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As dúvidas da tribo

28 de fevereiro de 2010 2

Quando você está escrevendo um livro ou produzindo uma pintura, você está se dirigindo a pessoas que escolheram aquele trabalho. E você sabe que é uma minoria – independente de quão popular meus livros sejam, você pertence a uma espécie de… Quase um tipo de religião minoritária. E, no final das contas, todos nós vamos lá, aos livros, para obter um tipo de consolação, acompanhado de alguma alegria. Nós precisamos de livros ou de pinturas — eu nunca me refiro à música porque sou estúpido no assunto — porque nós precisamos ser consolados. E, é claro, o fato de que nós vamos até o imaginário também está relacionado com o fato de que este mundo real – talvez a distinção também seja falsa – não é suficientemente satisfatório.”
Orhan Pamuk, escritor turco, Prêmio Nobel de 2006, autor de
Meu Nome É Vermelho e Neve

“Para mim, escrever é físico. Sempre tenho a impressão de que as palavras estão saindo do meu corpo e não apenas da minha mente. Eu escrevo à mão e a caneta está arranhando as palavras na página. Posso até ouvir as palavras sendo escritas. Muito do esforço em escrever prosa, para mim, está ligado a criar sentenças que capturem a música que ouço na minha cabeça. Demanda um bocado de trabalho, escrever, escrever e reescrever até captar a música exatamente como você quer que ela seja. Essa música é uma força física. Você não apenas escreve livros fisicamente, mas também os lê fisicamente. Há algo sobre os ritmos da linguagem que corresponde aos ritmos dos nossos próprios corpos.”
Paul Auster, escritor americano, autor da
Trilogia de Nova York e de Viagens no Scriptorium

Quando escritores se reúnem, o resultado é menos uma coleção de frases definitivas e mais a interrogação sobre as dúvidas de quem se dedica ao ofício de escrever. É o que se pode notar em Conversas entre Escritores, livro que reúne 21 entrevistas em que autores se questionam sobre os rumos de seu trabalho (como vocês podem ler nos trechos acima e nos demais espalhados por este post). O livro reúne entrevistas publicadas originalmente na revista literária americana Believer (cujo simbolo vocês podem ver ali na abertura desta entrada), fundada e dirigida por jovens escritores, e de onde também já foram recolhidos as críticas literárias de Nick Hornby reunidas em Frenesi Polissilábico (Rocco, 2009). A Believer, editada por escritores, os principais Vendela Vida e o autor de O Que é o Quê e do roteiro de Onde Vivem os Monstros, Dave Eggers, tem o dogma polêmico de só falar sobre obras ou autores do qual se possa dizer algo bom – o resultado é que as entrevistas não são questionários incisivos, e sim trocas entusiasmadas de ideias.

“Acho que foi Fay Weldon que disse que um homem jamais poderia escrever sobre uma mulher apropriadamente, o que eu achava ridículo. Usando a lógica dessa afirmação, romancistas poderiam escrever apenas sobre si mesmos. Você não poderia escrever sobre um velho, um jovem, ou uma pessoa que você não conhece. Henry James disse que, no contrato entre o escritor e o leitor, uma coisa que nós precisamos aceitar como certa é o conteúdo da obra. Eu aceito isso inteiramente. É um grande contrato. Não existem lugares para onde sua imaginação não possa ir.”
Ian McEwan, romancista britânico, autor de
Reparação e Sábado

Como seria de se esperar de um volume reunindo entrevistas feitas para uma revista que circula no mercado americano, boa parte dos autores – entrevistados ou entrevistadores – são pouco ou nada conhecidos no Brasil, mesmo os que já tiveram obra publicada por aqui. John Banville, vencedor do Man Booker Prize e um artesão da prosa que já teve três obras traduzidas no Brasil (a última delas O Mar, pela Nova Fronteira) é um deles. Mas as considerações que ele faz na conversa com Ben Ehrenreich sobre a transcendência da literatura merecem ser lidas. Bem como Janet Malcolm, autora do ótimo misto de biografia e ensaio Lendo Tchekov (Ediouro), quando disserta sobre a inescapável traição que a reportagem e a biografia representam para seus personagens: “A maioria daqueles que servem de tema para matérias de jornais ou revistas sentem, no mínimo, que foram mal-interpretados, quando não completamente traídos“.

Mas o deleite do livro vem, é claro, das declarações dos grandes mestres sobre seu ofício (selecionei algumas para este post). Ian McEwan ouve Zadie Smith, sua entrevistadora, autora de O Caçador de Autógrafos, contar sobre a ocasião em que caiu de uma janela em sua casa e como aquilo pareceu ter demorado uma eternidade, e depois Zadie transcende o comentário para a maestria que McEwan tem no uso do tempo em sua narrativa. E McEwan lamenta ter enfocado tão diretamente o tempo em A Criança no Tempo – para ele, é inútil escrever que um personagem sentiu o tempo desacelerar: “Não é necessário dizer isso. A própria prosa se encarrega de diminuir o ritmo”.

Paul Auster explica por que sempre sentiu necessidade de explorar em suas narrativas a questão fundamental da ficção como um produto da imaginação e não realidade: “Ao longo dos anos, tenho me interessado intensamente pela artificialidade dos livros. Quero dizer, afinal de contas, quem está brincando com quem”. Dave Eggers tem uma conversa reveladora com Joan Didion sobre política e sua Califórnia natal – a entrevista, contudo, data de um período anterior ao vivido pela autora e descrito em seu best-seller O Ano do Pensamento Mágico.

O livro é, já chegamos a esse acordo, material de primeira. Mas há um senão, grave, impossível de ignorar, na edição brasileira, trabalho descuidado da editora Arte e Letra — o que como leitor me surpreende, uma vez que eles vêm publicando uma ótima revista literária de contos com o nome da editora e, em vez de numerada, com edições identificadas por letras (já escrevemos sobre ela aqui). Neste Conversas entre Escritores, contudo, a tradução de muitas entrevistas é truncada, quando não incorreta, como no caso da entrevista concedida pelo Nobel turco Orhan Pamuk, na qual a entrevistadora Alexandra Rockingham refere-se ao processo que o escritor sofreu por dizer que, na Turquia, haviam sido mortos “um milhão de americanos“. No original, o escritor se referia a um milhão de armênios – um erro fundamental que muda completamente o sentido da frase. É também imperdoável ver Ian McEwan, autor conhecido pela excelência de sua prosa, dizer “sinto (SIC) de segurança” – erros grosseiros e tristemente irônicos em uma obra na qual tantos autores falam da busca obsessiva pela correção da frase.

“Não estou, em absoluto, dizendo que escritores não devem expressar suas opiniões. No entanto, acredito que ao invés de expressar suas opiniões sobre diversos assuntos, o papel do escritor seria mais corretamente o de mentir em sua descrição tão apuradamente quanto possível (como Kafka descreveu sua máquina de execução minuto a minuto), sua preferência pessoal e o impacto do meio que acaba por dar molde a estas opiniões. Para colocar de modo mais extremo, o que um novelista realmente precisa não são opiniões variadas, mas um sistema pessoal de contar histórias no qual suas opiniões possam firmemente se basear.”
Haruki Murakami, romancista japonês, autor de
Kafka À Beira-mar e Após o Anoitecer

Joe Sacco usa HQs para fazer reportagens políticas. Então quadrinhos são apenas um outro meio para você se expressar. Não é cinema, não é literatura, é outra coisa. Eles têm um requisito específico, que é contar histórias por meio de imagens. Existem muitos filmes ruins, com armas, ação e Arnold Schwarzenegger ou o que for. Não é culpa dos filmes. É culpa dos diretores que fizeram esses filmes. Qualquer meio pode sobreviver apenas dos esforços das pessoas que trabalham nele. Se eles foram usados para contar histórias ruins ou entediantes, não é um problema dos quadrinhos.”
Marjane Satrapi, quadrinista iraniana, autora de
Persépolis

Comentários (2)

  • Vida submersa | Mundo Livro diz: 31 de maio de 2011

    [...] escritor, é também editor das consagradas revistas literárias e de crítica cultural McSweeney e Believer. É também, como comprova a leitura de seu mais recente livro a ser lançado no Brasil, Zeitoun, o [...]

  • Mundo Livro » Arquivo » Descongelando os subzeros – parte 2 diz: 6 de setembro de 2012

    [...] do tempo da prosa. Em uma entrevista a Zadie Smith incluída no livro Conversas entre Escritores (resenha aqui), Ian McEwan reconhece que foi um equívoco escrever repetidamente em seu livro A Seta do Tempo que [...]

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