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Testemunha das hordas

11 de março de 2010 2

Torcedor desesperado durante a final da copa europeia de 1985, entre Juventus e Liverpool,
em Heysel, na Bélgica, episódio narrado em Entre os Vândalos, de Bill Buford

Este post não deixa de ser uma curiosa junção de retalhos desimportantes da biografia deste que vos escreve, e não que vocês tenham realmente interesse nisso, mas se quiserem continuar lendo, tudo bem, senão, pulem direto ali para o título em letra maior e de cor marrom logo abaixo da imagem de capa do livro e podem continuar direto do ponto em que começa o texto de Luiz Zini Pires sobre a reportagem Entre os Vândalos, escrita pelo americano Bill Buford, uma radiografia ímpar do fenômeno do hooliganismo na Inglaterra dos anos 1980. O livro foi publicado em 1992 no Brasil, pela Companhia das Letras. Fui tomar conhecimento dele em 1994, quando ainda não era jornalista de ZH – para falar a verdade, não era sequer jornalista, estava na metade da faculdade, vivendo um ano de intensas descobertas em vários campos da vida e da profissão, mas isso não vem ao caso. Só fui comprar o livro anos mais tarde, e sua leitura provocou um impacto que  permaneceu comigo até hoje, pelo exemplo de peça jornalística que Entre os Vândalos é (jornalistas, vocês sabem, se consideram intelectuais porque leem livros-reportagem ou obras sobre o próprio jornalismo).

Buford, é melhor deixar claro, não é o baterista do Yes, aquele é o Bill Brufford (faço essa observação porque na época em que comprei o livro e o estava lendo, fui interpelado com a pergunta de se aquele era o “cara do Yes” por quatro dos meus amigos, mas vai ver o problema é com os meus amigos, não com vocês). Ele na época vivia em Londres há mais de uma década, embora fosse americano de nascimento. Para escrever o livro, passou a ir regularmente aos estádios ingleses com grupos de torcedores hooligans (destaque para a turma do Manchester United) e relatar o que viu. Buford é também autor de Calor, livro que foi publicado aqui no Brasil pela mesma Companhia e que alterna sua experiência como aprendiz de cozinha no Babbo, um restaurante chique de Nova York, e o perfil do dono desse restaurante, Mario Batali, destaque da gastronomia nova-iorquina. Buford, como se vê, é um jornalista adepto da imersão e da vivência do tema que está pesquisando (nem sempre com os melhores resultados, claro; em Calor ele narra humilhações, ferimentos, queimaduras e a exaustão física resultante do trabalho pesado em uma cozinha de alta gastronomia; em Entre os Vândalos conta como, viajando com os torcedores do Manchester a Turim, acabou levando uma linda sova no lombo quando a polícia encurralou os hooligans ingleses após o jogo e desceu o cacete).

Mas voltando à junção de fios passados: o que me fez saber do livro em 1994 – e que me levaria a comprá-lo mais tarde, lá por 2000, acho – foi um texto publicado em 6 de novembro de 1994 na Zero Hora (Um domingo, eu não sabia o dia exato, mas me lembrava de que havia sido um domingo. Na época eu era estagiário ganhando supermal na assessoria de imprensa da Febem e ia filar rango na casa da tia da minha então namorada, mais tarde esposa e mais tarde nada, e era na casa dessa tia que eu lia jornais). Esses dias, ao passar por uma livraria, vi que a Companhia está relançando Entre os Vândalos em formato bolso (não deixa de ser interessante notar que naquele primeiro ano do Real a edição em tamanho normal custava R$ 15,50. Hoje, a de bolso custa R$ 24). Aproveitando a oportunidade (o “gancho” como diríamos), fui ao banco de dados de Zero Hora para desencavar aquele primeiro artigo lá de 1994 que me despertou o interesse pelo livro – ele é assinado, e isso eu não me lembrava, pelo jornalista Luiz Zini Pires, titular da coluna Bola Dividida de ZH e do blog de mesmo nome (daquele tempo pra cá o ZIni já editou Mundo, Caderno Donna, a página 3, o Caderno Cultura e agora está de volta aos esportes). Consultei o Zini e ele me permitiu republicar aqui seu texto de 15 anos atrás. Aproveitem:

Uma viagem com os hooligans
Luiz Zini Pires

Uma inevitável pergunta persegue o norte-americano Bill Buford, 40 anos, jornalista e escritor, a cada entrevista: “você ainda frequenta estádios de futebol?” Buford sempre responde seca e rapidamente, sem qualquer cacoete visível, com um preciso e definitivo “não”. É natural. Para escrever o excelente Entre os Vândalos: a Multidão e a Sedução da Violência, da Companhia das Letras, Buford passou 10 anos, quase toda a década de 80, vivendo, bebendo e viajando com a mais alucinada e temida elite do “hooliganismo” inglês. Foi tempo suficiente. O resultado desta experiência é espantoso. Tem sabor de goleada para o leitor, de título inédito para o escritor, de derrota para os desordeiros.

O livro não tem a chatice de alguns tratados sociológicos, nem o mofo de certos escritos acadêmicos, nem mesmo o superficialismo de determinados artigos. Bufford recheou seu livro com histórias reais dos vândalos e de suas gangues. garantiu a descrição da violência não somente por parte de suas vítimas. Mas também por quem inventa essa violência. A leitura flui então como num romance. Só que os personagens não são fictícios. Os parentes das vítimas ainda buscam consolo para explicar mortes de gente tão jovem, tão cheia de vida.

INIMIGOS: Os vândalos, os temíveis e terríveis hooligans são um legítimo produto made in England, tipo exportação. Quando saem da Inglaterra então arrastam junto um nacionalismo barato e doentio. Vivem dopados de raiva, lotados de repulsa, tomados de fúria. Hoje são tratados como inimigos dentro e fora de casa. São a escória dos torcedores ingleses, uma vergonha para a mais fiel, mais barulhenta e mais festiva torcida do mundo.

Antes, durante e depois de atacarem as pessoas, preferencialmente negros, indianos e árabes, os hooligans depredam trens, quebram carros, arrasam bares e dão aos centros urbanos uma maquiagem típica de Bagdá depois das bombas. Não satisfeito em ser um espectador privilegiado da ação dos vândalos nem de ouvir as suas mais estranhas e terríveis histórias, o norte-americano Bill Buford foi viver com eles, ser um deles, mas não agiu como eles.

Não usou cassetete, nem correntes ou facas Stanley, o bem-equipado uniforme dos desordeiros bons de briga. Mas bebeu cerveja e vodka com os torcedores do Manchester United. Agitou com os skinheads do Chelsea e percorreu o sul do Tâmisa, o rio que banha Londres, com os ensandecidos fãs do Milwall, sequiosos por um combate contra as hordas do Tottenham Hotspur. Seguiu o rastro da torcida do Arsenal após uma derrota em Highbury, seu estádio.

GENERAIS: Buford fez ainda o perfil dos generais em comando da turba. Descobriu alguns ladrões em potencial. Contou os confrontos com a polícia. Deu nomes e datas. Somou feridos e mortos. Desmascarou um dos braços ingleses do National Front, o partido nazista do Reino Unido. Mostrou ainda como as gangues se movimentam antes dos jogos e ficou no meio da explosão, mas sempre estratigicamente distante dos terríveis retalhadores do Manchester United que, amparados em pequenas facas Stanley, fazem a linha de frente do Cockney Reds, uma das torcidas organizadas do time.

Bill Buford foi descobrir a maioria dos seus vândalos na decadente classe trabalhadora do Reino Unido. Viu e apontou uma geração entediada, desiludida, desempregada, oca e sem perspectivas. Uma geração que bebe e se droga mais do que o normal. Gente de excessos que ainda não tem 30 anos e que usa e abusa da violência para disparar uma energia má armazenada em corações de pedra. Sem nenhuma preocupação em medir a textura do seu alvo. Pedra, lata ou carne. Às vezes esta diferença simplesmente não existe. Tanto faz.

Comentários (2)

  • Paulo Souza diz: 12 de março de 2010

    Por favor, divulgue o Dia do Bibliotecário, comemorado hoje, 12 de março. No site do Conselho Regional de Biblioteconomia há muita informação sobre a data, especialmente a programação cultural. Isso inclui o Fórum Estadual pela Melhoria das Bibliotecas Escolares, o Festival Bibliofilmes e a campanha alusiva ao Dia do Bibliotecário. O endereço é http://www.crb10.org.br. Obrigado!

  • Everson diz: 12 de março de 2010

    Carlos,

    Grande post. Eu li o “Calor” (é um baita livro) e estava curioso com este aqui, agora vou procurar.

    Ah, na transcrição do texto do Zini, tem um “escelente” no primeiro parágrafo… :-)

    Abraço.

    Valeu o aviso, Everson, já corrigi ali.
    Calor, realmente, é um grande livro. Mas confesso que eu ainda gosto mais do Entre os Vândalos. Pode procurar o livro sem medo.
    Abraço
    Carlos André

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