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O colecionador gentil

28 de fevereiro de 2010 2

Mindlin recebe título Honoris Causa em Passo Fundo em 2007. Foto: Tadeu Vilani/ZH

O maior colecionador de livros do Brasil falou pouco sobre eles quando ocupou o palco da Jornada Nacional de Passo Fundo, em 2007, para receber o título de Doutor Honoris Causa da UPF pelos anos recolhendo uma das mais ricas coleções privadas do país. José Mindlin falou muito, contudo, de amor, o amor que viveu nas décadas de casamento com sua mulher e parceira de empreitada Guita Mindlin, que havia falecido no ano anterior.

– Nós éramos estudantes de Direito e era uma época em que havia muitos rapazes fazendo-lhe a corte, falndo de política, do comunismo, da necessidade de adesão a um partido, e eu cheguei e disse: “moça, esse papo de partido é muito interessante, mas bom partido aqui sou eu. Acho que ela acreditou – contou Mindlin, entre as muitas histórias de sua parceria afetuosa com a esposa com quem foi casado por 68 anos, para quem, como ele lembrava, “lia poesia em voz alta”.

- Tive sorte de gostar de ler poesia em voz alta e de ela gostar de me ouvir

Mindlin foi, definitivamente, o personagem daquela jornada, conquistando com sua simplicidade, humor gaiato e simpatia a plateia reunida para ver a concessão do título. Foi aplaudido pelo Circo da Cultura nove vezes – três delas com a audiência de pé. Emocionado com a outorga do título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Passo Fundo, desculpou-se pelos problemas de visão que o impediam de ler um agradecimento e o obrigavam a se dirigir ao público de maneira informal. Narrou também passagens de sua vida, como os cinco anos na já citada faculdade de Direito (“Enquanto o professor falava, eu ficava no fundo da sala lendo boa literatura”). Mindlin era um bibliófilo que não trancava sua valiosa coleção em um cofre reforçado, pelo contrário, disponibilizava-a para empréstimo e pesquisas a universidades.

Mindlin morreu hoje aos 95 anos, em São Paulo, como vocês podem ler nesta notícia. Em homenagem à sua figura elegante e à memória de um homem que se dedicou aos livros quando isso parece tão surreal hoje em dia, republico abaixo a matéria que minha colega Larissa Roso, que cobria comigo a Jornada daquele ano, publicou na capa do caderno especial sobre o evento, um perfil desse gentil colecionador:

O Herói dos Livros

Larissa Roso

José Ephim Mindlin fez pelos livros o que na TV e no cinema se faz por amor: perseguições, viagens a paragens distantes motivadas por uma última esperança, rastreamento de pistas nem sempre confiáveis, negociações dispendiosas e demoradas. O dono da maior biblioteca privada do país agora acrescenta aos elementos anteriores mais um item que parece ficção: prestes a completar 93 anos, Mindlin não consegue mais ler. Uma ironia da vida, na falta de definição mais certeira, que força o bibliófilo, com um problema na mácula (um ponto da retina), a depender de alguém que faça a leitura em voz alta.
– Várias pessoas lêem para mim. Em geral, moças. Marmanjo é menos interessante – conta o empresário que recebeu ontem à noite, em cerimônia no Circo da Cultura, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Passo Fundo.
Mindlin tem hoje, espalhados por cômodos e anexos da casa onde mora há 60 anos, em São Paulo, 38 mil títulos catalogados ao longo de oito décadas. Se o acervo fosse contado em unidades, beiraria os 50 mil, numa estimativa do dono.
– Como no Vaticano, meço por quilômetros. São uns dois, três quilômetros – brinca.
Em 2006, Mindlin perdeu a companheira de vida e de hobby: Guita morreu aos 89 anos. Viajante freqüente, o imortal da Academia Brasileira de Letras não ficou só: perambula sempre com um dos filhos. A Passo Fundo, foram os quatro: a antropóloga Betty, a designer Diana, o engenheiro Sérgio e a socióloga Sônia.
Quando começou a andar pelo Brasil e pelo Exterior, Mindlin estabeleceu um método para a garimpagem de novos títulos e raridades: ao chegar a um destino, abria a lista telefônica e se programava para visitas a sebos e livrarias. Certa vez, aproveitou um convite da Air France para um vôo inaugural do trecho Buenos Aires – Paris e foi tentar pôr fim a uma busca que o vinha agastando: encontrar um exemplar raríssimo de O Guarani, de José de Alencar. Pagou US$ 4 mil.
Andou agarrado à obra-prima até retornar e, no avião, dormiu com o livro no colo. Ao acordar… Cadê? Chegou em casa e anunciou, faceiro:
– Guita, sabe o que eu encontrei em Paris?
– O quê?
O Guarani!!!
– Ah, mas que coisa formidável!
– É, mas já perdi!
Ainda que o humor de Mindlin estivesse a salvo, a companhia aérea conseguiu localizar e devolver o livro.

Comentários (2)

  • luiz carlos knopp diz: 1 de março de 2010

    Numa época em que muitos desdenham da cultura, em que nossos jovens “primam” por escrever e falar de forma errada, JOSÉ MiNDLIN, lutava pela sua preservação. Perde o Brasil e a cultura nacional, um dos seus maiores expoentes, mas seu legado, haverá de por décadas ser lembrado pelos brasileiros, que veem na cultura, o início da redenção do nosso país.

  • André Knewitz diz: 3 de março de 2010

    Se algum dia eu participar daquelas entrevistas do tipo: uma cor?, um prato?, dia ou noite?, um artista?, um herói?, o meu herói não será Ayrton Senna, nem Tancredo Neves, nem Che Guevara. Será, com certeza, José Mindlin. Quisera eu conseguir juntar 1% de seus livros. O paraíso é sim uma biblioteca. E Mindlin viveu e vivera para sempre no paraíso.

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