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Posts de fevereiro 2010

As dúvidas da tribo

28 de fevereiro de 2010 2

Quando você está escrevendo um livro ou produzindo uma pintura, você está se dirigindo a pessoas que escolheram aquele trabalho. E você sabe que é uma minoria – independente de quão popular meus livros sejam, você pertence a uma espécie de… Quase um tipo de religião minoritária. E, no final das contas, todos nós vamos lá, aos livros, para obter um tipo de consolação, acompanhado de alguma alegria. Nós precisamos de livros ou de pinturas — eu nunca me refiro à música porque sou estúpido no assunto — porque nós precisamos ser consolados. E, é claro, o fato de que nós vamos até o imaginário também está relacionado com o fato de que este mundo real – talvez a distinção também seja falsa – não é suficientemente satisfatório.”
Orhan Pamuk, escritor turco, Prêmio Nobel de 2006, autor de
Meu Nome É Vermelho e Neve

“Para mim, escrever é físico. Sempre tenho a impressão de que as palavras estão saindo do meu corpo e não apenas da minha mente. Eu escrevo à mão e a caneta está arranhando as palavras na página. Posso até ouvir as palavras sendo escritas. Muito do esforço em escrever prosa, para mim, está ligado a criar sentenças que capturem a música que ouço na minha cabeça. Demanda um bocado de trabalho, escrever, escrever e reescrever até captar a música exatamente como você quer que ela seja. Essa música é uma força física. Você não apenas escreve livros fisicamente, mas também os lê fisicamente. Há algo sobre os ritmos da linguagem que corresponde aos ritmos dos nossos próprios corpos.”
Paul Auster, escritor americano, autor da
Trilogia de Nova York e de Viagens no Scriptorium

Quando escritores se reúnem, o resultado é menos uma coleção de frases definitivas e mais a interrogação sobre as dúvidas de quem se dedica ao ofício de escrever. É o que se pode notar em Conversas entre Escritores, livro que reúne 21 entrevistas em que autores se questionam sobre os rumos de seu trabalho (como vocês podem ler nos trechos acima e nos demais espalhados por este post). O livro reúne entrevistas publicadas originalmente na revista literária americana Believer (cujo simbolo vocês podem ver ali na abertura desta entrada), fundada e dirigida por jovens escritores, e de onde também já foram recolhidos as críticas literárias de Nick Hornby reunidas em Frenesi Polissilábico (Rocco, 2009). A Believer, editada por escritores, os principais Vendela Vida e o autor de O Que é o Quê e do roteiro de Onde Vivem os Monstros, Dave Eggers, tem o dogma polêmico de só falar sobre obras ou autores do qual se possa dizer algo bom – o resultado é que as entrevistas não são questionários incisivos, e sim trocas entusiasmadas de ideias.

“Acho que foi Fay Weldon que disse que um homem jamais poderia escrever sobre uma mulher apropriadamente, o que eu achava ridículo. Usando a lógica dessa afirmação, romancistas poderiam escrever apenas sobre si mesmos. Você não poderia escrever sobre um velho, um jovem, ou uma pessoa que você não conhece. Henry James disse que, no contrato entre o escritor e o leitor, uma coisa que nós precisamos aceitar como certa é o conteúdo da obra. Eu aceito isso inteiramente. É um grande contrato. Não existem lugares para onde sua imaginação não possa ir.”
Ian McEwan, romancista britânico, autor de
Reparação e Sábado

Como seria de se esperar de um volume reunindo entrevistas feitas para uma revista que circula no mercado americano, boa parte dos autores – entrevistados ou entrevistadores – são pouco ou nada conhecidos no Brasil, mesmo os que já tiveram obra publicada por aqui. John Banville, vencedor do Man Booker Prize e um artesão da prosa que já teve três obras traduzidas no Brasil (a última delas O Mar, pela Nova Fronteira) é um deles. Mas as considerações que ele faz na conversa com Ben Ehrenreich sobre a transcendência da literatura merecem ser lidas. Bem como Janet Malcolm, autora do ótimo misto de biografia e ensaio Lendo Tchekov (Ediouro), quando disserta sobre a inescapável traição que a reportagem e a biografia representam para seus personagens: “A maioria daqueles que servem de tema para matérias de jornais ou revistas sentem, no mínimo, que foram mal-interpretados, quando não completamente traídos“.

Mas o deleite do livro vem, é claro, das declarações dos grandes mestres sobre seu ofício (selecionei algumas para este post). Ian McEwan ouve Zadie Smith, sua entrevistadora, autora de O Caçador de Autógrafos, contar sobre a ocasião em que caiu de uma janela em sua casa e como aquilo pareceu ter demorado uma eternidade, e depois Zadie transcende o comentário para a maestria que McEwan tem no uso do tempo em sua narrativa. E McEwan lamenta ter enfocado tão diretamente o tempo em A Criança no Tempo – para ele, é inútil escrever que um personagem sentiu o tempo desacelerar: “Não é necessário dizer isso. A própria prosa se encarrega de diminuir o ritmo”.

Paul Auster explica por que sempre sentiu necessidade de explorar em suas narrativas a questão fundamental da ficção como um produto da imaginação e não realidade: “Ao longo dos anos, tenho me interessado intensamente pela artificialidade dos livros. Quero dizer, afinal de contas, quem está brincando com quem”. Dave Eggers tem uma conversa reveladora com Joan Didion sobre política e sua Califórnia natal – a entrevista, contudo, data de um período anterior ao vivido pela autora e descrito em seu best-seller O Ano do Pensamento Mágico.

O livro é, já chegamos a esse acordo, material de primeira. Mas há um senão, grave, impossível de ignorar, na edição brasileira, trabalho descuidado da editora Arte e Letra — o que como leitor me surpreende, uma vez que eles vêm publicando uma ótima revista literária de contos com o nome da editora e, em vez de numerada, com edições identificadas por letras (já escrevemos sobre ela aqui). Neste Conversas entre Escritores, contudo, a tradução de muitas entrevistas é truncada, quando não incorreta, como no caso da entrevista concedida pelo Nobel turco Orhan Pamuk, na qual a entrevistadora Alexandra Rockingham refere-se ao processo que o escritor sofreu por dizer que, na Turquia, haviam sido mortos “um milhão de americanos“. No original, o escritor se referia a um milhão de armênios – um erro fundamental que muda completamente o sentido da frase. É também imperdoável ver Ian McEwan, autor conhecido pela excelência de sua prosa, dizer “sinto (SIC) de segurança” – erros grosseiros e tristemente irônicos em uma obra na qual tantos autores falam da busca obsessiva pela correção da frase.

“Não estou, em absoluto, dizendo que escritores não devem expressar suas opiniões. No entanto, acredito que ao invés de expressar suas opiniões sobre diversos assuntos, o papel do escritor seria mais corretamente o de mentir em sua descrição tão apuradamente quanto possível (como Kafka descreveu sua máquina de execução minuto a minuto), sua preferência pessoal e o impacto do meio que acaba por dar molde a estas opiniões. Para colocar de modo mais extremo, o que um novelista realmente precisa não são opiniões variadas, mas um sistema pessoal de contar histórias no qual suas opiniões possam firmemente se basear.”
Haruki Murakami, romancista japonês, autor de
Kafka À Beira-mar e Após o Anoitecer

Joe Sacco usa HQs para fazer reportagens políticas. Então quadrinhos são apenas um outro meio para você se expressar. Não é cinema, não é literatura, é outra coisa. Eles têm um requisito específico, que é contar histórias por meio de imagens. Existem muitos filmes ruins, com armas, ação e Arnold Schwarzenegger ou o que for. Não é culpa dos filmes. É culpa dos diretores que fizeram esses filmes. Qualquer meio pode sobreviver apenas dos esforços das pessoas que trabalham nele. Se eles foram usados para contar histórias ruins ou entediantes, não é um problema dos quadrinhos.”
Marjane Satrapi, quadrinista iraniana, autora de
Persépolis

O colecionador gentil

28 de fevereiro de 2010 2

Mindlin recebe título Honoris Causa em Passo Fundo em 2007. Foto: Tadeu Vilani/ZH

O maior colecionador de livros do Brasil falou pouco sobre eles quando ocupou o palco da Jornada Nacional de Passo Fundo, em 2007, para receber o título de Doutor Honoris Causa da UPF pelos anos recolhendo uma das mais ricas coleções privadas do país. José Mindlin falou muito, contudo, de amor, o amor que viveu nas décadas de casamento com sua mulher e parceira de empreitada Guita Mindlin, que havia falecido no ano anterior.

– Nós éramos estudantes de Direito e era uma época em que havia muitos rapazes fazendo-lhe a corte, falndo de política, do comunismo, da necessidade de adesão a um partido, e eu cheguei e disse: “moça, esse papo de partido é muito interessante, mas bom partido aqui sou eu. Acho que ela acreditou – contou Mindlin, entre as muitas histórias de sua parceria afetuosa com a esposa com quem foi casado por 68 anos, para quem, como ele lembrava, “lia poesia em voz alta”.

- Tive sorte de gostar de ler poesia em voz alta e de ela gostar de me ouvir

Mindlin foi, definitivamente, o personagem daquela jornada, conquistando com sua simplicidade, humor gaiato e simpatia a plateia reunida para ver a concessão do título. Foi aplaudido pelo Circo da Cultura nove vezes – três delas com a audiência de pé. Emocionado com a outorga do título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Passo Fundo, desculpou-se pelos problemas de visão que o impediam de ler um agradecimento e o obrigavam a se dirigir ao público de maneira informal. Narrou também passagens de sua vida, como os cinco anos na já citada faculdade de Direito (“Enquanto o professor falava, eu ficava no fundo da sala lendo boa literatura”). Mindlin era um bibliófilo que não trancava sua valiosa coleção em um cofre reforçado, pelo contrário, disponibilizava-a para empréstimo e pesquisas a universidades.

Mindlin morreu hoje aos 95 anos, em São Paulo, como vocês podem ler nesta notícia. Em homenagem à sua figura elegante e à memória de um homem que se dedicou aos livros quando isso parece tão surreal hoje em dia, republico abaixo a matéria que minha colega Larissa Roso, que cobria comigo a Jornada daquele ano, publicou na capa do caderno especial sobre o evento, um perfil desse gentil colecionador:

O Herói dos Livros

Larissa Roso

José Ephim Mindlin fez pelos livros o que na TV e no cinema se faz por amor: perseguições, viagens a paragens distantes motivadas por uma última esperança, rastreamento de pistas nem sempre confiáveis, negociações dispendiosas e demoradas. O dono da maior biblioteca privada do país agora acrescenta aos elementos anteriores mais um item que parece ficção: prestes a completar 93 anos, Mindlin não consegue mais ler. Uma ironia da vida, na falta de definição mais certeira, que força o bibliófilo, com um problema na mácula (um ponto da retina), a depender de alguém que faça a leitura em voz alta.
– Várias pessoas lêem para mim. Em geral, moças. Marmanjo é menos interessante – conta o empresário que recebeu ontem à noite, em cerimônia no Circo da Cultura, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Passo Fundo.
Mindlin tem hoje, espalhados por cômodos e anexos da casa onde mora há 60 anos, em São Paulo, 38 mil títulos catalogados ao longo de oito décadas. Se o acervo fosse contado em unidades, beiraria os 50 mil, numa estimativa do dono.
– Como no Vaticano, meço por quilômetros. São uns dois, três quilômetros – brinca.
Em 2006, Mindlin perdeu a companheira de vida e de hobby: Guita morreu aos 89 anos. Viajante freqüente, o imortal da Academia Brasileira de Letras não ficou só: perambula sempre com um dos filhos. A Passo Fundo, foram os quatro: a antropóloga Betty, a designer Diana, o engenheiro Sérgio e a socióloga Sônia.
Quando começou a andar pelo Brasil e pelo Exterior, Mindlin estabeleceu um método para a garimpagem de novos títulos e raridades: ao chegar a um destino, abria a lista telefônica e se programava para visitas a sebos e livrarias. Certa vez, aproveitou um convite da Air France para um vôo inaugural do trecho Buenos Aires – Paris e foi tentar pôr fim a uma busca que o vinha agastando: encontrar um exemplar raríssimo de O Guarani, de José de Alencar. Pagou US$ 4 mil.
Andou agarrado à obra-prima até retornar e, no avião, dormiu com o livro no colo. Ao acordar… Cadê? Chegou em casa e anunciou, faceiro:
– Guita, sabe o que eu encontrei em Paris?
– O quê?
O Guarani!!!
– Ah, mas que coisa formidável!
– É, mas já perdi!
Ainda que o humor de Mindlin estivesse a salvo, a companhia aérea conseguiu localizar e devolver o livro.

Crítica musico-literária

27 de fevereiro de 2010 0

A essa altura vocês já devem ter dado uma olhada na matéria de hoje do Cultura na qual Arthur Nestrovski, atual diretor da maior orquestra sinfônica do Brasil, a Osesp, fala sobre os rumos da instituição e sua ideia para um repertório sinfônico. Nestrovski é músico (violonista clássico por formação) e escritor – (autor de obra infanto-juvenis como Agora eu Era e Bichos que Existem e Bichos que Não Existem e de de ensaios como os reunidos na recente coletânea Palavra e Sombra), pedimos a dois colaboradores do caderno cultura que fizessem a ele cada um uma pergunta. O perfil dos entrevistadores dá conta da dupla atividade do entrevistado: o músico e colunista Celso Loureiro Chaves e o crítico, professor de Literatura Brasileira da UFRGS e escritor Luís Augusto Fischer. O resultado vai abaixo:

Celso Loureiro Chaves – A crítica de música erudita ainda tem alguma função no Brasil?
Arthur Nestrovski –
A crítica tem função se a música tem função. Mas a função da música diminui quando a crítica desaparece. Então, no mínimo, uma das funções da crítica é reforçar a inserção da música no cenário cultural. O que não é pouca coisa.

Luís Augusto Fischer – Que recordações o senhor guarda de seus tempos de aluno de Armando Albuquerque?
Arthur Nestrovski –
Vim a ser aluno do professor Armando no primeiro ano de Composição e Regência na UFRGS, no primeiro semestre de 1980. Todos que tiveram aula com ele têm a lembrança não só das ideias e da música, mas da personalidade e do trato pessoal. Ele foi uma das pessoas mais indescritivelmente delicadas que eu tive o prazer de conhecer. Era uma delicadeza de alma e de trato e que não diminuía em nada o arrojo e a loucura das suas ideias musicais e artísticas. Compôs pouco para o músico que era, tem uma produção mais pianística do que sinfônica. Em São Paulo, ninguém conhece Armando Albuquerque. Digo a eles: é o Mario Quintana da música de concerto do Rio Grande do Sul. As pessoas ficam espantadas porque não conhecem. Passados quase 30 anos da morte do professor, está mais do que na hora de sua música ser tocada e ouvida.

Uruguai em perspectiva

27 de fevereiro de 2010 0

DO CADERNO CULTURA DESTE SÁBADO

No dia 1º de março, José Pepe Mujica toma posse na presidência do Uruguai. Nos anos 70, a transição uruguaia da democracia à ditadura foi acompanhada de perto pela imprensa brasileira, como mostram imagens feitas pelo editor de Fotografia de Zero Hora, Ricardo Chaves.

Tradução e reação

23 de fevereiro de 2010 10

Considero uma vergonha o assalto sistemático que várias editoras fizeram e ainda fazem ao trabalho honesto de dezenas de tradutores, inclusive agindo como verdadeiros ladrões de sepulturas ao se apropriarem do trabalho de intelectuais já mortos. Esses prostíbulos editoriais não só transvestem versões antigas, em muitos casos copiam de cabo a rabo os textos de outrem, atribuindo-os a pessoas cujos nomes inventam com total descaramento. Tenho participado ativamente do movimento de protesto. Recomendo que os amantes da literatura consultem o site http://naogostodeplagio.blogspot.com para conhecer melhor a extensão desses assaltos e assim poder expulsar de suas estantes as traduções bastardas.

A declaração acima foi dada pelo tradutor e diplomata Jório Dauster em uma entrevista para o editor de ZH Ticiano Osório na época do lançamento por aqui do livro Indignação, de Philip Roth, que Dauster passava a traduzir no lugar de Paulo Henriques Britto, tradutor dos sete livros anteriores do autor americano (a íntegra da entrevista está aqui). Quem lê este blog sabe que já há anos acompanhamos com interesse questões relativas a tradução, seja comentando uma que outra seja fazendo aquelas comparações entre diferentes versões de uma mesma obra. Foi por meio desse interesse que conhecemos o blog que Jorio Dauster cita na resposta acima, o Não Gosto de Plágio, comandado pela tradutora Denise Bottmann, que entre outros trabalhos traduziu recentemente o primeiro volume da coletânea de ensaios A Cultura do Romance, lançado no ano passado pela Companhia das Letras Cosac Naify.

Denise vem se dedicando há pelo menos três anos, nas páginas do blog, a comparar traduções novas de obras clássicas ou nem tanto cuja semelhança com traduções antigas da mesma obra parecem mais do que mera coincidência. Os principais casos documentados por Denise dizem respeito às editoras Martin Claret e Nova Cultural, cujas traduções de obras clássicas em domínio público são atribuídas a personagens de nomes insólitos e biografias de difícil comprovação – e carregam semelhança de gêmeos univitelinos com traduções antigas hoje fora de catálogo. A Martin Claret já processou Denise por isso – perdeu em primeira instância, mas está recorrendo.

Agora outra editora, a Landmark, está processando a tradutora autora por danos morais e materiais – pelas semelhanças apontadas por ela entre a tradução do romance Persuasão, de Jane Austen, assinada pelo próprio diretor da editora, Fábio Cyrino, e sobre a qual já escrevi aqui antes de saber do rolo e outra versão mais antiga, de Isabel Sequeira. As estranhas coincidências, que incluem até mesmo erros de revisão idênticos, foram apontadas primeiro pela blogueira Raquel Sallaberry, da página Jane Austen em Português – e Raquel também está sendo processada pela editora

A Landmark vem lançando toda obra de Jane Austen em novas versões que são, na minha opinião de leitor, decepcionantes do ponto de vista gráfico. As capas e o miolo em bom papel dão uma ideia de sofisticação que logo é desfeita pela diagramação e paginação descuidada do texto em português – a tradução de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, também lançada pela editora, tinha tantos erros de revisão e disparidades de padrão gráfico que não cheguei ao fim da leitura da versão, e logo estava preferindo ler a parte original – sim, esse é um grande mérito das edições da Landmark: são bilíngues.

Isso não significa necessariamente que a empresa seja culpada de plágio, algo que, ironicamente, poderá ser esclarecido pela ação na Justiça que a Landmark impetrou contra Denise. O que justifica o acompanhamento atento por parte da blogosfera desse processo, é que a editora pleiteou a retirada liminar do blog inteiro do ar – numa atitude de censura que extrapola o direito que todos têm de recorrer à Justiça quando têm demandas. Uma atitude lamentavelmente cada vez mais comum na internet, diga-se. Bom, que a Justiça se manifeste.

Como eu só pude atualizar o blog agora, dou o link para o lugar em que eu primeiro li a notícia, o blog Todoprosa, de Sergio Rodrigues.

O Homem e a Imagem

21 de fevereiro de 2010 2

E aqui, vocês podem ler o texto do Ricardo Chaves, editor de Fotografia de ZH, sobre a morte do personagem da foto da que documenta a queda de Berlim nas mãos dos soviéticos (acima). Este material também é complementar ao que saiu no Cultura deste fim de semana.

A Sacralidade da Imagem

Ricardo Chaves

Com a morte do soldado Ismailov, último ator da cena (imortalizada pelo fotógrafo Yevgeny Khaldei) em que uma bandeira soviética tremula sobre o Reichstag proclamando a queda de Berlim e decretando a derrota dos nazistas na Segunda Guerra, volta a velha discussão sobre verdades e mentiras na fotografia.

Fotografia é um tipo de comunicação tão extraordinário que algumas imagens, possuidoras de magnífica forma e consistente conteúdo, acabam sacralizadas pelo tempo, adquirindo status de ícones de uma época e de um fato. Tudo que é consagrado e célebre torna-se, simultaneamente, alvo de inconformados críticos e convictos iconoclastas. É natural, e até saudável, que seja assim.

Com a famosa foto de Khaldei não é diferente. Cada vez que ela aparece ou é citada, lá vem o esquadrão de detratores sempre dedicados à inútil tarefa de combater mitos. Munidos de informações, tão precisas quanto irrelevantes, contam detalhadamente a história da foto sem levar em conta que se trata, tão somente, de uma foto histórica.

Análises mais serenas levam, inevitavelmente, à conclusão que, na grande maioria das vezes, são as circunstâncias que estabelecem o roteiro e escalam os protagonistas que estarão, ou não, à altura de suas responsabilidades. O isolamento, o mistério, a falta de acesso, a ignorância, podem ajudar a consolidar equívocos. Na atual era da informação on line, isso tudo está mais longe, pelo menos para quem estiver disposto e ligado. O que aconteceu no passado deve ser visto naquele contexto. Tudo está diferente. Agora, numa inundação de informações visuais e comunicação imediata, nada se destaca. Temos que ser mais espertos. Quase tudo está à mostra e nada aparece. A velha e única foto do nosso bisavô é muito mais importante do que as centenas de fotos que tiram da gente toda hora. Melhor usar nosso rigor para examinar o que se faz hoje.

Para começar, é bom atribuir à fotografia o que ela realmente é (e sempre foi): um misto de realidade e ficção. Se a foto no Reichstag foi feita dois dias depois, se a bandeira foi levada pelo fotógrafo, isso tudo, no momento, pouco importa. Temos que entender a fotografia desse jeito e ela é tão fantástica que, devido ao seu vínculo com o real, mesmo quando “armada”, ou feita sob encomenda, contém grande teor explosivo e poder revelador. Os dois relógios (um em cada braço, provavelmente fruto de saques) que o herói, agora morto, Ismailov ostentava na foto original, posteriormente retocada, falam tanto sobre a guerra quanto o cenário de destruição que se vê ao fundo. Fotografar, editar, publicar é estabelecer uma parceria, o fotógrafo entra com uma parte e o espectador com outra.

O jornalista mais cínico é capaz de afirmar que, no caso em que a versão esteja mais interessante que os fatos, melhor que se publique a versão. Já o poeta, mais honesto e romântico, lembrou: a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer…

E aí? As coisas são mais complicadas do que parecem, né?

Pilla e o Carnaval

21 de fevereiro de 2010 0

Passista no desfile da União da Vila do IAPI, no carnaval de Porto Alegre deste ano. Foto: Ricardo Jaeger

E agora, confiram abaixo artigo do recentemente falecido político e intelectual Luis Pilla Vares sobre o carnaval, complementar à matéria do Caderno Cultura:

O carnaval é indiscutivelmente a maior festa do povo brasileiro. Mesmo que suas origens sejam ainda discutíveis, é certo que foi assumida pelo povo pobre, recebendo cada vez mais a influência marcadamente negra pelo ritmo musical, pelo gingado da dança e, logo pelo samba que acabou sendo a influência decisiva no surgimento da única arte autenticamente brasileira: o desfile das escolas de samba.

Não é meu propósito discorrer aqui sobre as origens das escolas de samba, o que fiz por mais de uma vez em outras ocasiões. Tentarei fixar-me no que o samba trouxe de novo à arte popular, mesmo que este novo não seja percebido conscientemente por seus criadores, o que, aliás, é fato comum no processo de criação artística: nem sempre os artistas têm consciência nítida do que estão produzindo e raramente calculam a influência que sua criação exercerá sobre a arte de seu tempo.

Já se pode perceber, portanto, que trato o Samba e mais especificamente o samba das escolas os desfiles de carnaval _ como um fenômeno estético. Não examino aqui a folia propriamente dita, ainda que a reconheça como um elemento fundamental para que a escola de samba se expresse como tal. Portanto, não é o Carnaval que me preocupa neste artigo, mas uma de suas formas particulares: a escola de samba. E analiso a escola de samba como um gênero artístico, capaz de rivalizar com as outras grandes manifestações estéticas . Vejo acima de tudo a escola de samba como arte moderna, como uma das mais autênticas expressões da contemporaneidade. Por sua linguagem, por sua música, pela dança e pela coreografia que apresenta, a escola de samba pode ser vista como um modelo de arte nova, capaz de expressar em seu movimento sempre surpreendente as mais autênticas tradições populares revestidas de uma forma em que se pode perceber nitidamente todos os estilos da arte contemporânea em estado bruto, onde o primitivismo coabita com a mais cativante e revolucionária modernidade.

Certamente a escola de samba, antes um fenômeno artístico nitidamente regional, expressão mais autêntica do sambista carioca, graças à evolução tecnológica dos meios de comunicação _ a tv foi um fator decisivo para isso _ ultrapassou as fronteiras do Rio de Janeiro e hoje sem dúvida alguma adquiriu as dimensões gigantescas de um grande espetáculo nacional, onde _ para bem ou para mal _ não se pode afirmar que a antiga e espontânea folia seja o seu requisito essencial. Atualmente, o telespectador sentado comodamente em sua poltrona ou o público apertado nas arquibancadas do sambódromo assume mais ou menos a postura de alguém diante de um teatro, ou um concerto ou de uma ópera do que o descompromisso e a participação corporal inerente ao folião dos velhos carnavais brasileiros.

Discute-se se isto foi positivo ou negativo e há uma multidão de tradicionalistas que encara este processo como uma brutal negação das raízes do samba. Mas nada há que fique sempre igual a si mesmo. E se assim ocorre na vida, também acontece no universo artístico, onde a mudança e a busca da modernidade em muitos casos a própria essência do processo criativo. Seria ingenuidade ou má fé pensar-se numa arte popular confinada a si própria, sem se nutrir das mudanças _ em alguns casos revolucionárias _ que ocorrem na sociedade da qual é a expressão mais legítima, ou nas outras artes de que não pode se isolar. Aliás, o próprio samba surgiu como uma revolução musical. Ou vamos negar que o velho Donga rompeu com toda uma série de padrões estabelecidos? Ou vamos negar que Noel Rosa trouxe para a música uma nova forma de crônica do quotidiano urbano do Rio de Janeiro?

Assim, a escola de samba em seus moldes atuais traz para o universo artístico uma multidão de espectadores, um novo público de especialistas que já se familiarizou com a linguagem específica desvendada durante os desfiles. Ao contrário, porém da passividade característica das salas fechadas, o público das escolas de samba é ativo e contagia o próprio desempenho das mesmas, provocando uma interação desconhecida dos espetáculos tradicionais como o teatro e a ópera (não me refiro aqui ao teatro grego, onde havia uma participação quase semelhante, nem à comédia del’arte e nem ao teatro brechtiano, que exige do seu espectador um nível de participação elevado, embora apenas ao nível da razão, extremamente cerebral e “frio”: refiro-me essencialmente ao teatro burguês e à ópera).

Mas se o desfile das escolas de samba forma um novo tipo de público consumidor, é inegável também que traz para o universo da arte igualmente um novo tipo de astro, que é o homem do povo, o anônimo de todo o ano que se transfigura em bailarino, cantor, músico ou compositor. E isto é instigante e provocador!

Quem já viu um grande desfile, não pode deixar de se admirar da graça aristocrática de uma porta-bandeira e dos passos elegantes e contidos de um verdadeiro mestre-sala; ou da sensualidade e da capacidade de improvisação dos passistas; ou da harmonia e do ritmo _ a que ninguém fica imune _ das baterias consagradas, como, por exemplo, a da Mocidade Independente de Padre Miguel ou a da Portela, aqui mesmo no Rio Grande do Sul, as baterias dos Bambas da Orgia e dos Imperadores do Samba já romperam com a “batida marcial” do samba gaúcho e executam um ritmo gracioso e surpreendentes, verdadeiras orquestras de trabalhadores, a maioria dos quais nunca viu sequer uma partitura em toda a sua vida.

Estes novos astros que executam sua arte diante de um novo público em um novo tipo de “palco” _ as amplas avenidas urbanas _ na verdade estão com uma linguagem artística já plenamente elaborada, o que não quer dizer em absoluto que se tenha definitivamente estagnado. O que ocorre é que o espetáculo de escolas de samba já possui as suas próprias estruturas, em uma conjugação notável do canto e da dança (que é a matéria-prima fundamental, “a infra-estrutura” da escola de samba enquanto forma de arte), com as artes plásticas (as alegorias vêm ocupando um lugar cada vez maior nos desfiles) e com a ópera o enredo ainda possui uma importância decisiva). Nessa medida, o samba das escolas aproxima-se aceleradamente da sonhada arte total. Pelo menos, até agora apenas o desfile das escolas de samba chegou perto desta perspectiva.

O mundo onírico é essencial para um bom desempenho de uma escola na avenida. Mesmo com os velhos enredos, que se caracterizavam por sua estrutura clássica e pela linearidade, a forma com que eles eram “contados” na passarela da avenida desestruturava o “realismo” inerente à história e à letra do samba para adquirir a imaginação sem limites do sonho. A caracterização das personagens, a dança, os passos improvisados, o som da bateria e o surrealismo primitivo das alegorias transformavam o enredo em uma alucinada passagem ao mundo da imaginação, das associações livres e dos símbolos oníricos. Obviamente, esta situação escrita “o asfalto teria repercussões imediatas na estruturação do enredo e do samba que, a partir do fim da década de 60 e início da de 70, assimilaria a forma anárquica, na qual as palavras se incorporavam ao ritmo ou chegavam mesmo a se tornar puramente sons indisfarçavelmente afro. Sons pura a simplicidade que passavam a ter mais significação do que as próprias palavras consagradas que davam revolução a geira, censura imposta não podem ser negligenciadas neste abandono da perspectiva crítica e da sátira que sempre estiveram presentes no samba e na introdução do refrão fácil de puros sons. A retomada do espírito satírico, porém, ressurgiu, tornando-se dominante nos quatro últimos anos. De qualquer forma, parece definitivamente encerrada a era dos longos sambas-enredos de conteúdo ufanista e muitas vezes ingênuo (mas não é possível omitir o fato de que verdadeiras obras-primas foram criadas naquele período, como o Mundo Encantado de Monteiro Lobato, Tiradentes e tantos outros). O espírito crítico dos últimos anos, penso eu, é uma espécie de transição, superando-se o samba anárquico inaugurado pelo Salgueiro, mas sem que se chegue a uma nova etapa plenamente consolidada. Os sambas deste ano, por exemplo, incorporam a sátira a uma retomada do tema histórico, como a Abolição da Escravatura em muitos deles. No entanto, creio que a evolução da Mangueira dentro da tradição clássica tem a chave para um samba no qual a sátira não se perca, mas nem tampouco a dimensão literária e “operística” incrustadas em enredos belíssimos como o da homenagem a Drummond e “Yes, nós temos Braguinha” de anos recentes.

Bem, isto é o samba das grandes escolas. Em torno dele e delas é possível uma reflexão que certamente destoa do descompromisso carnavalesco tão comum nestes dias. Mas mesmo sendo o carnaval o momento das escolas, não se pode deixar de colocar em relevo esta apaixonante forma de arte que o povo _ e aqui trata-se verdadeiramente do povo, este segmento deserdado da sociedade, atribulado e angustiado durante quase todos os dias do ano _ vem aperfeiçoando com notável imaginação e criatividade. Vale a pena postar-se diante da tv e sentir o prazer da arte, aquele prazer puro, como uma iguaria, que temos ????por exemplo, ou de uma sinfonia de Beethoven, ou de uma ópera de Verdi. Ou de um quadro de Salvador Dali. Arte pura.

Durante muitos anos usei a expressão “ópera do Terceiro Mundo” para caracterizar este fenômeno estético das escolas de samba grandiosas que desfilam no Rio de Janeiro. Hoje creio que a expressão é inadequada. Não incorreta: inadequada. De fato, trata-se de uma manifestação típica do Terceiro Mundo e tem todos os ingredientes das óperas transformados e transportos para serem interpretados e consumidos nos espaços abertos das avenidas. Por outro lado, o seu conteúdo essencialmente popular, sem assimilar as conquistas da tecnologia moderna, torna o desfile da escola de samba uma manifestação estética típica do Terceiro Mundo, o que ainda se torna mais evidente quando a temática dominante nos enredos trata de um problema tão presente em países como o nosso, que é o da exploração da mão-de-obra escrava, como ocorre neste ano, centenário da Abolição, o que nos aproxima física e espiritualmente da África e, da mesma forma, nos afasta do colonialismo. E Terceiro Mundo não apenas pela temática, que muitas vezes transcende a questão da negritude para levar à Avenida, por exemplo a literatura de Carlos Drumond de Andrade ou o cinema de Charles Chaplin, mas pelo ritmo, pelos personagens, pelos intérpretes. Quem não observa logo nas belíssimas alas de baianas o resgate da dignidade de uma raça? E na elegância do mestre-sala e da porta-bandeira, vestidos sempre e inevitavelmente como as classes dirigentes da era colonial, não está manifesto o desejo dos deserdados _ os escravos _ em ascender ao mundo “limpo” da arte e da elegância desfrutado apenas pelos privilegiados da corte, longe da senzala?

Com todo esse universo rico, com sua linguagem própria e específica, com seus símbolos cheios de significado, definitivamente parece-me que o termo “ópera” fica demasiado estreito para nos referirmos às escolas de samba. Estas já adquiriram plena autonomia estética e não precisam se socorrer de nenhum termo de outras artes para designarem-se a si mesmas. Souberam usar o canto, a música, o balê, o teatro, a literatura, as artes plásticas e a própria ópera, mas seus elementos foram transformados e sintetizados em uma outra unidade, diferente de qualquer outra forma de expressão artística.

Por isso mesmo, não se pode pensar que a escola de samba venha a ser uma simples justaposição de elementos de outras artes. A originalidade começa por se tratar de uma arte de multidões, capaz de reunir um público até aqui só alcançado nas grandes competições esportivas. E este público, tanto o espectador passivo como o ativo, não vem ao caso, coloca-se diante de uma ruptura total com os padrões clássicos da arte ocidental, e, em primeiro lugar, com a sua linearidade (antes, porém, deixemos claro que esta ruptura dá-se no sentido hegeliano da superação _ superar conservando. Inclusive alguns enredos da época heróica das escolas de samba podem, do ponto de vista da trama ou da “historia”, ter sido claramente influenciados pelos poemas homéricos _ a Ilíada e a Odisséia _ ou Virgílio e sua Eneida). Estes enredos, porém, mesmo os mais clássicos, são desdramatizados no desfile e será a forma, carregada de símbolos e de significados que permitirá um novo tipo de leitura ou de descoberta da proposta da escola em relação a sua temática.

Entretanto, seja qual for o enredo, seja a temática que for apresentada, clássica ou anárquica, as escolas de samba conseguem realizar o mágico encontro do primitivo com o moderno, numa tensão permanente, que resulta em horas seguidas de encantamento.

Décio e Brasília

21 de fevereiro de 2010 0

Tive um pequeno problema ao programar os posts do blog para entrar no ar e este texto, que deveria ter ido ao ar ontem, acabou por só entrar agora, bem como os outros dois. Lamento o atraso e desejo boa leitura. O texto abaixo, do historiador Décio Freitas, analisava a criação de Brasília, e serve como complemento ao que vocês leram no Cultura sobre os 50 anos da cidade:

A alma de uma desalmada cidade

Os belos edifícios de Brasília não compensam o erro da mudança da Capital para o Planalto

DÉCIO FREITAS *

Numa das suas viagens a Porto Alegre, no final da década de 50, o presidente Juscelino Kubitschek concedeu, no Palácio Piratini, uma entrevista coletiva, à qual estive presente na condição de repórter político do órgão local dos Diários Associados. Finda a entrevista, acenou-me para que ficasse e perguntou-me se estaria livre no seguinte final de semana. Quando respondi afirmativamente, convidou-me para visitar as obras de construção de Brasília. O presidente havia sido informado dos meus artigos contra a nova Capital e tentava assim persuadir-me da validade do projeto.

Passei um final de semana no rústico Catetinho, acompanhando o presidente nas suas entusiasmadas e incansáveis andanças por aquele imenso canteiro de obras, onde o vento fazia gigantescos redemoinhos de poeira vermelha.

Todos que conheceram Juscelino sabem que era impossível não simpatizar com ele. Ao me despedir, tratei de ser gentil, dizendo que achava tudo aquilo muito “interessante”. Mas continuei a achar um erro a transferência da Capital. Passadas quatro décadas, não mudei de opinião.

Porque construir uma nova Capital, justamente no Planalto Central? Publicamente, dizia-se que era para “interiorizar” o país. À boca pequena, argumentava-se que no Rio, cidade de praias e indolências tropicais, a burocracia não trabalhava e jamais trabalharia. Isolada no Planalto Central, ela se dedicaria ao serviço público. Igualmente à boca pequena, propalava-se que a mudança fora decidida pelas Forças Armadas, em nível de Estado Maior, porque o poder central não podia continuar à mercê das acomodações e pressões populares do Rio, que haviam atingido seu ponto culminante no momento do suicídio de Getúlio Vargas. Para Juscelino, pessoalmente, seria um auto-monumento.

As colossais despesas da construção de Brasília constituíram o germe das futuras hiperinflações brasileiras. Inaugurou-se a era da corrupção em grande escala. A previdência, a saúde e o ensino foram brutalmente sacrificados. Desestabilizou-se a cidade do Rio de Janeiro, em conseqüência da perda de uma gigantesca massa de salários e empregos, afora a perda dos aparelhos de segurança pública que possuía como Capital.
Uma das funções da capital consiste em unificar política e culturalmente uma nação. Ao passo que o Rio cumpria esta função, Brasília sofre de congênita impotência para exercê-la. Não apenas porque é uma cidade sem passado, sem tradição e sem história, habitada por desenraizados, mas sobretudo porque, compondo-se uma população, esmagadoramente, de agentes do Estado, não possui uma sociedade civil. Não tem identidade ou produção culturais. Quer dizer, é uma cidade sem alma urbana. Em nada – na estrutura urbana, nos costumes, na mentalidade – reflete o país. Em lugar de articular, desarticula a vontade e a coesão nacionais. Seu centripetismo governamental e administrativo gera centrifugismo político e cultural.

Vista do alto, Brasília se afigura um autorama. Caso único no mundo: uma cidade sem vida urbana. Não tendo passeios públicos, desconhece a massa urbana. Sem sociedade civil e sem vida urbana, não pode ter uma opinião crítica e fiscalizadora dos negócios públicos. A burocracia não só inchou mastodonticamente, como se tornou ainda mais parasitária. Não por acaso, o Plano Piloto está organizado corporativamente em suas superquadras.

O Rio, como segundo pólo industrial do país, podia quando Capital se auto-sustentar. Brasília, não tendo produção econômica (para evitar o perigo operário, decidiu-se que não teria indústria), precisa ser totalmente mantida pelo país – e não custa barato. Mergulhada na solidão, não repercutem nela as pulsações econômicas, sociais e culturais do país.

O erro tornou-se irreparável. Nem vale a pena pensar no custo de um retorno da Capital ao Rio. E como nunca a sociedade poderá controlar democraticamente semelhante Capital – na verdade uma feitoria administrativa -, só resta reclamar uma desconcentração federativa de poderes.

A única compensação que, em rigor, nos oferece Brasília, é representada pelas obras-primas arquitetônicas de Oscar Niemeyer: o Palácio da Alvorada, a Catedral, o Palácio dos Arcos e outras mais.

Trata-se de uma compensação parecida à das criações geniais do Aleijadinho. O Brasil produziu metade do ouro que saiu das Américas no período colonial. Fundamentalmente, produzia-se ouro para comprar escravos e compravam-se escravos para produzir ouro, o que prova que a escravidão, mais do que uma desumanidade, era uma imbecilidade. A herança imperecível foi a obra de Antônio Francisco Lisboa. O que não quer dizer que o Aleijadinho legitimasse a escravidão. A esfera da arte é autônoma. A genialidade arquitetônica de Niemeyer é a solitária alma da desalmada cidade, mas não pode ser invocada para legitimar o erro político da instalação da Capital no Planalto Central.

* Historiador

Dois links bacanas

19 de fevereiro de 2010 2

Duas coisas legais descobertas por este seu blogueiro enquanto zapeava por aí na rede. A primeira delas é uma entrevista com a antropóloga Lília Moritz Schwarz, autora, entre outros, do livro As Barbas do Imperador, sobre Dom Pedro II, e que organizou recentemente, em parceria com André Botelho, a coletânea Um Enigma Chamado Brasil: 29 intérpretes e um país. Como Lília e Botelho escrevem na apresentação:

O livro apresenta as obras de 29 autores, as quais, tendo em vista as questões dos seus respectivos momentos históricos, e com os recursos intelectuais neles disponíveis, contribuíram de modo crucial para a compreensão da sociedade brasileira, dos seus problemas, dilemas e possibilidades. O resultado é uma visada geral sobre a nossa formação, nas várias dimensões desse processo – cultural, política e social – e tal como ele foi abordado por diferentes intérpretes em obras capitais da nossa tradição intelectual que, sinuosamente, remontam ao Império e chegam aos nossos dias. Estadistas e atores políticos do Império que, diante de problemas relativos à construção do Estado no plano político-administrativo, se viram desafiados a formalizar suas posições também no plano intelectual; os teóricos do racismo científico e seus críticos na Primeira República; modernistas de 1920 e ensaístas clássicos dos anos 1930; a geração pioneira dos cientistas sociais profissionais e seus primeiros discípulos são alguns dos personagens que comparecem nas páginas que se seguem.

Saber que Lília Moritz Schwarcz deu uma entrevista de rádio sobre o livro seria irrelevante antes do advento da internet, mas agora um podcast com a intelectual fica armazenado na rede e pode ser escutado um bom tempo depois de ter ido ao ar pela primeira vez. É o caso desta entrevista que Lília concedeu ao site Rio Bravo – de uma consultora de gestão e investimentos, por incrível que pareça. O link é este aqui, e para ouvir o podcast, infelizmente, é preciso ter o Quicktime, que não é lá essa maravilha. Mas a entrevista vale.

A segunda coisa com a qual esbarrei é o blog de livros do jornal Gazeta do Povo, do Paraná – sempre é bom descobrir que tem mais gente correndo em direção aos mesmos objetivos nesta imensidão infinita que é a internet, por isso saúdo sites literários bacanas quando eles aparecem. Na verdade, o site não “apareceu”, eu que descobri só agora, e curti a abordagem da turma em textos como este, uma crônica sobre o uso do lápis para sublinhar livros:

Levei muito tempo para conseguir escrever a lápis nos meus livros. Antes disso, minha postura era indiana: livro é um negócio sagrado, é preciso respeitá-lo e nunca deixá-lo tocar o chão. E, mais importante, jamais, em hipótese alguma, deve-se rabiscar as suas páginas. Hoje, quando leio para mim ou para o trabalho, continuo usando lápis. Não só porque ele pode ser apagado (curiosamente, nunca apago nada), mas, pensando agora, porque o lápis é esteticamente superior.

O grafite funciona melhor com as letras impressas e, além disso, o universo do lápis é atraente. Basta lembrar do William Faulkner, o autor de Enquanto Agonizo, que costumava apontar dezenas de lápis (com estilete e não com apontador) antes de começar a escrever.

O blog da Gazeta do Povo pode ser encontrado aqui.


Céu particular

19 de fevereiro de 2010 4

Saorsie Ronan em cena de Um Olhar do Paraíso. Foto: Divulgação

Meu sobrenome era Salmon, salmão, igual ao peixe; meu primeiro nome era Susie. Eu tinha 14 anos quando fui assassinada no dia 6 de dezembro de 1973. Nas fotos de meninas desaparecidas que saíam nos jornais nos anos 1970, a maioria se parecia comigo: meninas brancas de cabelos castanhos cor de camundongo. Isso foi antes de todas as raças e sexos começarem a aparecer nas caixas de leite ou na correspondência diária. Ainda era na época em que as pessoas acreditavam que coisas assim não aconteciam.
No meu livro de classe do ginásio coloquei a citação de um poeta espanhol a quem minha irmã tinha me apresentado, Juan Ramon Jimenez. Dizia mais ou menos o seguinte: “Se alguém lhe der uma folha de papel pautado, escreva no sentido contrário”. Escolhi essa citação tanto porque ela expressava meu desprezo pelos ambientes estruturados do tipo sala de aula e porque, já que não era uma citação ridícula de alguma banda de
rock, pensava que ela mostrasse meus dotes literários. Eu fazia parte do Clube de Xadrez e do Clube de Química e queimava tudo o que tentava fazer na aula de prendas domésticas da sra. Delminico. Meu professor preferido era o sr. Botte, que lecionava biologia e gostava de animar os sapos e lagostins que tínhamos de dissecar fazendo-os dançar em suas tigelas enceradas.
A propósito, eu não fui morta pelo sr. Botte. Não pensem que todas as pessoas que vão encontrar aqui são suspeitas. É esse o problema. Nunca se sabe. O sr. Botte compareceu à minha homenagem (assim como, devo acrescentar, quase todo o colégio em que eu estudava — nunca fui tão popular) e chorou bastante. Ele tinha uma filha doente. Todo mundo sabia disso, então, quando ele ria das próprias piadas, que já eram velhas muito antes de ele virar meu professor, nós também ríamos, às vezes nos forçando, só para deixá-lo feliz. A filha dele morreu um ano e meio depois de mim. Ela tinha leucemia, mas nunca a vi no meu céu.
Meu assassino foi um homem do nosso bairro. Minha mãe gostava das flores dos canteiros dele, e meu pai uma vez conversou com ele sobre fertilizantes. Meu assassino acreditava em coisas antiquadas, como casca de ovo e borra de café, que segundo ele sua própria mãe tinha usado. Meu pai chegou em casa sorrindo, fazendo piadas sobre como o jardim do cara podia ser lindo, mas que teria um fedor insuportável quando chegasse o calor.

O trecho acima vem do parágrafo inicial de Uma Vida Interrompida: Memórias de um Anjo Assassinado, de Alice Sebold – que começa, como definiu a jornalista Katharine Viner em uma entrevista com a autora para o Guardian, com “o tipo de frase que te faz famoso”. O livro, lançado em 2003, tornou-se best-seller imediato e deu origem ao filme do aclamado Peter Jackson que estreou esta semana em Porto Alegre e que tem o nome em português de Um Olhar do Paraíso (em tempo: não entendo por que em casos como esse ou o de Ilha do Medo, de Martin Scorsese, as distribuidoras preferem alterar completamente o nome de um filme baseado em um livro). Uma Vida Interrompida narra, como a maioria a essa altura já sabe, a história de Susie Salmon, uma jovem de 14 anos estuprada e morta por um vizinho esquisito depois de ingenuamente seguí-lo até um esconderijo subterrâneo que o homem havia cavado em um milharal próximo de sua casa. Fascinada por ciências, mesmo achando estranho o modo como o vizinho a olha, Susie entra no esconderijo curiosa por saber ciomo ele havia sido construído, um refúgio cavado no solo seis degraus abaixo do chão e protegido por uma porta de madeira – como ela mesmo diz no trecho, era um tempo em que “as pessoas acreditavam que coisas assim não aconteciam“, o que explica a confiança imprudente com que ela segue o estranho que termina por violentá-la e esfaqueá-la até a morte.

É um livro com um início mais que promissor pelo impacto que provoca, pela maneira neutra e desapaixonada como a garota vai narrando o horror infligido pelo seu assassino. Depois de morta, em uma ideia que mescla noções espíritas e católicas, Susie vai para seu “céu particular”, para ser orientada a aceitar que está morta. Não exatamente um “céu particular”, melhor dizendo. É o mesmo céu para todo mundo, mas cada um o vê de modo diferente. Para Susie, o “paraíso” “tinha traves de futebol ao longe e mulheres lançando pesos ou dardos em câmera lenta“. Ali, também, “todos os prédios se pareciam com ginásios suburbanos do nordeste americano construídos nos anos 60. Prédios grandes e atarracados espalhados por terrenos arenosos com projetos paisagísticos ruins, e anexos e espaços abertos para fazê-los parecer modernos“. De lá, ela acompanha a busca por seu corpo desaparecido (o cachorro de um vizinho encontra apenas o cotovelo, daí o título original The Lovely Bones, os “ossos amorosos”), a progressiva desagregação de sua família – a mãe, sem vocação desde o início para a maternidade, lida com o desabar de seu mundo com um caso extraconjugal; o pai desafoga a dor na obsessão por desvendar o que aconteceu com sua filha – e a impunidade tranquila de seu assassino, que chega a oferecer condolências para a família no funeral e alguns anos depois passa a olhar perigosamente para a irmã mais nova de Susie.

Esse ponto de vista narrativo, entretanto, não é exatamente um trunfo do livro. Histórias narradas por mortos, qualquer leitor brasileiro com meio neurônio sabe, não são exatamente novidade. E o ponto no qual  Uma Vida Interrompida difere brutalmente de livros como Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis ou o provocativo Como Vivem os Mortos, do inglês Will Self (leitor de Machado, diga-se) é justamente pela ausência de acidez e pela necessidade de, mais para o fim, abandonar a perspectiva descarnada que insinuava no início para investir cada vez mais em uma redenção sentimental ao gosto médio do apreciador de Sessões da Tarde.  Ao calibrar sua narrativa para a emoção, Sebold parece desfazer-se daquilo que seria a principal qualidade de seu romance – o desapego do morto e a inevitável ironia ácida disso resultante. Vamos ver como o filme se sai com esse material.

Ah, um último comentário. Confesso que só fui ler o livro anos depois que ele saiu, ao saber, em uma notícia em algum lugar, acho que foi no Omelete, que Peter Jackson estava adaptando a história. O motivo é a capa horrorosa da edição nacional – que vocês podem ver aí do lado. O título, a ênfase no ANJO ASSASSINADO em maiúsculas, a imagem de capa e o fato de que esse livro foi lançado mais ou menos na época da reestruturação da Ediouro – que culminou na abertura de dois selos editoriais voltados para autoajuda – me deram, em um primeiro momento, a impressão de ser literatura espírita – contra a qual não tenho nada, mas também não tenho nada a favor, sequer interesse. Provavelmente com a onda em cima do filme, o livro ganhe uma nova edição com a capa remetendo a uma imagem da produção, ao cartaz, alguma coisa assim. Não sou um entusiasta especial desse tipo de recurso, como já expliquei neste post do próprio blog, mas confesso que neste caso acho que o livro vai se beneficiar.