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O Homem e a Imagem

21 de fevereiro de 2010 2

E aqui, vocês podem ler o texto do Ricardo Chaves, editor de Fotografia de ZH, sobre a morte do personagem da foto da que documenta a queda de Berlim nas mãos dos soviéticos (acima). Este material também é complementar ao que saiu no Cultura deste fim de semana.

A Sacralidade da Imagem

Ricardo Chaves

Com a morte do soldado Ismailov, último ator da cena (imortalizada pelo fotógrafo Yevgeny Khaldei) em que uma bandeira soviética tremula sobre o Reichstag proclamando a queda de Berlim e decretando a derrota dos nazistas na Segunda Guerra, volta a velha discussão sobre verdades e mentiras na fotografia.

Fotografia é um tipo de comunicação tão extraordinário que algumas imagens, possuidoras de magnífica forma e consistente conteúdo, acabam sacralizadas pelo tempo, adquirindo status de ícones de uma época e de um fato. Tudo que é consagrado e célebre torna-se, simultaneamente, alvo de inconformados críticos e convictos iconoclastas. É natural, e até saudável, que seja assim.

Com a famosa foto de Khaldei não é diferente. Cada vez que ela aparece ou é citada, lá vem o esquadrão de detratores sempre dedicados à inútil tarefa de combater mitos. Munidos de informações, tão precisas quanto irrelevantes, contam detalhadamente a história da foto sem levar em conta que se trata, tão somente, de uma foto histórica.

Análises mais serenas levam, inevitavelmente, à conclusão que, na grande maioria das vezes, são as circunstâncias que estabelecem o roteiro e escalam os protagonistas que estarão, ou não, à altura de suas responsabilidades. O isolamento, o mistério, a falta de acesso, a ignorância, podem ajudar a consolidar equívocos. Na atual era da informação on line, isso tudo está mais longe, pelo menos para quem estiver disposto e ligado. O que aconteceu no passado deve ser visto naquele contexto. Tudo está diferente. Agora, numa inundação de informações visuais e comunicação imediata, nada se destaca. Temos que ser mais espertos. Quase tudo está à mostra e nada aparece. A velha e única foto do nosso bisavô é muito mais importante do que as centenas de fotos que tiram da gente toda hora. Melhor usar nosso rigor para examinar o que se faz hoje.

Para começar, é bom atribuir à fotografia o que ela realmente é (e sempre foi): um misto de realidade e ficção. Se a foto no Reichstag foi feita dois dias depois, se a bandeira foi levada pelo fotógrafo, isso tudo, no momento, pouco importa. Temos que entender a fotografia desse jeito e ela é tão fantástica que, devido ao seu vínculo com o real, mesmo quando “armada”, ou feita sob encomenda, contém grande teor explosivo e poder revelador. Os dois relógios (um em cada braço, provavelmente fruto de saques) que o herói, agora morto, Ismailov ostentava na foto original, posteriormente retocada, falam tanto sobre a guerra quanto o cenário de destruição que se vê ao fundo. Fotografar, editar, publicar é estabelecer uma parceria, o fotógrafo entra com uma parte e o espectador com outra.

O jornalista mais cínico é capaz de afirmar que, no caso em que a versão esteja mais interessante que os fatos, melhor que se publique a versão. Já o poeta, mais honesto e romântico, lembrou: a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer…

E aí? As coisas são mais complicadas do que parecem, né?

Comentários (2)

  • Márcio diz: 21 de fevereiro de 2010

    “Os dois relógios (um em cada braço, provavelmente fruto de saques)…” Provavelmente?! Claro, eu também saio todos os dias com dois relógios, um em cada pulso.
    Na verdade, mais “provavelmente”, o seu “herói” havia acabado de estuprar, se não matar, uma mulher (ou menina) alemã.
    A Batalha de Berlim ( assim como – arrisco dizer – todas as da II Guerra ) foi o inferno na Terra, especialmente para os civis engolfados em sua fúria. Aquela cidade guarda, até hoje, cicatrizes deste tormento. Por isso mesmo, considero que relativizar episódios (como o caso do relógio) ou indicar “heróis” de um lado ou outro é extremamente complicado, e algo feito, muitas vezes, para tomar (ou explicitar) uma posição sobre o evento.
    E aí? As coisas são mais complicadas do que parecem, né?

  • su diz: 23 de fevereiro de 2010

    dica….li um livro “A Ordem é Amém”, que relata a história de um falso pastor que tem sua vida transformada por Deus, é um livro muito surpreendente e emocionante, leiam vcs vão gostar eu o encontrei no site:www.seteseveneditora.com.br

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