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Quatro mineiros

02 de março de 2010 2

Estátuas dos quatro mineiros na Praça Liberdade, em BH: Sentados, Sabino (à direita) e Lara Resende.
Em pé, Paulo Mendes Campos (com o livro na mão) e Hélio Pellegrino. Imagem do fotógrafo Marcelo Lisa

O fato de sermos amigos não impedia que fôssemos implacáveis no julgamento da produção literária de cada um. Quando dei uma novela de quarenta páginas para que o Hélio lesse, ele o fez diante de mim com a maior atenção, durante horas; a única reação que teve, ao terminar, atirando a novela em cima da mesa, foi dizer:
– Quá…
Um julgamento desses era de jogar os originais no lixo, o que todos nós fizemos mais de uma vez. Ninguém se ofendia: dava o troco na primeira oportunidade. E cada um tinha a sua vez.
Numa delas, o Otto, por exemplo, ao entrar em minha casa para jantar comigo, possuído de incontida inspiração, foi direto para a máquina de escrever, disparou a redigir um texto. Intrigado, resolvi ver por cima do seu ombro de que se tratava – ele parou um pouco, aguardando minha opinião. Que não se fez esperar.
– Desse mato não sai coelho, não…
Depois de hesitar um segundo, arrancou o papel da máquina, amassou e jogou na cesta, se erguendo:
– Como é, vamos jantar?
Aprendemos a conviver assim de maneira desabrida e espontânea. E acredito que esse rigor crítico nos foi extremamente valioso: impediu que a gente escrevesse muita bobagem.
Ou não impediu…

Com o tempo, abrandamos um pouco a intransigência, que total, com um pouco de tolerância, que era nenhuma. Não admitíamos orelha elogiosa em livro, foto na capa ou na vitrine, qualquer espécie de estrelismo ou apelação. Um livro tinha de ser, no mínimo, obra literária definitiva.
Um trabalho como este, breve e despretensioso (com S) passeio pelo meu mundo de lembranças, seria considerado por nós um mau passo, capaz de me atirar para sempre na vala comum da subliteratura.
Encontramos Carlos Drummond de Andrade numa livraria – e Carlos era ídolo, sabíamos seus poemas de cor – quando ele vinha de lançar o livro
Viola de Bolso: poesia de circunstância, poeminhas de álbum de moça, coisa sempre de interesse para complementar a obra principal. Quando nos perguntou o que havíamos achado, um de nós respondeu:
– Uma leviandade do poeta.
Augusto Frederico Schmidt foi outro que se deu mal com a nossa presunção. Um dia nos leu um novo poema e como, depois de lido, ninguém dissesse nada, perguntou:
– Vocês acham que estou decadente?
– Achamos – Paulo respondeu por nós.
E Schmidt, conformado:
– Obrigado pela franqueza.
Não sei se presunção era bem a palavra: éramos rebeldes, inconformados, contra a ordem constituída e tudo que representasse instituição, fosse a direção do Colégio, o Governo, a Cúria Metropolitana.

O trecho acima, retirado da coletãnea de crônicas O Tabuleiro de Damas, é um exemplo da prosa límpida e ao mesmo tempo elegante de Fernando Sabino, contando episódios de sua longa e afetuosa amizade com outros três escritores, mineiros como ele – ele diz nesse mesmo texto que essa questão era circunstancial: “a singularidade talvez não esteja na nossa presumível ‘mineirice’, mas no fato de sermos amigos de convivência diária durante mais de cinquenta anos”. Os demais integrantes do quarteto eram Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, todos citados pelo prenome no texto acima.

Sabino, com certeza, foi o mais popular dos quatro, o de mais ampla aceitação por parte de várias camadas de leitores, e, tristemente, pode ser o único que sobrevive como autor lido nos dias de hoje (e não como leitura, uma vez que todos os quatro eram excelentes e saborosos textos). Mesmo assim, não sei se hoje Sabino é lido pela turma mais nova como foi pela minha geração na época em que eu estava no colégio – uma circunstância que fiz questão de representar quando escrevi minha novela Tudo o que Fizemos, fazendo um dos personagens ler em uma cena O Encontro Marcado. Sabino foi parte importante da minha formação como leitor, bem como O Grande Mentecapto, A inglesa Deslumbrada, Cidade Vazia, Faca de Dois Gumes, textos que formaram leitores no sentido mais amplo do termo, escritos que permitem ao leitor gostar de ler, encontrar aquele elemento que é essencial na leitura de qualquer coisa, por mais desculpas que se dê para o ato de ler: o prazer.

Como eu disse, não tenho certeza se Sabino ainda é lido como deveria, e por isso estava devendo fazia horas a divulgação aqui com vocês do site A Falta que ele Faz, que o jornalista Rafael Rodrigues criou no ano passado para homenagear a memória de Sabino. O que me faz pensar… Há uns dois anos, saiu Um Cigano Fazendeiro do Ar, de Marco Antônio de Carvalho, alentada e ótima biografia de Rubem Braga, na qual Sabino é figura de amplo espectro pela amizade que nutriu com o biografado (ambos foram sócios na Editora do Autor, por exemplo.. Sabino também é personagem de destaque no livro Clarice, a biografia de Clarice Lispector escrita pelo americano Benjamin Moser, e em O Santo Sujo, a biografia de Jayme Ovalle escrita por Humberto Werneck. Mas me pergunto se alguém já abraçou a causa de fazer a biografia do próprio Sabino, titã da crônica e figura atuante do cenário cultural nacional, prova é sua presença nas três obras citadas anteriormente. Dependendo de como fosse escrito e pesquisado, estava aí um livro que eu teria muita curiosidade de ler.

Comentários (2)

  • Carla Campos diz: 3 de março de 2010

    Parabéns pelo post.

  • Silvana Cristina diz: 5 de julho de 2010

    Muito bom o blog.

    Muito obrigado, Silvana. Continue nos visitando.
    Abraço

    Carlos André

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