Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Tradução e reação

23 de fevereiro de 2010 10

Considero uma vergonha o assalto sistemático que várias editoras fizeram e ainda fazem ao trabalho honesto de dezenas de tradutores, inclusive agindo como verdadeiros ladrões de sepulturas ao se apropriarem do trabalho de intelectuais já mortos. Esses prostíbulos editoriais não só transvestem versões antigas, em muitos casos copiam de cabo a rabo os textos de outrem, atribuindo-os a pessoas cujos nomes inventam com total descaramento. Tenho participado ativamente do movimento de protesto. Recomendo que os amantes da literatura consultem o site http://naogostodeplagio.blogspot.com para conhecer melhor a extensão desses assaltos e assim poder expulsar de suas estantes as traduções bastardas.

A declaração acima foi dada pelo tradutor e diplomata Jório Dauster em uma entrevista para o editor de ZH Ticiano Osório na época do lançamento por aqui do livro Indignação, de Philip Roth, que Dauster passava a traduzir no lugar de Paulo Henriques Britto, tradutor dos sete livros anteriores do autor americano (a íntegra da entrevista está aqui). Quem lê este blog sabe que já há anos acompanhamos com interesse questões relativas a tradução, seja comentando uma que outra seja fazendo aquelas comparações entre diferentes versões de uma mesma obra. Foi por meio desse interesse que conhecemos o blog que Jorio Dauster cita na resposta acima, o Não Gosto de Plágio, comandado pela tradutora Denise Bottmann, que entre outros trabalhos traduziu recentemente o primeiro volume da coletânea de ensaios A Cultura do Romance, lançado no ano passado pela Companhia das Letras Cosac Naify.

Denise vem se dedicando há pelo menos três anos, nas páginas do blog, a comparar traduções novas de obras clássicas ou nem tanto cuja semelhança com traduções antigas da mesma obra parecem mais do que mera coincidência. Os principais casos documentados por Denise dizem respeito às editoras Martin Claret e Nova Cultural, cujas traduções de obras clássicas em domínio público são atribuídas a personagens de nomes insólitos e biografias de difícil comprovação – e carregam semelhança de gêmeos univitelinos com traduções antigas hoje fora de catálogo. A Martin Claret já processou Denise por isso – perdeu em primeira instância, mas está recorrendo.

Agora outra editora, a Landmark, está processando a tradutora autora por danos morais e materiais – pelas semelhanças apontadas por ela entre a tradução do romance Persuasão, de Jane Austen, assinada pelo próprio diretor da editora, Fábio Cyrino, e sobre a qual já escrevi aqui antes de saber do rolo e outra versão mais antiga, de Isabel Sequeira. As estranhas coincidências, que incluem até mesmo erros de revisão idênticos, foram apontadas primeiro pela blogueira Raquel Sallaberry, da página Jane Austen em Português – e Raquel também está sendo processada pela editora

A Landmark vem lançando toda obra de Jane Austen em novas versões que são, na minha opinião de leitor, decepcionantes do ponto de vista gráfico. As capas e o miolo em bom papel dão uma ideia de sofisticação que logo é desfeita pela diagramação e paginação descuidada do texto em português – a tradução de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, também lançada pela editora, tinha tantos erros de revisão e disparidades de padrão gráfico que não cheguei ao fim da leitura da versão, e logo estava preferindo ler a parte original – sim, esse é um grande mérito das edições da Landmark: são bilíngues.

Isso não significa necessariamente que a empresa seja culpada de plágio, algo que, ironicamente, poderá ser esclarecido pela ação na Justiça que a Landmark impetrou contra Denise. O que justifica o acompanhamento atento por parte da blogosfera desse processo, é que a editora pleiteou a retirada liminar do blog inteiro do ar – numa atitude de censura que extrapola o direito que todos têm de recorrer à Justiça quando têm demandas. Uma atitude lamentavelmente cada vez mais comum na internet, diga-se. Bom, que a Justiça se manifeste.

Como eu só pude atualizar o blog agora, dou o link para o lugar em que eu primeiro li a notícia, o blog Todoprosa, de Sergio Rodrigues.

Comentários (10)

  • | Esclarecimento | Jane Austen em Português diz: 24 de fevereiro de 2010

    [...] Mundo Livro [...]

  • denise bottmann diz: 24 de fevereiro de 2010

    prezado carlos andré: agradeço a divulgação. ótimo começo, a declaração de jorio dauster.
    denise bottmann

  • Eu também não gosto de plágio! | Tecla SAP diz: 24 de fevereiro de 2010

    [...] Mundo Livro - Tradução e reação [...]

  • Editora Landmark processa a tradutora Denise Bottmann, do Não Gosto de Plágio « { Bibliophile } diz: 24 de fevereiro de 2010

    [...] Mundo livro, Tradução e reação (9) [...]

  • Pablo Vallejos diz: 25 de fevereiro de 2010

    Muito legal todo esse debate sobre plágio, traduções, etc.

    Achei ótimo teu artigo “O Homem e a Imagem”, Carlos!!!
    Grande abraço.

    Só um reparo, Pablo, o artigo é do editor de fotografia de ZH, Ricardo Chaves. Abraço
    Carlos André

  • denise bottmann diz: 25 de fevereiro de 2010

    só uma correção, carlos andré: a cultura do romance, do franco moretti, saiu pela cosac naify.

  • Raquel Sallaberry diz: 27 de fevereiro de 2010

    Caro Carlos André,

    muito obrigada pelo apoio e divulgação.

  • Mundo Livro » Blog Archive » Apoio ao Não Gosto de Plágio diz: 1 de março de 2010

    [...] já leram aqui e em um bom número de blogs na internet na última semana a notícia sobre o processo que está [...]

  • Conheça os blogues que nos apoiam « apoiodenise diz: 5 de março de 2010

    [...] Mundo livro, Tradução e reação (9) [...]

  • Meia Palavra » Blog Archive » Blogueira é processada por editora diz: 14 de março de 2010

    [...] Mundo livro, Tradução e reação (9) [...]

Envie seu Comentário