Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

O Estado perde por não investir

06 de março de 2010 0

Luciano Alabarse em imagem de fevereiro de 2009. Foto: Carlos Edler

Continuamos com nossas postagens especiais sobre a atual situação da Cultura do Estado, desta vez com uma entrevista concedida por e-mail pelo coordenador do Porto Alegre em Cena e figura de destaque no teatro da Capital, Luciano Alabarse, diretor de, entre outros projetos, Hamlet e Antígona.

Zero Hora – Grandes eventos da área cultural do Estado, como o Fronteiras do Pensamento e mesmo a Feira do Livro são resultado da iniciativa privada, mesmo que financiados por leis de incentivo. O Estado abandonou seu papel de fomentador direto em benefício da isenção fiscal?
Luciano Alabarse -
Me parece que é uma característica dos tempos brasileiros, essa aproximação entre Estado e patrocínio através da renúncia fiscal, inclusive em relação a grandes eventos realizados pelo poder público. Todos sabemos que o orçamento da pasta é pequeno, o menor de todos. Então, para que grandes eventos aconteçam, esse foi um caminho encontrado. Como todo o caminho, essa relação precisa ser devidamente pavimentada, através do equilíbrio e da oportunidade de aperfeiçoamento. Que uma pasta que lida com cruciais dificuldades financeiras tente essas parcerias não me parece o problema. Problema, pra mim, é quando se cancelam projetos e benefícios sob a alegação de falta de verbas.

ZH – Em sua opinião, como o Estado chegou na atual situação na área da Cultura, sem dinheiro para investimentos, sem programa definido e com seus aparelhos culturais estagnados?
Alabarse -
Historicamente, não houve no país uma situação muito diferente da atual, talvez agravada com as sucessivas crises econômicas mundiais. O Rio Grande do Sul, há muito, vem perdendo espaço e importância dentro do panorama brasileiro, não só na área cultural. Essa idéia separatista, que nos acompanha há muito, contribui para nosso isolamento – não só geográfico. Trabalho, na parte que me toca, por um Rio Grande mais cosmopolita, menos aferrado às glórias do passado, mais dinâmico em relação às demandas do presente, menos burocrático, menos estagnado – porque, para que haja mudança, é preciso não só ter um diagnóstico realista, mas uma atitude propositiva que mude esse quadro.É muito triste ver que agimos como se nosso Estado estivesse muito bem, quando a dificuldade de produzir e mostrar a produção cultural é cada vez mais afuniladora e dificultada. Pessoas sem perfil para os cargos de liderança na área, sem dúvida, também contribuem para o agravamento desse quadro.

ZH – Houve críticas dos produtores e agentes culturais nos últimos governos a uma ausência de política na área cultural – não há sequer uma reunião com o setor em período eleitoral, ao contrário de outras áreas. Por que parece tão difícil para os governos recentes elaborar essa política? A cultura perdeu mesmo importância no planejamento de governo?
Alabarse -
Há tantos problemas e de tantas ordens que o descaso com a cultura encontra nessas dificuldades a sua legítima defesa. É um verdadeiro absurdo, porque não adianta nada termos ruas asfaltadas, esgotos e obras de infra-estrutura, programas sociais essenciais, sem que se legitime a essência e o direito do nosso público à fruição da arte e da cultura. Fica tudo muito pobre, muito lamentável sem um Estado culturalmente importante.Há uma crise generalizada de lideranças políticas nessa área, há que reconhecer isso, e chamar os políticos a uma compreensão mais exata sobre a importância da cultura na vida cotidiana do cidadão.

ZH – A crise na Cultura, mais do que política ou financeira, é de ideias?
Alabarse -
Boas idéias, sem dúvida, amenizam qualquer agrura econômica. Mas não é bom romantizar esse aspecto. Cultura pode e é uma atividade econômica extraordinária. Hollywood não nos deixa mentir. Então, é preciso compreender que a cultura precisa de verbas, de inteligência, de políticas públicas ativas. O Governo deve, sim, tratar a cultura com mais respaldo e inversão econômica. Do contrário, daqui há pouco, os artistas serão responsabilizados pela falta de investimentos. Mais dinheiro com boas idéias – eis o que poderíamos pleitear aqui.

ZH – O que, em sua opinião, deveria ser feito para que o estado recupere seu papel de fomentador? Ou esse papel não será assumido tão cedo?
Alabarse –
Não tenho paciência com gente apocalíptica, arautos da desgraça e do chororô. Então, é preciso fortalecer a idéia de que, ao não investir mais e melhor na Cultura, quem sai perdendo é o próprio Estado. A cultura é um poderoso agente turístico. Um calendário de eventos realmente significativos, apoiados sem migalhas, é o que fortaleceria e traria vigor e turistas ao Estado, o que nos revelaria ao mundo. Os artistas, os produtores culturais fazem sua parte, alguns realmente de forma expressiva, outros nem tanto. Mas que nossos políticos deveriam ter a inteligência de apostar na vida cultural e no calendário desses eventos significativos, isso é o que é urgente reivindicar. Não esmola, não quinze minutos de atenção, mas uma postura de inteligência pública a serviço de um segmento que, em outras paragens, se revela fonte segura de retorno – emocial, espiritual e econômico.

Envie seu Comentário