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Literatura psicodélica

03 de março de 2010 2

Para o senso comum, o universo corporativo costuma evocar associações imediatas com tecnocratas embrulhados em ternos importados, tricotando relatórios com cifras, envoltos por um ambiente estéril onde imperam a sordidez e falta absoluta de humanidade. E ficaria assim, se o escritor Ricardo Lísias não atravessasse as portas dos espigões de aço e concreto desse mundo e revelasse um improvável conteúdo lisérgico do qual ele é composto em seu O Livro dos Mandarins (Alfaguara, 344 páginas, R$ 44,90).

Absolutamente sedutora, a trip alucinógena proposta por Lísias chega a lembrar, em estilo e espírito, o clássico sessentista O Teste do Ácido do Refresco Elétrico, de Tom Wolfe. Sua gênese, no entanto, é mais recente e pode ser conferida (depois de ler O Livro…, para não estragar a surpresa) no segundo número da edição brasileira da revista literária Granta, de 2008, com o tema Longe Daqui (a propósito, o quarto volume da revista, com o tema Família, já está nas livrarias também). No conto Concentração, o escritor paulistano começa a trabalhar os elementos do universo que mais tarde irão compôr seu catatau.

É nela que são testadas, por exemplo, a atmosfera de devaneio constante, as sub tramas que servem senão para dar cor e instigar o leitor (sem nada a acrescentar de fato, mas imprescindíveis dentro da proposta de Lísias, e quanto a isso ele não deixa alternativa), o fio condutor que balança livre ao sabor das obsessões dos personagens derivados de Damião – tudo, enfim, funcionando como uma espécie de laboratório para o que viria depois a ser a ambiciosa escalada de Paulo.

Executivo do alto escalão de um banco, ele está totalmente convicto de que irá para a China, dentro do audacioso projeto que está selecionando funcionários do mundo inteiro. Uma vez lá, irá tratar de uma misteriosa dor que movimenta-se em suas costas (e o impede, entre outras coisas, de ter calafrios, sob o risco de colocá-lo prostrado), terminará seu futuro livro (previamente intitulado O Livro dos Mandarins) e percorrerá os mesmo lugares que seu guru e ídolo, Fernando Henrique Cardoso, percorreu durante sua viagem pelo país do Grande Timoneiro como presidente do Brasil.

Entre seus coadjuvantes (termo apropriadíssimo, é bom ressaltar) estão outros Paulos, algumas Paulas e estrangeiros como Paul e Paulson. A repetição — de nomes, acontecimentos e idiossincrasias durante todo o livro — é uma das chaves para entender o pico induzido por Lísias, como ele próprio esclarece:

— Os nomes repetidos significam identidades repetidas, comportamentos banalizados, pessoas massificadas. São vozes que se repetem dentro de um mesmo grupo. Infelizmente, o comportamento massificado me parece determinante hoje em dia, para muitos grupos sociais, se não todos…

Uma crítica, portanto, que não fica restrita às salas de paredes brancas entrecortadas por vidraças encapsulando sujeitos de ternos bem cortados. Ela vai pra fora e se espalha por outros espaços e personas, que aos poucos vão aderindo à loucura de Paulo a medida que se envolvem nos projetos de uma insuspeita consultoria _ que oferece, entre outros serviços, massagens feitas por gueixas.

– E esse mundo é assim mesmo! Muitas vezes ouvi a conversa de um executivo que dizia mil maravilhas para uns quatro ou cinco subordinados boquiabertos. Era uma loucura, uma quimera qualquer. Mas todos acreditavam – relata Lísias.

Como numa boa viagem de LSD…

Abaixo, um trecho de Concentração e, a seguir, um de O Livro dos Mandarins

Naquela noite, no hotel, Damião fez a barba desesperadamente. Um enorme peso carregava sua pernas para cima e para baixo dentro do quarto e, de meia em meia hora, ele corria ao banheiro para se olhar no espelho. Então, desmaiou. Antes de cair, ele se equilibrou por quatro vezes. Apenas na quinta, deixou de se escorar na parede ou nos móveis e viu que ficava melhor no chão. Aos poucos, a pressão na parte de baixo da nuca tornou-se muito forte e Damião perdeu os sentidos. Passava da meia-noite e o pouco movimento que havia no corredor era o dos últimos hóspedes entrando nos quartos. Depois da uma e meia da manhã, porém, os gruops de piqueteiros ainda se reuniam para combinar o protesto do dia seguinte. Às três e meia da manhã, apenas um ou outro mendigo, junto com os vultos que falavam sozinhos contra o governo de Fernando de La Rua, moviam-se no centro de Buenos Aires.

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A propósito, e a bem da verdade, esse será um dos primeiros conselhos que o Paulo vai escrever no seu livro para futuros executivos: compreenda que você cuida do conteúdo dos memorandos enquanto a secretária acerta margens, parágrafos e tudo que se refira à formatação final. As coisas que não exigem raciocínio. Quem não sabe manejar com precisão esses recursos não está preparada, sobretudo as mulheres, para o cargo de secretária. E se for discreta e calada, melhor. A Paula, por esses critérios, é uma funcionária praticamente perfeita.
Ela se limita a ouvir, passar tudo para o computador e perguntar apenas o que é, de fato, fundamental. Quase sempre, durante o expediente, a Paula está de boca fechada. E o Paulo só fala com ela quando precisa muito. De resto, no departamento dele as instruções vão por e-mail. Além de evitar falatório, o procedimento faz com que tudo fique registrado.
Tenha uma cópia de tudo, estará no livro para futuros executivos.

Comentários (2)

  • Carla Campos diz: 3 de março de 2010

    Parabéns pelo post.

    Agradecemos, Carla.
    Abraço.

    Carlos André

  • A Copa e o Gauchão | Mundo Livro diz: 8 de junho de 2011

    [...] ano, 16 romances concorreram ao caneco, e O Livro dos Mandarins, de Ricardo Lísias, sagrou-se campeão com uma vitória de 13 a 2 sobre O Filho da Mãe, de [...]

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