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O calombo

19 de março de 2010 8

Se o post é sobre calombos, por que a imagem é de um buraco?
Sei lá, vai ver foi a única que achei

Não sei se já aconteceu com vocês, provavelmente sim, embora só possa falar por mim. Estou, com base própria, desenvolvendo uma tese (uso a palavra no sentido de chute furado, não de trabalho acadêmico), a de que há uma porrada de bons livros por aí, dos livros que são só ok àqueles que são grandes de fato, majestosos, os livros que farão toda a diferença do universo na imaginação de um leitor entusiasta, esses livros, eu dizia, eles, por melhor que sejam, em algum momento trazem um caroço. Um calombo. Um quebra-molas que trava a leitura em um ponto do qual é preciso uma certa força para deixar o atoleiro e seguir a leitura novamente em pista livre.

A questão que me ocorre é: será que esse calombo é real, está lá, produz sempre o mesmo resultado a cada vez que qualquer leitor passa por essa etapa em particular do livro? Ou será que cada um depara com um calombo particular em um determinado momento da narrativa de acordo com aquilo que está aproveitando/fruindo/esperando do livro? Claro que falo isso dos bons livros, porque há aqueles que são um calombo por si só – um desastre de proporções épicas do início ao fim (ao qual muitos, como eu, nem chegam)

Pegando um exemplo de leitura recentes, por exemplo: na nova edição de O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov, tem uma passagem na qual um dos personagens é internado em um manicômio após ter surtado depois de encontrar aquele que, saberemos mais adiante, é o diabo em forma de gente chegando a Moscou. No sanatório, trava contato com outro interno que passa a lhe contar a história de um amor arrebatador que teve por uma mulher que encontrou na rua. O livro é ótimo, é uma pérola de humor e sarcasmo mesmo com muitas alusões criptografadas ao que ocorria na União Soviética durante o Stalinismo, e ainda assim eu empaquei um dia inteiro nessa parte, abrindo o livro várias vezes, voltando sempre ao mesmo ponto no qual o sujeito descreve as tardes em que esperava a chegada de sua amante no andar inferior do palacete em que vivia. Não conseguia sair daquilo, ali foi o momento em que quase me perdi no romance, quase caí em um precipício de onde não tinha mais volta. Se estivesse lendo o livro por pura fruição, não teria dúvida de deixar ele de lado por uns dias para ver se conseguia me conectar outra vez com ele em algum momento no futuro. Mas como estava lendo para fazer um texto para a Zero Hora, me forcei a ir adiante e só depois que essa passagem em particular foi vencida o livro engrenou.

Teria sido um defeito meu e de minha própria rotina atabalhoada que me fez interromper brevemente a leitura justo no trecho mais complicado de retomar, um daqueles acasos cósmicos que só acontecem com azarados de marca maior? Ou será que essa passagem, embora essencial para o livro inteiro, está realmente construída de uma forma que faz a gente patinar, é um caroço que dificulta a deglutição do todo? Claro que é uma tese furada pronta para ser destruída por qualquer um aí que esteja mais ou menos disposto a isso, mas eu a coloquei aqui mais como forma de compartilhar com vocês amigos leitores, um desses insights que a gente tem vagabundamente enquanto está pensando em como funciona para cada um de nós esse delicado processo que é a leitura.

Comentários (8)

  • Jorge diz: 19 de março de 2010

    digitação: “uma mor arrebatador”

    Arrumado, Jorge, obrigado pelo toque.

    Carlos André

  • Gabriel diz: 19 de março de 2010

    No meu caso, o “calombo” é físico, quase sempre antes da página 100. Acontece comigo em quase todos os tijolões, especialmente os russos. A profusão de personagens – ainda mais com aquela coisa de chamar uma hora pelo nome, outra pelo patronimico, outra pelo apelido, com e sem título honorífico etc – me deixam meio confuso. A solução que encontrei foi a seguinte: se eu empacar antes da pg.100, deixo o livro na prateleira por uns tempos e, algum tempo depois, começo novamente desde o início. Se for depois das 100 primeiras páginas, vira questão de honra terminar o livro: dou uma folhada nas páginas já lidas, respiro fundo e me concentro no livro até aquilo fazer algum sentido.

    Mas é ótimo superar esses calombos e ver que se trata de um ótimo livro. Meu “calombo” mais recente foi no “As Benevolentes”, no fim do semestre da faculdade eu comecei e empaquei nas siglas e patentes militares alemãs e russas. Já de férias da faculdade, retomei o livro desde o início e foi a melhor leitura do período.

  • Simone Saueressig diz: 19 de março de 2010

    Carlos:
    Adorei a sua “tese”, e não acho que ela seja tão disparatada assim. Normalmente, o que me “encalomba” em um autor é a proposta de realidade que ele me oferece. É algo subjetivo, entranhado no texto, difícil de explicar. Quem gosta de ler textos do gênero fantástico se depara com isso continuamente, com uma história que ia muito bem obrigada e de repente tem um detalhe, uma bagatela, depois da qual a gente não acredita em mais nada. Ou o próprio texto que se perde e daí, adeus. Para mim são as duas coisas que me aborrecem e me afastam de uma narrativa.
    Claro que às vezes é o próprio estilo do texto. Não tenho vergonha de admitir que comecei a ler “Grande Sertão:Verdas” três vezes. Só engrenei na quarta, quando me detive em ler em voz alta alguns parágrafos. Aí a leitura engrenou de fato, mas de vez em quando eu tinha que verbalizar o que estava escrito, senão, não entendia. Isso é um “calombo” e tanto!
    A propósito: a foto não é de um buraco, é de um calombo “para dentro”. Depende do ponto de vista…
    Um abraço,

  • su.18 diz: 19 de março de 2010

    DICA…..Livro A Ordem é Amém de John Chelh, eu acabei de ler e achei incrivel espero que gostem!

    sinopse:
    Joseph Sulivam , um antigo corretor de imovéis , encontra na igreja a saída para seus problemas financeiros,e nessa nova trajetória , se torna pastor de mais uma igreja evangélica.Depara com situações que o levam a caminhos contrários da verdade , enganando os fiéis , e aumentando o seu patrimônio pessoal , mas DEUS tem planos para reverter essa situação.

    ele esta no site:

    http://www.seteseveneditora.com.br

  • Paulo Olmedo diz: 19 de março de 2010

    Faz sentido. Já larguei vários livros de mão – inclusive “Grande Sertão, Veredas” – por causa desses “caroços”. Ultimamente dei uma empacada em “O Amor nos Tempos do Cólera”, mas como eu queria muito lê-lo até o fim, fiz um esforço, reli várias vezes a parte “encravada” e depois a leitura fluiu. E eu não me arrependi de ter insistido.

  • Rafael Müller diz: 19 de março de 2010

    Olá, Carlos André!
    Nossa, isso acontece seguidamente comigo. Deparo-me com um trecho, certas vezes bobo, de fácil entendimento, e empaco. A raiva toma minha consciência e a vontade de soquear tudo e todos. Mas, não se preocupe, normalmente consigo me controlar e expulsar o que me acomete de forma moderada.
    Parabéns pela divagação.

    Abraçosss

  • Luís Abrianos diz: 24 de março de 2010

    Olá, Carlos André!
    Quem nunca teve um caroço em sua leitura? Um dos piores caroços foi o excelente livro de Umberto Eco, O NOME DA ROSA. Uma das melhores obras que li, porém cheio de caroços.
    Uma teoria para ser totalmente ignorada: “tu não escolhe o livro, o livro é que te escolhe.” Tirei a frase e adaptei do filme Quase Famosos.
    Um abração Carlos André, quando eu for a Porto Alegre entro em contato contigo.

  • Mundo Livro » Blog Archive » A velocidade do passado diz: 10 de maio de 2010

    [...] livro que me faz demorar bem mais do que o planejado – e não pelo calombo eventual sobre o qual já escrevi aqui mesmo no blog, e sim porque é um livro tõ desconcertante que ele vai criando tantas ressonâncias na cabeça [...]

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