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Serviu a Kapuscinki

06 de março de 2010 0

Ryzard Kapuscinski – Foto de Andrzej Rybczynski, AP

No caderno Cultura de hoje publicamos um texto do The Guardian sobre a recém lançada biografia do jornalista polonês Ryszard Kapuscinsk – tem uns acentos em consoantes poloneses que não posso fazer neste teclado brasileiro. O livro, que saiu esta semana na Polônia e tem 600 páginas, é assinado pelo jornalista polonês Artur Domoslawski. Desmistificar um biografado não é novidade no ramo das biografias, principalmente iluminando os aspectos menos luminosos da vida pessoal do retratado. O que acontece nesta em particular é que Domoslawski lança algumas dúvidas sobre aquilo que tornava Kapuscinski um mito: sua vida profissional. Ele diz que Kapuscinski com frequência se afastava das regras estritas do “jornalismo anglo-saxão” e se deixava levar pela tentação de ajustar os fatos da história que acompanhava ao seu texto. A informação provocou protestos indignados de admiradores do autor e críticas ácidas de seus detratores, que também eram em bom número.

Como prometemos nas páginas do jornal, vai abaixo um texto escrito pelo jornalista Luiz Zini Pires, titular da coluna e do blog Bola Dividida, ex-editor do Caderno Cultura e leitor atento da obra de Kapuscinski – o que permite um olhar complementar à matéria que está no jornal. E ainda adicionei links para alguns dos livros do autor que já havíamos comentado aqui no Mundo Livro. Divirtam-se:

Viagens de um Polonês
Luiz Zini Pires

Ryszard Kapuscinski é um nome difícil de pronunciar. O polonês é língua árida. O sobrenome, mesmo inóspito, é fácil de guardar porque é único.
Seus livros, entre eles, A Guerra do Futebol (Companhia das Letras, 2008), sobre a luta de 1969 entre Honduras e El Salvador e duas inacreditáveis partidas de futebol, e O Imperador (Companhia das Letras, 2005), um estudo sobre Haile Selassié, um clássico tirano africano do século 20, permanecem na memória. Guardam espaço em qualquer boa, média, ótima biblioteca. Se você quiser um, fique com os dois. Eles completam o autor em coragem, porque a morte passou ao seu lado, chamou e ele não embarcou, bons textos e histórias extraordinárias.
Kapuscinski foi correspondente estrangeiro na América mais pobre, na África paupérrima. Ele mesmo, apertado, fazia as contas na ponta do lápis todas os meses. Não tinha o mesmo dinheiro dos bem nutridos norte-americanos ou dos conterrâneos de uma Europa mais rica. Se movimentava com certa dificuldade – embora tenha melhorado de vida nos anos 1980 depois que começou a ser publicado em inglês e alemão. Os jornais e agência de notícias da sua Polônia natal não costumavam ser pródigas em salários, especialmente depois que a Cortina de Ferra a enclausurou, fazendo do país um satélite comunista.
Kapuscinski foi repórter, bom, excelente, um dos melhores, mas deixou seu texto avançar, sair das laudas do jornal, ocupar o livro de 300 páginas. Kapuscinski fez da reportagem pura arte literária. É um dos seus grandes representantes, é referência, bússola. Seu talento se mede nas suas histórias. Se ele não é 100% fiel, qual o correspondente em terra estranha pode ser?
Por certo não seguiu a realidade como ela é, nem contou o que viu exatamente como viu em determinados momentos. Quem se importa? Eu não. Seus textos, depois da denúncia de que nem tudo que ele disse é verdade, não perderam um só centavo do seu bilionário valor.
Seu velho mundo, do ensurdecedor tique taque, tique taque, das máquinas de escrever a  morosidade do telex, era mais do texto, menos da imagem. Hoje, as câmaras estão acopladas nos capacetes do Mariners e na alça de mira dos canhões. Quando elas não pegam, o satélite mostra. Kapuscinski é de outro tempo. Nasceu num mundo imenso, de lugares distantes e inexpugnáveis, não conectados. Ganhou, com o seu talento, textoe repito (coragem) licença poética para criar em cima da verdade (verdade?), o que não diminui sua história em nada.
Vou agora mesmo reler um pedaço de A Guerra do Futebol.

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