabem que era impossível não simpatizar com ele. Ao me despedir, tratei de ser gentil, dizendo que achava tudo aquilo muito “interessante”. Mas continuei a achar um erro a transferência da Capital. Passadas quatro décadas, não mudei de opinião.

Porque construir uma nova Capital, justamente no Planalto Central? Publicamente, dizia-se que era para “interiorizar” o país. À boca pequena, argumentava-se que no Rio, cidade de praias e indolências tropicais, a burocracia não trabalhava e jamais trabalharia. Isolada no Planalto Central, ela se dedicaria ao serviço público. Igualmente à boca pequena, propalava-se que a mudança fora decidida pelas Forças Armadas, em nível de Estado Maior, porque o poder central não podia continuar à mercê das acomodações e pressões populares do Rio, que haviam atingido seu ponto culminante no momento do suicídio de Getúlio Vargas. Para Juscelino, pessoalmente, seria um auto-monumento.

As colossais despesas da construção de Brasília constituíram o germe das futuras hiperinflações brasileiras. Inaugurou-se a era da corrupção em grande escala. A previdência, a saúde e o ensino foram brutalmente sacrificados. Desestabilizou-se a cidade do Rio de Janeiro, em conseqüência da perda de uma gigantesca massa de salários e empregos, afora a perda dos aparelhos de segurança pública que possuía como Capital.
Uma das funções da capital consiste em unificar política e culturalmente uma nação. Ao passo que o Rio cumpria esta função, Brasília sofre de congênita impotência para exercê-la. Não apenas porque é uma cidade sem passado, sem tradição e sem história, habitada por desenraizados, mas sobretudo porque, compondo-se uma população, esmagadoramente, de agentes do Estado, não possui uma sociedade civil. Não tem identidade ou produção culturais. Quer dizer, é uma cidade sem alma urbana. Em nada – na estrutura urbana, nos costumes, na mentalidade – reflete o país. Em lugar de articular, desarticula a vontade e a coesão nacionais. Seu centripetismo governamental e administrativo gera centrifugismo político e cultural.

Vista do alto, Brasília se afigura um autorama. Caso único no mundo: uma cidade sem vida urbana. Não tendo passeios públicos, desconhece a massa urbana. Sem sociedade civil e sem vida urbana, não pode ter uma opinião crítica e fiscalizadora dos negócios públicos. A burocracia não só inchou mastodonticamente, como se tornou ainda mais parasitária. Não por acaso, o Plano Piloto está organizado corporativamente em suas superquadras.

O Rio, como segundo pólo industrial do país, podia quando Capital se auto-sustentar. Brasília, não tendo produção econômica (para evitar o perigo operário, decidiu-se que não teria indústria), precisa ser totalmente mantida pelo país – e não custa barato. Mergulhada na solidão, não repercutem nela as pulsações econômicas, sociais e culturais do país.

O erro tornou-se irreparável. Nem vale a pena pensar no custo de um retorno da Capital ao Rio. E como nunca a sociedade poderá controlar democraticamente semelhante Capital – na verdade uma feitoria administrativa -, só resta reclamar uma desconcentração federativa de poderes.

A única compensação que, em rigor, nos oferece Brasília, é representada pelas obras-primas arquitetônicas de Oscar Niemeyer: o Palácio da Alvorada, a Catedral, o Palácio dos Arcos e outras mais.

Trata-se de uma compensação parecida à das criações geniais do Aleijadinho. O Brasil produziu metade do ouro que saiu das Américas no período colonial. Fundamentalmente, produzia-se ouro para comprar escravos e compravam-se escravos para produzir ouro, o que prova que a escravidão, mais do que uma desumanidade, era uma imbecilidade. A herança imperecível foi a obra de Antônio Francisco Lisboa. O que não quer dizer que o Aleijadinho legitimasse a escravidão. A esfera da arte é autônoma. A genialidade arquitetônica de Niemeyer é a solitária alma da desalmada cidade, mas não pode ser invocada para legitimar o erro político da instalação da Capital no Planalto Central.

* Historiador

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